Antes que Você Diga Sim

Clare Lydon · Capítulo 7 de 35

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Antes que Você Diga Sim

Sete

— Claro. Já pensei nisso.

— Bom. — Delta a olhou mais uma vez. — Ela estará presente na noite de núpcias também?

Abby deu um soco de leve no seu braço.

— Pelo menos, estaríamos transando.

Ela prendeu a respiração. Não queria ter dito isso em voz alta.

— Ainda estão na seca?

Assentiu. Pegou um cabide com um biquíni azul marinho de bolinhas brancas.

— E esse? — Abby sabia que não transar nos meses que antecediam o casamento poderia ser comum. Mas essa estagnação era mais que isso. Já havia meses.

Mas Marcus era gentil.

Ela tinha que focar nisso.

Sete

— QUAL DESSES ESCOLHO? — Jordan se afastou dos tacos de golfe que Abby havia colocado ao lado da sua baia como se fossem radioativos.

Em frente a elas, o gramado era de um verde luxuoso, repleto de bandeiras e armadilhas, com o comprimento de trinta baias. As laterais eram rodeadas por telas de trinta metros para as bolas não escaparem. As redes eram necessárias. Conforme Jordan ficava parada, bolas voavam pelo alto e pelos lados, e as batidas rítmicas faziam um ruído constante.

Abby riu alto.

— Isso se chama tacos. Você não sabe nada mesmo sobre golfe?

— Mas isso não é golfe, é?

Abby balançou a cabeça.

— Estamos no lugar onde os jogadores podem praticar suas tacadas.

Ou só para baterem em algumas bolas.

— Entendi. Não me dou muito bem com esportes. Eu era o tipo de aluna que sempre estava menstruada na educação física da escola. Minha colega de apartamento, Karen, me faz correr porque preciso ficar em forma, mas não iria se não precisasse.

Abby a olhou dos pés à cabeça.

— Sério? Você parece o tipo de pessoa que vai para academia o tempo todo.

Jordan negou.

— De jeito nenhum. Só tenho energia nervosa. Aprendi desde cedo.

Meu pai era do exército, então estávamos sempre nos mudando. Você aprende a ficar atenta e a arrumar as malas em um instante. É por isso que me dou tão bem nesse trabalho. Sou organizada e nada me abala.

Abby assentiu.

— É ótimo ouvir isso da minha madrinha profissional. — Ela parou.

— Além do mais, se odeia esportes, golfe é feito para você. É gentil, não requer nada além de andar um pouco e balançar o braço. E aqui nas baias, você sequer precisa andar. Tudo tem que focar e acertar a bola.

Não parecia tão assustador.

— Consigo fazer isso — Jordan respondeu.

Abby pegou um taco com a ponta grossa, que Jordan achava se chamar drive e se virou para ela, olhando-a fixamente.

— Vou te ensinar a pegada certa em um minuto. Primeiro, sente-se, assista e aprenda. Tudo bem?

Jordan concordou, e se sentou no sofá preto de couro no fundo da baia.

Satisfeita, Abby umedeceu os lábios, curvou as costas e deixou os pés separados. Ela balançou os quadris de um lado para o outro conforme apertava o taco, olhando para o gramado e depois para a bola. A concentração era enorme, e Jordan estava hipnotizada. Os quadris de Abby estavam relaxados e poderiam dançar um quadradinho de oito ou até sambar sem problema nenhum. Jordan se deixou pensar nisso por um instante antes de apagar a imagem da cabeça. Estava ali para trabalhar. E

impressionar pessoas com sua tacada.

Abby balançou um pouco mais os quadris e então ergueu o taco, girou o corpo e rotacionou o tronco com rapidez, acertando a bola em cheio e fazendo com que voasse para o gramado. Ela foi alto e para longe.

Eventualmente, bateu contra a rede do lado direito.

Jordan endireitou a postura e assobiou baixo. Nossa. Abby não só sabia como mexer os quadris de uma maneira perigosa, mas também tinha uma tacada e tanto.

Agora era a sua vez. Droga.

— Você é boa nisso.

Abby olhou para cima, dando um sorriso preguiçoso.

— Vamos dizer que é aqui que venho descontar a minha raiva. Se tive um dia ruim, finjo que as bolas de golfe são meus clientes. Se estou em um dia bom, finjo que é a minha sogra. Sempre funciona.

