Antes que Você Diga Sim
Vinte e cinco
— Ah, Abby, espero que sejam lágrimas de alegria! — Maisy, a chefe do escritório, falou.
Abby assentiu.
— Claro! — respondeu. — Bolo sempre me faz chorar!
Neil passou um braço pelo seu ombro e o apertou.
— Achamos que esse era o momento perfeito. Você será a líder do nosso próximo grande projeto e vai se casar. É uma época perfeita da sua vida. Achamos que era a hora de um parabéns. — Ele olhou para o resto da equipe, e todos estavam sorrindo. — Uma salva de palmas para Abby por ser fantástica!
As palmas eram ensurdecedoras.
Abby ainda estava chorando.
Vinte e cinco
NEIL INSISTIU PARA que Abby fosse para casa mais cedo, então ela chegou antes da hora em casa. Na cabeça dele, provavelmente a estava preparando para o futuro, onde longos dias e noites viriam, e estava aproveitando para lhe dar uma folga de algumas horas. Seja lá qual fosse o motivo, Abby estava grata, mas não poderia ter sido mais absurdo entrar em seu prédio carregando um bolo enorme escrito parabéns. Bem, já tinham comido metade no escritório. Agora, havia apenas as letras “Para”.
Naquele momento, nada parecia valer uma comemoração.
Colocou o bolo no balcão da cozinha, foi até o sofá e se afundou nele.
Não era bem a contagem regressiva para o grande dia que havia lido nas revistas. Mas tinha quase certeza de que nenhuma das noivas dessas revistas transou com a madrinha. Ela se inclinou para frente e pegou a Noiva Perfeita da pilha da mesa de centro. Ela a comprou logo depois que Marcus fez o pedido, determinada a ter um casamento perfeito. Mas logo perdeu o interesse, e Marcus tomou conta dos preparativos. Ele era o noivo perfeito. Merecia a noiva perfeita. Abby ainda podia ser essa pessoa?
O celular tocou com uma mensagem. Jordan.
O tremor familiar atingiu seu corpo. Estava quase acostumada agora.
Precisamos conversar. Estou na sua rua. Qual o número da sua casa?
O coração de Abby deu um sobressalto e foi direto para a garganta quando se levantou do sofá. Caminhou até a enorme janela da sala e olhou para fora. Jordan estava do outro lado da rua, olhando em volta e para o celular, trocando o peso de um pé para o outro. Abby não conseguiria evitá-la ali fora.
Então a madrinha olhou para cima, e seus olhares se encontraram.
O coração de Abby explodiu de alegria. Que traidor.
Não era essa a pessoa com quem ela estava se casando. Precisava se conter, aceitar a promoção no trabalho e se tornar a sra. Montgomery. Tudo estava organizado. Devia isso a si mesma. Além disso, se casar com Marcus
não era um plano ruim. Para todas as outras pessoas no mundo inteiro, era o melhor plano do mundo.
Ela precisava colocar tudo em perspectiva.
Mas Jordan estava certa. Conversar a ajudaria a colocar a cabeça no lugar.
Abby apontou para a porta da frente e respirou fundo. Ajeitou algumas almofadas no sofá, apesar de ter quase certeza de que Jordan não estaria preocupada com isso. Então correu para o espelho e ajeitou o cabelo. Ainda estava vestida com a roupa do trabalho. Um vestido vermelho era uma boa armadura? Duvidava. Os olhos ainda estavam inchados, mas retocou a maquiagem no trabalho. Fez o melhor que pôde.
Quando abriu a porta, qualquer sentido racional a deixou. Como ela achava que podia pensar em qualquer coisa quando Jordan estava de perder o fôlego? O cabelo era como o verão pintado na cabeça. Os lábios, perfeitos para serem beijados. Abby se lembrava de ter feito exatamente isso. Queria se aproximar e fazer de novo.
Era tudo o que queria fazer.
Mas em vez disso, se afastou.
Jordan apertou os lábios.
— Entre — Abby disse.
Receber Jordan em seu apartamento era estranho. Ela não parecia se encaixar. Era o lar de Abby. Não tinha a ver com ela, Marcus ou qualquer outra pessoa. O apartamento era o seu santuário, mas Jordan não a deixava calma. Não quando o jeans abraçava sua bunda daquele jeito.
— Sente-se, por favor.
Jordan se sentou na beirada do sofá.
— Como me encontrou?
— Você me disse que morava na rua Charity, então só olhei no mapa.
Abby engoliu em seco.
— Você lembrou.
Jordan encontrou o seu olhar.
— Faz pouco tempo. Eu me lembro de tudo.
Abby estremeceu sob o olhar dela. Também se lembrava.
— Quer chá? — Não tinha ideia do que estava falando. Estava no piloto automático.
Jordan balançou a cabeça.
— Precisamos conversar. Então quando você terminar de ser educada, por favor, venha se sentar no sofá comigo.
Jordan estava sendo firme. Mandona. Não estava ajudando a diminuir o desejo de Abby. Se tivesse aparecido chorando, isso talvez a afastasse.
