Antes que Você Diga Sim
Treze
— Foque na madrinha e não na noiva. Entendeu?
Jordan se levantou, esticando os braços.
— Esse final de semana será só trabalho. Abby vai se casar em menos de quinze dias. Pas de problème, como dizem os franceses. Esse é a despedida de solteira dela, e eu estarei lá para me certificar de que será inesquecível.
Karen ficou de pé, caminhou até Jordan e pressionou a sacola de lingerie contra o peito dela.
— Isso, minha linda amiga, é o que me preocupa.
Treze
ABBY SUBIU AS ESCADAS até a porta do avião. Era um jato particular, diferente do que estava acostumada, e a porta ficava localizada ao fundo. Foram recebidas pelo comissário, Gavin, e a piloto, Michelle. Os dois tinham mais ou menos a sua idade e os uniformes eram impecáveis. A mulher até usava um quepe. Gavin tinha sobrancelhas perfeitamente desenhadas.
— Espero que aproveitem o voo — Michelle disse com um sorriso aberto quando apertou sua mão.
Abby tinha certeza de que não aproveitaria. Seu estômago estava apertado quando embarcou, a náusea era uma companheira constante.
Também estava se sentindo tonta. Nunca havia deixado que seu medo de voar a impedisse de entrar em um avião, mas nunca era uma ocasião feliz.
Suas férias ideais seriam em algum lugar do Reino Unido. Ou onde pudesse chegar de barco ou trem. Amava o Eurostar. Tentou persuadir Marcus a irem a Paris na lua de mel, mas de nada adiantou. Ele queria ir às Maldivas.
Achava que era um destino que todos queriam conhecer.
Nos poucos voos que estiveram juntos, o noivo se adiantava ao embarcarem. Ele sufocava Abby, perguntando se ela estava bem o tempo todo. Não entendia que ela precisava de espaço, e uma preocupação sutil.
Não compreendia que poderia tornar a decolagem e a aterrisagem mais fáceis só segurando sua mão e ficando ao seu lado.
Ele não a entendia.
Afastou esse pensamento, e então voltou a focar em Michelle: cabelos compridos e escuros, com cílios longos e escuros para combinar. Seu estômago estremeceu quando apertou a mão da mulher.
— Obrigada — disse. — Acho legal termos uma mulher pilotando para o final de semana da despedida de solteira.
Nunca havia encontrado uma piloto antes, e era empolgante. Mas seja lá qual o gênero do profissional, a regra principal de Abby ainda era uma só: nos leve até lá nosso destino em segurança e não nos deixe morrer.
Quando se virou para encarar Delta, quase não conseguiu conter a risada. A amiga estava boquiaberta. Pela sua expressão, estava tentando não
gritar de animação.
Abby não a culpava. Quem não achava que pilotos eram sensuais?
Conforme andaram pelo corredor do avião com duas fileiras de assentos, Abby viu o que havia Bolinhos da Tunnock’s e uma lata de Irn-bru, uma bebida a base de cafeína, popular na Escócia, em cada assento.
Sentiu a alegria borbulhar no peito. Olhou para Jordan, que estava ocupada checando o celular. Abby sentia que madrinha profissional estava estranha ultimamente. Parecia mais fria que o normal. Distante. Não deveria se preocupar muito. Talvez ela tivesse dormido mal. Ou só estava preocupada com o final de semana.
Provavelmente, era só isso.
Afastando o pensamento, olhou para Delta, que abriu um sorriso gigante.
— Foi você? — Abby segurou o bolinho e a lata de bebida.
Delta negou.
— Não. Foi tudo ideia da outra madrinha. A que te conhece há mais tempo. — Inclinou a cabeça na direção de Jordan, erguendo a sobrancelha.
A moça passou por Abby e colocou a bagagem de mão no compartimento superior, já que estavam na primeira fila, antes de se virar.
A noiva ainda estava segurando as lembranças escocesas da sua infância.
Pela primeira vez naquele dia, Jordan abriu um sorriso.
Droga, ela tinha dentes brancos e perfeitos.
— Foi você? — Abby mal conseguia acreditar que sua madrinha falsa havia se dado àquele trabalho. Mal conseguia acreditar que ela sabia desse fato a seu respeito.
Jordan deu de ombros.
— Claro. Não era isso que comíamos o tempo todo na escola em Glasgow? Achei que te traria lembranças do parquinho, de se sentar ao sol e fazer correntes de margaridas.
Abby ficou imóvel, encarando-a. Como é que ela sabia disso?
— Como senti falta desses bolinhos — a mãe de Abby disse. — Bem pensado, Jordan!
