Abilio

Cristiane Correa · Capítulo 25 de 30

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Abilio

Capítulo 20 Lugar de gente feliz é aqui

CAPÍTULO 20

 

 

Lugar de gente feliz é aqui

 

Ao deixar o Pão de Açúcar, Abilio mergulhou nas atividades da Península. Ele estava com muito dinheiro no bolso depois de vender todas as suas ações da rede varejista. De acordo com a revista americana Forbes, ele é o nono homem mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em 4,4 bilhões de dólares. Tão importante quanto esse caixa era sua inabalável vontade de construir grandes negócios. “Abilio tem uma energia admirável. Está aí com 78 anos e correndo atrás, pensando grande. Eu acho isso um espetáculo”, comenta o amigo Jorge Paulo Lemann.

Abilio já tinha um grande investimento na BRF e ocupava a presidência do conselho de administração da companhia, mas queria reestruturar a Península e prepará-la para voos maiores. Contratou a consultoria McKinsey para ajudá-lo a conhecer os melhores family offices (estruturas para administração de fortunas de famílias) do mundo e definir qual seria o papel da holding na nova fase de sua vida.

Desde 2010, quem comandava a Península era o executivo Eduardo Rossi. Paulista, formado em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas e com MBA pela Universidade Columbia, Rossi trabalhara em outro family office e nos bancos Patrimônio e JP Morgan. Quando chegou à empresa dos Diniz, a área de investimentos que deveria tocar contava com apenas duas pessoas. Havia mais sessenta funcionários dedicados à administração de tudo o que se referia a outros bens da família, como casas e aeronaves. A recomendação que recebeu foi que as aplicações deveriam ser conservadoras. “Era tanta aversão a risco que havia uma proibição de comprar ações”, lembra Rossi. Distante do cotidiano da Península, Abilio mantinha então apenas uma reunião mensal com o CEO.

Os dois começaram a se aproximar em 2011, quando Rossi passou a acompanhar Pércio de Souza nas negociações com o Carrefour. Em geral, ele entrava mudo e saía calado das reuniões. Mas teve a chance de ver de perto os principais lances do processo, aproximar-se dos interlocutores do Carrefour e discutir o andamento do projeto com o chefe.

Acostumado a comandar uma empresa com dezenas de milhares de funcionários, Abilio estranhou a mudança para a Península. “Ele perguntava que business era aquele, onde tinha meia dúzia de gatos pingados trabalhando”, diz Rossi. Uma vez habituado, começou a pensar nas possibilidades de investimento. O varejo era uma opção óbvia e, apesar de toda a confusão do passado, Abilio não tinha desistido do Carrefour. Ele sempre mantivera contato com os principais acionistas da varejista – no fundo de investimentos Colony seu interlocutor era Nadra Moussalem (responsável pelos investimentos na Europa) e, no grupo de Bernard Arnault, Nicolas Bazire e Nicolas Brunel (homens de confiança de Arnault).

Em 10 de julho de 2012, Abilio e Pércio se encontraram em Paris com o então recém-empossado CEO do Carrefour, Georges Plassat. O executivo estava acompanhado do banqueiro Matthieu Pigasse, do Lazard. Àquela altura, Abilio ainda negociava os termos de sua saída do Pão de Açúcar com Jean-Charles Naouri e uma das possibilidades era a cisão da varejista. A ideia dos brasileiros era que, caso Abilio ficasse com a Via Varejo, a operação nacional do Carrefour e a varejista de eletroeletrônicos pudessem unir forças. Plassat argumentou que preferia negociar com Abilio quando a situação do empresário com o Casino estivesse definida.

O momento chegou em 12 de setembro de 2013, uma semana depois de Abilio assinar o acordo com Naouri. Pércio de Souza marcou um jantar em sua casa. Participaram Georges Plassat, Matthieu Pigasse e Eduardo Rossi. Plassat retomou o assunto da possibilidade de um negócio no Brasil. Ouviu dos emissários do empresário que ele gostaria de participar do “jogo global”.

Dois meses depois, Abilio encontrou-se com Plassat em Paris durante um café da manhã. As conversas avançavam lentamente. Em julho de 2014, eles se reencontraram – dessa vez o café da manhã aconteceu na casa do empresário brasileiro. Segundo pessoas próximas, o namoro demorou por várias razões. Primeiro, porque no início de 2014 a Península começou a comprar ações do Carrefour na França – a essa altura sua fatia era de 2,81%. Plassat teria interpretado o movimento como possível prenúncio de um takeover hostil. Foi preciso desfazer o mal-estar. Além disso, o Carrefour percebeu que seria difícil levar adiante o processo de IPO da operação brasileira, como planejara em 2013, porque o mercado estava praticamente fechado para aberturas de capital.

Em setembro de 2014, Rossi teve uma conversa em Paris com Vincent Abello, principal executivo da área de fusões e aquisições do Carrefour. Ele perguntou a Abello qual era a preocupação da rede francesa em fazer o negócio e ressaltou que a participação de Abilio seria minoritária. “Não será como no modelo BRF, em que entrou e mudou tudo”, explicou. Acrescentou que a Península estava analisando outras oportunidades (as mais próximas eram Walmart e a rede belga Delhaize), mas que o Carrefour era o cavalo que queriam realmente montar.

