Antes que Você Diga Sim
Catorze
Houve gritinhos de comemoração atrás dela.
Abby não conseguiu distinguir de quem eram, e não se importava.
Tudo que conseguia ouvir era seu batimento cardíaco. Seu corpo estremeceu conforme todos os músculos pareciam se contrair. Ela estava em um avião, segurando a mão de Jordan. A parte mais estranha disso tudo, é que estava funcionando.
Jordan a estava acalmando.
Conforme o avião acelerava e saía do chão, Jordan apertou a sua mão com mais força, e Abby focou toda sua atenção nisso, e não no fato de que agora estavam no ar dentro de um cilindro de metal. Olhou para a outra moça, enxergando um pedaço do mundo através da janela que ficava cada vez menor à medida que o avião subia.
Um erro gigantesco.
Respirou fundo, forçando seus olhos a se desviarem e olharem para frente. Enquanto isso, Jordan continuava segurando sua mão. E não disse uma palavra.
Era exatamente o que ela queria que seu parceiro fizesse, mas ele nunca fez.
Jordan a entendia.
Abby não conseguia se esquecer disso.
Catorze
AS GAROTAS FICARIAM na Villa François, e o lugar era tão chique quanto Jordan imaginava. Não que estivesse surpresa. Tinha visto a casa onde a família de Marcus morava e o chalé nos fundos do terreno onde o próprio noivo vivia. Conheceu a mãe dele. Viu como suas camisas eram lavadas. Havia ordem e precisão em toda a família Montgomery. Essa casa não era deles, mas Abby comentou que pertencia a velhos amigos que amavam o estilo moderno. isso ficou evidente no momento em que a minivan entrou pelos portões e o grupo viu o local.
A casa era localizada nas colinas em Super-Cannes, um bairro exclusivo onde todas as pessoas muito ricas ficavam. Era perto de Cannes e da praia, tinha vários empregados e janelas de ponta a ponta. É claro que também contava com uma piscina e terraço nos fundos, com vista para o Cote d’Azur, a expansão brilhante abaixo deles. A piscina convidativa tinha o tamanho de uma raia olímpica e várias jacuzzis. Havia também cadeiras estofadas embaixo de guarda-sóis brancos para acomodar todo mundo.
Jordan não tinha dúvidas de que as toalhas também seriam felpudas. Esse seria um final de semana em que até os detalhes eram extremamente caprichados.
Os funcionários guardaram tudo, e o grupo estava voltando para a casa depois da primeira noitada, que foi um sucesso. Jordan se sentiu aliviada conforme andava pela varanda com vista para a piscina, iluminada de forma elegante por luzes fracas e velas. Abaixo delas, a vizinhança exclusiva reluzia e o ar da Riviera francesa as abraçava. Até mesmo a atmosfera tinha aroma francês, se é que isso era possível.
— Não sei quanto a vocês, mas estou cheia. — Abby acariciou a barriga assim que se aproximou da mesa onde Jordan havia separado uma cadeira para ela. Usava calça culote, blusa verde e um lenço de chifon.
Parecia uma socialite dos anos 1950. A moça não pôde deixar de admirar a combinação.
Abby sorriu para ela enquanto se sentava.
— Obrigada, madrinha desaparecida.
Jordan fez uma reverência.
— Qualquer coisa pela noiva — respondeu. — Posso pegar uma bebida para você?
Uma pessoa se aproximou.
— Alguém disse bebida? — O sotaque escocês de Gloria ficava mais acentuado conforme a noite se estendia. — Os empregados já foram?
Jordan assentiu.
— Eles saem às nove. Já são dez, então estamos por conta própria.
Mas como madrinha, sou toda da Abby.
— Está ouvindo isso, Delta? — Abby gritou, se inclinando na cadeira.
— Jordan está se oferecendo para fazer o que eu quiser, porque é minha madrinha.
Elas ouviram a risada de Delta quando ela apareceu na varanda, seguida pelo resto do grupo.
— Isso porque ela está sendo paga...
O estômago de Jordan se apertou conforme as palavras morreram na língua da amiga. Ela se virou e encarou a moça, mas tinha quase certeza de que a outra não conseguia enxergá-la sob a luz fraca. Será que ela contaria tudo logo no primeiro dia?
Delta foi até elas, com o resto das garotas atrás.
— Ela está pagando o preço por ter te abandonado há anos. Já peguei um milhão de taças de vinho para Abby nas últimas décadas, quando Jordan esteve ausente. Ela precisa recuperar o tempo perdido.
