Abilio
Capítulo 16 O embrião da disputa com o Casino
CAPÍTULO 16
O embrião da disputa
com o Casino
Ao longo de sua vida, o tenista brasileiro Cássio Motta, que na década de 1980 chegou a ocupar a 48a posição no ranking mundial de simples e a quarta em duplas, levou duas boladas nos olhos que o nocautearam. A primeira aconteceu em 1984, em Londres. Motta estava nas quartas de final de simples do torneio Benson & Hedges, que acontecia no estádio de Wembley. Seu adversário seria o americano Peter Fleming, que chegara a ser o número 1 do mundo em duplas, ao lado do lendário John McEnroe.
Antes de desafiar Fleming, Motta tinha agendada uma partida de duplas. Seu parceiro seria o americano Sherwood Stewart; os adversários, os também americanos Butch Walts e Gary Donnelly. Eles ainda estavam no aquecimento quando Walts, um homenzarrão de 1,93 metro de altura, sacou com toda a força em cima de Motta, abaixo da linha da cintura. Sem tempo de se esquivar do míssil, o brasileiro colocou a raquete em frente ao corpo para se proteger. A uma velocidade de quase 200 quilômetros por hora, a bola bateu no cabo da raquete de Motta e de lá explodiu em seu olho esquerdo. Sem enxergar mais, o brasileiro foi obrigado a deixar a quadra. A partir daquele momento, fez o que pôde para garantir que seu olho desinchasse. Colocou gelo, pingou colírio, fez compressas com salsinha. Nada. Quando entrou em Wembley, no dia seguinte, para enfrentar Fleming, Motta mal conseguia enxergar. Ele bem que tentou. Um game. Dois. Três. Com o olho ainda semifechado, ele estava sendo massacrado. Não havia como continuar. Contrariado, abandonou o jogo.
A segunda vez em que Cássio Motta teve um acidente parecido foi quase duas décadas depois, quando já estava aposentado e disputava uma partida de duplas com amigos. Os adversários eram o empresário Jorge Paulo Lemann, que no passado chegara a representar o Brasil e a Suíça na Copa Davis (ele tem dupla cidadania) e a professora de tênis Denia Salu. Seu parceiro era o amigo Abilio Diniz.
A partida, jogada na quadra rápida que Abilio mantém em sua casa, estava disputada. O primeiro set chegara ao tie-break. Era a vez de Abilio ir para o saque. O empresário caminhou até o fundo da quadra, lançou a bola para o alto, fez um arco com o corpo e desferiu um golpe rápido com sua raquete. Motta, que naquele momento deveria estar com o rosto voltado para os adversários, virou para trás e olhou de relance para o parceiro. A bola o acertou em cheio – e, como em Wembley, no olho esquerdo. A diferença foi que dessa vez ele conseguiu terminar a partida. A dupla Lemann/Denia ganhou o único set do jogo por 7/6.
Naquela partida, Abilio era o único que jamais havia encarado o tênis como profissão. Denia, dona de uma academia, é professora há quase duas décadas. Jorge Paulo e Cássio disputaram torneios internacionais. Abilio não se abalou com a experiência dos demais jogadores e entrou em quadra de igual para igual com eles – uma postura que sempre adotou não só nos esportes, mas também como empresário.
Abilio não se intimida facilmente. Quando o Pão de Açúcar estava à beira da falência, nos anos 1990, ele assumiu o controle da empresa e conseguiu recuperá-la. Quando as brigas de família começaram a ameaçar a perpetuidade da varejista, deu um jeito de comprar a participação dos irmãos e de afastá-los da empresa – ainda que a medida colocasse em risco a união do clã. Quando grandes varejistas internacionais como Carrefour e Walmart voltaram suas atenções para o Brasil, foi a campo numa maratona de aquisições em busca de escala e melhores resultados para a companhia. É possível dizer que, ao longo de décadas, Abilio havia enfrentado – e vencido – todas as grandes adversidades que surgiram na sua vida profissional. Tudo mudou quando teve de lidar com um novo inimigo, seu sócio francês Jean-Charles Naouri, presidente do conselho de administração do Casino.
