Antes que Você Diga Sim
Dezesseis
— Nem posso culpar a tequila. — Abby fez uma pausa. — A única pessoa, além de você, que sabe que transei com uma mulher é a Delta, e preferia que continuasse assim. Se as primas do Marcus descobrirem, pode chegar até ele. Ou pior, na Marjorie. Ela já tem uma opinião bem ruim da minha pessoa.
Jordan ofereceu um sorriso triste.
— Se transar com uma mulher é a pior coisa que você pode fazer, a Marjorie definitivamente precisa expandir seus horizontes. Mas esse segredo está a salvo comigo. Eu te disse isso quando nos conhecemos.
Todas as minhas noivas sabem disso.
Todas as noivas dela.
Porque isso era um trabalho para Jordan.
E nada mais.
Abby precisava se lembrar desse fato.
— Que tal uma corrida? A última que chegar do outro lado faz o café.
Abby sorriu.
— Temos um acordo.
Dezesseis
A embarcação era um super iate. Um pedaço do céu na água.
— Cacete — foi a primeira coisa que Jordan disse quando subiu a bordo, admirando o deque de madeira polida. Já tinha visto esse nível de opulência, mas experimentar isso em um barco ainda era como receber um presente.
Taran veio correndo do deque debaixo, e segurou o braço de Delta.
— Você tem que ver os quartos — ela disse, sem deixar escolha. — É
surreal. O tecido é um luxo! Há muitas almofadas! E tem espelhos em todos os cantos.
Jordan seguiu as primas de Marcus, Arielle e Martha, e parou no deque do meio. O sol já estava quente, e agora conseguia ver a verdadeira extensão do luxo. Além da mesa redonda do lado de fora que acomodava dez pessoas, havia uma sala e um bar que podiam ser acessados através de portas duplas de vidro. Estavam escancaradas, e um barman loiro trabalhava lá.
— É bom eles terem ao menos uma piscina aqui. — Arielle se virou para Martha. — É melhor não repetirmos o desastre que foi a viagem da Cassandra.
Martha estremeceu. Ela apontou para as portas duplas.
— Pelo menos, o barman é gato. O iate da Cassandra não tinha piscina e só havia mulheres trabalhando. Foi a despedida de solteira mais caída de todas.
Jordan já estava sentindo pena de Cassandra.
Subindo mais um lance de escadas, encontraram o último deque.
Gloria estava lá, boquiaberta. Ela gesticulou para que Jordan e Nikita se aproximassem.
— Venham ver isso! — Seu sotaque escocês estava ainda mais acentuado desde que subiu ao navio. — Tem uma piscina! Dentro do barco!
Jordan e Nikita seguiram obedientemente. A água azul brilhava no meio do deque superior, rodeado por sofás e cadeiras. Talvez Arielle e Martha não fossem deixar uma resenha tão ruim sobre o final de semana.
O sol ainda ardia enquanto Jordan se deitava em uma das cadeiras de praia. Era um barco e tanto para dez garotas ocuparem, mas elas tentariam o melhor.
Ao lado de Jordan, Gloria estava expondo sua pele clara escocesa. Ela se sentou ao lado da filha, que herdou o mesmo tom. Se Abby envelhecesse como Gloria, Marcus estaria feito. Gloria estava vestindo um biquíni preto e mostrava pernas torneadas e músculos que chamaram a atenção de todo o grupo.
— Me conte, Gloria. Qual é o segredo para estar tão linda e jovem aos sessenta anos? — Jordan ergueu o celular. — Me conte agora e vou fazer uma live no Instagram para que o mundo aprenda.
Gloria inclinou a cabeça para trás e gargalhou.
— Salsicha lorne no café da manhã e molho pardo. — Ela sorriu. —
Sabe o que é isso, querida?
Jordan negou. Não tinha a menor ideia do que Gloria estava falando.
A mulher deu um tapinha na coxa de Abby.
— Você precisa levá-la para comer salsicha lorne. No geral, comemos no café da manhã, então talvez você tenha que acordar bem cedo. Ou então dormir lá em casa. Vocês duas têm que recuperar o tempo perdido, então não seria problema, não é? — Ela piscou para as duas.
Jordan olhou para Abby, que estava encarando a mãe com o olhar universal de “mãe, por favor, pare de me envergonhar”.
Ela sorriu.
Também ficou ocupada pensando como seria passar a noite na casa de Abby, mas em vez do café, estava imaginando transar a noite toda e acordar nua e saciada, a pele das duas roçando de um jeito novo e delicioso.