Boa, Delta. Jordan estalou os dedos e apontou em sua direção.
— Ela tem razão. Se eu pegar vinho branco e algumas taças, todas bebem?
Gritos de alegria foram a resposta de que Jordan precisava para ir até a cozinha.
— Onde está a Taran? — Abby perguntou. — Ela poderia ajudar.
Gloria revirou os olhos.
— Está conversando com o Ryan. — Elas estavam ali há apenas doze horas, mas já era evidente que Taran e o marido não conseguiam ficar sem se falar. Gloria acrescentou: — Vou com você.
Chegaram à cozinha, toda branca e livre do estrago feito durante a tarde.
— Deus abençoe os funcionários — Gloria disse. — Precisamos dar uma boa gorjeta a eles.
— Concordo.
Jordan se ocupou pegando o vinho branco da geladeira enquanto Gloria pegava as taças. Estavam juntas há apenas um dia, mas já trabalhavam em sincronia como uma máquina.
— Só queria acrescentar — Gloria falou, colocando as coisas em uma bandeja de metal. — Obrigada por tudo que fez até agora. Sei que tirou um peso dos ombros de Abby e até fez com que ela gostasse dos preparativos do casamento. Há algumas semanas, eu não achava que isso seria possível.
Jordan a olhou nos olhos.
— Só estou fazendo meu trabalho.
Gloria colocou a mão no braço dela.
— Eu sei, mas está fazendo além. Está fazendo com que a Abby relaxe, e isso é algo raro. Antes de conhecer o Marcus, ela era muito focada no trabalho. Se fosse algo que ela amasse, eu ficaria feliz. — Gloria franziu o cenho, inclinando a cabeça para o lado. — Estava torcendo para que ela se empolgasse com o casamento, mas isso só aconteceu depois que você chegou. — Ela apertou o braço de Jordan. — Então, muito obrigada. De verdade. Só quero ver minha única filha feliz.
Dessa vez, Jordan encontrou seu olhar.
— Também quero o mesmo.
Quando voltaram à varanda, Taran já estava de volta, comentando sobre sua festa de casamento, ainda recente.
— Abby foi uma estrela na despedida e também no dia, quando eu estava surtando. Queria fazer o mesmo por ela, mas acho que Delta e Jordan, que apareceu do nada, já resolveram tudo.
Não havia sequer um tom de descrença em sua voz, o que fez a madrinha respirar aliviada.
Não precisava se preocupar se todos acreditavam na história.
O único problema seria se Delta resolvesse entregar o jogo.
— Só estou feliz por nos reencontramos a tempo. — Jordan colocou a bandeja na mesa. — Quando éramos pequenas e falávamos sobre casamento, sempre prometemos que seríamos madrinha uma da outra. Mas depois de quase trinta anos sem nos vermos, achei que nunca aconteceria.
Por que essa história parecia mais real do que as que Jordan realmente viveu?
Ela serviu o vinho, entregou as taças e depois se sentou ao lado de Gloria.
— Também fiquei muito feliz. Você sempre foi uma ótima influência para a Abby. — Gloria deu tapinhas na mão da moça.
Jordan tinha certeza de que Gloria não estaria falando isso se soubesse o tipo de pensamento que ela teve nas últimas semanas. Quando olhou para Abby, suas bochechas estavam coradas e quando a noiva encontrou seu olhar, ela desviou. Por que Abby também parecia estranha? Ela não tinha nada com que se preocupar.
— Olhe, Abby sempre foi uma filha exemplar, o que só comprova que, às vezes, filho de peixe nem sempre é peixinho.
O grupo inteiro caiu na risada.
— Não sei, Gloria — Delta falou. — Você deveria tê-la visto aos vinte anos. Ela causava confusão. Especialmente na faculdade.
— Isso é verdade! — Erin gritou, sorrindo.
Gloria balançou a cabeça, mexendo a mão.
— Tem coisas que uma mãe nunca deve saber, e o que sua filha fez na faculdade, com certeza, é uma delas.
Quando Jordan olhou para Abby, ela estava balançando a cabeça, lançando um olhar furioso para Delta. A moça riu. Teria gostado de ver que tipo de confusão Abby causava.
