Abilio
Capítulo 7 Os cacos do Palácio de Cristal
CAPÍTULO 7
Os cacos do Palácio de Cristal
“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma a sua maneira”, escreveu o russo Leon Tolstói na abertura de seu clássico romance Anna Karenina, publicado na segunda metade do século XIX.
No final dos anos 1980, o clã Diniz era o retrato fiel de uma família infeliz. Os desentendimentos que anos antes haviam emergido entre os filhos de Valentim dos Santos Diniz e sua esposa, Floripes, agora ganhavam contornos dramáticos. Ninguém se entendia mais – ou sequer tentava se entender.
Durante quase toda aquela década, Abilio se dedicara mais às atividades no Conselho Monetário Nacional do que ao negócio da família. Ainda que jamais tivesse deixado seu escritório na sede do Pão de Açúcar, ele passava a maior parte do tempo coordenando a produção dos boletins econômicos redigidos pelos professores que contratara e interagindo com Brasília. Alcides e Arnaldo passaram então a ocupar os espaços que ele havia deixado vagos na companhia.
Uma das decisões mais emblemáticas da influência de Alcides e Arnaldo foi a mudança da sede da avenida Brigadeiro Luís Antônio, onde tudo começara, para um edifício na avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na Zona Sul de São Paulo, em 1986. O escritório da Brigadeiro havia crescido como um grande “puxadinho” – casas e lojas vizinhas ao prédio original foram compradas e integradas à sede, formando um intrincado labirinto. O prédio da Berrini era sua antítese. Novo em folha, moderno, com doze andares amplos e até restaurante e elevador privativos para a família, o edifício fora construído segundo as diretrizes dos irmãos de Abilio. Antonio Carlos Ascar, à época o principal executivo de recursos humanos do Pão de Açúcar, lembra da mudança:
Todos nós estávamos encantados com a ideia de sair daquela coisa
velha, acanhada, atrapalhada que era o prédio da Brigadeiro. Lá não cabia
todo mundo e algumas áreas da empresa tinham que ficar em escritórios
próximos. Então a ideia de centralizar tudo foi maravilhosa. Todos os
diretores instalaram-se em salas confortáveis, os andares tinham pé-direito
alto... Seu Santos tinha o último andar só pra ele, era um negócio
gigantesco. No piso abaixo ficavam Abilio, Alcides e Arnaldo. Depois, nos
outros andares, vínhamos nós, os reles mortais (risos) (...). O prédio também
tinha um belo estacionamento, coisa que o pessoal adorou, porque na
Brigadeiro pouca gente tinha onde parar o carro (...).
Envidraçado e opulento, o prédio logo ganhou o apelido de Palácio de Cristal – alcunha que em nada lembra o estilo das sedes da maioria das grandes varejistas. Acostumadas a trabalhar com uma margem de lucro estreita, em torno de 2%, as redes de supermercados em geral têm instalações modestas. Na americana Walmart, maior empresa mundial do setor, luxo sempre foi artigo vetado. Fundada por Sam Walton em 1962, no estado do Arkansas, a Walmart até hoje mantém o estilo espartano de seu fundador, morto há mais de vinte anos. Walton sempre se vestiu de maneira simples (em sua autobiografia, Made in America, ele aparece na foto da capa usando um prosaico boné), dirigia uma picape gasta e costumava lavar o próprio prato após as refeições. A cultura de simplicidade que forjou, e que se disseminou em grande medida graças ao seu exemplo, ainda hoje permanece como um valor importante. As salas dos executivos que trabalham na sede da companhia, na pequena cidade de Bentonville, são tão modestas que não contam sequer com janelas. Não há restaurante, estacionamento ou elevador exclusivo para a diretoria. Nas viagens de avião, todos os funcionários devem optar pela classe econômica. Para Walton e seus seguidores, não há como manter preços baixos nas lojas se as despesas forem altas – qualquer gasto deve ser cortado.
Ainda que Abilio e seus irmãos estivessem bem longe do estilo franciscano de Sam Walton, o Palácio de Cristal ia além de todas as extravagâncias da família. “Eles sempre gostaram de aparecer nos jornais, colecionar carros antigos, praticar esportes chiques como polo. Mas aquela sede era mesmo uma aberração”, opina um empresário do setor.
