Abilio

Cristiane Correa · Capítulo 23 de 30

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Abilio

Capítulo 18 Só o boxe salva

CAPÍTULO 18

 

Só o boxe salva

 

O fracasso da tentativa de compra do Carrefour obrigou Abilio e sua equipe a discutir com o Casino outras opções para o futuro do Pão de Açúcar. Em setembro de 2011, as negociações para encontrar um caminho tiveram início. Representando Abilio, mais uma vez Pércio de Souza havia sido escalado. O Casino contratara o banqueiro Ricardo Lacerda, da BR Partners. Os dois corriam contra o relógio. Em nove meses, o Casino se tornaria o legítimo controlador do Pão de Açúcar. Abilio continuaria como acionista – sua participação valia cerca de 4 bilhões de reais à época. A questão que se colocava de pronto era: depois de tanto desgaste, os sócios poderiam conviver sob o mesmo teto? A resposta parecia óbvia.

Entre as alternativas estudadas para a saída de Abilio, a que mais avançou foi a de uma cisão do Pão de Açúcar. A proposta era que os franceses ficassem com todo o varejo de alimentos e Abilio com a Via Varejo, que reunia as operações de Ponto Frio e Casas Bahia. Quando os Klein souberam da possibilidade, armaram-se até os dentes para derrubá-la. O desentendimento com Abilio ainda estava muito fresco na memória. Paralelamente, Abilio e Casino não chegaram a um denominador comum em relação aos números do negócio. Para o Casino, o modelo proposto pelo brasileiro depreciava a Via Varejo. Mais uma tentativa de solucionar o problema ia para o brejo.

Como não conseguiam encontrar uma fórmula de divórcio, em fevereiro de 2012, por sugestão de Naouri, os sócios passaram a estudar uma reconciliação. Durante cerca de um mês, liderados pela advogada Renata Catelan, os assessores de Abilio definiram os pontos de uma nova arquitetura societária para a CBD.

A proposta apresentada por Renata e seu time – um documento de dezesseis páginas – contemplava, entre outras coisas, a dissolução da holding Wilkes (de modo que os acionistas da Wilkes passassem a deter diretamente ações da CBD) e a conversão da totalidade das ações preferenciais da CBD em ações ordinárias (à razão de 1 para 1).

As sugestões mais difíceis para o Casino digerir referiam-se à governança da companhia. A proposta entregue pela equipe de Abilio pretendia, por exemplo, que o empresário (ou seus herdeiros) tivesse o direito de nomear o presidente do conselho de administração da CBD enquanto fosse titular de 10% do capital da empresa – a regra a partir da transferência do controle era de que haveria um rodízio a cada três anos para nomeação do presidente do conselho, sendo que o Casino teria direito à primeira escolha, e Abilio permaneceria no posto enquanto estivesse apto. Além disso, pleiteava maiores poderes para o presidente do conselho (Abilio), como o papel de “elo” entre a diretoria da CBD e o conselho. Propunha ainda que Abilio e seus herdeiros tivessem o direito de indicar cinco membros para o conselho de administração – contra três previstos para depois da troca de controle. Por fim, pleiteava que a lista tríplice com possíveis nomes para ocupar o posto de CEO do Pão de Açúcar fosse formulada por Abilio (ao Casino caberia escolher um dos três candidatos) – exatamente o oposto do que previa o acordo de acionistas para depois do dia 22 de junho de 2012. Pércio de Souza, que julgava excessivos os pedidos incluídos no documento, não participou da negociação para uma eventual reconciliação.

O Casino não gostou do que viu. Para os franceses, Abilio estava pedindo mais direitos do que tinha antes da troca de controle. A reunião entre os advogados foi tão tensa que a certa altura Renata Catelan teria tentado colocar panos quentes, dizendo que aquilo era uma wishlist (lista de desejos), não uma posição final. Luiz Antonio de Sampaio Campos, do escritório Barbosa, Mussnich & Aragão (BM&A), outra banca contratada por Abilio, tentou ser ainda mais diplomático ao mencionar que as duas partes pareciam ter wishlists diferentes. Marcelo Trindade, principal advogado pelo lado do Casino, encerrou a discussão da seguinte forma: “Vocês têm uma wishlist e nós temos um contrato assinado.” A tentativa de reconciliação acabava de escorrer pelo ralo.