A convivência entre Pão de Açúcar e Casino, iniciada em 1999, se manteve cordial por anos. Quando nasceu Rafaela, a primeira filha de Abilio e Geyze, em 2006, Naouri enviou para a família um copo de prata da centenária marca francesa Christofle, com as inicias da bebê gravadas. Em 2009, quando Geyze deu à luz Miguel, segundo filho do casal, o sócio caprichou ainda mais. “A secretária dele veio entregar pessoalmente uma mala da Prada. Dentro de cada gavetinha tinha roupinhas e sapatinhos de grife, bichinhos de pelúcia, tudo chiquérrimo”, lembra Geyze. “No dia seguinte, ele veio aqui em casa para fazer uma visita.” Talvez por discrição, talvez por querer manter distância, Naouri nunca convidou Abilio para ir a sua casa. O único membro da família de Naouri que Abilio conhece é seu primogênito, Gabriel, que desde 2007 trabalha no Casino.
Mesmo depois de aumentar sua participação no Pão de Açúcar, em 2005, o Casino mantinha uma atuação comedida. Ocupava seus assentos no conselho de administração e só. O clima entre as partes começou a dar os primeiros sinais de desgaste, ainda que de forma discreta, no início de 2009. O Casino tinha regras que limitavam seu endividamento, o que afetava os planos do Pão de Açúcar. Foi por essa razão, principalmente, que as aquisições do Ponto Frio e das Casas Bahia envolveram trocas de ações, e não apenas dinheiro.
Abilio tomou a iniciativa de procurar Naouri para achar uma forma de contornar uma situação que poderia, em seu entendimento, comprometer o crescimento da companhia. A partir de junho de 2012, quando o Casino assumiria o controle da CBD (o que lhe permitiria consolidar os resultados da varejista brasileira em seu próprio balanço), seria mais difícil mudar essa regra.
A sugestão do brasileiro foi que ele convertesse parte de suas ações no Pão de Açúcar em ações da Rallye, holding controladora do Casino. Ele seria minoritário na Rallye, mas contava com a chance de ter um assento em seu conselho de administração. Num almoço no restaurante L’Avenue, em Paris, os dois conversaram sobre o tema. “Põe uma pessoa do teu lado que eu coloco o Pércio para desenhar esse negócio mais concretamente”, disse Abilio. Naouri teria respondido que Pércio de Souza, o banqueiro do sócio, poderia sugerir o formato em nome dos dois (algum tempo antes, o próprio Casino chegara a contratar a Estáter para um trabalho na Colômbia). Ao final do almoço, Abilio seguiu até o hotel Bristol, onde Pércio estava hospedado com a família, para lhe contar sobre o encontro.
Quando o banqueiro enviou sua proposta, Naouri ficou furioso. Abilio lembra da reação:
O Jean-Charles nunca mais quis ver o Pércio na frente, disse que ele
estava tramando para evitar que eu lhe desse o controle da companhia e que
eu queria tomar o poder na Rallye lá em cima (...). Ele viu fantasma onde
não tinha nada (...). Eu só não queria entregar uma ação para ele e deixar o
Pão de Açúcar pendurado no Casino, sem interferência minha, sem minha
participação, porque a companhia merecia crescer muito mais (...). Eu só
queria acomodar as coisas. Quem manda no Pão de Açúcar depois de 2012?
Casino. Sozinho. Quem dá as ordens para o Casino? A Rallye, onde eu
queria entrar (...). Não interferia na consolidação dos resultados que eram
importantes pra ele, mas eu teria uma posição em que todo mundo veria que,
em relação ao Pão de Açúcar, eu continuava atuando. Mas ele não entendeu
assim.
Depois disso, as conversas esfriaram. Levou mais de um ano para que se tocasse no tema de forma incisiva novamente. Em setembro de 2010, Naouri veio ao Brasil para participar da reunião de planejamento estratégico da companhia, que aconteceria na Fazenda da Toca. Abilio considerou que seria uma boa oportunidade para retomar o assunto. Segundo o empresário, os dois falaram que era preciso encontrar uma solução para o impasse. “Mas nunca falamos sobre uma eventual saída minha. Isso era algo que nem passava pela minha cabeça”, afirma. A conversa foi tensa e inconclusiva. Desconfiado, Naouri começou a se preparar para um eventual embate.
