Abilio
Capítulo 15 Diniz e Klein, uma curta lua de mel
CAPÍTULO 15
Diniz e Klein,
uma curta lua de mel
Em janeiro de 2010, a mulher de Cláudio Galeazzi, Maria Leonor, faleceu em um acidente de avião. O CEO do Pão de Açúcar ficou profundamente abalado pela perda. Por sugestão de Abilio, começou a fazer terapia. A reflexão o ajudou a tomar uma decisão: antecipar sua saída da companhia.
Em dezembro de 2009, Enéas Pestana havia sido promovido ao até então inédito cargo de COO (Chief Operating Officer). O objetivo era prepará-lo para substituir Galeazzi, que pretendia deixar o Pão de Açúcar no final de 2010. Menos de dois meses depois da promoção, Galeazzi comunicou a Abilio que se desligaria da companhia e que o COO estava pronto para assumir sua posição. Abilio insistiu para que Galeazzi permanecesse, ainda que como consultor, mas ele se manteve irredutível.
Apesar da saída antecipada, desde que o Pão de Açúcar passara pelo processo de profissionalização Galeazzi foi o primeiro CEO a deixar a empresa em bons termos com Abilio. Tanto que anos depois viria a trabalhar com ele novamente, na BRF. Da temporada com o empresário restou também uma recomendação médica: o remédio Secotex, para próstata. “Abilio me ‘receitou’ a primeira vez e o Dr. Bernardino (Tranchesi, o mesmo médico de Abilio) continua prescrevendo até hoje”, comenta Galeazzi. Seu único desgaste na saída foi em relação ao pagamento. Segundo ele, um advogado da companhia queria mudar as regras estabelecidas no início. Um mês se passou até que o combinado fosse cumprido. O executivo credita o desentendimento a Pestana – não a Abilio. “Enéas é o melhor financeiro com quem trabalhei na vida, mas ele é muito difícil com quem sai”, diz Galeazzi. “Com a Cidinha (Fonseca, de RH) foi a mesma coisa, mas no caso dela eu intervim.”
O paulistano Enéas César Pestana Neto tinha 46 anos quando se tornou presidente do Pão de Açúcar, em 4 de março de 2010. Ao contrário de seu antecessor, ele não era um forasteiro na companhia. Formado em ciências contábeis pela PUC de São Paulo, havia ingressado na varejista havia sete anos, para comandar a área financeira. Antes disso, trabalhara em empresas como Dasa, GP Investimentos e Carrefour.
Sua preparação para assumir o novo cargo incluiu sessões de coaching, terapia (duas delas com a presença de Abilio) e análise de “uma lista de melhorias” que ele deveria implementar. “Entre os pontos que apareceram estava a necessidade de ser mais flexível e de visitar mais lojas”, lembra Pestana. Ele era um sujeito tão focado em resultados que levava esses conceitos para dentro da própria família. “Eu tinha plano de ação para meus filhos, com meta, bônus, avaliação. Até isso eu mudei nessa época.”
Tornar-se uma pessoa de trato mais fácil era a parte mais simples da missão. A maior dificuldade seria integrar as duas grandes redes que o Pão de Açúcar adquirira em 2009. A primeira delas era o Ponto Frio, então a segunda maior rede de varejo de eletroeletrônicos do país. O negócio, fechado em junho por 824,5 milhões de reais, garantiu a Abilio a recuperação da liderança do setor, perdida para o Carrefour anos antes. A outra foi a rede Casas Bahia, na maior transação da história do varejo nacional, que deu origem a um colosso com faturamento de quase 40 bilhões de reais. As duas aquisições transformaram o Pão de Açúcar na maior rede de eletroeletrônicos do Brasil.
Abrir rotas de crescimento além do varejo de alimentos era algo estudado por Abilio Diniz havia tempo. Em 2008, Pércio de Souza sugeriu ao empresário um negócio com o Ponto Frio (um plano que havia sido analisado no passado). Abilio o autorizou a levar a ideia adiante.
