Antes que Você Diga Sim
Um
Vinte e três
Vinte e quatro
Vinte e cinco
Vinte e seis
Vinte e sete
Vinte e oito
Vinte e nove
Trinta
Trinta e um
Trinta e dois
Trinta e Três
Epílogo
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Um
JORDAN COHEN MEXEU o ombro esquerdo apenas alguns milímetros. Depois, mais um pouco. Ela não poderia arriscar se mexer demais. Droga, esse era um momento muito inapropriado para sentir coceira na clavícula. Em pé e de frente para cento e vinte convidados, fazendo o papel de madrinha profissional de Emily, sua mais nova cliente.
— É de livre e espontânea vontade que você aceita Max como seu esposo? — o vigário continuou com o discurso.
Jordan segurou o buquê de flores com um pouco mais de força enquanto esperava as palavras saírem da boca da noiva. A coceira foi embora de repente. Isso era mais importante. Olhou para o cabelo perfeitamente penteado de Emily, os brincos de diamantes redondos brilhando sob a luz abafada da igreja. Nem ela poderia estragar o momento, não é?
Alguns segundos se passaram.
Mais alguns.
Alguém na igreja tossiu de maneira inoportuna.
Por favor, Emily.
Jordan olhou para Max, o noivo. Sabia que ele estava pensando a mesma coisa.
Sentiu um calor subir por suas costas, chegando ao pescoço. Acariciou a parte de trás do braço de Emily com a ponta dos dedos.
— Sim — Jordan balbuciou, alto o suficiente para que Emily ouvisse, mas baixo o bastante para que Max não pensasse que era ela quem queria se casar. Isso não poderia estar mais longe da verdade. Emily e Max eram perfeitos um para o outro. Não exatamente um par romântico, mas biologicamente adequados.
Emily se retraiu e virou a cabeça.
Jordan franziu o cenho e fez um gesto para Max, esperando que Emily entendesse que ela realmente precisava responder à pergunta. Era a parte essencial de se casar. Presumiu que ela tivesse entendido. As duas praticaram tudo: andar, sorrir, fazer pose para fotos e até mesmo respirar,
mas acabaram pulando a parte do “Sim, aceito”. Nesse momento, Jordan percebeu que foi otimista.
Emily encontrou seu olhar antes de se virar novamente para o noivo e o vigário.
Jordan cerrou os dentes.
De frente para Emily, Max repetiu as palavras sem som.
Finalmente, após mais alguns segundos agonizantes, ela respirou fundo e abriu a boca pintada de rosa brilhante.
— Sim, aceito — a noiva disse, sua voz ecoando alto e verdadeira.
Quase como se realmente dissesse a verdade.
O alívio tomou a expressão de Max.
Todos os convidados soltaram a respiração.
Jordan relaxou os ombros.
Ela conseguiu. Conseguiu fazer com que Emily chegasse ao altar, acalmou todos os seus anseios matrimoniais e impediu que ela tomasse champanhe demais enquanto estava sendo maquiada. Emily se comprometeu com Max. Essa era a tarefa que sua família deu a Jordan quatro semanas atrás. A taxa por ser a falsa madrinha de casamento não dependia de a noiva chegar ao altar, mas com certeza tornava muito mais fácil enviar a cobrança.
— Eu vos declaro marido e mulher — o vigário disse. — Pode beijar a noiva!
Jordan voltou sua atenção ao presente. Abriu um sorriso radiante para a câmera, algo que dizia que esse casamento foi fácil. Então empurrou os cabelos loiros na altura dos ombros para trás, endireitou a postura e alisou o vestido verde-claro como se fosse a melhor coisa que já vestiu.
Não era. Não tinha forma e fazia com que ela parecesse um ramo de salsão.
Jordan mal podia esperar para tirar tudo, colocar seu jeans e ir para o bar tomar uma taça de Sauvignon Blanc com os amigos.
Isso ainda estava nos planos. Só dali oito horas. Primeiro, tinha que aguentar o jantar, os discursos, e as danças até o fim. Pelo menos, não faltava muito.
Conforme Max se inclinou e tomou o rosto de Emily nas mãos, Jordan se permitiu um sorriso verdadeiro. Certo, ela era cínica no que se referia a amor, mas essa parte sempre a enchia de esperança. O casamento era o
começo de algo, uma página em branco em um relacionamento. Até para Emily e Max.
O casal se beijou, e os convidados aplaudiram. Jordan olhou para o padrinho, Rob, do outro lado do altar, e ele lhe devolveu um sorriso deslumbrante. Ela não o conheceu antes, o que era incomum. Talvez ele também fosse um padrinho profissional. Max disse que o homem estava ansioso para acompanhá-la até a pista de dança depois, como mandava a tradição. À medida que o sorriso de Rob se transformava em uma piscadela sugestiva, Jordan fixou o sorriso. Por dentro, revirou os olhos.
Agora tinha mais uma coisa na sua lista de afazeres.
Primeiro, garantir que Emily não ficasse bêbada demais e caísse de cara no chão.
Segundo, fazer o máximo para encantar o pai da noiva, pois era ele quem estava pagando a conta. Talvez até ganhasse um extra se escolhesse bem suas jogadas.
Terceiro, dizer ao padrinho que ela jogava no outro time.
***
Jordan entrou com seu Ford Capri surrado na vaga em frente ao prédio em Brighton e desligou o motor. Ficou sentada ali por alguns instantes, ouvindo o som de um quarteto de beberrões que estava saindo do Rusty Bucket, o bar que ficava ali perto. Abriu a bolsa e alisou as notas que o pai da noiva colocou em sua mão no momento em que estava indo embora.