Em fevereiro de 2011, o Casino procurou o advogado Marcelo Ferro, especializado em contencioso e sócio da banca Ferro, Castro Neves, Daltro & Gomide. Ferro explicou que já prestava serviços para Abilio, o que geraria conflito de interesses. Em seguida, o advogado avisou a seu cliente que havia sido procurado pelo francês. Abilio aproveitou uma reunião que teria com Naouri em São Paulo para tocar no assunto. O francês desconversou – e o Casino acabou contratando outro especialista, o advogado Marcelo Trindade, ex-presidente da CVM.
Embora Abilio argumentasse que queria renegociar o contrato para preservar o crescimento da empresa, Naouri fazia outra leitura. Para o empresário francês, ficava a impressão de que o sócio se arrependera da venda em 2005 e buscava uma manobra para eximi-lo de entregar o controle. Ou, como narra alguém que acompanhou a disputa de perto (e prefere não ser identificado):
O acordo foi muito bem-feito para alguém que quisesse chegar aos 75
anos, se aposentar e ter uma posição de destaque. Só que no meio do
caminho aconteceram muitas coisas. A primeira é que ele (Abilio) se casou
de novo, teve filhos novos e continuou com muita energia e vitalidade. Foi
um homem que rejuvenesceu dez anos em vez de envelhecer dez anos.
Segunda, o Brasil mudou de patamar – e o Pão de Açúcar mudou junto.
Então, aquele ativo que valia muito menos em 2005 (6,4 bilhões de reais)
valia muito mais no momento da troca de controle (20,5 bilhões de reais em
junho de 2012). Ou seja, era uma realidade muito diferente da época em que
o contrato foi assinado. Não dava para negar que ele estivesse fazendo um
bom trabalho na companhia. E aí talvez o Abilio tenha olhado para trás e
perguntado se precisava mesmo dos franceses para fazer tudo o que fez (...).
Depois da reunião na Fazenda da Toca, Naouri designou o francês Arnaud Strasser e o brasileiro Ulisses Kameyama, executivos do Casino e seus representantes no conselho de administração da CBD, para discutir a relação com o sócio brasileiro. Abilio determinou que seus representantes seriam Eduardo Rossi, CEO da Península, e a advogada Renata Catelan, que ocupava o posto de secretária do conselho. “Já no primeiro diálogo foi um desastre. Eles foram arrogantes, prepotentes, agressivos, indelicados”, recorda Abilio. Pouco depois, o empresário brasileiro decidiu colocar Pércio de Souza à frente das negociações.
Em paralelo, Abilio pôs em marcha outro plano, que por meses seria tratado sob sigilo: o de comprar a rede francesa Carrefour. A segunda maior varejista do mundo enfrentava sérias dificuldades, causadas principalmente pela crise econômica que a Europa – seu principal mercado – atravessava. O faturamento global em 2011 cairia 10% e o lucro recuaria quase 40%.
Em parte inspirado nos amigos Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, que compraram a combalida Brahma em 1989 e por meio de uma série de aquisições e fusões tornaram-se controladores da AB InBev, a maior fabricante de cerveja do mundo, Abilio queria agora participar do que chamava de “campeonato global”. A ideia era unir as operações do Pão de Açúcar e do Carrefour no Brasil. Seria criada uma holding que controlaria as operações de ambas as varejistas no país e se transformaria na segunda maior acionista individual do Carrefour na França. Abilio deixaria de ter atuação exclusivamente no Brasil e passaria a ser um sócio relevante numa companhia com representação mundial.
A operação sugerida por Abilio e seu time teria mais uma consequência: diminuiria a participação do Casino no capital da nova empresa para 27% e afetaria sua tomada de controle em 2012 (Abilio jura que esse efeito colateral não era sua principal motivação). Como fez antes, enquanto negociava a compra de outras empresas como Ponto Frio e Casas Bahia, Abilio não informou Jean-Charles Naouri da iniciativa. Ele apresentaria a operação para aprovação do sócio apenas no momento em que estivesse tudo encaminhado:
Quando comecei a fazer o negócio do Carrefour, eu sempre tive na
cabeça que, no momento em que eu levasse tudo lá para ele (Naouri), ele ia
dizer: “Uau, que bacana!” Ia ficar puto num primeiro momento: “Pô, por
que não falou antes?” Mas em seguida ia perceber que o negócio era bom.