Mas dessa vez, não estava funcionando.
Abby fez o que lhe foi pedido.
Jordan a encarou. Não era um olhar carinhoso. Ou carregado de desejo. Era um olhar duro e sério.
Endireitou a postura, tentando ficar no mesmo patamar.
— Você ignorou todas minhas ligações e mensagens.
— Mandei mensagem para cancelar o almoço.
Jordan não podia negar isso.
— Só uma vez — ela disse. — Mas isso não diz respeito a nós, Abby, ou o que aconteceu no final de semana. Também tem a ver com o meu trabalho. Minha reputação profissional. Não posso largar tudo no seu casamento tão perto da linha de chegada. As pessoas podem comentar.
Então, mesmo que não queira mais nada comigo, ainda temos que decidir o que fazer em termos profissionais. Ou continuamos e chegamos ao fim, ou concordamos em romper os laços e inventamos uma mentira.
Abby concordou. Tudo que Jordan estava dizendo fazia perfeito sentido. Ainda assim, não a impedia de se sentir como se estivesse sendo rasgada ao meio de dentro para fora.
Mas precisava fazer a coisa certa.
Só não sabia o que era.
Todos diziam que Marcus era o melhor para o seu futuro.
Eles não poderiam estar errados, poderiam?
— Eu sei. Só estive ocupada desde que voltamos. E o Marcus passou a noite aqui.
Por que ela disse isso? Eles nem tinham transado.
Tarde demais.
O lábio de Jordan estremeceu, mas o resto do seu rosto ficou duro como pedra. Seus olhos pareceram enevoar. Do azul claro, agora eram como tempestades.
Seu estômago se apertou. Não queria causar nenhuma dor a Jordan, mas não sabia como evitar isso.
— E então fui para o trabalho e ganhei uma promoção. Aquela que comentei com você.
Jordan assentiu.
— Parabéns.
— Obrigada. — Abby se sentia vazia. — Depois, a equipe comprou um bolo de comemoração. O Marcus vai passar aqui às seis para irmos jantar com os pais dele. — Ela levantou as mãos. — Não estive te evitando, Jordan, mas não posso mudar o rumo da minha vida. É tarde demais. Tudo está seguindo de acordo com o planejado, e não posso impedir isso.
Pensou em segurar as mãos de dela, mas achou melhor que não se tocassem.
Sua garganta estava seca. Será que ainda acreditava no que estava falando? Não importava. Era o que precisava ser dito. Não tinha escolha.
— O final de semana foi um erro. — Ela engoliu em seco. — Vou me casar com o Marcus. Sinto muito que você tenha se magoado no meio disso.
Sinto muito mesmo. Mas não posso dar as costas para a vida que construí nos últimos anos. Para o homem com quem prometi me casar. Para o emprego que batalhei tanto.
Jordan ainda a estava encarando. Então respirou fundo, se levantou e foi até a janela. Onde o coração de Abby parecia ter explodido quando a viu. Não podia pensar nisso.
— E tudo que falamos em Cannes? — Jordan perguntou, se virando.
O olhar da moça parecia congelar Abby no lugar.
— Sobre você ter uma nova carreira? Sobre se apaixonar por mim?
Esqueceu tudo isso? Você é capaz de se esquecer do que aconteceu entre nós?
Abby também ficou em pé.
— Não posso mudar minha vida inteira por causa de uma transa.
Assim que as palavras saíram de sua boca, ela desejou pegá-las de volta. Trancá-las em um lugar e deixar em uma estante, onde ninguém mais as ouviria ou veria. Mas não podia. As palavras já haviam saído e pareciam ter perfurado a alma de Jordan. Abby podia ver pelo jeito que seu rosto se desmanchou.
— Me desculpe. — Abby estremeceu. — Isso soou errado.
Jordan balançou a cabeça.
— Você está certa. Foi só uma transa. Só uma aventura no avião.
Quem é que mudaria a vida por isso? Eu, não.
Abby queria erguer a mão, mas a manteve firme ao lado do corpo. Não podia arriscar.
Jordan cruzou os braços.
— Mas isso ainda nos deixa com o problema do que fazer com relação ao casamento. Também estou planejando a cerimônia agora. Não posso largar tudo. Talvez possa ficar um pouco nos bastidores. Eu te entrego uma lista do que precisa ser finalizado. Talvez a Delta possa organizar essa parte.
A ideia de não ter Jordan lá era tortura, mas sabia que estava sendo injusta.
— Alguma chance de você ainda estar presente? Se for por causa do dinheiro, eu posso pagar mais.
Uma expressão de desgosto cruzou o rosto de Jordan.
— Sério? Não tem a ver com dinheiro, Abby. Nunca teve. Ao menos, não da minha parte.
Ela olhou para o chão e mordeu o lábio. Não era aquilo que queria dizer.
— Não há nada que eu possa dizer para te convencer? Sei que o Marcus apreciaria. A Marjorie também. Todo mundo te amou no final de semana, Jordan.
— Eu sei. Alguns mais do que outros.
Abby se sentia vazia.