No final de março o Casino comunicou que Abilio Diniz não seria reconduzido ao posto de membro do conselho de administração da varejista francesa por conta dos conflitos em curso. (Na mesma ocasião ficou decidido que o francês Philippe Houzé, presidente da Galeries Lafayette, também ficaria fora do conselho. Controladora da varejista Monoprix juntamente com o Casino, a Galeries Lafayette enfrentava então uma dura disputa com seu sócio.)

Sem encontrar um caminho de reconciliação nem uma proposta de divórcio, Abilio não teve outra opção a não ser cumprir o contrato que assinara. Em 22 de junho, passou o controle e a presidência do conselho de administração da Wilkes para Jean-Charles Naouri. Na mesma data, o conselho de administração do Pão de Açúcar foi reconfigurado. Uma das principais mudanças foi a saída de Ana Maria e João Paulo Diniz (pela família permaneceram, além de Abilio, seu filho Pedro Paulo e Geyze).

Jean-Charles Naouri tinha desde o início o objetivo de assumir o controle do Pão de Açúcar em 2012, como lhe dava direito o contrato? Ou o empresário francês adotou essa postura no meio do caminho, depois de se sentir traído pelo sócio, que articulava secretamente uma fusão com o Carrefour? Apenas o próprio Naouri poderia responder a essas questões. Mas não há como negar que o negócio engendrado por Abilio e seus assessores com o Carrefour serviu como o pretexto perfeito para Naouri interromper qualquer possível renegociação do contrato entre os sócios.

Abilio podia argumentar que estava fazendo um excelente trabalho à frente do Pão de Açúcar, podia argumentar que a empresa que entregaria aos franceses mais que triplicara seu valor de mercado desde o acordo firmado em 2005, podia argumentar que uma associação com o Carrefour geraria valor para a varejista brasileira. Tudo isso era verdade. No entanto, para o Casino nada importava. Naouri se apoiou unicamente no contrato assinado. Foi com o acordo de acionistas – e a providencial polêmica gerada pela tentativa de fusão articulada sem seu conhecimento – que o francês construiu sua vitória.

 

Ao longo de sua vida, Abilio Diniz praticou diversos esportes: natação, corrida, squash e tênis, entre outros. Em 2012, com quase 75 anos, voltou-se para uma modalidade que havia escolhido na juventude, o boxe. Foi a forma que encontrou para lidar com o estresse do período que vivia. Duas vezes por semana, vestia as luvas de lutador e desferia jabs e cruzados violentos no adversário (normalmente seu professor), como se estivesse numa competição. Em muitas dessas ocasiões, o alvo que Abilio Diniz imaginava como seu sparring era o francês Arnaud Strasser, executivo do Casino e representante da rede francesa no conselho de administração do Pão de Açúcar.

Entregar o controle acionário do Pão de Açúcar e a presidência do conselho da Wilkes foi doloroso para Abilio, mas o inferno que ele vivia com o Casino estava longe de acabar. Ainda haveria mútuas cartas de acusação (várias delas tornadas públicas), pedidos de arbitragem (de ambos os lados), notas e reportagens na imprensa em que os sócios se atacavam (em muitos casos como resultado de vazamentos ou informações off the records). Nada, no entanto, seria comparável ao campo de batalha em que se transformaram as reuniões do conselho de administração do Pão de Açúcar – e ninguém era tão capaz de desestabilizar Abilio quanto Strasser. “Eu tinha vontade de matar o cara”, resume Abilio. “Ele e o Trindade (o advogado Marcelo Trindade) me enlouqueciam. Eu ficava revoltado com o que estava acontecendo e não podia reagir.” Tirar Abilio do eixo era exatamente o que seus oponentes queriam.

Entre os inúmeros momentos de tensão dessas reuniões, um é exemplar. Por conta do clima cada vez mais hostil, Abilio havia decidido substituir Geyze e Pedro Paulo no conselho de administração. No lugar deles entrariam Cláudio Galeazzi e o economista Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Investimentos. O conselho teria uma reunião na véspera da eleição dos novos membros e Abilio achou por bem levar Galeazzi e Figueiredo como ouvintes, para que eles já tomassem pé da situação. Galeazzi lembra da reação de Strasser:

Quando assumi como CEO do Pão de Açúcar, ele (Strasser) me chamava

de “my dear Cláudio” (meu querido Cláudio). Pensei no começo que ele

gostava de mim. Depois percebi que ele vinha perguntar coisas sobre o

Abilio, tudo de forma muito sutil (...).

