Abilio

Cristiane Correa · Capítulo 16 de 30

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Abilio

Capítulo 12 Quem pode suceder Abilio?

CAPÍTULO 12

 

Quem pode suceder Abilio?

 

Poucos processos têm tanto potencial explosivo numa empresa quanto a sucessão de seu comandante. O Pão de Açúcar já havia experimentado o efeito devastador de uma sucessão mal planejada, em que disputas internas por poder colocaram a perpetuação da companhia em risco. Abilio não queria passar por aquilo de novo. No começo da década de 2000, quando a empresa já recuperara a liderança do setor e crescia em ritmo acelerado – a uma taxa de 9% ao ano –, a pergunta que começou a ser insistentemente formulada dentro e fora da empresa era uma só: quem ocuparia o lugar de Abilio?

Não que o empresário tivesse qualquer intenção de se afastar. Muito menos que sentisse o peso da idade. Aos 65 anos, seu vigor era o mesmo de um jovem (não à toa, preferia que seus netos o chamassem pelo apelido “Bilo” em vez de “vovô”). Continuava em plena forma física, trabalhando muito e viajando pelo mundo para aprender sobre varejo. Abilio era a cara e o coração do Pão de Açúcar, mas já estava na companhia havia mais de três décadas e, em algum momento, se veria forçado a passar o bastão.

Durante algum tempo, sua política foi tergiversar quando perguntado sobre o assunto. É o mesmo expediente utilizado até hoje pelo megainvestidor Warren Buffett, terceiro homem mais rico do planeta e fundador da firma de investimentos Berkshire Hathaway. Anualmente, Buffett reúne dezenas de milhares de acionistas de sua empresa em um ginásio de esportes em Omaha, no estado de Nebraska, sede da Berkshire. Ali, durante quase seis horas, ele e seu sócio Charlie Munger respondem a questões de investidores e jornalistas. Como Buffett tem 84 anos, é natural que o tema sucessão apareça com frequência. “Charlie completou 90 anos e eu acho revigorante ver como ele está lidando com a meia-idade. Espero que eu faça a mesma coisa”, disse Buffett no encontro de 2014. “As pessoas sempre me perguntam sobre quem vai me substituir, mas nunca quem vai ficar no lugar dele.” Engraçado e 100% evasivo.

No Pão de Açúcar, uma empresa que, apesar do sócio estrangeiro e das ações negociadas na Bolsa, ainda mantinha uma estrutura de comando familiar, era de imaginar que um dos filhos de Abilio despontasse como candidato a substituí-lo. Dos quatro herdeiros, apenas os dois mais velhos – Ana Maria e João Paulo – davam expediente na empresa. Adriana, a terceira, sempre se manteve razoavelmente distante da família e apartada dos negócios. Casou-se duas vezes e teve sete filhos.

Nascido em maio de 1970, Pedro Paulo, o caçula do casamento de Abilio com Auri, trilhou um caminho distante do varejo. Ainda jovem, enveredou pelo automobilismo. Conheceu o kart aos 15 anos, por influência do amigo André Ribeiro, que também se tornaria piloto, e adorou a adrenalina das pistas. Correu na Fórmula Ford e na Fórmula 3 no Brasil, até que embarcou para Londres a fim de competir na F3 inglesa. Durante meses morou em um bed & breakfast (espécie de pousada cujo proprietário reside no local) num vilarejo no interior da Inglaterra, onde havia seis quartos e apenas um banheiro a ser compartilhado:

Eu, filhinho de papai, de repente me vi numa realidade completamente

diferente. Tinha que lavar minha roupa, cozinhar, me virar (...). Depois de

seis meses meu pai foi lá ver o que estava acontecendo e disse que ia me

ajudar. Aí me mudei para Oxford e aluguei um apartamento de um quarto

(...). Foi uma fase difícil, porque eu sempre fui um cara introspectivo e ali as

relações humanas eram mais frias. Acabava o expediente às cinco da tarde e

eu não tinha muito o que fazer depois (...). Mas essa época me deu um pouco

mais de “casca” para a vida. E tinha uma coisa importante: ali eu não era o

filho do Abilio Diniz, era eu mesmo.

Anos depois, Pedro ingressaria na Fórmula 1, onde foi contemporâneo de Rubens Barrichello. “É lógico que meu pai abriu muitas portas para eu poder ter chegado e corrido ali por cinco anos”, diz o ex-piloto. Na época, pai e filho se aproximaram como nunca. Abilio não perdia uma corrida. Se não pudesse acompanhar pessoalmente, assistia pela televisão. Para ele, os dias das provas eram de tensão absoluta. Ver o filho arriscar a vida nas pistas era tão angustiante que com frequência Abilio tomava um calmante antes da largada. Até hoje se emociona ao lembrar dos acidentes que Pedro sofreu.

