Abilio
Capítulo 6 O horror no cativeiro
CAPÍTULO 6
O horror no cativeiro
Depois de um final de semana perfeito, Abilio Diniz voltava para casa. Ele havia levado a mulher e os filhos para conhecer a Fazenda da Toca, propriedade adquirida pelo clã em 1970 e localizada em Itirapina, a cerca de 200 quilômetros da capital paulista. Ele dirigia pela rodovia Anhanguera com Auri sentada a seu lado e as crianças no banco de trás. Subitamente um pedestre atravessou a estrada. Abilio não teve tempo de desviar. O impacto foi tão forte que arremessou o homem contra o vidro dianteiro do carro e o matou na hora. No choque, Auri bateu a cabeça e sofreu uma fratura no crânio. Seu estado era tão crítico que não havia tempo para removê-la para um hospital na capital. Foi operada em Campinas, a cidade mais próxima. A cirurgia foi delicada, mas ela conseguiu se recuperar. O susto com o acidente, porém, a afetaria profundamente. “Minha mãe se vestia de forma impecável e era submissa ao meu pai”, conta Ana Maria, a primogênita do casal. “Ela mudou da água para o vinho depois desse episódio.”
A operação obrigou Auri a raspar os cabelos – e a partir daí decidiu mantê-los curtos. Substituiu os tailleurs por calças jeans. As bolsas clássicas foram trocadas por modelos de alça cruzada. Auri foi fazer cursinho durante um ano para se preparar para o vestibular de psicologia. Foi aprovada na Faculdade São Marcos e levou quase uma década para se formar, porque se matriculava em poucas matérias por semestre. Pela primeira vez, tomava as rédeas da própria vida e saía da sombra do marido. “Meu pai não entendeu esse movimento, achou que ela mudou demais e isso acabou afastando muito os dois”, relata Ana Maria.
Em 1986, depois de quase 26 anos de casamento, os dois se separaram. No mesmo ano Abilio assumiu o namoro com Rosana Sassi, uma loira bonita, esguia e quase duas décadas mais jovem que ele. O relacionamento se manteve por quase treze anos, embora eles jamais tenham dividido o mesmo teto.
Abilio Diniz sempre foi um homem de rotinas. Ele gosta de planejar o dia a dia com antecedência, de seguir o calendário preestabelecido e de se manter fiel a seus hábitos. Durante décadas, por exemplo, ao contrário da esmagadora maioria dos empresários e executivos, recusou-se a marcar almoços de negócios. Preferia usar esse tempo para se exercitar. Os esportes, aliás, eram praticados três vezes ao dia, o que o levou a ter uma taxa de gordura corporal de apenas 6%, similar à de maratonistas profissionais (atualmente ele se exercita “apenas” de manhã e à noite e sua taxa de gordura corporal é de 12%). Quando almoça em seu escritório, o cardápio é o mesmo: salada de folhas variadas, beterraba, cenoura, tomate-cereja, muçarela de búfala e uma variedade de leguminosa (grão-de-bico ou feijão-branco), tudo acompanhado por água de coco e finalizado com uma fruta.
Suas viagens de negócios são organizadas como um ritual. A potiguar Claudia Stussi, secretária de Abilio desde 1996, prepara uma mochila com tudo de que o chefe vai precisar. O primeiro item é dinheiro. Claudia segue uma espécie de tabela, levando em consideração o destino e o tempo da viagem, e coloca o valor na carteira do chefe (os reais são retirados e guardados num envelope à parte). Na carteira seguem também cartões de crédito. O empresário, que chegou a carregar oito, hoje anda com dois. Em seguida vem a organização dos celulares – um europeu, um americano e quatro brasileiros (cada um de uma operadora) –, iPad e seus respectivos carregadores. Abilio também não viaja sem um estoque de Trident sabor tutti frutti e balinhas de mel. Há ainda os documentos e os óculos de sol. Tudo precisa ser disposto no mesmo lugar, de modo que ele não perca tempo procurando suas coisas.