O banqueiro marcou um encontro com Francisco Gros, então vice-presidente do conselho de administração do Ponto Frio. Ex-presidente do Banco Central, do BNDES e da Petrobras, Gros era homem de confiança de Lily Safra, viúva do banqueiro Edmond Safra e dona do Ponto Frio. Depois de algumas conversas iniciais, decidiram marcar uma reunião com a própria Lily, no apartamento em que ela residia, em Nova York. Participaram Abilio, Pércio, Gros, Lily e Jack Levy, o principal executivo da área de fusões e aquisições do Goldman Sachs. Lily falou pouco. A conversa não avançou.
Seis meses depois, o Goldman Sachs foi oficialmente contratado para vender o Ponto Frio. Entre os candidatos à compra estavam as Lojas Americanas, o Magazine Luiza e a rede baiana Insinuante (que tempos depois formaria a Máquina de Vendas com a mineira Ricardo Eletro). A estratégia do Pão de Açucar inicialmente foi demostrar pouco interesse pelo negócio. Em paralelo, tratava de estudar com afinco todos os detalhes da varejista carioca – a análise exaustiva rendeu um relatório com mais de quinhentas páginas que incluía o desempenho de cada uma das 455 unidades da rede. Além de Abilio e Pércio, um grupo restrito de executivos do Pão de Açúcar, incluindo Cláudio Galeazzi (ainda CEO) e Enéas Pestana, acompanhava as negociações.
Como o Casino tinha limitações de endividamento, a oferta pela Globex (controladora do Ponto Frio) envolvia uma parte em dinheiro e outra em ações do Pão de Açúcar. Assim, Lily Safra receberia 373,4 milhões de reais à vista e outros 451,1 milhões em ações do Pão de Açúcar, numa emissão realizada poucas semanas depois da conclusão do negócio. Para dar mais tranquilidade à dona do Ponto Frio, o Pão de Açúcar ofereceu uma espécie de seguro do valor das ações. Se elas caíssem no período entre o anúncio do negócio e o pagamento, a empresária receberia de acordo com o preço do papel na data do fechamento da aquisição; se subissem, Lily ficaria com o ganho. A Estáter sugeriu uma aquisição no modelo “porteira fechada”, que liberava os acionistas do Ponto Frio de eventuais contingências.
Com essa proposta em mãos, Pércio viajou para Nova York a fim de negociar com Jack Levy. Depois de cinco dias de discussões, chegaram a um acordo. Restava formalizar o contrato – um processo que exigiu o trabalho de dezenas de banqueiros, advogados e assessores até as quatro da manhã de 8 de junho. Na mesma data a aquisição foi anunciada. Luiza Helena Trajano, superintendente do Magazine Luiza e principal adversária do Pão de Açúcar na disputa pelo Ponto Frio, ficou arrasada com a derrota. “Vivi sete dias de luto”, declarou uma semana após a conclusão do negócio.
Seis meses depois de arrematar o Ponto Frio, o Pão de Açúcar fechou uma compra ainda maior, a das Casas Bahia, fundada pelo polonês naturalizado brasileiro Samuel Klein. A primeira aproximação entre Abilio e os Klein acontecera em 2007. Na ocasião, o consultor Marcos Gouvêa de Souza, especialista em varejo, fora contratado pelas Casas Bahia para procurar possíveis interessados:
Eles (os Klein) entenderam que precisavam de alguém para atuar nesse
negócio que não fossem os bancos tradicionais (...). Nós fizemos um projeto
de consultoria, de melhorias. No fundo, era todo o instrumental para
preparar uma eventual venda. Quando concluímos esse trabalho todo,
procuramos Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar (...). Teve muita reunião,
helicóptero, hotel, esse negócio todo. Mas nesse ínterim houve um problema
dentro da Bahia entre o Michael e o Saul (os filhos de Samuel se
desentenderam e Saul acabou saindo da empresa) (...). Eles pediram para
suspender a venda e foi uma frustração enorme para nós.
As Casas Bahia eram então uma estrela do varejo brasileiro. Haviam surfado a onda da ascensão da classe C como nenhuma outra e seu modelo de gestão se tornara alvo de estudos de instituições de ensino estrangeiras como a Michigan Business School e a Harvard Business School. A empresa era uma das protagonistas do já clássico A riqueza na base da pirâmide, do professor C. K. Prahalad, publicado em 2004. Abilio estava disposto a esperar outra chance.
