Abilio

Cristiane Correa · Capítulo 4 de 30

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Abilio

Capítulo 1 Os cinco dias que acabaram com a guerra

CAPÍTULO 1

 

 

Os cinco dias que acabaram

com a guerra

 

2 DE SETEMBRO DE 2013, SEGUNDA-FEIRA

 

Passava pouco do meio-dia quando o antropólogo americano William Ury deixou seu quarto no hotel Mandarin Oriental, o número 251 da elegante rua Saint-Honoré, em Paris, e iniciou uma caminhada de quinze minutos em direção ao restaurante Laurent, um dos mais tradicionais da cidade. Lá, Ury, um prestigiado professor da Universidade Harvard e especialista em negociações, encontraria pela primeira vez o barão americano David René de Rothschild, representante de uma dinastia de banqueiros que começou a atuar no mercado financeiro europeu no século XIX. Tudo o que dizia respeito ao almoço havia sido minuciosamente estudado por Ury. Para garantir mais privacidade à conversa, em vez de uma mesa no salão principal, foi reservada a sala Marigny do restaurante, com vista para os jardins da avenida Champs-Élysées. William Ury havia analisado o cardápio com antecedência, para não perder tempo em frente ao seu interlocutor selecionando um dos pratos – a escolha foi um Carpaccio de daurade en vinaigrette citronnée. Até mesmo seu traje havia sido motivo de debate. A princípio, ele planejara vestir terno sem gravata, mas a pequena equipe que o acompanhava na viagem – seu sócio David Lax, a advogada Flavia Almeida e a consultora de comunicação Cila Schulman (as duas representando a Península Participações, holding da família Diniz) – o convenceu de que a ocasião era formal e pedia traje social completo.

Nada, porém, exigiu tanta reflexão e preparo quanto o discurso que Ury faria a Rothschild. Da argumentação de Ury dependia o futuro de um dos mais proeminentes empresários brasileiros: Abilio Diniz, o homem que ao longo de mais de cinco décadas, por meio de uma série de aquisições – das redes Casas Bahia, Ponto Frio e Sendas, entre outras –, transformara uma pequena doceria fundada por seu pai, em 1948, no Grupo Pão de Açúcar, a maior rede varejista do país, um colosso que em 2013 faturaria 64,4 bilhões de reais.

Havia mais de dois anos que Abilio e Jean-Charles Naouri, presidente do grupo francês Casino e seu sócio no Pão de Açúcar, travavam uma disputa sangrenta pelo controle da companhia brasileira. Dezenas de banqueiros, advogados e consultores haviam sido contratados pelos dois lados para encontrar um caminho que encerrasse a briga. Até então, nenhuma iniciativa tivera sucesso. O almoço entre Ury e Rothschild seria a última tentativa antes do início da arbitragem conduzida pela Câmara Internacional de Comércio, marcada para uma semana depois – um processo custoso e longo, em que todos os envolvidos ficariam expostos ao escrutínio da banca responsável por encontrar uma solução para o impasse.

O almoço entre os emissários de Abilio e Naouri fora articulado por Candido Bracher, presidente do banco de investimentos Itaú BBA e amigo do empresário brasileiro. Em 12 de agosto, a pedido de Abilio, Bracher telefonara para Rothschild, homem de confiança de Naouri e membro do conselho de administração do Casino, perguntando se ele poderia receber Ury. Embora os banqueiros brasileiro e americano mantivessem uma relação respeitosa, não eram próximos. Bracher só havia se encontrado pessoalmente com Rothschild duas vezes, a primeira delas num jantar na casa de Rothschild, em Paris, para comemorar o acordo societário entre o Pão de Açúcar e o Casino, firmado em 1999 (na ocasião estavam presentes também os presidentes das duas redes de varejo). Anos depois, Bracher o reencontraria num jantar na casa de Pedro Moreira Salles, hoje presidente do conselho de administração do Itaú Unibanco.