No dia dessa reunião, ele simplesmente expulsou a gente da sala. Disse

que seriam discutidas coisas sensíveis e que só faríamos parte do conselho

no dia seguinte (...).

As coisas não melhoraram depois que comecei a participar do conselho.

Em uma das reuniões, ele me perguntou a mesma coisa várias vezes, como se

não entendesse a resposta. Como as reuniões eram em português, com

tradutores para os estrangeiros, ele se aproveitava disso. Ficava repetindo

tudo como se houvesse um problema de tradução. Nesse dia discutimos tanto

que no final ele disse: “O seu inglês pelo jeito não vale nada. Você não está

entendendo o que eu falei” (...). Ele realmente conseguiu me tirar do sério, e

olha que não sou um cara fácil de tirar (...).

Uma vez o Abilio levantou para bater nele no conselho. Eu não estava

lá, mas me disseram que tiveram que segurar o homem (...). Eu entendo

perfeitamente, porque dava vontade mesmo de dar porrada.

Galeazzi renunciou ao conselho quatro meses depois de ocupar o cargo. Para o Casino, que procurava deixar Abilio cada vez mais isolado, o fato de o empresário perder um aliado como esse era motivo de comemoração.

 

Geyze Diniz costuma acompanhar o marido em algumas de suas palestras e aulas pelo Brasil. Atenta ao que ele diz nesses eventos, em geral faz anotações num caderninho vermelho. São sugestões, críticas e observações sobre o que Abilio falou à plateia. “Eu ainda não fiz um cartão de visita, mas se eu tivesse um escreveria que sou conselheira do Abilio. Coach, né?”, diz ela, em tom de brincadeira.

Ela é hoje provavelmente a pessoa mais influente na vida do empresário – e quem acompanhou mais de perto toda a briga com o Casino. “Esse período regeu 95% da nossa vida, porque era uma nuvem pairando em cima (...). Ele (Abilio) o tempo todo no telefone, com advogados, com o Pércio, com a mídia (...). A gente nunca conseguia se desligar do assunto”, conta. No final de 2012, o clima estava tão tenso que Geyze decidiu proibir as reuniões de trabalho que aconteciam em casa. Para ela, Abilio precisava, pelo menos ali, ficar afastado daquela disputa.

O segundo semestre daquele ano corria pesado para o empresário. Os novos controladores ganharam salas na sede do Pão de Açúcar, destinadas ao uso de Jean-Charles Naouri e Arnaud Strasser, e se imiscuíram cada vez mais na rotina da companhia. O Casino queria inclusive alterar práticas consideradas, até então, intocáveis. Uma delas dizia respeito aos gastos com segurança da família Diniz – historicamente pagos pelo Pão de Açúcar. Uma auditoria contratada pelo Casino levantou que as despesas com as centenas de homens envolvidos na segurança dos Diniz e dos Klein (neste último caso, os valores eram bancados pela Via Varejo) totalizavam 98 milhões de reais ao ano.

O Casino passou a questionar também a política de uso de jatos e helicópteros particulares. Até então, as aeronaves utilizadas por Abilio e executivos do Pão de Açúcar eram de propriedade do clã Diniz – e alugadas para a empresa. O contrato estabelecia que o Pão de Açúcar deveria pagar aos Diniz um valor próximo de 700 mil reais por mês pelo aluguel das aeronaves, independentemente do número de horas de voo.

As antigas regras de segurança e transporte faziam parte do que se chamava “custo Abilio” e sempre foram conhecidas do Casino. Bastou a troca de controle para que os franceses deixassem claro que não concordavam com o costume de bancar despesas particulares dos acionistas. Os Diniz (e também os Klein) tiveram de começar a pagar pela própria segurança. E o contrato do aluguel de aeronaves dos Diniz pelo Pão de Açúcar foi encerrado. “Quando a Dynamo (gestora de recursos) e a Tarpon entraram no Pão de Açúcar, lá atrás, a gente achava que a governança precisava ser melhorada, porque não havia distinção clara do que era da empresa e do que era da família”, conta Guilherme Affonso Ferreira, que desde 2007 ocupava uma cadeira no conselho da varejista representando os minoritários. “Com o tempo foi ficando mais nítido, mas só depois de o Casino assumir foi que os números se tornaram realmente evidentes.”