A oportunidade surgiu no segundo semestre de 2009, assim que os desentendimentos entre os irmãos foram resolvidos – Saul deixou a empresa depois de receber quase 1 bilhão de reais. Abilio telefonou a Michael, o presidente das Casas Bahia, e propôs que se encontrassem para discutir o futuro das empresas. A reunião contaria com apenas cinco pessoas – pelo Pão de Açúcar, Abilio, seu filho João Paulo e Pércio; pelas Casas Bahia, Michael e seu filho Raphael.
As conversas avançaram com rapidez – talvez rápido demais, como o tempo viria a mostrar. Em menos de dois meses as linhas centrais do acordo foram acertadas, com o consentimento do patriarca dos Klein, Samuel, dono de 53% das Casas Bahia e então com 86 anos.
O clima era tão amistoso que um mesmo advogado – Syllas Tozzini, sócio da banca Tozzini Freire – foi contratado para assessorar ambos os lados, prática bastante incomum. O Pão de Açúcar também dispensou o tradicional processo de due diligence, em que os números da empresa-alvo são escrutinados. Todos estavam empenhados em concluir a negociação o mais rápido possível.
Assim como ocorreu com o Ponto Frio, o Pão de Açúcar tinha novamente limitações de endividamento por conta da política do Casino. Por isso, uma compra nos moldes tradicionais estava fora de cogitação. Pércio de Souza trabalhou então num modelo para unir as duas companhias, de modo que o Pão de Açúcar fosse o controlador da nova empresa. Casas Bahia e Ponto Frio (além do Extra Eletro) seriam unidos, dando origem a uma companhia chamada Nova Casas Bahia – depois rebatizada de Via Varejo. Para que cada uma tivesse valor aproximado de 2 bilhões de reais foi preciso fazer alguns ajustes. Dentre eles, excluir do negócio os imóveis das Casas Bahia e a fábrica de móveis Bartira, também da família Klein. Seria criada ainda uma empresa voltada exclusivamente para as operações on-line das varejistas de eletroeletrônicos, a NovaPontocom, controlada pelo que viria a ser a Via Varejo (anos depois a NovaPontocom daria origem à Cnova). Quando a estrutura ficou definida, Pércio embarcou para Paris a fim de apresentá-la a Jean-Charles Naouri. O sócio de Abilio concordou com a proposta.
Feitas as contas, a Globex (do Pão de Açúcar) ficaria com 50% das ações ON mais uma ação da Nova Casas Bahia. O velho Samuel, que participou de diversas etapas da negociação, chegou a dizer durante o processo que não entendia por que estava colocando um patrimônio maior e tinha participação menor na empresa resultante da associação. Pércio e sua equipe explicaram que havia outros critérios a considerar, como geração de caixa. A dúvida do empresário parecia esclarecida. Um jantar na casa do banqueiro de Abilio selou o acordo, que seria formalizado e divulgado em alguns dias.
Foi quando os rumores de uma negociação entre os Diniz e os Klein começaram a surgir – e as ações da Globex, a disparar. No dia 3 de dezembro os papéis subiram mais de 35%. A Bovespa procurou a empresa para que explicasse a movimentação atípica. Era preciso antecipar o anúncio, antes que as coisas escapassem ao controle. Na manhã de 4 de dezembro, Pércio telefonou para Abilio. O empresário viajava em jato particular para Paris, onde participaria de uma reunião do Casino. Os dois conversaram sobre as implicações da escalada das ações e o empresário, que àquela altura sobrevoava Salvador, decidiu retornar a São Paulo. No mesmo dia, Abilio Diniz e Michael Klein fizeram o anúncio da associação.
Ao revelar à imprensa os números do negócio, Abilio e Michael eram só felicidade. Pão de Açúcar e Casas Bahia tinham agora o tamanho das operações brasileiras de Carrefour e Walmart juntas. Com 1.807 lojas espalhadas por dezoito estados, empregavam 137 mil funcionários – mais do que qualquer outra empresa brasileira. Num jogo como o varejo, onde escala é crucial, Abilio e Michael pareciam ter dado um xeque-mate.