Rothschild, que viajava em férias pela Normandia quando recebeu a ligação de Bracher, se comprometeu a pensar no assunto. Quatro dias depois, telefonou para o brasileiro, para avisar que aceitaria participar da conversa. Sugeriu duas datas: 29 de agosto ou 2 de setembro. Ury preferiu a segunda opção. Quando enfim se encontraram, naquela segunda-feira ansiosamente aguardada, foi Rothschild quem deu o primeiro passo:

– Por que você está aqui? – perguntou ele.

– Porque a vida é muito curta. Esse conflito não é bom para o Abilio, não é bom para o Jean-Charles, não é bom para as famílias, não é bom para o Pão de Açúcar, não é bom para as relações comerciais entre Brasil e França. Todo mundo perde – respondeu Ury.

– E o que você sugere? – inquiriu o banqueiro.

– Uma saída que leve em consideração dois princípios: dignidade e liberdade para que cada um possa fazer o que quiser daqui para a frente.

Os dois começaram, então, a discutir as premissas para encerrar uma sociedade que durava catorze anos, desde que o Casino injetara 854 milhões de dólares no Grupo Pão de Açúcar (GPA) em troca de uma fatia de 24,5%. No princípio, o relacionamento entre os sócios foi o melhor possível. Com o caixa reforçado, Abilio acelerou a expansão do grupo, cujo faturamento à época era de 4,3 bilhões de dólares. Os franceses assistiam a tudo de longe, limitando-se a opinar aqui e ali em reuniões do conselho de administração. Em 2005, o Casino fez um novo aporte, dessa vez de 890 milhões de dólares. Com isso, ficou com metade dos votos e 68,8% do capital total da holding que controlaria a CBD (Companhia Brasileira de Distribuição, a razão social do Pão de Açúcar). Deteria ainda outros 28% das ações com direito a voto na CBD, que ficaram fora da holding. Assim, totalizava direta e indiretamente 34% do capital total da CBD e se tornava sua maior acionista. O acordo previa que em 2012 os franceses assumiriam o controle da varejista. Ainda segundo o documento, enquanto Abilio tivesse condições físicas e mentais de conduzir o Pão de Açúcar, poderia permanecer como presidente do conselho.

Foi com a proximidade da passagem do bastão que o relacionamento entre as partes começou a azedar. O ponto de inflexão se deu em 22 de maio de 2011, quando o semanário francês Le Journal du Dimanche revelou que o Grupo Pão de Açúcar negociava com o varejista francês Carrefour. Naouri, até então um desconhecido no Brasil, veio a público queixar-se de quebra de confiança. Segundo ele, a tentativa de compra era uma manobra de Abilio para diluir a participação do Casino no Pão de Açúcar e, assim, impedir a transferência de controle prevista para o ano seguinte.

O que se sucedeu foi a maior disputa societária já vista no país, um embate que até setembro de 2013 havia custado a Abilio e Naouri algo em torno de 500 milhões de reais, somados os custos com advogados, banqueiros e consultores de toda sorte. Uma briga violenta, protagonizada por dois homens de negócios com estilos completamente distintos. O brasileiro é um self-made man carismático, reconhecido pelo arrojo e agressividade nos negócios, profundo entendimento do varejo, certa dose de arrogância e propensão a reações viscerais. Naouri, nascido na Argélia e radicado na França, construiu a própria fortuna graças a sua genialidade financeira. Discretíssimo no trabalho e na vida pessoal, é um sujeito formal e cordial – porém de uma frieza exasperante. Abilio é o homem dos holofotes, Naouri se mantém nas sombras. Na batalha pelo Pão de Açúcar, enquanto o primeiro parecia reagir movido pelo fígado, o segundo era absolutamente cerebral. Havia tempo que o que estava em jogo para os dois empresários não era apenas o futuro de seus maiores investimentos. Aquilo se transformara numa dilacerante disputa pessoal.