— Que porra é essa? — Arielle, a prima de Marcus, perguntou.
Gloria tampou boca da moça em resposta.
— Isso, minha querida, é nossa herança escocesa. Uma bebida a base de cafeína e bolinhos de chocolate. Se você não tomou café da manhã, é perfeito. Tem tanto açúcar que vai ficar tremendo depois.
Arielle não pareceu convencida.
Abby olhou ao redor, o resto do grupo segurando os presentes de Jordan.
— Você é muito boa nisso, sabia? — Ela se inclinou conforme falava, inspirando o cheiro de Jordan. Ela se lembrou do dia em que provou o vestido.
Seus olhares se encontraram, e Jordan ficou imóvel.
— Pesquisei bastante. Quero que nossa história seja infalível. Achei que seria um bom começo.
Abby assentiu.
— É, sim.
Jordan desviou o olhar, e então gesticulou para o bagageiro.
— Quer ajuda para colocar sua mala lá em cima?
Abby entregou sua Louis Vuitton. Jordan a guardou antes de se virar para ela com uma expressão confusa.
— Você vai se sentar ao meu lado?
— Se estiver tudo bem por você, sim. — Tinha decidido que a mãe e Delta poderiam ficar do outro lado, assim as quatro pessoas mais importantes estariam na frente e em evidência.
— Como quiser, o final de semana é seu.
E lá estava de novo. A Jordan profissional. Não a garota feliz e cheia de sorrisos.
Ela estremeceu. Provavelmente estava pensando demais nesse assunto.
— Couro branco. Coisa de celebridade, não é? — Gloria acariciou os assentos e sorriu. — Viu o banheiro? É enorme para um avião. É três vezes maior que o normal e bem luxuoso.
— De quem é esse jato? — A pergunta veio de Delta, que olhava de soslaio para Jordan.
— De um amigo da família Montgomery. Eles nos emprestaram junto com a tripulação. Tem algumas vantagens de se casar com alguém rico. —
Não seria um voo cheio, já que elas ocupariam só dez dos trinta lugares.
Mas Michelle disse que pegaria um grupo de 25 mulheres em uma
despedida em Cannes e as traria de volta. Isso fez com que Abby se sentisse melhor sobre o meio ambiente.
— Vai ter champagne também?
Abby sorriu.
— Vai ter o que você quiser. Você é a mãe da noiva.
Gloria aplaudiu.
— Estou tão animada. — Ela se inclinou para frente, pendendo do assento. — Você vai ficar o voo todo arrumando sua planilha, Jordan? Dei uma olhada quando estávamos tomando café. Nunca vi uma despedida se parecer tanto com uma viagem de negócios.
Jordan sorriu. Era um pouco forçado, mas ainda era um sorriso.
— Abby também ama uma planilha — ela acrescentou. — Vocês duas foram feitas uma para outra.
A mãe nunca ia parar de envergonhá-la, não é?
— Só estou tentando fazer com que tudo corra bem, Gloria — Jordan respondeu. — Mas não pense que a sua ajuda e a da Delta até agora não tiveram um impacto enorme em todo o planejamento.
Abby reprimiu um sorriso. Quando Jordan entrava no modo “charme ofensivo”, era uma das melhores que Abby já havia visto. Como será que ela era quando estava interessada em uma mulher? Será que também tinha uma planilha? Ou era tudo na base do instinto e atração?
Olhou para Jordan de relance, a atração em pessoa dando um tapinha no seu ombro. Abby deu um pulo e desceu pelo corredor do avião, se certificando que todas as convidadas estivessem bem.
Sua prima, Taran, estava sentada ao lado de Nikita, uma velha amiga.
Depois delas, as primas de Marcus, Arielle e Martha, e suas amigas da faculdade, Erin e Frankie. Ao todo, dez convidadas. Não era uma grande festa. Já havia participado de algumas com mais de vinte pessoas, e prometeu a si mesma que não faria isso. Uma noite de festas em Londres, em um bom restaurante já serviria, mas Marcus e Marjorie insistiram nisso, pensado no avião, na casa, nos contatos... e em Jordan, é claro.
Ela voltou ao seu lugar e se sentou.
— Tudo certo? — A moça perguntou, como se estivesse notando Abby pela primeira vez no dia.
Abby concordou, sentindo os arrepios percorrerem a sua pele. Isso era bem inconveniente. Ficar perto de Marcus nunca a distraía assim. Ficar ao
lado de qualquer outra pessoa não a distraía tanto quanto Jordan.
— Vai ficar assim que decolarmos. Não gosto muito de voar. Foi uma das razões pelas quais Marcus arranjou esse avião. Para que eu não ficasse tão estressada.