Foi no Palácio de Cristal que se deram os lances mais espetaculares da disputa entre os irmãos. Em 1987, os resultados do Pão de Açúcar patinavam, graças a uma combinação de custos em alta, acirramento de concorrência, inflação galopante e iniciativas duvidosas, como a criação da rede de departamentos Sandiz. “Os meus irmãos achavam que tínhamos que fazer lojas muito bonitas, não importando se fossem lucrativas ou não (...). Foi um pouco esse o motivo que nos levou a ter a Sandiz (...). E nesse caso realmente a gente andou na contramão, porque no mundo inteiro as lojas de departamentos já começavam a entrar em decadência”, afirma Abilio.
Nenhum dos irmãos do empresário foi entrevistado para este livro. Arnaldo, com muita elegância, respondeu por e-mail que não tinha muito o que acrescentar e que desejava que o livro retratasse “a carreira empresarial muito bonita que Abilio teve”. Lucilia, a caçula, avisou por meio de sua assessoria de imprensa que só falaria se houvesse um pedido do irmão. Vera Lucia e Sonia não responderam às insistentes solicitações. Alcides faleceu em 2006, vitimado por um câncer.
Em agosto de 1987, depois de a empresa ficar no vermelho todos os meses, seu Santos pediu a Abilio que voltasse a se envolver mais com o dia a dia da companhia, apesar de sua participação no Conselho Monetário Nacional. Os irmãos, capitaneados por Alcides, não gostaram daquele retorno triunfal. Em alguns aspectos, Abilio e Alcides tinham temperamento parecido: eram briguentos, provocadores, arrogantes, andavam armados. As discussões entre eles se tornaram mais frequentes, mais públicas e mais inflamadas. Aos executivos que trabalhavam nessa época no Pão de Açúcar restava desviar do fogo cruzado – nem sempre com sucesso.
Abilio tinha uma reunião semanal com a diretoria toda segunda-feira de manhã. Alcides decidiu que também teria uma reunião semanal, às quintas-feiras, da qual participariam principalmente os executivos ligados à operação e à área comercial (departamento que, em tese, era comandado por Arnaldo). Nas reuniões era comum que Abilio pedisse aos executivos que ignorassem as recomendações de Alcides – e vice-versa. “Mais de uma vez ouvi Alcides chamando o irmão de idiota e dizendo que ele deveria cuidar dos assuntos de Brasília”, lembra um antigo funcionário da rede. Não era raro que Abilio e Alcides batessem boca na frente de outras pessoas. O clima entre os dois era tão áspero que pessoas próximas relataram que houve ocasiões em que eles quase se agrediram fisicamente na sede da companhia. Abilio nega que isso tenha acontecido.
Se na empresa a tensão era evidente, na casa de seu Valentim e dona Floripes a situação estava ainda pior. O casal sempre teve o hábito de reunir os filhos algumas vezes por semana. Todos eram convidados para os jantares de terça-feira e sábado, assim como para o lanche da tarde de domingo. Abilio costumava frequentar sobretudo os encontros das terças-feiras – só os perdia quando estava em viagem. Porém, com o acirramento da briga entre os irmãos, ir à casa dos pais se tornou um incômodo. A convivência com Alcides era impossível – ou eles não se falavam ou discutiam na frente de todos. Alcides contava com o apoio da mãe e dos demais irmãos. Seu Santos, apesar de manter-se ao lado de Abilio, tentava a todo custo colocar panos quentes – o que não resolvia a situação. “É uma história que começou há muitos anos, lentamente, em razão da divisão de ações de meu pai”, declarou Alcides à revista Exame na época.
Aos poucos Abilio foi se isolando dos parentes e deixou de ir aos encontros. Em 1988 decidiu não comparecer à ceia de Natal na casa dos pais. O Pão de Açúcar se tornara vítima de um dos maiores pecados das empresas familiares: deixar que as relações pessoais interfiram no negócio – e vice-versa. O problema quando isso acontece é que, em geral, as duas pontas perdem. De um lado, a companhia se transforma num campo de guerra, onde os resultados deixam de ser a principal preocupação – e, de forma inevitável, são afetados pela disputa de poder. Do outro, a família é estraçalhada e as relações entre seus membros correm o risco de jamais serem reconstruídas. Deixar simplesmente o barco correr, como aconteceu no Pão de Açúcar por anos, é receita certa para o desastre.