Jordan piscou com força para se livrar dessa imagem. Nenhum tipo de salsicha poderia competir com isso.
Alerta: conteúdo arriscado para o trabalho. E Jordan estava trabalhando.
— Acho que a Jordan vai sobreviver sem esse café da manhã. — Abby se sentou, erguendo os óculos escuros.
Será que era só a imaginação de Jordan, ou o olhar de Abby estava percorrendo seu corpo?
Ela piscou de novo.
Algo acelerou em seu peito.
Devia ser só a imaginação.
— O mundo precisa de salsicha lorne, mocinha — Gloria disse. —
Não se afaste das suas origens. Sei que comemos ovos, abacate e salmão no café, e foi delicioso, mas às vezes, salsicha lorne é a única opção. — Ela apontou para o peito. — Ao menos, é assim para essa escocesa orgulhosa.
Abby riu, com o olhar ainda em Jordan.
— Quando voltarmos para casa, cozinho para você. Minha mãe está certa. Precisa experimentar pelo menos uma vez na vida.
O desejo acumulou em seu centro ao focar em Abby e seu biquíni de bolinhas azul. Droga, suas pernas dela eram lindas.
— Estou sempre aberta a possibilidades novas e empolgantes, então conte comigo.
Será que essa resposta era leve e descompromissada?
Gloria olhou de uma para a outra, como se estivesse prestes a dizer algo, mas pensou melhor.
— De qualquer forma, estou há vinte minutos nesse barco e ninguém me trouxe uma bebida!
Jordan pulou. Merda, estava se esquecendo do trabalho.
No entanto, Gloria balançou a cabeça.
— Vamos deixar as outras madrinhas fazerem isso, certo? Delta!
Taran! Precisamos de bebidas!
Abby se inclinou e procurou algo na mochila.
Jordan encarou o céu azul. Sem nenhuma nuvem. Tão diferente dos seus próprios pensamentos nebulosos.
— Você pode passar nas minhas costas? — Abby ergueu o protetor solar para a mãe.
Gloria pulou da cadeira.
— Preciso ir ao banheiro, estou apertada faz um tempo e fiquei adiando. Por que sempre fazemos isso? — Ela olhou de soslaio para a madrinha. — Jordan pode fazer isso para você, certo?
Ela assentiu, com a boca seca.
— É para isso que estou aqui.
Abby se sentou na frente de Jordan, entregando a embalagem.
— Obrigada.
Também não parecia confortável com essa reviravolta.
Jordan limpou a garganta, dando uma olhada no resto do barco. As garotas estavam em outros lugares. Era um iate grande. Ninguém estava prestando atenção em Jordan ou Abby.
Afinal, só estava passando protetor solar nos ombros claros e firmes de Abby.
Os mesmos ombros que Jordan estava imaginando beijar momentos antes.
Ela apertou a embalagem três vezes antes de passar a mão nas costas de Abby, tentando não pensar demais no assunto. As pontas dos dedos formigaram enquanto cumpria a tarefa.
— Cubra bem a área toda — Abby disse. — Uma noiva descascando ou vermelha não é exatamente bonito.
— Pode deixar. — Jordan pegou um pouco mais, passando pela parte detrás dos braços e na lateral das costas. Os dedos se aproximaram da base do seio, mas Jordan garantiu que não houvesse contato.
Abby virou a cabeça, sustentando o olhar de Jordan por um momento.
— Quer que eu desamarre o biquíni?
Tantas respostas cruzaram a mente de Jordan, mas ela sacudiu a cabeça.
— Eu dou um jeito. Não se preocupe, não é minha primeira vez.
E ainda assim, de tantas maneiras, parecia que era.
***
Algumas horas mais tarde, depois de andarem de jet-ski, as garotas almoçaram na mesa dos fundos antes de voltarem para a frente do barco.
Travis estava colocando música para o deque inteiro ouvir, e o volume aumentou consideravelmente. Nikita e Erin continuavam a assustar todo mundo enquanto fingiam ser tubarões. Gloria se esqueceu de aplicar o protetor solar na nuca e estava com uma queimadura de sol.
Delta tirou o telefone do bolso, e estava fazendo com que as meninas posassem de duas em duas na frente do iate, imitando Leo e Kate em Titanic.
— Vou editar depois e colocar em um vídeo com a Celine cantando ao fundo. — Delta parecia ter deixado de lado o coração partido como uma heroína, e estava tomando a dianteira como a madrinha principal.
Abby estava impressionada. A amiga estava se animando hoje, e estava fazendo o grupo todo se divertir.