Ury sabia que para sua proposta avançar seria preciso superar diferenças, mágoas e rancores. Quando o almoço com David de Rothschild acabou, ele estava animado. “Este encontro está se encerrando de uma forma interessante”, disse-lhe o banqueiro. “Vou transmitir ao Jean-Charles o teor da conversa e volto a falar com você.” Ury retornou imediatamente ao hotel e ligou para Abilio, que se encontrava no escritório da Península em São Paulo. O empresário estava no meio de uma reunião e Ury teve apenas tempo de dizer que havia uma chance de as coisas se resolverem. Abilio não se empolgou de imediato. Estava escaldado com as intermináveis idas e vindas e pensou que aquela tentativa seria apenas mais um espasmo. Mesmo assim, combinou um novo telefonema com Ury, naquele mesmo dia, para discutirem a situação em detalhes.

Ury decidiu aproveitar a agradável tarde de final de verão para dar um passeio pelo Jardim das Tulherias, vizinho ao hotel em que se hospedava. Enquanto cruzava o parque, seu telefone tocou. Rothschild tinha algumas perguntas a fazer:

– Quando pretende voltar para os Estados Unidos?

– Meu plano é embarcar amanhã cedo.

– Você poderia remarcar seu voo e me encontrar amanhã para continuarmos a conversa?

– Sim.

– Você tem autonomia para discutir os detalhes financeiros do acordo?

– Acredito que sim.

Horas mais tarde, Ury se conectou por Skype com Abilio, que estava acompanhado da esposa, Geyze, e de poucos assessores. Ele recorda a conversa:

Foi difícil. Primeiro, porque é muito melhor falar com o Abilio quando

ele está perto de você, e não a distância. Segundo, porque havia algumas

interpretações equivocadas sobre certas questões, como um eventual

desconto no preço das ações que ele venderia ao Casino. O time que o

assessorava pensava que haveria alguma flexibilidade nesse sentido, mas

Abilio foi enfático ao dizer que não. Foi uma lição para mim, porque é

preciso realmente checar cada detalhe com ele para ter certeza do que quer,

já que nem sempre ele diz de forma espontânea. Finalmente, acho que a

possibilidade real de que estivéssemos alcançando um acordo foi um choque

para ele. Você quer um acordo até que ele esteja próximo, e então você

pensa: “Espera aí...” É natural, porque havia dois Abilios dentro dele (...).

Ele queria mesmo chegar a um acordo ou estava só a fim de continuar a

briga?

 

3 DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA

William Ury chegou ao escritório do banqueiro David de Rothschild às duas da tarde para retomar a conversa do dia anterior. Pelos setenta minutos seguintes os dois estariam sozinhos naquela sala para tentar chegar a um consenso.

Ury fora contratado por Abilio quatro meses antes, para representá-lo nas negociações com os franceses. Até então, seu interlocutor era o banqueiro Pércio de Souza, fundador da Estáter, uma das mais bem-sucedidas firmas de fusões e aquisições do Brasil. (Do lado do Casino também houve uma mudança na reta final: David de Rothschild substituiu Ricardo Lacerda, presidente do banco de investimentos BR Partners, que vinha trabalhando para os franceses desde agosto de 2012.) Desde que assumiu o leme, uma das prioridades de Ury foi tentar entender o que exatamente o empresário brasileiro queria e até onde ele estava disposto a ceder. Caminhante inveterado, Ury chegou a convidar Abilio para visitá-lo em sua residência, na cidade de Boulder, no estado americano do Colorado, para que eles percorressem trilhas nas montanhas da região. Ele acreditava que se isolasse Abilio seria mais fácil conseguir que o empresário se abrisse.

Em vez de viajar para os Estados Unidos, Abilio convidou Ury a vir ao Brasil. A ideia era que passassem juntos um final de semana na praia da Baleia, no litoral norte de São Paulo, onde a família Diniz mantém uma residência. Ury topou e no dia 3 de agosto fez uma longa caminhada pela praia paulista ao lado de Abilio. O empresário deixou evidente que havia um componente emocional muito forte naquela queda de braço. Para Abilio, o que estava na mesa não era apenas dinheiro, mas sua imagem, seu futuro e até mesmo seu legado. Ele tinha então 76 anos, mas, atlético e aparentando dez anos menos, nem remotamente pensava em aposentadoria. Sua saída do Pão de Açúcar não poderia ter sabor de derrota. Abilio sentiu-se tão à vontade com Ury (a quem ele chama de Bill) que, no final da noite de sábado, os dois compartilharam a Jacuzzi da casa, acompanhados dos filhos mais jovens de Abilio – Rafaela e Miguel, então com 6 e 3 anos de idade, respectivamente.