— E quanto a mim, diferentemente de Abby, não acertei na minha escolha de marido. Eu ficava feliz com a atenção que tinha, e ele era um homem adorável. Além disso, estava grávida, e naquela época, os pais sempre se casavam. Perdi o bebê antes, mas ainda assim continuamos juntos. Então tivemos a Abby. Demorou um ano para entender que além do sorriso brilhante e o dinheiro, o pai dela e eu não tínhamos muito em comum. Mas da segunda vez, não duvidei sequer por um minuto. Martin e eu nos demos bem de primeira. Quando isso acontece, todo o resto pode ser ignorado. Eu estaria mentindo se dissesse que não tive dúvidas quando conheci Marcus. Ele tem dinheiro e é charmoso. Essas coisas foram importantes no meu primeiro casamento. Mas ele também tem um bom coração. É generoso, gentil e sei que ama a minha filha. Como mãe, não posso pedir outra coisa. — Ela ergueu a taça, esperando que as outras a acompanhassem. — Um brinde ao que será um final de semana fantástico.
Um brinde à Abby e ao Marcus, que no momento está em sua despedida de
solteiro pelas ruas de Dublin. — Seus olhos percorreram o grupo com um sorriso malicioso. — Nós sabemos quem saiu ganhando, não é, senhoras?
As moças aplaudiram.
— Falando sério. Que seus sorrisos sejam grandes e suas preocupações, pequenas. Abby e Marcus!
Um coro de “Abby e Marcus!” ecoou.
Taran se virou para Jordan.
— Só uma pergunta. Abby perdeu a chance no seu casamento, Jordan?
Vocês ainda vão conseguir cumprir a promessa que fizeram?
Jordan cerrou os dentes. Já haviam perguntado isso em outros casamentos, com outras noivas.
— Não — Jordan respondeu. — Ainda estou solteira, então ficaria honrada em tê-la como minha madrinha quando a hora chegar.
Os olhares das duas se encontraram, mas dessa vez, Jordan não se desviou.
Abby ergueu a taça, umedecendo os lábios.
— Estou ansiosa para ser toda sua em um futuro próximo.
***
Duas horas depois, a maior parte da festa já tinha voltado para os quartos. Abby estava pegando as taças, mesmo depois que Jordan havia dito que poderia deixar tudo ali.
— Mal posso acreditar que minha mãe e a Delta foram cedo para cama logo no primeiro dia.
— É uma maratona, não uma corridinha, como disseram. — Apesar disso, Jordan também estava surpresa. Ela nunca viu uma primeira noite onde todos foram dormir logo depois da meia noite. Era um milagre de despedida de solteiro. Deveria escrever isso em um diário, se tivesse.
Quando deixaram tudo na cozinha, Jordan voltou para dar mais uma conferida na varanda. Satisfeita com o fato de que tudo estava em ordem, andou até a beirada, onde havia uma parede de vidro na altura de seu quadril. Apoiou os braços no topo e admirou a vista da água mais uma vez.
O dia foi muito cheio, e era bom aproveitar alguns momentos solitários.
Segundos depois, sua pele se arrepiou. A solidão durou pouco. Não que ela
se importasse com isso, especialmente quando quem a interrompia era Abby.
Jordan sentiu seu cheiro e o coração começou a acelerar, mesmo quando aparentemente estava calma. Não bebeu nada esta noite porque estava trabalhando. Estava sempre com uma taça nas mãos e fez seu papel de madrinha levemente embriagada, mas a taça estava sempre cheia. Ficou feliz por estar sóbria.
— É lindo, não é? — a voz rouca de Abby pareceu atravessá-la.
— É mesmo.
Jordan olhou para direita.
Os olhos escuros de Abby brilharam.
— No que está pensando?
Em você. Nos meus sentimentos. O calor que me toma quando está ao meu lado. Era isso que Jordan queria dizer, mas não o fez.
— Só estou aproveitando. É um lugar lindo para passar o final de semana. — Olhou para Abby de novo. Ela havia tirado o lenço, expondo o pescoço e a clavícula.
— Mesmo trabalhando? Sei que não deve ser nada fora do comum, considerando o que você faz.
Jordan sorriu para ela e uma luz se acendeu.
— Você não é comum. — Ela desviou o olhar rapidamente. Esperava não ter ultrapassado os limites.
— Posso dizer o mesmo sobre você — Abby respondeu.
Os músculos de Jordan se contraíram, mas quando olhou novamente para Abby, voltaram a relaxar. O que ela queria dizer com isso?
— Deixou alguém sentindo sua falta nesse final de semana? Você não parece ter ninguém especial na sua vida, mas talvez só não tenha contado.