Ela colocou outra bola em posição, se aprumou e então acertou de novo. Repetiu o movimento mais duas vezes e então se virou, suspirando contente conforme tirava a luva e andava até Jordan. Abby se jogou nas almofadas macias, muito mais relaxada do que quando se conheceram, há dez dias. Aqui era seu porto seguro. Jordan ficou impressionada ao ver que ela se abriu com tanta rapidez.

— O Marcus também vem aqui com você?

Abby assentiu, sem virar a cabeça.

— Sim. Sei que faz isso só para me agradar.

— Ele não joga?

— Até joga, mas só trabalhando. Ele consegue terminar muitas transações no percurso de golfe, é assim que funciona no mundo dos negócios. Acredito que se ele pudesse, nunca mais colocaria os pés no gramado.

— Você também joga?

— De vez em quando, mas isso aqui é mais fácil de encaixar na minha rotina. Vir até a baia, pegar um balde de bolas e mandá-las para bem longe.

É terapêutico. Pode até ser um encontro social, mas consigo fazer isso sozinha. Algumas pessoas vão à academia, outras meditam. Eu venho aqui.

— Abby fez uma pausa. — Não vai tentar? — Ela ergueu uma sobrancelha para Jordan e se levantou, esticando a mão para ela.

— Vamos, vou te ensinar. Prometo que os tacos não mordem. E eu também não.

Jordan engoliu em seco, sabendo que não conseguiria arrumar uma desculpa. Então aceitou a mão de Abby e se levantou, ignorando o frio na barriga quando seus dedos se encostaram.

Abby entregou a ela um taco de ferro, segurando a ponta nas mãos.

— Está vendo isso aqui? — Os dedos percorreram a o aço. — A cabeça é mais angular, o que quer dizer que é mais fácil de acertar a bola.

Jordan assentiu.

— Quero que ela vá longe.

Pegou o taco nas mãos e balançou os quadris da mesma forma que viu Abby fazer.

Não era fácil.

— Entrelace as mãos assim. — Abby pegou outro taco e mostrou o que fazer. — O dedo mindinho entre o indicador e o médio.

Jordan franziu o cenho, e então passou o mindinho por baixo do dedão.

Abby balançou a cabeça.

— Não, o mindinho entre o indicador e o médio. — Ela se inclinou e arrumou o dedo de Jordan. Um leve aroma floral passou por ela antes de Abby se afastar novamente. — Agora olhe para a bola, não para o taco.

Leve-o para trás da cabeça e depois termine rodando a parte de cima. Seus quadris ficam no mesmo lugar.

Jordan afastou todos os pensamentos. Focou na bola branca, depois olhou para o gramado. Bolas voavam nas outras baias. À sua direita, um

homem de boné estava murmurando para si antes de fazer a tacada e errar a bola.

Jordan respirou fundo, levantou o taco, bateu e errou.

Merda.

Ela se virou para Abby.

De alguma forma, era importante que fizesse aquilo. Que conseguisse impressionar a moça. Ela era competente em quase tudo na vida, mas golfe não fazia parte disso.

Abby estava de pé com a mão na cintura, encarando-a intensamente. O

cabelo brilhava sob as luzes da baia, as maçãs do rosto proeminentes.

— Você está segurando com muita força. Relaxe, se solte e vai acertar a bola com mais facilidade. — Abby balançou os quadris como se mostrasse a Jordan o que queria dizer.

A moça copiou os movimentos de Abby. Não tinha certeza de que isso ajudaria. Girou mais uma vez. E errou. De novo.

Puta merda.

Não parecia tão difícil assim na tv.

Em questão de segundos, Abby estava ao seu lado, com os pés afastados e segurando um taco.

— Você está pegando certo, mas está no lugar errado. Está segurando muito em cima. Pegue mais para baixo... assim. — Abby demonstrou no próprio taco.

Jordan encarou as unhas francesinhas. Eram perfeitas. Assim como de todas as suas noivas. No entanto, Abby era a primeira a levá-la a um lugar como esse. Geralmente, ela ia a algum SPA ou saíam para almoçar. Nunca foi para um campo de golfe.

Abby não era uma das clientes normais.

Fez como ela mandou, mexendo as mãos no que esperava ser a posição correta.

— Agora seus dedo estão na posição errada. — Ao menos, Abby sorria enquanto falava. Isso já estava sendo um desafio, e ela sequer tinha acertado a bola.