Foi a conversa ocorrida na praia da Baleia que deu o tom da negociação entre Ury e Rothschild naquela terça-feira:

A disputa despertou uma atenção enorme da mídia e eu não queria que

os jornalistas apontassem “quem ganhou”. Para mim era importante ter um

acordo simples, com poucos números, em que sobressaíssem os princípios

básicos e a justiça. O plano era transformar aquela situação em que todos

estavam perdendo num acordo em que todos ganhassem. Abilio fazia questão

de sair com liberdade e havia uma cláusula de non-compete que o impedia

de atuar no varejo por 36 meses. Veja, quando se fala de liberdade, não

adianta discutir se essa cláusula deve ser reduzida para 12 ou 24 meses.

Liberdade significa zero mês. O mesmo acontecia com o valor pelo qual

Abilio venderia as ações ordinárias. Até então havia um debate se o

desconto deveria ser de 5% ou 10% (o acordo de acionistas previa que, em

caso de conversão das ONs da holding em PNs do GPA, a relação fosse de 1

ON para 0,915 PN). Nós deixamos aquilo de lado e definimos que a relação

de troca justa seria de uma ação com direito a voto (ordinária) por uma ação

sem direito a voto (preferencial), sem desconto algum.

Em contrapartida, Abilio teve de abrir mão de um ponto considerado até então inegociável: a sede da companhia, localizada na avenida Brigadeiro Luís Antônio, em São Paulo. Fora ali que, mais de cinco décadas antes, seu pai, Valentim dos Santos Diniz, abrira as portas de um pequeno comércio. Era um motivo comovente, mas nada pragmático – mudar o QG do Pão de Açúcar seria um transtorno enorme para o Casino. Abilio cedeu.

Ao final da reunião, Rothschild e Ury tinham esboçado o que seriam os sete pontos principais do acordo. Assim que deixou o escritório do banqueiro, Ury ligou para Abilio. Achava que as coisas avançavam depressa e sugeriu que o brasileiro tomasse um avião para Paris naquele mesmo dia (a diferença de fuso em relação a São Paulo era de cinco horas). A advogada Renata Catelan Rodrigues, sócia da banca que coordenava toda a assessoria jurídica prestada à Península, deixou seu escritório, na Zona Oeste de São Paulo, e rumou para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Embarcaria num voo com destino a Paris previsto para decolar no final da tarde. Abilio, porém, hesitou. Quando desligou o telefone, voltou-se para Geyze, que estava a seu lado, e disse:

– Eu já vi esse negócio antes. Não vai dar em nada. Estou voltando para a mesa de negociação depois de ter falado que não negociaria mais...

– A gente precisa negociar... Eu vou para casa fazer a mala e ficar um pouco com as crianças antes de a gente embarcar...

O descontentamento de Abilio não passou despercebido a Ury. O americano pensou numa maneira de aliviar a pressão. Ligou para Geyze e perguntou se Abilio se sentiria melhor se permanecesse em São Paulo. O plano de Ury era que ele próprio viesse para o Brasil, ficasse ao lado de Abilio e conduzisse a negociação com Rothschild a distância, por telefone. Geyze respondeu que esse arranjo certamente deixaria o marido mais confortável. Ato contínuo, Ury ligou para o banqueiro e ele topou a mudança. Agora era preciso acelerar. Ury, Cila e Flávia tinham menos de duas horas para desocupar seus quartos, desmontar o war room no hotel – uma suíte de quase 200 metros quadrados em que não faltavam flip charts, documentos espalhados pelas mesas e papéis colados nas paredes – e fazer check-in no aeroporto Charles De Gaulle. A correria foi tamanha que a própria Geyze providenciou as passagens. Em paralelo, Renata, que àquela altura já chegava a Guarulhos, foi avisada de que o plano inicial tinha sido abortado. Ela devia retornar. Na manhã seguinte, uma reunião decisiva a esperava no escritório da Península.