Por fim, Claudia precisa garantir que três nécessaires de remédios estejam devidamente abastecidos. Abilio é um estudioso da medicina e com frequência medica a si mesmo e a conhecidos e funcionários. Sua fama como “médico” entre os amigos é tamanha que, tempos atrás, ganhou um receituário com a inscrição “Prof. Dr. Abilio dos Santos Diniz, CRM SP 0001”, orgulhosamente mantido em sua mesa de trabalho – e que ele não hesita em rabiscar quando “prescreve” uma medicação. Antes das viagens, Claudia precisa verificar se a lista de remédios está completa – Tylenol, Benalet, Cataflan etc. – e se todos estão dentro do prazo de validade. Não pode esquecer também de incluir injeções do anti-inflamatório Voltaren – em caso de dor muscular, Abilio mesmo se encarrega de aplicá-las (nele próprio ou em quem precisar).
Para o empresário, uma rotina de hábitos arraigados é algo libertador. Uma vida em boa parte programada o desobriga de se preocupar com pequenas decisões do cotidiano – e assim sobra mais tempo para o que é de fato importante.
Depois de se separar de Auri, Abilio criou uma nova rotina. O primeiro passo foi deixar a casa da família, no bairro do Morumbi, e se mudar para um apartamento na rua Tucumã, em frente ao Esporte Clube Pinheiros, do qual era sócio. Costumava ir para o trabalho logo cedo e, quando não tinha viagens de negócios, regressava do Pão de Açúcar direto para casa. Ao chegar ao apartamento tomava uma dose de uísque com água, comia algumas castanhas-de-caju e fumava um cigarro (anos depois abandonaria o uísque e a nicotina). Seguia-se um jantar leve e o segundo e último cigarro do dia.
Havia algo que Abilio resistia a incorporar à sua rotina: segurança pessoal. Embora fosse rico e conhecido nacionalmente – o Pão de Açúcar se tornara um dos maiores grupos empresariais do país, com 2,5 bilhões de dólares de faturamento anual –, ele achava que apenas seus familiares precisavam andar acompanhados de seguranças. Obedecendo à sua “síndrome de super-homem”, Abilio pensava que, como praticara judô, caratê, capoeira e boxe, entre outros esportes, seria capaz de se defender sozinho em caso de necessidade. Além disso, carregava no carro um Colt .45 ao lado da perna, num console coberto por feltro preto e fechado com velcro. Ele se julgava protegido.
Na manhã de 11 de dezembro de 1989, uma segunda-feira, Abilio deixou seu apartamento no horário habitual, antes das oito da manhã, dirigindo seu Mercedes. Estava sozinho no automóvel. Como fazia quase todos os dias, tinha como destino a sede do Pão de Açúcar. Pouco depois de deixar seu prédio, na rua Sabuji, uma ambulância atravessou seu caminho e parou em frente ao carro. Abilio estranhou, mas não entrou em pânico. Talvez fosse apenas um desentendimento de trânsito, como tantos em que já se envolvera. Logo em seguida, sentiu que algo havia se chocado contra a traseira de seu carro – um Opala, que agora bloqueava a passagem. Encurralado, não podia seguir adiante nem dar ré. Ainda assim, pensou que conseguiria contornar a situação. Numa fração de segundo, imaginou que bastaria usar sua arma e sair do carro desferindo socos e pontapés para se livrar do ataque.
O filme que passou pela cabeça do empresário não podia estar mais distante do que de fato aconteceu. Um dos membros do bando conseguiu desarmá-lo. Antes que se desse conta, foi encapuzado e jogado no banco traseiro de um dos carros dos sequestradores. Abilio não sabia onde estava, para onde iria, quem eram aquelas pessoas e o que elas queriam. Pelos próximos seis dias, o homem acostumado a comandar teria de obedecer a seus algozes. Ele se sentia humilhado, amedrontado e furioso por não ter sido capaz de se defender. Sua vida não estava mais em suas mãos.
Os sequestros de pessoas famosas e ricas se tornaram conhecidos no Brasil nos anos 1980. A primeira vítima notória havia sido Antônio Beltran Martinez, um ex-vice-presidente do Bradesco. Ele ficou encarcerado por 41 dias em 1986 e só foi solto depois do pagamento de um resgate de 4 milhões de dólares. Em julho de 1989, cinco meses antes do ataque a Abilio, foi a vez do publicitário Luiz Salles. Seu sequestro se estendeu por 65 dias – um dos mais longos da história do país – e terminou após o pagamento de 2,5 milhões de dólares. A quadrilha de dez pessoas que sequestrou Abilio – cinco chilenos, dois canadenses, dois argentinos e um brasileiro – planejava pedir um resgate de 30 milhões de dólares, mas esse caso teria um desfecho diferente dos de Beltran Martinez e Salles.