Em 2000, Pedro decidiu deixar para trás o “circo” da Fórmula 1, a residência em Mônaco e as festas badaladas em que não faltavam bilionários, modelos e nobres de diversas nacionalidades (enquanto competiu, seus melhores resultados foram em 1998 e 1999, quando terminou os campeonatos na 14a posição). “Era um mundinho cão, movido por interesses, com relações humanas zero”, lembra, sem saudade. Durante alguns anos teve uma empresa de marketing esportivo. Até que começou a se interessar pela produção de alimentos orgânicos e decidiu entrar no ramo.

Hoje com 45 anos, mora com a família (a esposa e dois filhos) na Fazenda da Toca, onde em 2009 começou a produzir leite, ovos e frutas orgânicos – atividades que ocupam mais de 1.000 hectares da área total da fazenda. Vestindo calça jeans e uma camisa polo com o logotipo da empresa, ele fica à vontade para falar de assuntos como plantação de laranjas, controle de pragas e fabricação de iogurtes e manteiga com leite orgânico. Seus olhos brilham ao contar dos avanços no cultivo, da equipe que formou para ajudá-lo a tocar a empresa, das possibilidades desse mercado no Brasil.

Ele leva uma vida mais simples e em contato com a natureza, mas continua sendo um Diniz – e por isso sabe que seu negócio precisa ser lucrativo. “Para mim sempre foi muito claro que tem que dar certo nas três pernas: financeira, social e ambiental”, conta ele. “Estamos bem no social e no ambiental, mas é uma operação nova e ainda falta torná-la lucrativa.” O que o pai diz sobre sua nova atividade? “Ele quer resultado para ontem”, revela, com um sorriso.

 

Embora João Paulo Diniz participasse da rotina do Pão de Açúcar, o segundo filho de Abilio jamais foi cotado para possível substituto. A única pessoa do clã que era vista – dentro e fora da empresa – como eventual sucessora do homem que construiu a maior varejista do país era sua primogênita, Ana Maria. É verdade que as opiniões a respeito de sua capacidade de substituir o pai se dividem – parte das pessoas que acompanhava o Pão de Açúcar de perto acreditava que ela estava pronta para o trabalho, parte a julgava inapta para a função. O fato é que durante anos Ana Maria foi o principal apoio de Abilio na empresa. Para manter o tom profissional, dentro da companhia ela o chamava pelo nome, nunca de “pai”. Várias vezes Abilio comentou com diferentes interlocutores que Ana seria sua provável sucessora.

Foi no final dos anos 1990 que a relação entre os dois começou a se turvar. A essa altura, Ana já tinha voz própria e era respeitada principalmente por suas habilidades nas áreas de marketing e recursos humanos (no setor de RH ela teve a ajuda valiosa de Maria Aparecida Fonseca, conhecida como Cidinha, que começou a trabalhar no Pão de Açúcar como caixa de supermercado e chegaria ao cargo de diretora executiva, numa carreira de quase 23 anos na companhia).

Aos poucos as diferenças entre Abilio e a filha foram se acentuando. Era como se tivessem entrado numa competição: ela para provar que poderia sair definitivamente da sombra do pai e assumir mais responsabilidades; ele para deixar claro que era insubstituível. Numa dinâmica como essa, é inevitável que alguém saia perdendo.

Em julho de 2001, Ana decidiu comemorar seu aniversário de 40 anos em Portugal, com o marido, Luiz Felipe D’Ávila. Aquele sábado, 28, deveria ser de festa, mas a uma pessoa próxima ela confidenciou que passou a data chorando. Poucos dias antes de viajar, tivera uma conversa com o pai – e ele deixara claro que não haveria espaço para os dois. Ela, que embarcara entristecida, não pensava em outra coisa senão em redefinir seu papel no Pão de Açúcar.

Para piorar, na véspera de seu aniversário, o helicóptero Augusta A109 Power no qual estavam seu irmão João Paulo e a namorada, a modelo Fernanda Vogel, caíra no mar a cerca de 5 quilômetros da costa do estado de São Paulo. O casal viajava da capital para uma casa que a família mantinha em Maresias, no litoral. Os quatro ocupantes da aeronave – João Paulo, Fernanda, o piloto Ronaldo Jorge Ribeiro e o copiloto Luiz Roberto de Araújo Cintra – sobreviveram à queda e começaram a nadar. Era noite, ventava muito, o mar estava agitado e frio. O filho de Abilio, então com 37 anos e físico de atleta, conseguia, a muito custo, avançar. A namorada tinha mais dificuldade. A certa altura, João Paulo já não pôde mais vê-la ou ouvi-la. O corpo da modelo seria encontrado uma semana depois do acidente. (Assim como João Paulo, o copiloto conseguiu se salvar. O piloto morreu no mar.)