Até então, só Taran havia aceitado ser a Kate Winslet, com Gloria se voluntariando para ser o Leonardo DiCaprio. Mas não foi uma foto muito boa. Taran olhou para baixo e ficou com as pernas bambas, achando que ia cair no mar e ser comida por tubarões. Ela deu um gritinho e andou para trás, derrubando Gloria. O biquíni da mulher mais velha entrou no bumbum, dando a todas uma visão que ninguém queria ter.
Ainda estavam superando aquilo. E ainda estavam rindo.
— Muito bem, quem é a próxima a fazer o glorioso momento de Leo e Kate? — Delta averiguou o grupo. — Que tal vocês duas?
Ela apontou para Abby e depois para Jordan.
A noiva limpou a garganta, balançando a cabeça.
— Outra pessoa pode ir na frente.
Ao lado dela, Jordan assentiu.
— Ainda estou fazendo a digestão.
Delta olhou para as duas como se tivessem enlouquecido.
— Não estou pedindo para vocês dançarem. Só precisam ficar ali na frente, segurar a barra de metal e fingir que estão em Hollywood. Abby, finja que Jordan é o Leo. Ou Marcus. Qualquer um que deixe o seu joelho bambo.
Jordan olhou para Abby deu de ombros.
— Topo se você topar.
Abby se enrolou. Ainda mais contato físico depois de quase ter um colapso quando Jordan passou protetor solar nela. Havia se certificado de se sentar longe no almoço, mas ainda assim, só ficavam cada vez mais próximas. Principalmente porque qualquer coisa que quisesse, só precisava pedir a Jordan. Ela era excelente no seu trabalho.
— Lembre-se, Abby. Um olhar bem apaixonado!
Abby começou a desejar que Delta voltasse para o estado de mágoa.
Jordan subiu no sofá e estendeu a mão para Abby.
Ela a pegou, admirando o brilho do cabelo de da madrinha e seu sorriso radiante. Naquele instante, sabia exatamente quem deixava seus joelhos bambos.
Seus olhos se encontraram, e Jordan lhe deu outro sorriso brilhante, a mão segurando a balaustrada do barco, a pose relaxada.
O desejo atingiu Abby, quase deixando-a sem fôlego. Ela tentou aplacá-lo e dar a Delta o que ela queria, com o grupo fazendo algazarra enquanto se encaixava na posição. Abby conseguia ouvi-las gritar, mas nenhuma delas era tão barulhenta quanto o próprio coração, que batia como um tambor em seus ouvidos à medida que o abraço de Jordan a apertou por trás e seus corpo se entrelaçaram.
Abby encarou o mar bem na hora que o barco encontrou uma onda.
Ela cambaleou para o lado. Jordan a salvou, e ela se endireitou.
— Tudo bem? — Jordan perguntou, com o olhar preocupado.
— Tudo ótimo.
— Muito bem, agora é a hora da foto! Braços erguidos em um, dois, três!
Jordan ficou ainda mais perto, segurando-a.
Abby quase se esqueceu de respirar. Ela se recostou em Jordan, aproveitando o momento.
— Eu sou a rainha do mundo! — ela gritou, adaptando a frase que Leo DiCaprio falava no filme.
Ali, naquele instante, ela realmente acreditou que era.
Havia ainda mais algazarra atrás delas quando o barco atingiu mais uma onda.
Tanto Abby quanto Jordan perderam o equilíbrio. Jordan caiu de lado, e Abby caiu por cima dela. As duas foram derrubadas no sofá, em cima das almofadas.
Abby abriu os olhos e viu que seus lábios estavam a centímetros dos de Jordan.
A eletricidade pareceu percorrer as duas quando a outra mulher abriu os olhos.
Será que ela estava sentindo essa conexão também? Abby adoraria perguntar.
Mas não era a hora.
Delta apareceu ao lado delas.
— Não pedi por esse final, mas vai ser um vídeo ótimo para passar na hora do meu discurso de madrinha. Muito obrigada!
Abby tinha se esquecido de que estavam sendo gravadas.
— Fantástico.
Jordan ainda estava olhando para ela.
***
Apesar de o sol ainda estar alto no céu às quatro da tarde, a água estava mais fria do que imaginavam. Abby desceu pela escadinha de alumínio ao lado do barco, pulando de costas e flutuando no mar. Por um momento, sentiu paz. Só ela, o mar e seus pensamentos.
Até que Delta pulou com um grito, quebrando aquela sensação.
A água salgada fez os olhos de Abby arderem, e ela cuspiu quando o momento foi arruinado.
— Você é uma joia rara, sabia?
Delta abriu um sorriso.