Ao final da reunião de conselho que sacramentou as mudanças, Affonso Ferreira, que votara pelas novas regras, foi se despedir de Abilio. A conversa foi breve e amarga. “Eu te conheci de outros tempos e hoje você faz parte desse complô para me fritar”, disse o empresário.

Dia após dia, Abilio via seu poder esvaziado. Para alguém que passara décadas ditando os rumos do Pão de Açúcar, ter sua autoridade questionada (ou às vezes ignorada) era uma provação. Em nenhuma outra fase de sua vida ele teve que exercitar tanto a humildade – uma característica que sempre gostou de pregar, mas que muitos de seus desafetos dizem não ser o seu forte.

Um dos momentos mais difíceis foi a apresentação do planejamento anual ao Casino, em novembro, em Paris. Era praxe que Abilio acompanhasse o grupo de executivos nesses encontros. Mas, com a mudança do controle, ele não fora convidado pelos franceses. Decidiu que iria mesmo sem convite. Ele conta o que aconteceu:

Todo ano se fazia o planejamento estratégico aqui no Brasil e depois se

levava o resumo para a França. E todo ano eu saía daqui com os executivos

e ia a Paris para participar da reunião. Desta vez, na última hora veio um

aviso para o Enéas (Pestana, então CEO do Pão de Açúcar) que eu não

precisava ir. Não é uma questão de precisar! Eu sou o chairman dessa

companhia, eu sempre acompanhei, eu vou junto. Aí ficou meio saia justa

(...). O Enéas e o resto da turma não quiseram ir no meu avião. Foram antes

e eu segui sozinho. Cheguei a Paris e fui encontrá-los no hotel em que

estavam hospedados. Aí o Enéas me deu a notícia de que eles iriam antes de

mim, para acertar umas projeções e não sei mais o quê. Avisei que ligaria

quando chegasse, para que eles me encontrassem no saguão. Quando

telefonei, Enéas disse que não dava pra descer. Perguntei em que sala iria

ser a reunião e ele disse que não sabia. Tentei entrar no prédio e me

barraram, me fizeram passar na recepção e me identificar. Olha isso, treze

anos depois do começo da sociedade eu tinha que me identificar. Uma

senhora desceu para me avisar que minha entrada não estava permitida.

Sentei numa cadeira no saguão e fiquei lá. Os advogados me disseram para

eu esperar ali uma hora e eu fiquei.

Ser barrado numa reunião para definir o futuro da companhia que erguera foi uma humilhação para Abilio Diniz. A tentativa malsucedida de participar do encontro provocou um racha na já dividida equipe que assessorava o empresário. Enquanto alguns – entre eles Geyze e Renata Catelan – apoiaram a iniciativa da viagem, outros – como Pércio de Souza – acharam que esse tipo de confronto não levaria a nada. Abilio se sentia desafiado e queria reagir. Era difícil segurá-lo. Pércio fala sobre essas divergências:

Até então nossas posições (Estáter) vinham sendo antagônicas às de

alguns membros da equipe em praticamente todo o processo de negociação

com o Casino. Nós defendíamos que Abilio ignorasse as provocações nos

conselhos, evitasse responder às cartas públicas e se abstivesse de participar

de reuniões a que não fosse chamado. Enfim, que focasse apenas em

negociar sua saída. Eles defendiam uma posição mais ativa do Abilio e

queriam que ele fosse exigente nas demandas ao Casino. Esses embates

dificultaram uma linha única de atuação e criaram, naturalmente, um

desgaste.

No final de dezembro de 2012, esgotado e sem esperanças de chegar a um acordo com o sócio, Abilio decidiu abandonar a mesa de negociação. Do lado do Casino, o impasse também começava a provocar mudanças. O advogado Aloysio Meirelles de Miranda Filho, sócio da banca Ulhôa Canto Advogados, foi contratado para reforçar o time francês. Para Jean-Charles Naouri, seus assessores estavam um tanto viciados na briga e era preciso trazer gente nova para lidar com a situação.