Naquele aniversário, abalada pelo acidente do irmão e pela relação desgastada com o pai, Ana fez um balanço de sua vida. Ela adorava o Pão de Açúcar, mas acima de tudo amava o pai. Se estava difícil ter Abilio como chefe, talvez o melhor fosse investir na recuperação dos laços afetivos que os ligavam. Por isso, tomou uma decisão: permaneceria na companhia, mas sairia da rota de colisão.

Meses depois, ela se matriculou no OPM (Owner/President Management), um dos mais prestigiados cursos de Harvard, seguindo a recomendação do amigo Jorge Paulo Lemann (Marcel Telles e Beto Sicupira, sócios de Lemann, haviam cursado esse programa). Durante as três semanas do curso, Ana conheceu o professor John Davis, especialista em empresas familiares. Davis estava longe de ser um neófito em Brasil. Já havia sido contratado pelas famílias gaúchas Sirotsky, dona do grupo de comunicação RBS, e Gerdau, da siderúrgica de mesmo nome. Para Ana, ele parecia a pessoa perfeita para ajudar na discussão sobre o futuro do Pão de Açúcar.

Ao voltar ao Brasil, ela consultou o pai sobre a possibilidade de contratar o especialista. “Todas as famílias têm os mesmos padrões, e ele pode nos ajudar muito. Você topa?”, perguntou a primogênita. Abilio assentiu, desde que os outros filhos estivessem de acordo. Ana consultou João Paulo e Pedro Paulo – ambos apoiaram. Como de praxe, Adriana não se envolveu.

Dois meses antes, Abilio tivera uma baixa na equipe: Luiz Fazzio deixara a companhia. Os dois haviam ficado tão próximos que chegaram a fazer várias sessões de coaching em dupla (entusiasta de terapia, o empresário também apoiava iniciativas de coaching para sua equipe). Fazzio também tinha conquistado a simpatia de Ana. Depois de passar por várias áreas no Pão de Açúcar – da liderança de um projeto de reestruturação formulado pela McKinsey ao comando do setor comercial –, ele sonhava voar mais alto. Percebeu que seria impossível onde trabalhava. Por isso, quando surgiu o convite para comandar a operação brasileira da varejista de roupas C&A, ele topou.

Para comunicar ao chefe que sairia, Fazzio pediu uma reunião fora do Pão de Açúcar. Abilio sugeriu sua casa. Antes de ir, o executivo escreveu uma carta para si mesmo. A ideia era lembrar tudo o que queria dizer – do agradecimento pelo tempo que tinham trabalhado juntos à razão da saída. “Eu acho que você nunca vai deixar o Pão de Açúcar, e a vontade que eu tenho é de ser presidente de uma empresa”, disse o executivo. “Mesmo que eu me tornasse presidente do Pão de Açúcar, enquanto você estiver aí, desculpe, mas você será o cara. Pode até ter outro cargo, mas quem vai mandar é você.”

 

Em maio de 2002, uma pessoa da equipe de Davis veio ao Brasil para o primeiro encontro com a família. Passados dois meses, os quatro Diniz – Abilio, Ana, João e Pedro – e o professor de Harvard se encontraram em Miami para uma espécie de workshop intensivo de dois dias. O grupo hospedou-se no Mandarin Oriental, um cinco estrelas com praia privativa e vista para Biscayne Bay, mas mal conseguiu aproveitar o tempo ensolarado da Flórida. Eles ficaram enfurnados numa sala de reuniões sem janelas, discutindo sobre o futuro da empresa e como os familiares se encaixariam nesse cenário. Primeiro o professor entrevistou cada um individualmente. Depois, reuniu a família toda. Davis ainda se lembra da impressão que teve ao conhecer o empresário brasileiro:

Fiquei admirado com a determinação e o foco do Abilio (...). Ele me

contou sobre o sequestro, as brigas com os irmãos, a má situação da

empresa em 1990 e a recuperação nos anos seguintes (...). Eram coisas

dramáticas, mas ele falava sobre elas com calma. Não como se as tivesse

esquecido, mas como se emocionalmente tivesse superado tudo. Era uma

pessoa séria, que sabia que precisava ter conversas sinceras sobre o futuro

da empresa (...). Aliás, a família toda estava interessada em ouvir o que os

outros tinham a dizer, o que nem sempre acontece nessas situações (...). Ana

tinha me dito que a companhia estava caminhando para uma transição e

precisava definir os papéis de cada um. Ela mesma se encontrava num

momento de começar a pensar que talvez fosse bom ter outros interesses

(além do Pão de Açúcar).