Não demorou para que a animação acabasse. “Depois da festa e dos sorrisos no dia do anúncio da operação Pão de Açúcar/Casas Bahia, a realidade mudou: a relação entre Abilio Diniz e Michael Klein anda estressada”, publicou o jornalista Lauro Jardim, da revista Veja, duas semanas após o negócio se tornar público. Uma nova grande disputa estava começando para Abilio.
Depois de assinar o acordo de 29 páginas com o Pão de Açúcar, os representantes das Casas Bahia se arrependeram. Poucos dias após o anúncio, Michael Klein foi até o escritório de Pércio de Souza. Ele informou ao banqueiro que seu pai não estava satisfeito. “Não dá para desfazer o negócio?”, perguntou Michael. Pércio respondeu: “A empresa é pública. Já foi, né?” Michael foi embora nitidamente insatisfeito. Pércio alertou Abilio.
Por quase dois meses, a interlocução entre as partes foi frequente. Aos poucos, o tom foi se tornando belicoso. Numa das reuniões entre Pércio e os Klein, Raphael, com 32 anos à época e que por três anos ocuparia a presidência da Via Varejo, resumiu a vontade do clã de rediscutir o contrato: “Para a gente é o seguinte: na pedra estão os mandamentos, o resto a gente discute.”
Abilio e Pércio perceberam que a situação não teria volta quando os donos das Casas Bahia contrataram o banco Lazard para cuidar da renegociação do acordo. A principal queixa dos reclamantes era que sua participação havia sido subvalorizada. A queda de braço se manteve privada por meses, até que no dia 12 de abril de 2010 o site da revista Exame revelou que os sócios renegociavam o contrato. No mesmo dia as ações do Pão de Açúcar caíram 2,2% e as da Globex recuaram 3,4%.
Entre estender uma briga pública e rediscutir o acordo, Abilio ficou com a segunda opção. Em julho de 2010, um novo documento foi assinado. A principal alteração em relação ao original foi que o Pão de Açúcar teve de aportar mais 689 milhões de reais na Globex (o que aumentou sua participação de 51% para 53%).
Não era a primeira vez que uma rede adquirida por Abilio exigia mais dinheiro depois de assinar o contrato. O mesmo havia acontecido com a Sendas. Em 2003, o Pão de Açúcar havia feito uma associação com a rede fluminense para criar uma nova empresa, em que cada sócio teria 50% do capital votante. A família teria direito a vender sua participação até 2013 ou antecipar sua saída, caso o controle do Pão de Açúcar mudasse de mãos. Com o aumento da participação do Casino, em 2005, a Sendas passou a exigir o pagamento de 700 milhões de reais por sua fatia. Abilio não concordou e o caso foi parar numa câmara de arbitragem no Rio de Janeiro. A rede Sendas perdeu a disputa – e os herdeiros da varejista receberam 377 milhões de reais por sua participação, pouco mais da metade do valor pedido.
Se o acordo com as Casas Bahia fora resolvido, o mesmo não se podia dizer do relacionamento entre os sócios, estremecido para sempre. Em abril de 2012, Enéas Pestana, já presidente do Pão de Açúcar, requereu durante uma reunião do conselho de administração da Via Varejo uma revisão dos números da companhia. Um dos motivos do descontentamento do Pão de Açúcar era a percepção de que os Klein encaravam a empresa como uma extensão da família – alguns fornecedores da Via Varejo eram do próprio clã. O controlador queria que todos esses contratos fossem revistos. (Curiosamente, uma discussão parecida aconteceria depois entre o Casino e Abilio Diniz – mas dessa vez Abilio é que teria seus gastos questionados.) Passados alguns meses Michael Klein manifestaria interesse em comprar a fatia dos Diniz na empresa para colocar um ponto final na sociedade.
A tensão entre os Diniz e os Klein perduraria até a saída de Abilio do Pão de Açúcar.