— Sinto muito sobre como as coisas ficaram, mas por favor, pense um pouco sobre isso? Se quiser ir embora, eu entendo. Vou fazer com que o Marcus pague até o fim, como combinamos. Mas, por favor, pode ficar para ajudar nesses últimos dias? Se não for por mim, pelo Marcus? Não sei como eu poderia explicar de outra forma. Prometo que ele vai falar de você para todo mundo que encontrar.
***
Jordan queria dar um passo para frente e gritar com Abby. Não tem a ver com negócios ou dinheiro. Tem a ver com sentimentos. Diz respeito a nós. Sobre você não dar as costas para nossa chance!
Mas ainda estava trabalhando e era profissional.
Sempre.
Será que conseguiria terminar esse trabalho? Levar Abby ao altar como tinha prometido a Marcus? Apesar de tudo, gostava dele. Além do mais, ainda queria fazer um bom trabalho. Estava nos seus genes.
A campainha tocou. Ela se virou para um lado, depois para o outro, com pânico completo estampado no rosto. Checou o relógio e xingou baixinho.
— Deve ser o Marcus. — Estremeceu de novo. — Ele chegou adiantado. Melhor eu atender.
Jordan assentiu. Claro que era Marcus. Será que esse dia podia piorar?
O rapaz ainda estava com a roupa do trabalho, assim como Abby.
Jordan precisava admitir que eles faziam um par corporativo perfeito.
Sempre fizeram.
O problema era que Abby disse que estava apaixonada por ela. E
agora, estava voltando para o plano original e se casando com Marcus.
Sentimentos não mudavam assim rapidamente. Jordan sabia muito bem disso.
Engoliu em seco, colocando um sorriso no rosto, que esperava enganá-lo. Por fora, parecia normal. Por dentro, seu coração estava se partindo lentamente.
— Jordan! Como você está? — Marcus se aproximou, oferecendo a mão.
Ela apertou.
— Bem. Como foi o final de semana?
Ele abriu um sorriso.
— Você sabe. Bebida, mulheres, vinho... E o seu?
— Incrivelmente parecido — ela respondeu, encontrando o olhar de Abby.
A noiva desviou o olhar.
— Agora que já passamos por isso, podemos nos concentrar na última semana. Menos de uma semana para o grande dia. — Ele esfregou as mãos.
— Você está ajudando a Abby com o discurso, não está?
Abby balançou a cabeça, finalmente entrando na conversa.
— A Jordan já fez mais do que o necessário. Consigo escrever meu discurso sozinha.
— Mas ela é uma profissional! — Marcus apontou para a moça. —
Aposto que tem diversas piadas que vão garantir o riso, certo?
Jordan assentiu.
— Tenho, sim. — Ela cerrou os dentes, ainda sorrindo.
Marcus cutucou Abby com o cotovelo.
— Pegue algumas dicas. Se você não fizer isso, eu vou.
Abby arregalou os olhos.
— Ela é minha madrinha, não sua. Vou pegar as dicas, sim. — Ela encarou Jordan e depois desviou o olhar mais uma vez.
A moça se manteve impassível. Que tipo de dicas Abby estava planejando receber exatamente?
— E você vai ao jantar de ensaio na sexta?
Jordan franziu o cenho. Tinha se esquecido disso. Estava na planilha, é claro. Mas desde que voltaram, se esqueceu de tudo que deveria estar fazendo para esse casamento.
Na semana mais importante.
Não podia largar tudo agora, não é? Seria estranho. Havia prometido a Marjorie que estaria no ensaio. Prometeu para todos. Será que conseguiria?
Seu corpo tensionou com o peso do olhar de Marcus.
— Não tenho certeza. Estava falando para a Abby agora que surgiu algo. — Odiava mentir para ele.
O rosto de Marcus se tornou triste.
— Sinto muito. Podemos fazer algo para ajudar? Nós dois queremos que você esteja lá, claro, mas você tem que se certificar de que está tudo bem com você primeiro.
Ele realmente era o homem mais legal do mundo. Todo o seu carinho fazia com que Jordan se sentisse terrível.
Poderia cuidar desses últimos dias. Abby queria que ela fizesse isso.
Marcus também. E se quisesse que os negócios continuassem andando no futuro, precisava continuar.
— Esqueça o que eu disse, estarei lá. Vou dar um jeito. — Jordan mexeu os ombros. — Temos que nos certificar de que a noiva chegue no altar, não é? Está no meu contrato.
Marcus sorriu.
— Fantástico. Mas espero que ela suba por vontade própria, não porque você a está obrigando!
Jordan olhou para Abby, cujo rosto estava congelado em uma máscara que não sabia exatamente decifrar. Seria torturante mas eram só mais cinco dias. Depois disso, Marcus e Abby estariam casados, ela poderia receber seu pagamento e ir afogar as mágoas. Pelo menos, havia aprendido alguma coisa com esse fiasco: nunca mais se aproximar tanto da noiva. Nunca baixar a guarda.
— Será um prazer me certificar de que tudo vai correr do jeito que você quer para o seu grande dia.