 

4 DE SETEMBRO, QUARTA-FEIRA

Como de costume, Abilio acordou às 5h50. Ele dormira bem, com a ajuda de uma dose de melatonina, um hormônio responsável pela indução do sono (o empresário tem sempre à mão o remédio em três dosagens: 2, 3 e 5 miligramas). Atleta disciplinadíssimo, às seis horas já estava na academia que mantém em sua residência, no bairro paulistano do Jardim Europa, para o treino habitual de uma hora e meia de duração. Nem nos momentos mais tensos da longa disputa com os franceses ele abriu mão da sua rotina de exercícios. Por volta das oito horas, William Ury chegou a sua casa. O americano fora direto do aeroporto para conversar a sós com Abilio. Tomaram o café da manhã e rumaram para o escritório da Península, a menos de dez minutos dali, para uma reunião com o núcleo central do time do empresário.

Enquanto o grupo formado por Abilio e seus assessores mais próximos discutiria os termos de um possível acordo com o Casino, um batalhão de dez advogados – das bancas Ferro, Castro Neves, Daltro & Gomide; Debevoise & Plimpton; e Freshfields Bruckhaus Deringer – se reuniria em uma das salas do hotel Intercontinental, próximo à avenida Paulista. Desde segunda-feira eles trabalhavam em conjunto para preparar a defesa de Abilio para o processo de arbitragem, uma espécie de “justiça alternativa” cujo objetivo é resolver conflitos entre partes que não se entendem. (Os escritórios Wald Advogados; Barbosa, Mussnich & Aragão; e Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados também estiveram envolvidos no conflito, em diferentes momentos da disputa.)

No lugar de magistrados, esses processos são analisados por árbitros, e sua decisão não pode ser contestada. No caso da briga entre Abilio Diniz e Jean-Charles Naouri – em que ambas as partes entraram com pedidos de arbitragem por motivos diferentes –, a expectativa era de que a decisão da Câmara pudesse levar até dois anos. Pelo lado do Casino atuavam quatro bancas estrangeiras – Darrois Villey Maillot Brochier; Sherman & Sterling; Wactell, Lipton Rosen & Katz; e Weil, Gotschal & Manges – e três nacionais – Trindade Advogados; Tozzini Freire; e Andrade & Fichtner Advogados. Era uma batalha jurídica com um número de pesos pesados como raríssimas vezes se viu no Brasil. Os árbitros seriam o belga Bernard Hanotiau (indicado pelo Casino), o alemão Klaus Sachs (indicado por Abilio) e a suíça Gabrielle Kaufmann-Kohler (indicada por Hanotiau e Sachs como presidente do tribunal).

Uma das etapas mais delicadas da arbitragem seria o chamado cross examination, em que as testemunhas são sabatinadas pelos advogados do oponente e pelos árbitros. Pelo lado de Abilio, seriam inquiridos o empresário e sua primogênita, Ana Maria Diniz. Ela trabalhara com o pai por mais de uma década no Pão de Açúcar e acompanhara de perto as negociações com os franceses desde que eles se tornaram sócios da varejista. Pelo Casino, a única testemunha seria Jean-Charles Naouri. Como é de se imaginar, a preparação desses porta-vozes deveria ser estudada nos mínimos detalhes. Caso caíssem em contradição, poderiam colocar toda a estratégia de defesa em risco. Abilio e Ana Maria já haviam sido submetidos a duas simulações do cross examination, ambas na sede da banca Debevoise & Plimpton, localizada num elegante edifício em Nova York. O primeiro ensaio, de acordo com a advogada Renata Catelan, não fora exatamente animador:

Foi um desastre (...). O Abilio é uma pessoa de improviso, mas nesse

negócio não dá para não seguir o roteiro (...). Ele precisava ler todas as

entrevistas que deu para a imprensa, toda nossa estratégia de como abordar

o assunto (...). Era muita informação, e como já tinha se passado um ano e

pouco do início da briga ele não lembrava de todos os detalhes; aliás,

nenhuma pessoa iria lembrar (...). Então, quando ele não lembrava, falava o

que dava na cabeça – e às vezes não era o que a gente tinha dito ao longo do

processo (...).