— Já me disseram isso. — Ela segurou o rosto de Abby e deu um selinho. — Se anime, docinho. Você está na sua despedida de solteira, em um lindo barco, com uma mulher gostosa fazendo tudo que você quer. —
Ela fez uma pausa. — A mulher sou eu, caso você esteja na dúvida.
Ela piscou para Abby, beijou sua bochecha e nadou para longe com as outras.
Abby balançou a cabeça, sentindo os olhos ardendo. Quando se virou para a esquerda, Jordan estava lá.
— Que tal uma corrida? — perguntou, pela segunda vez no dia. Da primeira, Abby perdeu. Agora estava determinada a não repetir o vexame.
Estavam na frente de todo mundo. Abby começou a se movimentar e a água límpida se abriu conforme entraram na caverna. Acima delas, havia formações rochosas incríveis, cortadas como dentes pela natureza. Sem o sol, a temperatura esfriou consideravelmente, e ficaram na penumbra enquanto nadavam até o outro lado.
Abby chegou primeiro,. Respirou fundo, mas mergulhou ao mesmo tempo. Um erro. Engoliu muita água salgada. Voltou à superfície, se engasgando. Foi uma cena horrorosa.
Antes que se desse conta, Jordan estava atrás dela, com os braços em volta da sua cintura.
Jordan pressionou seu estômago.
Abby tossiu. Uma quantidade imensa de água saiu de sua boca.
Ela pressionou mais uma vez.
Abby tossiu mais água, mas ao menos parecia o fim daquilo, e então só estava tossindo, tentando recuperar o equilíbrio.
Jordan deu a volta para encarar Abby, enganchando o braço da noiva em seu pescoço para ajudá-la.
— Você está bem?
Abby assentiu.
— Só quero dizer que apesar de quase ter engolido o mar e estar pendurada em você como uma alga marinha desgrenhada, ganhei a corrida.
Não tive pontos por estilo, mas ganhei.
Jordan abriu um sorriso.
— Ganhou mesmo.
Seu olhar baixou para o decote de Abby, e depois voltou para seu rosto.
Abby não tinha certeza do que era pior: Jordan encarar seu peito, sua boca ou seus olhos. Cada parte do seu corpo e cada centímetro de ar entre elas parecia carregado. Era delicioso, mas também era como estar no purgatório.
Precisava se mexer, mas não conseguia.
Além do mais, seu braço estava retorcido de uma maneira desconfortável ao redor do pescoço de Jordan. Estava quase sentada no colo da outra.
Pense em qualquer coisa.
— Você foi rápida com a manobra de Heimlich — disse. Ela conseguia ouvir as outras, mas não tinha ninguém à vista.
Jordan sorriu.
— Aprendi primeiros socorros no meu antigo emprego, e já me ajudou em algumas despedidas de solteira que fui. Você ficaria chocada com quantos acidentes acontecem.
O coração de Abby acelerou Jordan abaixava o tom de voz, passando a língua nas laterais dos lábios.
Seria tão fácil se aproximar e beijá-la nos lábios na penumbra da caverna. Mas em vez disso, se afastou, boiando e encarando o teto. O efeito era mais calmante do que encarar os lábios de Jordan.
Instantes depois, o silêncio foi quebrado pelo resto do grupo entrando na caverna, espirrando água e tagarelando sobre como estava frio e escuro.
— Isso é um morcego? — Taran perguntou.
Todas gritaram e espirraram mais água para se afastar dali. Em questão de segundos, a maioria tinha virado de costas e nadado para longe. Todo
mundo menos Delta, que estava se aproximando com um sorriso no rosto.
— Imagina só encontrar vocês por aqui. — Delta ergueu uma sobrancelha. — Sabe, cada vez que viro as costas, vocês duas estão juntas.
— Ela olhou para Abby, depois para Jordan. — Vocês estão tramando alguma coisa? Uma surpresa para o resto do pessoal?
Abby não ficaria surpresa se o olhar da amiga fosse capaz de perfurar seu crânio de tão intenso.
— Nós nadamos até aqui, e eu me afoguei. — Será que a culpa estava tão evidente no seu rosto? Torcia para que não. — Jordan me ajudou. Se ela está planejando alguma coisa, não é minha morte.
Ela riu, mas aquilo soou vazio até mesmo para seus ouvidos. Ou talvez fosse o eco da caverna.
Jordan estremeceu.
— Agora que já salvei o dia, vamos voltar para o iate antes de sermos comidas por morcegos ou morrer de hipotermia? — Ela nadou alguns metros antes de se virar para as outras duas.