No início de 1988, aos 75 anos, seu Santos enfim se convenceu de que era preciso fazer alguma coisa para desatar o nó que havia se formado. Qualquer que fosse a solução adotada, ela precisaria da concordância de Abilio e de Alcides (as três irmãs, que não trabalhavam na varejista, e Arnaldo, que dava expediente vez ou outra, seguiriam o comando de Alcides). Para costurar essa negociação, o patriarca precisava de alguém que conhecesse bem a família e a empresa. O nome natural era o de Luiz Carlos Bresser-Pereira, que voltava ao Pão de Açúcar depois de quase seis anos no governo.
Para resolver o imbróglio foram estudadas algumas alternativas. Abilio chegou a sugerir que um executivo profissional fosse contratado para comandar a empresa e que toda a família se afastasse do dia a dia. Alcides pleiteava que o império fosse literalmente dividido entre os herdeiros – e que a partir dali cada um tocasse seu quinhão. Seu Santos não queria estranhos na linha de frente da empresa que fundara. Muito menos tinha interesse em fatiar a companhia. Era preciso achar outra opção.
Em maio de 1988, o patriarca anunciou uma reformulação na estrutura de comando do grupo. Ele continuaria na presidência do Pão de Açúcar, mas Abilio assumiria quando o pai decidisse se aposentar. Até lá, os três filhos ocupariam o cargo de vice-presidentes. Em paralelo, seu Santos criou uma diretoria formada por oito executivos que haviam feito carreira na companhia – o líder dessa tropa seria Sylvio Luiz Bresser-Pereira, irmão de Luiz Carlos, que ingressara na empresa no final da década de 1970. Rapidamente ficou claro que o modelo não aplacaria os ânimos de ninguém.
Numa quinta-feira de agosto de 1988, Alcides entrou na sala de Bresser-Pereira e anunciou que estava disposto a vender seus 8% na empresa. Naquele dia, Abilio estava fora. Tinha viajado para Lisboa a fim de verificar como andava a operação portuguesa. Bresser-Pereira avaliou que a ausência de Abilio tornava o momento perfeito para resolver a questão. Discutiu com Alcides qual seria o valor de sua fatia e como se daria o pagamento. Ato contínuo, os dois seguiram para o escritório do patriarca. Ao ouvir a proposta, seu Santos concordou. Todos acharam melhor não alertar Abilio sobre o que estava para acontecer.
No dia seguinte tudo já tinha sido acertado. Alcides, então com 44 anos, venderia sua parte por 120 milhões de dólares. Receberia 30 milhões em dinheiro, parte em imóveis (o terreno mais valioso, uma área gigantesca na Marginal Pinheiros, estava avaliado em quase 50 milhões de dólares) e duas empresas do grupo Pão de Açúcar, a rede de fast-food Well’s e a concessionária Pão de Açúcar Veículos. Ele saiu do negócio satisfeito – recebeu mais do que seus 8% de fato valiam. Para o patriarca, o “ágio” pago era pouco perto da dor de cabeça causada pelo conflito entre os filhos.
Abilio só veio a saber do desenlace na terça-feira da semana seguinte, quando retornou de Portugal. “Ele ficou possesso, porque estava convencido de que o Pão de Açúcar era dele e que ele tinha todo o direito sobre a empresa, o que moralmente acho que era verdade, mas em termos jurídicos, não ”, diz Bresser-Pereira. “Portanto, ele também estava convencido de que todos os irmãos permaneciam sob o seu domínio e que a negociação que eu tinha feito era inaceitável. Mas o fato é que, se Abilio tivesse sido ouvido, não sairia negócio.”
A venda da fatia de Alcides parecia simbolizar o fim de uma era de desentendimentos. Bresser-Pereira acreditava que, ao afastá-lo por completo da empresa, tiraria da frente o principal opositor de Abilio. Seria questão de tempo até que os outros irmãos seguissem o mesmo caminho. A imprensa, que acompanhara cada lance da queda de braço, vaticinava que “agora tudo seria diferente”.
Em tese o raciocínio fazia todo o sentido. Só que as coisas não se desenrolaram como Bresser-Pereira e seu Santos esperavam. “Mesmo com sua situação já resolvida, Alcides continuou a encher a cabeça da mãe e dos irmãos para atrapalhar o restante da negociação”, lembra o ex-executivo. Seriam necessários quase cinco anos para finalmente colocar um ponto final na questão.