Quando os sequestradores removeram seu capuz, Abilio se viu num cubículo subterrâneo de menos de 5 metros quadrados. O teto era tão baixo que o empresário não conseguia se manter ereto. Quase não havia ventilação – apenas dois buracos estreitos deixavam passar um pouco de ar. Dentro do cárcere havia pouquíssimos objetos: um colchonete fino, um vaso sanitário e uma lâmpada que era acesa e apagada aleatoriamente (não demorou para que Abilio perdesse a noção de quando era dia ou noite). De uma caixa de som vinha uma música sertaneja em volume alto que falava em matar ou morrer por amor.
Àquela altura, Abilio já não vestia nem as próprias roupas. Os sequestradores o deixaram apenas com sua cueca e o obrigaram a usar uma camiseta cinza e uma calça esportiva azul com listras brancas, uniforme que manteria por todo o cativeiro. Descalço, ele apenas esperava. Sequer tinha forças para fazer exercícios. “Quando saí de lá, minha filha Ana disse que tinha certeza que eu teria passado o tempo fazendo push ups (flexões de braço), mas não...”, diz ele, com os olhos baixos, fitando o chão, como se tentasse esconder ou esquecer um momento de fraqueza. Abilio achou que iria enlouquecer naquele buraco.
Todos os dias o mesmo sequestrador – um sujeito encapuzado cujo rosto Abilio jamais viu –, ia lhe levar as refeições, uma comida intragável que o empresário não conseguia engolir. Ele logo pediu que lhe servissem apenas bolachas cream-cracker e água.
Assim que soube do sequestro, a família acionou a polícia. Para sorte de Abilio, os policiais em pouco tempo descobriram uma pista que levaria aos bandidos. Primeiro localizaram a falsa ambulância, uma Caravan abandonada pela quadrilha a alguns quilômetros da cena do crime. Ao vasculhar o veículo, encontraram o cartão de uma oficina mecânica na entrada de ar-condicionado. O dono da oficina se lembrava do carro e tinha o telefone do cliente – o número real de um dos bandidos, o chileno Pedro Venegas. Pouco a pouco a polícia apertava o cerco. Finalmente, na manhã de 16 de dezembro o cativeiro foi descoberto: uma casa na praça Hachiro Miyazaki, no bairro do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo.
Achar o local onde o empresário estava escondido era uma coisa. Outra, bem diferente, era tirá-lo de lá com vida. Uma longa negociação que se arrastaria por quase 36 horas envolveu a participação do delegado encarregado do caso, do amigo da família Luiz Carlos Bresser-Pereira e do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Às 17h05 do domingo, 17 de dezembro, diante das câmeras de TV e de fotógrafos dos principais veículos de comunicação do país, Abilio Diniz foi libertado. Num dos cômodos da casa, a polícia encontrou um caixão de madeira.
A libertação se transformara num espetáculo midiático. Para Abilio, que chegou a duvidar que escaparia com vida, foi o fim de um pesadelo. O homem que saiu do cativeiro estava quase 3 quilos mais magro. Tinha o olhar vidrado e a barba por fazer. Chegou em casa e tomou um longo banho. “Você não imagina o cheiro da roupa que ele estava usando”, diz Rosana, sua namorada à época. Ele cercou-se dos familiares mais próximos e de poucos amigos. Dormiu com a ajuda de remédios. No dia seguinte, acordou e foi trabalhar.
Retomar a antiga rotina, porém, não seria tão simples. “Ele não se entrega nunca e fisicamente estava ótimo, mas demorou um tempão para se recuperar psicologicamente”, afirma o médico Bernardino Tranchesi, um dos cardiologistas mais respeitados do país e amigo de Abilio há cerca de trinta anos. Duas semanas depois de sua libertação, o empresário viajou para Angra dos Reis, no litoral fluminense, com Rosana. As noites que passou no barco foram torturantes. O quarto do casal ficava na parte de baixo da embarcação – e toda vez que Abilio ouvia passos no piso de cima ficava sobressaltado. Era inevitável fazer uma associação com o buraco onde ficara confinado e com os ruídos vindos dos sequestradores.
Para superar o trauma, Abilio recorreu à análise, a antidepressivos e à necessidade de ser acompanhado por seguranças. Mas ainda hoje ele carrega uma arma dentro do carro, ao lado da perna, num console coberto por feltro preto e fechado com velcro.