Uma gorjeta de mil libras. Também ganhou um abraço bêbado e catarrento da noiva, que deixou uma mancha no seu vestido, e um suspiro de resignação do padrinho quando percebeu que seu sorriso triunfante não funcionaria dessa vez.
Um estrondo no teto do carro fez com que ela pulasse. Jordan se virou tão rápido que sentiu a base do pescoço estalar. Uma pontada de dor veio em seguida. Ela gemeu enquanto sua melhor amiga e colega de apartamento, Karen, sorriu abertamente pela janela do lado do passageiro.
Ela fazia um movimento de manivela com a mão, como se o carro de Jordan não tivesse vidros elétricos. E não tinha mesmo.
Jordan se inclinou, com o rosto ainda franzido devido ao espasmo muscular. Alcançou a manivela e girou algumas vezes. O som que fazia
jamais poderia ser descrito como “saudável”.
O canto da boca de Karen formou um meio sorriso antes de ela falar:
— Oi, colega de apartamento que não vi a semana inteira. Pergunta: por que está sentada aí como uma esquisitona?
— Porque sou uma esquisitona?
— Isso eu já sei. — A amiga se inclinou um pouco mais, apoiando as duas mãos no vidro semiaberto do Capri.
Jordan ficou olhando, torcendo para que ela não se apoiasse demais. O
carro era um pedaço de história viva, e como tal, precisava de todo o cuidado do mundo.
— Por que está segurando o pescoço assim?
— Porque ele acabou de estalar daquele jeito estranho.
Karen inclinou a cabeça.
— É porque você trabalha demais e seu corpo está tenso. Você precisa relaxaaaaaaaar. — Conforme pronunciava a última palavra, Karen balançou a cabeça de um jeito sonhador, como se seu pescoço nunca tivesse estalado.
— Casou mais alguma idiota rica hoje?
— Minha missão foi concluída sem nenhum contratempo. — Jordan virou o pescoço com cuidado. Não sentiu dor. Se lembrou do escândalo de Emily um pouco antes da cerimônia começar. De como havia resolvido tudo e tranquilizado a noiva, dizendo que o casamento sobreviveria.
Jordan trabalhava há tempo demais nesse ramo.
Chavões e mentiras saíam dos seus lábios como se fossem confete.
— Se ajudar, você está linda nesse vestido. — O olhar de Karen percorreu o corpo de Jordan. — E quando digo linda, quero dizer como uma mancha verde esquisita. Que cor é essa? Aipo chique? Adorei a flor no cabelo.
Jordan arrancou o enfeite da cabeça. Estava com tanta pressa de ir para casa que se esqueceu de tirar.
Karen sorriu para ela, confiante.
— Vá se trocar e venha para o Bucket. Vou te pagar uma bebida.
Quem sabe a mulher dos seus sonhos não está te esperando essa noite?
Isso fez com que Jordan sorrisse.
— Sim, porque há uma fartura de lésbicas bonitas no Bucket. —
Olhou para o relógio. Nove da noite. Estava trabalhando desde às sete da manhã. Não era à toa que estava cansada.
— Nem tente olhar para o relógio e inventar uma desculpa. Quase não te vi o mês todo porque você estava ocupada demais casando Emily e Max.
Agora acabou, e é hora de relaxar. — Karen se endireitou, então deu dois tapinhas no teto do carro.
— Ei! — Jordan gritou. Quantas vezes já não disse para a amiga não fazer isso?
O rosto de Karen voltou a aparecer na janela, as mãos apoiadas no vidro novamente.
Jordan se inclinou para frente.
— Um pouco mais de respeito com Capri Carrie, por favor. — Ela deu um tapa na mão da amiga.
Karen deu um passo para trás, sem desviar os olhos.
— Se você me amasse tanto quanto ama esse carro... — Ela inclinou a cabeça. — Por favor, me obedeça. Venha beber comigo. Você precisa se lembrar da vida real e dos seus amigos de verdade. Não desse mundo de faz de conta em que vive quando é contratada para ser madrinha profissional de um rico qualquer.
Jordan respirou fundo e então concordou.
— Tudo bem. Te vejo no bar em quinze minutos. Peça um vinho. A maior garrafa que eles tiverem.
Karen sorriu.
— Essa é a minha garota.
Ela deu outro tapa no teto antes de voltar para o bar e acenar para a amiga.
Jordan pegou o celular da bolsa, que estava no banco do passageiro, e o ligou. O aparelho acendeu. Havia um novo e-mail. Deveria deixar para amanhã, ir para casa e depois para o bar. Mas nunca fazia isso. Ser sua própria chefe era estar sempre disponível. Então ela o abriu.
Encarou a foto do e-mail. Quem quer que fosse, era a definição do dicionário de mulher bonita.
Seus olhos desceram pela mensagem, procurando um nome para corresponder ao rosto. Abby Porter. Trinta e seis anos. Noiva de Marcus Montgomery. Ela tentou se aprumar, mas o vestido tinha tecido demais e enroscou no cinto de segurança. Merda de roupa. Quanto antes conseguisse tirá-lo, melhor.
Jordan acendeu a luz do painel e olhou para o e-mail novamente.
Abby Porter tinha cabelo longo, escuro, brilhante e olhos cor de mel.
As maçãs do rosto eram marcantes, assim como a posição de sua cabeça.
Como se estivesse dizendo “foda-se” para o mundo. Não parecia estar saltitando de felicidade para se casar com Marcus. Porém, a foto parecia profissional, provavelmente tirada antes que ele fizesse o pedido. Uma foto de trabalho talvez. Se Jordan tivesse que adivinhar, diria que Abby trabalhava com algo relacionado a marketing. Gerente de marcas ou chefe de departamento. Abby Porter parecia saber o que queria, e que normalmente conseguia exatamente isso.