Abby deixou o taco de lado e se aproximou, arrumando as mãos de Jordan. Um arrepio percorreu seu corpo dos dedos dos pés até o couro cabeludo. Olhou para ver se Abby tinha percebido. Se viu algo, não demonstrou. A moça estava inteiramente focada em seus dedos. Suas mãos

envolviam as de Jordan à medida que se posicionava atrás dela. Então passou o outro braço ao redor da cintura, pressionando seu corpo contra o dela.

Certo, estavam coladas uma à outra. Jordan engoliu em seco e se arrumou conforme Abby encostava ainda mais nela.

— Me desculpe se estou invadindo seu espaço pessoal, mas foi você quem disse que deveríamos nos conhecer mais intimamente. — Jordan conseguia ouvir o sorriso no rosto de Abby. — Meu primeiro instrutor me mostrou assim, e ajudou bastante. — Ela pressionou um pouco mais.

A cabeça de Jordan estava um emaranhado de pensamentos.

Abby levantou o taco de golfe, com os seios pressionados nas escápulas da madrinha.

Isso era bem íntimo.

Jordan tentou focar no que ela estava fazendo.

Em seu aperto.

No balanço.

No fato de que estavam em público.

Mas não era tão fácil assim quando sua libido havia acabado de acordar e seu coração batia tão rápido que parecia que tinha participado de uma corrida.

— Entendeu o que eu quis dizer? — Abby abaixou o taco lentamente, rotacionando o corpo para a jogada.

E então, com uma expressão de expectativa, encarou Jordan.

Será que Abby conseguia ouvir seu coração batendo alto? Esperava que não.

A moça se desvencilhou de Jordan e deu um passo para trás.

Ela pigarreou, sacudindo o corpo e ignorando o constrangimento.

Porque, afinal de contas, tinha ajudado.

Agora entendia como devia segurar o taco e o quanto precisava levantá-lo.

— Foco na bola e coloque o peso na jogada. Tente de novo.

Abby deu um passo para trás, e Jordan balançou os quadris de forma exagerada.

— Você parece profissional. Só mais um pouquinho para acertar.

— Deve funcionar, não é? — Jordan ergueu o taco, segurando-o corretamente. Mas só conseguiu bater na grama falsa. A força do impacto

atingiu seu braço conforme acertou a grama. Ela fez uma careta e deu um passo para trás.

— Tente de novo — Abby disse. — Fazia exatamente isso quando comecei.

— Não acredito. — Jordan respirou fundo. Focada, levantou e acertou a bola, mas também o pino que a segurava. O impacto fez com que suas orelhas tremessem enquanto observava a bola e o pino dispararem.

Conseguiu acertar. Por pouco.

Abby irrompeu em aplausos atrás dela.

— A primeira bola! Daqui para frente, só melhora!

Jordan se virou e ergueu uma sobrancelha. Sabia reconhecer aplausos de pena quando os ouvia.

***

Uma hora depois, havia acertado todas as bolas. Estava no bar pegando bebidas. Ela insistiu, como forma de agradecimento pela paciência da moça em ensinar. A verdade é que Abby gostou. Era boa no golfe, principalmente nas tacadas altas, e achava que mais mulheres deveriam praticar como exercício e como forma de desestressar. Jordan demorou para acertar, mas logo conseguiu lançar a primeira bola, e depois disso sua atitude mudou.

Ficou empolgada, e pareceu triste quando acabou.

Abby chamava Marcus para acompanhá-la porque achava que precisava. Delta odiava golfe. Sua mãe veio uma vez e adorou, mas com a rotina atarefada no trabalho, não conseguiu voltar. Quando Jordan perguntou que lugar a descreveria, o gramado foi a primeira coisa na qual pensou. Não era o trabalho, que ela fazia por dinheiro. Nem sua casa, que não estava mobiliada de forma satisfatória.

Para ela, aquele era o lugar onde ia para pensar e para ser ela mesma.

Às vezes, vinha só para tomar uma cerveja no terraço e olhar para o gramado. Marcus não gostava de bares como esse, preferindo sempre restaurantes ou bares mais chiques. Era estranhamente empolgante estar ali com outra pessoa. Alguém que já a deixava confortável. Convidou Jordan para seu santuário, e tudo caminhava bem. Abby não deixou de apreciar esse fato.

Jordan estava voltando, concentrada tentando não derrubar as cervejas e com um saco de batata chips de sal e vinagre na boca. O último botão da blusa estava aberto, revelando um pouco mais da sua barriga lisa. O cabelo dourado estava ondulado, e ela usava um par de tênis Nike que Abby chegou a experimentar há algumas semanas. Marcus havia dito que eram cafonas.

