Abilio

Cristiane Correa · Capítulo 5 de 30

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Abilio

Capítulo 2 Baixinho, gordinho e impopular

CAPÍTULO 2

 

 

Baixinho, gordinho e impopular

 

Valentim dos Santos Diniz tinha 16 anos quando deixou a aldeia de Pomares do Jarmelo, no interior de Portugal, em 1929, rumo ao Brasil. Ele embarcou na terceira classe de um navio que cruzou o Atlântico e atracou duas semanas depois na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. A primeira coisa que o imigrante avistou foi o Pão de Açúcar. A imagem imponente do morro que se debruça sobre o bairro da Urca marcaria sua vida. De lá, a embarcação seguiu para o porto de Santos, no litoral paulista.

Valentim se estabeleceu na cidade de São Paulo, onde moravam alguns familiares. Foi no bairro paulistano do Paraíso que conseguiu seu primeiro emprego: balconista, no empório Real Barateiro. Mostrou que tinha talento como comerciante e depois de algum tempo se tornou sócio do mercado. Ali conheceu a jovem Floripes, também de origem portuguesa e cliente do estabelecimento, com quem veio a se casar no início de 1936.

Naquele mesmo ano, o casal investiu suas economias numa pequena mercearia na rua Vergueiro. Como não havia dinheiro para mais nada, tiveram que morar numa edícula nos fundos do terreno do comércio. Poucos meses depois, em 28 de dezembro, nascia naquela casinha o primogênito do casal: Abilio dos Santos Diniz.

Um ano após o nascimento do filho mais velho, Valentim abriu uma padaria. A atividade de comerciante prosperava, o que proporcionou ao pequeno Abilio uma infância confortável, ainda que sem extravagâncias. Fez o antigo primário (hoje ensino fundamental) no Externato Teixeira Branco, escola particular próxima de sua casa, na rua Tutoia, bairro do Paraíso. Não recebia mesada, apenas o dinheiro suficiente para pagar condução e lanche. Sua maior diversão nas férias era brincar na rua com amigos e vizinhos. Viagens eram artigo raro – no máximo para a casa de uma tia em Santos, num trajeto que o garoto percorria de ônibus.

Até os 7 anos, desfrutou como filho único da atenção total dos pais – ainda que o casal, adepto de uma educação tradicional e rígida, evitasse mimar o garoto. Com o pai, Abilio aprendeu, por exemplo, que homem não chora (o ensinamento foi tão marcante que ele só viria a derramar as primeiras lágrimas já adulto, no consultório de um psicanalista). Floripes, como a maioria das mães da época, não hesitava em recorrer a umas palmadas quando o filho fazia traquinagens.

Em 1943, com o nascimento do irmão Alcides, a dinâmica da casa começou a mudar. Nos anos seguintes, Floripes e “seu” Santos (como Valentim Diniz ficaria conhecido) tiveram outros quatro filhos: Arnaldo, Vera Lucia, Sonia e Lucilia. “Eu tive um trauma pesado quando os meus irmãos começaram a vir”, diz Abilio. Alguns dos programas que fazia com os pais, por exemplo, o primogênito passou a fazer sozinho. “Eu costumava ir à missa com a minha mãe, mas quando meus irmãos nasceram ela já não tinha tempo (...). Em casa a gente não tinha empregada e ela precisava ficar com eles. Então eu ia à igreja sozinho, a pé, com 8 anos, o que não é muito comum em criança (...).” Por muito tempo Abilio se considerou uma espécie de “tio” dos outros cinco – a diferença de idade entre ele e a caçula, Lucilia, é de dezenove anos.

O relacionamento com os irmãos atingiria seu ponto mais crítico décadas depois, quando os filhos de Floripes e seu Santos entrariam numa disputa pública e ruidosa pelo controle do Pão de Açúcar.

 

Quem se depara com o físico invejável que o septuagenário Abilio Diniz exibe – 75 quilos distribuídos em 1,80 metro de altura – tem dificuldade de imaginar que na infância ele tenha sofrido com o excesso de peso. Baixinho, gordinho e não exatamente popular, ele se transformou no saco de pancadas preferido de alunos do colégio Anglo-Latino, onde começou a estudar no primeiro ano do antigo ginásio. Chegar em casa machucado tornou-se rotina. A mãe, preocupada, cuidava dos ferimentos. O pai dizia que ele precisava aprender a se defender.