A verdade é que os dois lados estavam desconfortáveis com a iminência da arbitragem. “Ia ser uma lavagem de roupa suja muito grande, muitos documentos seriam expostos, e isso não seria bom nem para o Abilio nem para o Jean-Charles”, diz uma pessoa que acompanhou o processo de perto.

Nenhum dos advogados contratados por Abilio para a arbitragem sabia que havia um movimento paralelo para que se chegasse a um acordo – exceto Luiz Antonio de Sampaio Campos, do escritório Barbosa, Mussnich & Aragão (BM&A). Na tarde daquela quarta-feira, Renata Catelan mostrou a Sampaio Campos (conhecido como Totonho) a minuta em que ela e o advogado carioca Marcelo Trindade, representante do Casino, vinham trabalhando desde a véspera. A orientação era que a discussão do eventual acordo ficasse restrita ao menor número possível de envolvidos, tanto para evitar vazamentos quanto para garantir que o time que se preparava para a arbitragem se mantivesse 100% focado. Se Abilio e Naouri não chegassem a um entendimento, seria bom que a turma de advogados reunida no hotel Intercontinental estivesse com toda a artilharia preparada.

 

5 DE SETEMBRO, QUINTA-FEIRA

Naquela manhã, ao ligar seu celular, Cila Schulman verificou que havia 37 chamadas perdidas. Todas tinham a Península como origem. Judia praticante, Cila havia desligado o aparelho por poucas horas enquanto estivera numa sinagoga para ouvir os 101 toques do Shofar – o ritual fazia parte do Rosh Hashaná, a celebração do ano-novo judaico, que começara na véspera. A urgência para encontrar a consultora de comunicação se devia a uma reunião agendada para uma da tarde na Península. Dela participariam cerca de dez pessoas, entre elas Abilio Diniz, Geyze e William Ury. O possível acordo com o Casino entrava em sua reta final.

O grupo trabalhou por mais de catorze horas. Não deixou a sala nem para comer. Saladas, pratos leves e sucos foram entregues pela Forneria San Paolo, restaurante de propriedade de João Paulo Diniz, segundo filho de Abilio, situado a poucas quadras dali. Mesmo num ambiente de tensão, Abilio não se desviaria da rigorosa dieta que segue há décadas. Enquanto os advogados trabalhavam na versão final do documento, Ury acertava os últimos detalhes por telefone com Rotschild, que permanecia em Paris.

Abilio se ausentou apenas por algumas horas, enquanto esteve no Intercontinental, onde foi submetido a mais uma bateria de perguntas de preparação para a arbitragem. Marcelo Roberto Ferro, sócio da banca Ferro, Castro Neves, Daltro & Gomide e responsável por coordenar o trabalho daquele time de advogados, ainda não desconfiava da possibilidade de acordo. Era preciso não apenas ensaiar o que seria dito, mas também a postura que Abilio deveria assumir. Na primeira simulação do cross examination, por exemplo, o empresário mascava chicletes – um dos advogados teve de pedir que ele jogasse a goma fora. Ao final do segundo ensaio, porém, Ferro se mostrou satisfeito e confiante no desempenho do cliente. Abilio havia feito a lição de casa e se mostrava afiado, calmo e preciso. Por seu comportamento naquela tarde era impossível desconfiar que um acordo era costurado.

Encerrada a simulação, Abilio retornou para a Península. Só saiu de lá por volta das três da manhã, acompanhado de Geyze e Cila. Ele mesmo dirigiu o carro da esposa – um Mini Cooper. Deu carona para a consultora e foi para casa, sempre seguido por seus seguranças. Havia poucas horas para descansar antes de voltar ao escritório.