Daria um palpite aqui, outro ali e pronto. E depois seria festa no céu. Essa
era a minha ideia, o que eu imaginava que iria acontecer. Não sou burro.
Sabia que se o Jean-Charles não assinasse não ia ter negócio.
A primeira vez que Abilio conversou com um acionista do Carrefour sobre um eventual negócio foi em 20 de julho de 2009. Pércio de Souza telefonou para Pierre Bouchut, ex-executivo do Casino que ingressara no Carrefour como CFO em março daquele ano. Bouchut organizou um almoço no restaurante do hotel Four Seasons de Milão do qual participaram Abilio, Pércio e Sébastien Bazin, então responsável pelos investimentos europeus do fundo Colony (o empresário Bernard Arnault, dono do conglomerado de luxo LVMH, e o Colony eram sócios na holding Blue Capital, controladora do Carrefour).
O pretexto do almoço era o futebol – o Colony acabara de comprar o Paris Saint-Germain e Abilio é um fervoroso admirador do esporte. “Falamos cinco minutos sobre futebol e depois entramos no assunto que realmente interessava”, admite Abilio. Pego desprevenido, Bazin mais ouviu que falou – e ao longo de meses pouco se avançou.
Foi em outubro de 2010 que as conversas entre Pércio e representantes dos principais acionistas do Carrefour engrenaram (o banco Lazard seria contratado para negociar em nome dos acionistas franceses). A Estáter desenharia, a partir de então, mais de uma centena de versões para um possível negócio entre Pão de Açúcar, Carrefour e Casino. Simultaneamente, Abilio contratou consultores que avaliaram as sinergias entre as empresas. Entre eles estavam Marcos Gouvêa de Souza e a Tendências, que tem entre os sócios o ex-ministro e ex-conselheiro do Pão de Açúcar Maílson da Nóbrega.
Faltava encontrar quem financiasse a operação. Em agosto de 2010, Abilio esteve na sede do BNDES a convite do presidente do banco, Luciano Coutinho. Acompanhado de um pequeno grupo de executivos do Pão de Açúcar, fez uma apresentação do cenário do varejo no Brasil. O BNDES estava então dedicado a uma franca defesa de uma política de criação de “campeãs nacionais”. Segundo Abilio, ao final do encontro, Coutinho teria lhe dito que, se precisasse de alguma coisa, poderia contar com o banco. Meses depois, Abilio e Pércio se sentariam com o presidente da instituição para sugerir sua participação no negócio. O BNDES topou.
A arquitetura do acordo exigiria ainda um segundo investidor – dessa vez, privado. Pércio de Souza chegou a conversar com Zeca Magalhães, sócio da empresa de investimentos Tarpon (que por anos detivera posição relevante no Pão de Açúcar), e com Gilberto Sayão, fundador da gestora carioca Vinci Partners e ex-sócio do banco Pactual. Em ambos os casos, ouviu que preferiam focar em investimentos no Brasil. Em maio de 2011, um interessado de peso surgiria: o BTG Pactual de André Esteves (o ex-presidente do Pão de Açúcar Cláudio Galleazzi, que havia se tornado sócio do BTG depois de deixar a varejista, foi quem apresentou o negócio a Esteves).
Dois meses antes, num almoço com a presidente Dilma Rousseff e o então ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, Abilio comentou que estava negociando com o Carrefour. Abilio se tornara próximo de Dilma em 2010, quando foi o primeiro grande empresário a apoiar sua candidatura à presidência. “Dilma ficou encantada com a ideia”, lembra Abilio. “Falei por alto como seria, que ainda era sigiloso, exigiria uma negociação grande pela frente e que o BNDES estaria junto.” Cerca de dois meses depois desse almoço, Dilma Rousseff anunciou a criação da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade, uma iniciativa de levar para a esfera pública modelos e práticas de gestão do setor privado. Representando o empresariado, compunham a câmara Jorge Gerdau, presidente do conselho de administração da siderúrgica Gerdau; Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras; Antonio Maciel Neto, então presidente da Suzano e hoje principal executivo do Grupo Caoa; e Abilio Diniz (a câmara seria desativada em setembro de 2014). Discretamente, parecia que o Planalto tinha dado a bênção para que Abilio levasse seu plano adiante.