— Quando Jordan olhou para ela, Abby ergueu uma sobrancelha. — Você disse que eu poderia perguntar qualquer coisa a seu respeito, então estou usando o recurso.
Era verdade. Havia mesmo dito aquilo. Ela balançou a cabeça.
— Não tenho ninguém, só eu. Faz muito tempo que não tenho namorada. O trabalho me mantém ocupada.
Jordan nunca havia discutido isso com uma noiva. A maioria estava ocupada demais pensando em si mesma e no próprio casamento.
Abby não era como a maioria das noivas.
— Além disso, não acho que algumas namoradas ficariam felizes comigo desaparecendo por semanas. Ou passando tanto tempo assim com mulheres bonitas e me aproximando delas. Acho que é o bastante para testar até mesmo a mais segura das relações. — Nunca admitiu para ninguém. Se quisesse um relacionamento, talvez teria que desistir desse trabalho. De março a setembro, ele era seu dono.
Abby virou o corpo, franzindo o cenho.
— Espere, você faz isso há três anos e não teve nenhum relacionamento durante esse tempo?
Jordan balançou a cabeça.
— Não.
— E antes disso?
Ela ficou imóvel, pensando no passado como se fossem cartas de baralho. Quando se tratava de relacionamentos, o jogo não estava a seu favor. Anna, rainha de copas. Yvette, rainha da dor. Brianna, o coringa.
Havia doado meses, até mesmo anos para esses relacionamentos. Nenhum deles deu certo. Todos a deixaram de coração partido.
— Não tenho muita sorte com mulheres — disse, como se não significasse muita coisa. — Vamos deixar por isso.
— Acho que não somos tão diferentes assim quando se trata de amor.
Antes de conhecer o Marcus, não tinha um relacionamento há anos.
Ninguém me virou do avesso. Muito pelo contrário. — Abby deu de ombros. — Nunca senti aquela chama com os homens com que saí. Era sempre eu que acabava com tudo. Então fiquei sozinha por alguns anos, e as pessoas ficava me enchendo, dizendo que eu devia procurar alguém.
— Então o Marcus chegou na hora certa?
Abby segurou o vidro com as duas mãos, dando um passo para trás e abaixando a cabeça. Seu cabelo caiu por cima dos ombros.
— Sim. Quando ele apareceu no escritório, quase caí para trás. Depois nos encontramos para jantar, e tudo aconteceu. Sem drama. — Ela deu de ombros. — Ficar com ele era fácil. Não tinha fogos de artifício, nem grandes gestos. Só nos apaixonamos um pelo outro. O casamento parece inevitável.
— Isso é uma coisa boa, certo?
Abby ergueu o rosto e passou a mão pelo cabelo. Ela não parecia ter tanta certeza.
— Acho que sim. Mas não temos um relacionamento como o de Taran e Ryan. Moramos separados, e não falo com ele o tempo todo. Às vezes, me pergunto se não estou apenas me conformando com o que tenho. Se não estou escolhendo o caminho mais fácil, pois chegou a hora de me casar.
Essa conversa era um tema recorrente com todas as noivas.
— Se o Marcus é o caminho mais fácil, talvez seja bom percorrê-lo?
— Ela se virou e se encostou na mureta de vidro, encarando Abby. Droga, ela é linda. — Ele te ama, você o ama, e vocês têm um relacionamento baseado em amizade. Acho que isso conta.
Abby mordeu o interior da bochecha.
— É o que todo mundo diz.
Jordan tentou não encarar o pescoço da moça. Tentou não perceber como o luar iluminava sua pele e, ainda assim, falhou. O desejo tomou conta de seu corpo, sufocando-a. Ela engoliu em seco.
Abby a encarou e depois balançou a cabeça.
— Mas vamos voltar a falar de você. É muito mais divertido. — Seu sorriso iluminou a noite. — Você é lésbica, bi ou alguma outra coisa?
Aquela era uma pergunta direta.
— Sou lésbica de carteirinha.
— E o que diz na carteirinha?
Jordan sorriu.
— Volte em outubro, depois da temporada de casamentos, e conversamos.
Ela tinha dito aquilo em voz alta? Como se fosse mesmo uma paqueradora em série? Não conseguia confiar em si mesma para falar a coisa certa.
Abby riu. Mas também havia certa hesitação em seu tom, ou estava imaginando?
— Estou intrigada com o fato de que você não tenha se relacionado com alguém por tanto tempo. — Seu rosto ficou pensativo. — É um uso da expressão “casar-se com o trabalho”.