A primeira arma de Abilio para ganhar algum respeito dos colegas foi o futebol. Nas peladas que a turma jogava na Várzea do Glicério, região central de São Paulo, o garoto se mostrou um goleiro competente e dedicado. A paixão por esse esporte, aliás, o acompanha até hoje – Abilio é um são-paulino fanático, do tipo que raramente perde um jogo e que adora dar instruções aos técnicos do clube. Mas foi a prática de outras modalidades que transformou o garoto vítima de bullying (num tempo em que essa palavra sequer era conhecida) em um valentão sempre pronto para encarar uma briga.

Certo dia, caminhando pelo Centro de São Paulo, ele deu de cara com um prédio que tinha duas academias: a Zumbano, que oferecia aulas de boxe, e a Ono, com cursos de caratê, judô e capoeira. Abilio foi espiar o que acontecia nas salas de aula e percebeu que o fim de seus problemas com os “colegas” do colégio poderia estar ali. Decidiu que iria praticar todas as modalidades simultaneamente e colocaria um ponto final nas surras que levava na rua. O fato de não guardar amigos da época do colégio talvez não seja mera coincidência:

Eu gostava de praticar esportes, me dedicava, e logo fui ficando forte

(...). Aí você se arrisca. O cara vem te bater e você bate nele. Eu peguei

gosto por isso (...) Dos 12 aos 14 anos eu dei uma espichada, fiquei com a

altura que tenho até hoje (...). Pela primeira vez eu estava conseguindo me

defender. Só que naquela coisa de sobrevivência eu virei um bicho. Embora

canalizasse muito da minha energia para o esporte, eu vivia brigando na rua

(...).

O temperamento mercurial acabou se tornando sua marca registrada mesmo na vida adulta. Era como se o garoto rechonchudo e introvertido ainda estivesse dentro dele, precisando se defender e se mostrar superior o tempo todo. Seu jeitão invocado estaria presente nas relações de trabalho, nas relações familiares e até no trânsito. Durante vários anos da sua juventude não era raro que discussões sobre “quem fechou quem” evoluíssem para cenas de luta livre, com direito a socos e safanões. Talvez a mais violenta tenha acontecido em 1970, quando ele viajava de carro com sua primeira esposa, Auriluce, e três dos quatro filhos – Ana Maria, João Paulo e Adriana (Pedro Paulo, ainda bebê, não estava presente). Ele dirigia pela rodovia Anhanguera, no interior paulista, e um motorista buzinava sem parar, pedindo passagem. Ao chegar ao pedágio – e ouvir outra buzinada –, Abilio desceu do carro e seguiu furioso em direção ao veículo atrás dele. Arrancou o condutor do assento e pôs-se a agredi-lo impiedosamente. “Minha mulher pulou em cima de mim para tentar me segurar (...) rasgou todo o pulôver que eu estava usando, mas conseguiu me fazer parar (...). Eu era um cara muito mal-humorado naquela época.” Tão mal-humorado e arrogante que nunca ligava a seta do carro – achava que não devia satisfações a ninguém sobre o caminho que iria seguir.

 

Depois de adquirir um mercadinho e uma padaria, Valentim dos Santos Diniz decidiu enveredar por outro ramo. Comprou dois imóveis na avenida Brigadeiro Luís Antônio e, a partir deles, construiu um pequeno prédio. Em dois andares, ergueu oito apartamentos. O térreo, como convinha a um bom comerciante, seria dedicado a um novo negócio, uma doceria. No dia 7 de setembro de 1948, o estabelecimento, decorado com azulejos portugueses, abriu as portas. Seu nome era Pão de Açúcar, homenagem à primeira visão de seu Santos quando aportou no Brasil.

Abilio, à época com 12 anos, logo se habituou a circular por aquele ambiente. Ele via como o pai fazia as compras, atendia os clientes, administrava o pequeno negócio da família – e o admirava. A situação financeira dos Diniz já progredira um bocado e havia espaço para pequenos excessos, como a compra de um automóvel. O patriarca ficara tão exultante com a aquisição que, na primeira viagem que fez a Portugal com a família, levou o carro junto. Durante os quase seis meses em que lá permaneceu, desfilou orgulhoso com o possante por sua aldeia e arredores. A temporada prolongada na Europa fez com que Abilio perdesse o ano na escola – a única vez que repetiu o ano.