Não estavam cafonas em Jordan.

Nada parecia ficar cafona nela.

Talvez Abby devesse ter comprado os tênis. Só seria um pouco constrangedor se as duas aparecessem usando-os ao mesmo tempo.

— Aqui está. — Jordan colocou as bebidas na mesa e tirou o pacote de batatas da boca. — Não sei se você come esses snacks ou se baniu carboidratos da dieta antes do casamento. A maioria das noivas faz isso.

Mas você pediu cerveja, então achei que valia correr o risco. Se não quiser, como sozinha, sem problemas.

Abby balançou a cabeça enquanto tomava um gole da cerveja.

— Vou te ajudar, não se preocupe. Esse vai ser o jantar de hoje, então acho que posso comer uma batata ou duas para contribuir com as calorias diárias. Mas nada de stories no Instagram. Se a Marjorie vir isso, vai ter um ataque cardíaco.

Jordan riu, abrindo o saco de batatinhas para que pudessem pegar.

— Encontrei com sua sogra outro dia, e ela foi muito simpática comigo.

— Porque você é magra. E bonita.

Jordan a olhou como se estivesse fora de si.

— Como se você fosse feia. E aposto que faz uns quatro anos que não come pão.

Abby gargalhou.

— Três.

Ela gostava de como conseguia rir com Jordan.

Gostou da sensação de tê-la nos braços e de mostrar a ela como fazer a tacada.

Mas não ia pensar nisso.

Eram só sentimentos de amizade. Nada mais.

— Em minha defesa, já comi o suficiente pela vida toda. Pão era o elemento principal de qualquer dieta em Glasgow. — Abby se recostou na cadeira, alisando o copo de vidro. — Agora que já te ensinei como fazer uma tacada de golfe, é a sua vez de me ensinar como vamos fingir que nos conhecemos bem. Não sei se vou conseguir fazer isso.

Jordan assentiu.

— É claro que vai. Além do mais, já que sou uma amiga com quem você perdeu contato há muito tempo, também não vai saber de todos os detalhes da minha vida, e estamos conversando só agora. A história é infalível. O principal é que precisamos passar muito tempo juntas antes do casamento. Não o tempo todo, claro, mas saídas como essa. Você me mostra do que gosta, e é uma via de mão dupla. Pode me perguntar o que quiser.

Vou ficar feliz em responder.

Abby assentiu. Fazia sentido. Não estava tão preocupada com o dia do casamento em si, porque ninguém faria perguntas sobre o passado. O

problema era o final de semana da despedida. Os drinques, o jantar de ensaio do casamento. Delta sabia a verdade, assim como os pais de Marcus.

Contaria a seus pais até lá. Mas precisava convencer todas as outras pessoas.

— Que idade você tinha quando saiu da minha escola?

Jordan acariciou o queixo, pensativa.

— Nove anos. Fomos amigas por algum tempo. A parte boa dessa história é que não estou mentindo. Como eu disse, me mudava muito quando criança e sempre deixei amigos para trás. No fim das contas, nem tentava mais fazer amizades. Era mais fácil. Me poupava a tristeza.

— Minha infância foi o contrário. Era tudo muito estável. Minha mãe ficava fora o dia todo, e como meu pai trabalhava em casa, me levava para escola quase todos os dias.

— Que sonho — Jordan falou. — Ainda encontra alguns desses amigos da escola?

Abby balançou a cabeça.

— Agora que moro aqui, não tanto. Mas alguns virão para o casamento. Não estou tão preocupada assim de descobrirem o disfarce. Se dermos bastante vinho para todos, ninguém vai fazer perguntas.

— Isso sempre funciona. — Jordan fez uma pausa. — Quando a pequena Abby estava brincando pelos parques escoceses e sonhando com sanduíches, já queria trabalhar com finanças?

Abby fez uma careta.

— Alguém sonha em trabalhar com isso?

— Meu primo. Mas ele é esquisito.

— Bom, a resposta é não. Na verdade, estou tentando ser promovida, o que significa passar ainda mais horas em um trabalho que odeio. — Quando falava dessa forma, começava a se questionar sobre suas escolhas de vida.

— Eu queria ser jogadora de golfe na adolescência, mas achei que já era tarde para investir nisso. Tiger Woods começou a jogar com um ano. A segunda opção era trabalhar com caridade, conseguir grandes coisas e salvar o mundo.