— Tem uma certa ironia aí. — O coração de Jordan estava disparado.
Ela daria tudo para voltar trinta segundos no tempo.
— Não faz diferença se as mulheres com quem você convive estão se casando?
Abby não estava facilitando.
— Claro que faz. Mas o trabalho ainda envolve muitas horas e muitos finais de semana. Além disso, preciso estar disponível vinte e quatro horas por dia. Não tenho muito tempo para mim mesma. Ou para qualquer um que se envolva comigo.
Abby assentiu, processando a informação.
— Sinto muito.
Jordan ofereceu um sorriso.
— Não se desculpe. Marcus está me pagando bem.
Abby assentiu lentamente.
— Mas você não sente falta de ter alguém?
Encarou Jordan.
Havia uma resposta correta para isso?
— Às vezes. Seria bom ter alguém ao meu lado na cama quando volto para casa, às duas da manhã. — Jordan se imaginou entrando na cama ao lado de Abby. Ela piscou. — Você vai ter isso com o Marcus. Imagino que esteja animada.
Abby olhou para o céu e não respondeu logo de cara.
— Às vezes, eu penso que não vamos gostar, que deveríamos ter experimentado antes. A maioria dos casais faz isso.
Jordan sabia que moravam em casas separadas, o que não era comum.
— Mas tem um certo ar de romance, não é?
Abby respirou fundo.
— Mas não é esquisito? Será que nunca quisemos morar juntos por um motivo? — Ela parou, olhando para Jordan e depois balançou a cabeça. —
Ah, quer saber, me ignore. Só estou nervosa. O Marcus é maravilhoso, e sou uma mulher de sorte por tê-lo comigo. Ele vai ser um ótimo marido e pai.
Jordan não deixou seu olhar se demorar em Abby. Já tinha experiências com esses surtos e sabia que as pessoas só precisavam de um pouco de espaço. Daria isso a Abby.
Alguns momentos se passaram antes de ela falar de novo.
— Tudo isso faz parte. No fim, vai dar tudo certo.
***
Abby assentiu, mas a incerteza a invadia com tanta força que ela estava surpresa por não ter entrado em curto-circuito.
Havia bebido demais, não é? Por que mais estaria confessando seus medos a uma estranha?
Mas Jordan não era mais uma estranha. Era quase uma amiga. Alguém que entrou na sua vida e atingiu o ponto onde era mais vulnerável, fazendo com que Abby questionasse não só seu relacionamento com Marcus, mas também sua sexualidade.
Isso não estava nos planos do final de semana. Essa era a sua despedida de solteira, pelo amor de Deus. Não era hora de ficar com dúvidas. Era hora de focar no futuro e em Marcus. Não em sentimentos que a invadiam e a deixavam completamente transtornada.
— Transei com uma mulher uma vez. — Abby fechou os olhos. É
sério? Depois da promessa que acabou de fazer para si mesma, era a primeira coisa que saía da sua boca? Será que alguma outra noiva já havia confessado algo assim para Jordan? Por alguma razão misteriosa, Abby esperava que não.
Jordan umedeceu os lábios antes de responder.
— Também já transei com um homem uma vez. Acho que estamos quites.
Isso fez Abby sorrir.
— Não rolou mais?
Jordan balançou a cabeça.
— Uma vez foi mais que suficiente. Só queria descobrir qual era o motivo de toda a comoção. — Ela fez uma pausa. — E você?
Abby assentiu.
— Foi por aí. Na faculdade. Fui a uma balada gay com a Delta e conheci uma mulher. Começamos a conversar. E eu pensei: bem, por que não? Ela era bonitinha e só se vive uma vez. Tinha certa quantidade de tequila envolvida também.
Outro sorriso.
— Ah, sim. Tequila. Patrocinando as decisões mais importantes da vida há décadas.
— Pode-se dizer que sim.
Abby ainda conseguia se lembrar do terror absoluto, misturado ao prazer imenso de acordar na manhã seguinte, sabendo que fez algo
proibido. Nunca teve essa sensação com Marcus. Ficou com medo na época. Agora, queria sentir aquilo mais uma vez. Ser ousada novamente.
Atravessar todos os seus limites bem-colocados.
Se aproximar de uma corrente elétrica.
Assim que ela dissesse “sim”, todo o resto seria impossível.
Abby encarou Jordan. A possibilidade estava bem ali.
— Tinha tequila envolvida quando você saiu com o Marcus?
Abby negou.
— O Marcus não gosta. Ele diz que costuma provocar decisões ruins.