Ao terminar o que hoje equivaleria ao ensino fundamental, Abilio foi cursar o antigo científico (atual ensino médio) no Mackenzie. Sua ideia era, na sequência, matricular-se na graduação de economia na mesma instituição. Os planos começaram a mudar numa conversa com um amigo no caminho entre o colégio e sua casa. Dentro do ônibus que subia a rua da Consolação, o colega comentou que pretendia estudar administração de empresas para ajudar o pai a tocar o negócio da família, uma fábrica de geladeiras industriais. Abilio ficou intrigado e decidiu ir pessoalmente até a novata Fundação Getulio Vargas (FGV) – primeira do gênero no país –, para entender melhor o que seria aquilo. “Pô, isso aqui é uma economia de empresas, em vez de ser uma economia de país. É capaz de dar mais dinheiro”, pensou, depois de ler um folheto informativo sobre o curso. “Se eu não vou conseguir dirigir um país, quem sabe consigo dirigir uma empresa.” O jovem começava a sonhar em ser não o dono de uma companhia, mas um grande executivo.

Seu primeiro desafio foi aprender inglês. A FGV tinha um acordo com a Michigan State University que previa que seus professores fossem orientados pelos americanos. Em alguns casos, eram os próprios americanos que davam as aulas. Por conta disso, a fluência no idioma estrangeiro era um item importante no vestibular. Abilio já tinha feito algumas aulas de inglês na adolescência, mas estava longe de dominar a língua. Precisou correr para compensar o atraso. “Tinha um professor particular que me dava aula todo dia, mas eu estudava sozinho depois. Varei muitas noites porque sabia que aquele seria meu ponto fraco na avaliação e precisava superá-lo”, conta ele. Em 1956, depois de aprovado no vestibular com doze candidatos por vaga, Abilio se tornou aluno da segunda turma da história da faculdade.

O contato com aquele mundo novo e tão mais amplo que a doceria do pai teria profunda influência sobre Abilio. Ele adorou o ambiente acadêmico, tomou contato pela primeira vez com a realidade de grandes companhias e, de quebra, passou a encarar a FGV como um celeiro de talentos, onde viria a recrutar alguns dos executivos que trabalhariam no Pão de Açúcar. Entre seus colegas de faculdade, dois se tornariam peças-chave na trajetória da empresa: os irmãos Sylvio e Luiz Carlos Bresser-Pereira.

Ainda na faculdade, Abilio casou-se pela primeira vez. A escolhida foi Auriluce, com quem namorou por quase sete anos. Ele a havia conhecido aos 15 anos, numa festa de aniversário de uma de suas primas (as duas estudavam no colégio Imaculada Conceição). Assim que colocou os olhos nela, Abilio se encantou. Auri era uma menina bonita e doce, menos de um ano mais jovem que ele. Rapidamente engataram um namoro, mas o relacionamento entre os adolescentes obedecia às regras rígidas do pai da garota. Por muito tempo apenas conversas no portão da casa de Auri eram permitidas – ela do lado de dentro e ele do lado de fora. Quando não havia adulto olhando, o jovem aproveitava para pegar na mão da namorada. Como convinha a uma moça de bom comportamento, Auri não o deixava avançar o sinal. “Sempre fui um romântico, um cara de me apaixonar, tanto que me apaixonei por ela e me casei (...). Claro que havia outras meninas, um pouco de farra, como um garoto normal (...). Mas era com ela que eu queria casar”, diz ele.

No verão, os namorados desciam a serra em direção ao litoral paulista – não juntos, claro. A família Diniz havia comprado um apartamento na rua Jacob Emerich, em São Vicente. Os pais de Auri tinham um imóvel praticamente em frente. Um dos frequentadores mais assíduos da casa dos Diniz era Antonio Carlos Ascar, um garoto bom de papo que conhecera os irmãos de Abilio, Alcides e Arnaldo, na praia. Entre jogos de vôlei na areia e manhãs praticando esqui aquático na ilha Porchat, eles se tornaram amigos. “Era um apartamento de quatro quartos. Num deles ficavam os pais do Abilio. Em outro, uma prima deles. O terceiro era dividido pelas irmãs. No último, onde havia dois beliches, dormíamos nós quatro”, conta Ascar. Anos depois, enquanto cursava a FGV, Ascar seria contratado para trabalhar no Pão de Açúcar.

No dia 17 de maio de 1960, na Igreja da Imaculada Conceição, localizada na avenida Brigadeiro Luís Antônio, Abilio e Auri se casaram. A noite de núpcias foi no hotel Othon, em São Paulo. De lá, os jovens seguiram para uma lua de mel de quatro meses pela Europa e pelos Estados Unidos. Tudo muito romântico, não fosse um detalhe. Do roteiro traçado por Abilio não constavam apenas lugares históricos, museus e paisagens deslumbrantes para embalar os recém-casados apaixonados. Ele aproveitou a oportunidade para conhecer em detalhes todo tipo de loja que via pela frente.