— Está funcionando?
— Te aviso quando estivermos no ar.
Michelle foi até elas antes de parar e se virar.
— Gostaria de se sentar lá na frente durante uma parte da viagem? —
perguntou para Abby. — Você será bem-vinda depois da decolagem.
O estômago de Abby protestou de novo.
— Acho que não — ela respondeu. — Só faça um voo seguro.
Michelle prestou uma continência.
— Farei o meu melhor. E se mudar de ideia, é só avisar.
Abby cerrou os dentes conforme se ajeitou novamente na cadeira. Só o pensamento de ir até a cabine fazia com que seu coração acelerasse. Ver o céu inteiro e observar como o avião desafiava a gravidade só pela vontade de um piloto amigável? Tinha certeza de que isso só pioraria seu nervosismo. Segurou o assento com força e fechou os olhos. Ficaria tudo bem. O avião não ia cair com ela e todas as pessoas que mais amava.
Apesar de que, se caísse, não precisaria se casar com Marcus.
Abriu os olhos de repente, se inclinando para frente e segurando o peito. De onde saiu esse pensamento? Respirou fundo e notou que Jordan a encarou, preocupada.
— O que aconteceu? Você está bem? Deu um pulo de repente.
Abby assentiu.
— Estou bem. Só nervosa.
Ela não estava questionando esse casamento.
Não mesmo.
Não estava questionando nada.
O olhar preocupado de Jordan não desapareceu.
— Queria que tivesse me dito isso antes. Teria trazido algo para te ajudar a relaxar.
Abby inclinou a cabeça.
— Tipo o que?
Jordan fez um bico.
— Sei lá. Um Rivotril?
— Isso não é ilegal?
Jordan deu de ombros.
— Se você quisesse um, eu arrumaria.
— Agora é tarde demais. — Ela fez uma pausa, olhando para os fundos do avião. — Acho que uma bebida ajudaria.
Jordan tirou o cinto de segurança.
— Vou pegar algo para você.
Ela colocou o laptop no compartimento de cima.
— Você não deveria ficar com o cinto? — Abby perguntou.
— Não tem problema. — Jordan se adiantou para o corredor.
Ela engoliu em seco. Fechou os olhos.
Uma mão em seu braço fez com que estremecesse. Abriu os olhos conforme o avião começava a andar.
Seu estômago revirou novamente.
— Você está bem, amor? Sei que não é sua parte favorita. — Os olhos verdes da mãe estavam bondosos, como sempre.
Abby assentiu.
— Vou ficar assim que estivermos no ar. Além do mais, a Jordan foi pegar uma bebida para mim. Acho que vai ajudar.
Gloria se virou no assento, olhando para o fundo do avião.
— Como é que você ficaria sem a Jordan?
Abby não sabia.
Instantes depois, a moça voltou ao seu assento, prendendo o cinto de segurança. No corredor, Gavin as cumprimentou e começou a repassar as instruções de segurança.
Abby olhou para Jordan.
A moça sorriu para ela e colocou algo em sua mão. Ela se inclinou e os lábios quase encostaram em sua orelha.
— Não sabia o que você gosta, então peguei garrafinhas de vodca e uísque. As duas vão te ajudar a relaxar e acalmar os nervos. Só precisa tomar de forma discreta, já que, em teoria, não é permitido beber agora.
O cérebro de Abby processou as palavras, e ela assentiu. Tentou ignorar a bagunça que a respiração quente de Jordan fez em seus sentidos, mas não conseguiu. Esperou que Gavin demonstrasse como encher o colete salva-vidas e localizar a luz de emergência.
Quando terminou, Abby engoliu a vodca, estremecendo conforme o álcool aplacava seu paladar. Tentou não pensar em como a vodca parecia descascar suas entranhas, e em vez disso, tentou focar na dormência que começou a tomar seu corpo. Colocou o uísque na bolsa e tentou se lembrar de como precisava prender o colete salva-vidas na cintura. Quem estava tentando enganar? Se o avião caísse, ela já era.
— Gavin, volte para o assento — Michelle falou pelo sistema de comunicações. O comissário desapareceu.
Pronto, estavam prestes a decolar. A pior parte de voar para Abby. Ela apertou o cinto de segurança para garantir que estava segura, e depois olhou para Jordan.
A moça sorriu para ela e segurou sua mão.
Abby quase parou de respirar, com os olhos fixos nas mãos entrelaçadas antes de decidir que a sensação era demais. Fechou os olhos com força.
— Espero que todos estejam prontos para voar, porque nossa pista está à vista. Que todos tenham um bom voo — Michelle terminou e desligou o sistema de comunicação.