Provavelmente está certo.
O olhar de Jordan era intenso e penetrante sob a luz do luar.
— E o que você acha?
Abby mexeu a boca para um lado e depois para outro. Por fim, deu de ombros. Como se a próxima frase não significasse nada.
— Acho que, às vezes, precisamos deixar coisas para o acaso. Ele pode te levar para um caminho diferente, mas às vezes, pode ser divertido.
Um caminho certo. Acho que estou preocupada de que quando me casar, todos esses caminhos vão se fechar para mim.
Do que ela estava falando? Abby andou até o outro lado da varanda e se apoiou no vidro de novo. Colocar certa distância entre ela e Jordan era a coisa certa a fazer. Estava amedrontada demais para realmente pensar no que estava dizendo. Por que seu plano de vida cuidadoso parecia entrar em colapso toda vez que estava sozinha com Jordan?
A distância não durou muito. Jordan se aproximou de novo, e todo o desejo que Abby estava disfarçando tão bem começou a transparecer, saindo do seu corpo como se ela fosse uma torneira vazando.
Droga, estava atraída por Jordan e não precisava disso. Não quando sua vida estava prestes a se resolver.
Mas todos os pensamentos racionais fugiram da sua cabeça quando Jordan colocou a mão em seu braço.
Abby parou de respirar à medida que todo o sangue do seu corpo desceu para a virilha.
O que é que Jordan estava fazendo? Ela se esquecia completamente de quem era. Ao mesmo tempo, ousava sonhar com o que poderia ser.
— Todos esses pensamentos são perfeitamente normais. Casamento é um grande passo. Fazer todas essas promessas a uma pessoa. Mas lembre-se
de que o Marcus te ama.
— Eu sei — Abby disse. — É que... e se não for para eu me casar com o Marcus? E se devesse ficar com uma pessoa completamente diferente?
Até mesmo uma mulher?
Jordan acariciou seu braço, lançando um pico de desejo diretamente ao clitóris de Abby, que fechou os olhos por um segundo. Então respirou fundo, se afastando de Jordan.
A distância era necessária, mesmo que fossem apenas os dedos tocando em seu braço.
Isso era o suficiente.
— Vai ficar tudo bem. Tente relaxar e aproveitar a despedida de solteira. Quer um conselho? Fique longe da tequila.
O sorriso de Jordan a atingiu. A moça a deixava exposta.
Balançou a cabeça antes de cruzar os braços.
— Você é boa nisso, sabe? — Ainda queria saber de uma coisa. Era importante, por mais que os motivos fossem nebulosos em sua cabeça. —
Quantas noivas já confessaram que transaram com uma mulher?
Abby balançou a cabeça.
— Você é a primeira. Tenho certeza de que aconteceu com outras, já que a média de estatística dita isso. — Ela fez uma pausa, encarando Abby com seu olhar incrível mais uma vez. — Mas você é a primeira a me contar.
Um calor a percorreu. Ela era a primeira.
Seu olhar se fixou nos lábios rosados e curvos de Jordan. E, pela primeira vez, Abby se permitiu imaginar o que aconteceria se os beijasse.
Não se lembrava do gosto da última mulher que beijou. Já não importava mais.
Mas adoraria saber que gosto a moça tinha. Qual era a sensação de estar com ela. Fechou os olhos e os pensamentos e visões continuaram rodeando sua imaginação.
Pare.
No que estava pensando? Jordan era uma madrinha profissional. E ela se casaria em uma semana.
Abriu os olhos. Jordan estava certa. Ela só tinha uma despedida de solteira, e se quisesse aproveitar ao máximo, tinha que se jogar.
E isso não incluía beijar a madrinha.
— Abby?
Não tinha ouvido os passos. Ela se virou, e a luz da varanda fez com que precisasse cerrar os olhos.
Era sua mãe. Estava usando camiseta e shorts de seda.
— O que está fazendo acordada? Todos já foram para cama.
Abby ignorou o terremoto em seu coração. Não fez nada de errado, mas era como se a mãe a tivesse pegado com as mãos dentro da calcinha de Jordan.
O pensamento fez com que um pequeno tremor ressoasse em seu centro.
Deu um sorriso para a mãe quando se aproximou.
— Já estamos indo para cama. — Abby a pegou pelo braço e a guiou de novo até a porta.
Estava ignorando a pergunta no olhar duvidoso da mãe e a forma com que ela virou a cabeça para trás e olhou para Jordan.
Nada disso era real.