A conversa surtiu efeito. No dia seguinte, 3 de setembro, Abilio e Rossi teriam uma reunião com Plassat. Em vez de marcar em um hotel ou restaurante, como costumava acontecer, o CEO os convidou para um almoço na sede do Carrefour. Acompanhado de Abello, Plassat deu o sinal verde para que as negociações avançassem. Três meses depois, em 18 de dezembro de 2014, a Península anunciou a compra de 10% da operação brasileira do Carrefour, por 1,8 bilhão de reais. Em junho de 2015, adquiriu mais 2% da companhia, por quase 370 milhões de reais (o contrato inicial garante a Abilio a opção de ampliar sua participação para até 16% num prazo de cinco anos). Para Rossi, a concretização desse negócio é prova da persistência do empresário. “Esse deal do Carrefour já estava morto havia um tempão. Se não fosse o Abilio falando o tempo todo que queria fazer, nunca iria sair”, afirma o executivo.

Abilio é cuidadoso ao falar do novo sócio:

Foi tudo ideia do Plassat, da cabeça dele. E nós achamos que era um

bom negócio. Para mim, servia. Dava para entrar e dava para fazer

algumas coisas. O que o Plassat me pedia era “fais doucement” (“faça com

delicadeza”) (...). Ele dizia que nós iríamos atuar juntos e que eu precisava

respeitar o time do Brasil. É o que vou fazer (...). Claro que quero contribuir

lá na França no futuro, mas o que eu falei para o Plassat é que vou no dia

em que ele me convidar.

O acordo firmado com os franceses assegura a Abilio dois dos onze assentos no conselho de administração da subsidiária brasileira do Carrefour. Seus ocupantes são o próprio Abilio e Eduardo Rossi. O empresário participa também de dois comitês, entre eles o de gente, do qual é coordenador. Além disso, já indicou dois executivos de sua confiança para a companhia. Desde fevereiro de 2015, Antonio Ramatis, ex-presidente da Via Varejo, ocupa a diretoria comercial do Carrefour, e Sylvia Leão, ex-vice-presidente de marketing da BRF e ex-vice-presidente de gente do Pão de Açúcar, a diretoria de marketing. Antes de assumir as novas funções, os dois foram conhecer as operações na França, na China, em Taiwan, na Espanha e na Itália.

Finalmente, Abilio recomendou a contratação de uma consultoria para elaborar uma radiografia do Carrefour e identificar oportunidades de melhorias. A escolha recaiu sobre a McKinsey. “A consultoria vai trabalhar fundamentalmente na meritocracia. As companhias vencedoras são aquelas que seguem esse modelo”, ensina Abilio.

Nessa defesa da meritocracia, Abilio pela primeira vez na carreira transformou funcionários em sócios. Eduardo Rossi e as vice-presidentes da Península Flavia Almeida e Renata Catelan (que se desligou de seu escritório de advocacia) ganharam participação acionária na empresa de investimentos dos Diniz, num recém-implementado programa de partnership.

Em abril de 2015, Abilio anunciou o aumento de sua participação no Carrefour S.A., na França, para 5,07% do capital da companhia, tornando-se o quarto maior acionista da varejista – atrás dos grupos franceses Arnault e Motier (da família Moulin) e do fundo de investimento Colony Capital.

Com isso, o Carrefour na França se tornou a maior tacada da Península. Com 10 bilhões de reais em ativos sob gestão, a Península se concentra hoje em quatro grandes investimentos: Carrefour França (3,9 bilhões de reais), BRF (1,9 bilhão de reais), Carrefour Brasil (2,1 bilhões de reais) e o grupo de educação Anima (180 milhões de reais). A ideia é que no futuro a Península, que hoje soma quase cem funcionários (vinte deles na área de investimentos), possa captar também recursos de terceiros.

 

Quarenta e sete anos depois da viagem que fez a Paris, em 1967, para conhecer Marcel Fournier, cofundador do Carrefour, Abilio finalmente se tornou um sócio relevante da varejista que sempre admirou – primeiro no Brasil e depois na França. Em dezembro de 2014, na coletiva de imprensa sobre o anúncio da compra da participação na operação brasileira, ele disse: “Agora lugar de gente feliz é aqui”, numa bem-humorada referência ao slogan do Pão de Açúcar.

Na semana seguinte à aquisição, Abilio surge numa das salas de reunião da Península com um sorriso estampado no rosto. Ele não diz, mas a entrada na rede francesa, além de parecer um bom negócio, tem também sabor de vingança e recomeço. É como se marcasse definitivamente o final de um período turbulento. Poucas horas depois, ele pisaria na sede da subsidiária do Carrefour pela primeira vez, para se encontrar com o CEO da empresa, Charles Desmartis.

A entrevista termina, o gravador é desligado. Resta, no entanto, uma última pergunta. Abilio é indagado se a ideia de citar na coletiva de imprensa o slogan da rede que agora pertence ao Casino lhe ocorrera na hora. De bate-pronto e aos risos, ele responde: “Não, eu já tinha pensado naquilo muitas vezes.”