Seu adversário, Jean-Charles Naouri, desembarcara em São Paulo naquela quinta-feira e, como de praxe, se hospedara no hotel Fasano, um dos mais luxuosos da cidade. Assim como Abilio, estava tão pronto para assinar o tratado de paz quanto para encarar a guerra da arbitragem.

6 DE SETEMBRO, SEXTA-FEIRA

Passava das quatro da tarde quando o executivo Enéas Pestana, então presidente do Grupo Pão de Açúcar, foi chamado por sua secretária para atender a uma ligação “confidencial” do francês Arnaud Strasser, diretor internacional do Casino e homem forte de Naouri no Brasil. Durante toda a disputa entre os acionistas, coube a Pestana manter o Pão de Açúcar em rota de crescimento, evitando que a animosidade entre Abilio e Naouri contaminasse o desempenho da companhia.

Pestana deixou a sala que dividia com a diretoria do Pão de Açúcar, deu alguns passos, entrou na sala de reunião 1 e fechou a porta. Quando atendeu ao telefone, ouviu que Abilio e Naouri estavam a caminho da sede da varejista e que ele deveria reunir seus principais executivos. Os dois empresários iriam comunicar que haviam chegado a um acordo. A briga, que se arrastava havia anos, terminara. “Acho que fiquei um minuto mudo no telefone (...). Não sei se foi estado de choque, mas demorou para cair a ficha (...). Eu pensei: ‘Puta merda, acabou! Meu Deus do céu, acabou!’”, lembra o executivo. Strasser acrescentou que Pestana deveria manter sigilo sobre a novidade. O executivo desligou o telefone, se recompôs e voltou para sua mesa como se nada houvesse acontecido.

 

Desde o início daquela sexta-feira, Abilio, Geyze e seus assessores mais próximos estavam reunidos no escritório de Renata Catelan. Geyze, uma morena esguia e de sorriso largo, 35 anos mais jovem que o marido, lembra como foram os momentos finais da costura do acordo:

A gente estava conseguindo acertar tudo, um cedendo daqui, outro

cedendo dali, até que num ponto a conversa complicou. Eu me lembro da

cena (...) O Bill (William Ury) de pé, nós sentados, ele respira fundo e sai da

sala para usar outro telefone e falar a sós com o David (Rothschild) (...).

Minutos depois o Bill volta e anuncia “We have a deal” (“Nós temos um

acordo”) (...). Olhamos uns para os outros e começamos a bater palmas (...).

Fico emocionada só de lembrar (...). Então os advogados foram redigir o

texto final em diversas vias, inglês, português, francês (...). Era tanto papel

que, depois das inúmeras mudanças no contrato, eu ficava sempre checando

se estávamos realmente assinando a última versão (...).”

À tarde chegaram ao escritório Jean-Charles Naouri e o advogado Marcelo Trindade. Fazia meses que o empresário francês e Abilio não se encontravam. Depois que todas as páginas do acordo foram rubricadas, decidiram fazer uma foto para registrar aquele momento histórico. Como nenhum profissional fora contratado para a ocasião, Eduardo Rossi, CEO da Península, fez as vezes de fotógrafo.

Acompanhado de Renata e Geyze, Abilio entrou no carro que o levaria à sede do Grupo Pão de Açúcar. Aproveitou o trajeto para dar alguns telefonemas. Falou com Zeca Magalhães e Pedro Faria, da gestora de recursos Tarpon e seus sócios na BRF. Entre dezembro de 2012 e abril de 2013, Abilio havia comprado, direta e indiretamente, 3,58% da empresa brasileira de alimentos e se tornara presidente do conselho de administração (em abril de 2015 sua participação na BRF chegava a estimados 2 bilhões de reais). Em seguida, ligou para o advogado Marcelo Ferro, que o aguardava no hotel Intercontinental para o último ensaio antes da arbitragem.

– Tenho uma notícia que você não vai gostar muito – falou.

– Você não vem pra cá?

– Não. Acabamos de fechar um acordo com o Casino e a Renata está levando aí para você.

– Pô, Abilio, que boa notícia.