Cada um falou sobre o que esperava da empresa e do futuro. O Pão de Açúcar chegara a um ponto de inflexão comum aos grandes grupos familiares e havia uma série de perguntas a responder. Qual o papel de cada membro da família na maior cadeia varejista do Brasil, que àquela altura empregava 58 mil pessoas e faturava 11,2 bilhões de reais por ano? Como e quando se daria a transição? A empresa seria profissionalizada? Os familiares deveriam restringir sua atuação ao conselho de administração? Como, enfim, poderiam garantir a perpetuação da companhia?

Davis lembra que, por duas vezes naquele final de semana, Abilio admitiu estar cansado de carregar toda a responsabilidade sobre a empresa e que gostaria de dividi-la. A sucessão seria o ponto mais delicado do encontro. Abilio podia estar cansado de tantas responsabilidades, mas era (e ainda é) um homem fascinado pelo poder.

À medida que a conversa avançava, ficava mais nítido que a profissionalização era inevitável. A questão era quem ficaria no lugar de Abilio. O empresário preferia que fosse alguém que já trabalhasse na empresa e a conhecesse de perto. Não queria contratar um headhunter. O nome sugerido por Abilio foi o do paulista Augusto Cruz, que ingressara na companhia em 1994 e ocupava o cargo de vice-presidente administrativo-financeiro.

Ao contrário do pai, Ana achava que Cruz não estava pronto para a tarefa. Propôs outro formato para a sucessão: ela, que até aquele momento era vice-presidente de operações, se tornaria CEO temporária, com mandato de um ou dois anos, enquanto Cruz fosse preparado. Em seguida, ele assumiria o cargo e ela se afastaria totalmente da gestão. Essa espécie de “transição” seria, segundo ela, mais segura para Cruz e para a própria companhia. Abilio, João Paulo e Pedro Paulo foram contra a ideia.

Quando a reunião acabou, às seis da tarde daquele segundo dia de imersão, a nova rota do Pão de Açúcar já estava delineada. No mês seguinte, Davis reencontraria a família, em São Paulo, para que detalhassem o futuro da empresa e deles próprios. Abilio deixaria a presidência executiva e passaria à presidência do conselho de administração (Valentim dos Santos Diniz se tornaria presidente honorário). Augusto Cruz foi confirmado como seu substituto. Nenhum de seus filhos teria mais função executiva – eles poderiam apenas participar de comitês e do conselho.

Na prática, a pessoa mais afetada por essa última decisão foi Ana Maria – João Paulo participava das plenárias e reuniões de caixa, mas já não tinha sob sua responsabilidade nenhuma área. “Era como se eu largasse um filho que ajudei a ressuscitar no último momento”, declarou ela depois do anúncio de seu desligamento da companhia que anos antes ajudara a recuperar. Passados quase quinze anos, ela recorda o que passou:

Eu saí desse episódio em Miami aliviada, mas triste. Durante muito

tempo meu pai falou que eu seria a sucessora dele e ali foi colocada uma

pedra no assunto. Eu nunca mais seria sua sucessora (...). Decidi então

atuar como podia e foquei minha energia em aprender sobre governança

corporativa. Fui fazer um curso de dez dias no Insead e ajudei a reorganizar

o conselho, montar os comitês (finanças, auditoria e marketing) (...).

Comecei a me preparar para outro voo (...). Era bem complicado, porque eu

me chamava ‘Ana Maria Diniz Pão de Açúcar’ e tinha a maior insegurança

de perder esse lado institucional do meu sobrenome. Mas depois eu comecei

a ver – e foi muito legal para mim esse capítulo – que eu era maior do que

aquilo, não dependia daquilo para ser quem sou. E que as pessoas

continuavam me respeitando. Eu não ia sumir do mapa porque não estava

mais no Pão de Açúcar.

No início de 2003, Ana deixou o dia a dia da varejista. Paralelamente, inaugurou a operação brasileira da consultoria norte-americana Axialent, voltada para a área de recursos humanos, em sociedade com o empresário Beto Sicupira. O Pão de Açúcar se tornaria um de seus clientes.

A decisão de profissionalizar a gestão da empresa e afastar os filhos da linha sucessória foi, segundo Abilio, uma das duas mais difíceis de sua carreira (a outra seria deixar o Pão de Açúcar, em 2013). “Quando sentei na minha cadeira pela primeira vez como presidente do conselho e vi que as cadeiras do João Paulo e da Ana Maria estavam vazias, foi muito difícil”, diz ele em voz baixa. “Mas profissionalizar a companhia era algo importante e necessário.”

Talvez por ter visto de perto o funcionamento das empresas familiares Abilio tenha se tornado, com o passar do tempo, cada vez menos entusiasta desse tipo de companhia. Durante uma aula para alunos da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, no início de 2014, ele resumiu sua visão sobre o assunto: “Eu não acredito em empresas familiares. O risco de confundir o que é empresa e o que é família é grande, e quem sofre normalmente é a companhia.”