Jordan assentiu.

— Começando com sonhos pequenos.

— Era isso que eu achava. Fui para Oxford, porque li que as pessoas que fazem grandes mudanças vão para lá. Queria estar no time deles. Mas não gostava de quase ninguém. A única exceção era Marcus. Ele era gentil e atencioso.

— Nossa, então estão juntos há algum tempo.

Abby balançou a cabeça.

— Não, nunca chegamos a ficar na faculdade. Nossos caminhos se cruzaram, tínhamos amigos em comum, mas não nos envolvemos romanticamente. Só aconteceu há cerca de dezoito meses, quando o reencontrei em um evento de trabalho. Fomos beber e conversar sobre os velhos tempos, e ele me convidou para jantar. E aí, o resto da história.

Jordan sorriu.

— Um clássico romance de segundas chances.

Nuvens se formaram na mente de Abby, mas ela concordou mesmo assim. Ela e Marcus não eram nenhum amor antigo, sabia disso. Talvez fosse mais verdadeiro da parte de Marcus. No entanto, ela o amava. E sabia que o noivo sempre estaria ao seu lado, não importava o que acontecesse.

— Algo assim — respondeu.

— Acha que vai voltar a encarar o sonho de fazer caridade e salvar o mundo depois que se casarem?

Será? Abby nunca cogitou isso. Se casar com Marcus e se mudar havia consumido todos os seus pensamentos nos últimos tempos. Não conseguia se concentrar em nada depois além disso.

Nem na lua de mel.

Se casar, mudar de nome e de casa.

Um passo de cada vez.

— Vivo na rua Charity, serve? Acho que é um bom começo — falou, se referindo ao nome que, em seu idioma, significava caridade.

Jordan inclinou a cabeça.

— Mas você sempre disse que queria salvar o mundo quando tínhamos oito anos. Queria ser conhecida por todos. Alguém que faria a diferença, e que só você saberia a razão. Também queria ser a sexta integrante das Spice Girls, e eu aplaudia essa grande ambição.

Por um segundo, Abby achou mesmo que ela estava falando a verdade.

— Você é muito boa. — Encarou Jordan. Ótima atriz. Um sorriso brilhante para combinar. Braços firmes que havia segurado mais cedo.

Ela estremeceu.

— Agora você está me fazendo acreditar que nos conhecíamos, porque eu realmente tinha esses pensamentos grandiosos quando pequena. Eu era uma garotinha que queria ir além dos próprios limites desde cedo. Também queria ser uma mistura de Baby Spice e Sporty — falou, se referindo a Emma Bunton e Mel C.

— Você poderia ser a Spice do Golfe.

— A integrante que elas nem sabiam que estava faltando.

Os cantos da boca de Jordan se curvaram.

— Ainda pode fazer isso.

— Ser uma Spice Girl? Acho que já passou da minha época.

— Não para suas outras ambições. Você é jovem. Tem dons para negócio que funcionariam em um novo ambiente. Pode pensar nisso depois do casamento.

Abby assentiu. Talvez devesse. Talvez estivesse deixando a vida levá-la por tempo demais.

Talvez até mesmo esse noivado.

Agora não, Abby.

— Além do mais, é um bom sinal para a nossa relação, certo? Se consigo te ler tão bem assim, talvez não sejam necessárias muitas dessas sessões.

— Ah, vai ser, sim — Abby disse. — Não te conheço e não sei se confio em como eu leio as situações. E você precisa trabalhar mais nas suas tacadas. De verdade. — Abby abriu um sorriso para Jordan, e então desviou o olhar conforme o sangue ia para suas bochechas. Ela não sabia por que,

mas ficava envergonhada em falar da sua vida, uma vez que, claramente, Jordan sabia o que estava fazendo com a dela.

Enquanto isso, estava em um trabalho que só aceitou porque lhe proporcionava o estilo de vida com o qual estava acostumada. Conhecer alguém como Jordan havia salientado isso. Abby se afastou dos seus sonhos de criança. Estava muito longe de onde queria estar na década passada, quando se formou na faculdade. Lá, dispondo de um diploma de prestígio, o mundo era uma redoma de vidro. Poderia ter feito trabalhos de caridade como planejou, mas já havia sido influenciada por tudo que os amigos estavam fazendo. Queria o salário absurdo que todos ganhavam. Já havia se esquecido de que um dia desejou algo diferente.

Até Jordan aparecer. Com sua péssima tacada de golfe e o sorriso fácil.