– Mas você estava preparado para a arbitragem...

– É, estou me sentindo aqui como um jogador que assinou a súmula, aqueceu, alongou e o jogo acabou antes de começar. Mas fico feliz por você.

Foi a última vez que Abilio entrou no Pão de Açúcar como presidente do conselho de administração. Pelo acordo que acabara de assinar, ele deixava a função e trocava suas ações ordinárias na Wilkes, holding controladora, por papéis preferenciais do GPA. Feitas as contas, continuava com 8,9% do capital total do Pão de Açúcar (o equivalente a 2,3 bilhões de reais em ações na época), porém sem direito a voto. E, graças à melhor negociação na relação de troca entre ONs e PNs, calcula-se que tenha obtido um ganho de quase 160 milhões de reais. Definitivamente, não dava para dizer que havia sido um mau negócio.

Abilio parecia tranquilo. Ao lado de Jean-Charles Naouri, fez um pequeno pronunciamento para a diretoria do GPA: “Vocês sabem que existem três coisas que eu odeio: cebola, despertador e despedida. Então não vou fazer despedida. A companhia tem um novo controlador, que está aqui. Espero que vocês sejam felizes e continuem lutando pela empresa.”

De lá Abilio seguiu para a Casa do Saber, espaço de cursos na zona Sul de São Paulo, onde haveria a coletiva de imprensa para anunciar o acordo. Dezenas de jornalistas estavam presentes. Naouri preferiu não participar do evento. “Este é o seu momento”, teria dito a Abilio. A Máquina da Notícia, assessoria de imprensa responsável por coordenar o trabalho de comunicação de Abilio, colocou uma equipe de vinte profissionais para atender aos órgãos de mídia.

A última etapa do dia que mudaria para sempre a vida de Abilio Diniz foi um jantar em sua casa que reuniu William Ury, advogados, funcionários da Península e assessores. O encontro havia sido organizado dias antes e seria uma espécie de “boas-vindas” à equipe que participaria da arbitragem. O acordo com o Casino deu um tom mais festivo ao jantar – ainda que para alguns dos presentes o cancelamento da arbitragem significasse também o fim de um trabalho bastante lucrativo. “Vocês podem até estar meio frustrados, mas sabem o quanto eu lutei e o quanto esse negócio era importante. Acho que acabou tudo muito bem e a gente tem que celebrar”, disse o empresário.

Deixar a companhia onde trabalhara por mais de meio século foi difícil, mas trouxe a Abilio certo alívio:

No dia seguinte fui para a Baleia e caminhei sozinho pela praia. Eu

estava muito, muito mais leve. Era um dia bonito. Eu andava, olhava o mar e

sentia uma paz enorme. Depois de tudo o que tinha vivido, a sensação de

não ter mais que voltar para o Pão de Açúcar era muito boa. Puxa, segunda-

feira não tem plenária (reunião semanal com todos os principais executivos

da empresa), não tem nada, que delícia!

Nos últimos tempos, ir para lá era um exercício de força de vontade, eu

sentia como se tivesse que cumprir um dever. Ali, que era a minha casa,

havia se transformado num lugar onde eu não era mais bem-vindo, cheio de

pessoas que queriam me botar para fora (...). Depois que assinamos o

acordo nunca mais passei na frente do prédio da Brigadeiro, não tenho por

quê.

Demorei para entender que o Pão de Açúcar era uma empresa

maravilhosa, mas que o verdadeiro Pão de Açúcar são os meus valores e a

minha cultura – e isso eu carrego comigo. No momento em que isso entrou

na minha cabeça de verdade, tive um alívio muito grande. Evidentemente

essas tristezas, essas insatisfações, essas coisas todas foram trabalhadas na

análise (Abilio faz terapia há mais de duas décadas). Um dia eu estava numa

sessão e aquilo se esclareceu para mim, foi como se uma cortina se abrisse e

eu enxergasse que haveria um futuro e que o melhor do meu passado viria

junto comigo (...).

Agora eu tinha a Península e a BRF para tocar. O melhor ainda estava

por vir.