Antes que Você Diga Sim

Clare Lydon · Capítulo 5 de 35

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Antes que Você Diga Sim

Cinco

JORDAN COMBINOU DE SE ENCONTRAR com Abby no Pinkies Up, uma adição recente ao burburinho de cafés na Balham High Street. Ela havia entrado em contato com Sean, um amigo que morava ali perto, e ele comentou que aquele lugar era badalado. E não estava errado. O café continha muitas mesas de madeira branca com cadeiras combinando. As paredes eram pintadas de um rosa claro, enfeitadas com plantas exuberantes em vasos, cujas folhas ficavam penduradas por toda parte. Jordan gostou da atmosfera. Plantas a acalmavam e faziam com que se sentisse segura.

Estava adiantada, pois era assim. Jordan se sentou e olhou ao redor enquanto bebia seu café americano com leite quente. O lugar estava cheio, com alguns pais, crianças e também pessoas digitando furiosamente em seus laptops. Jordan nunca os entendeu até começar o próprio negócio.

Agora, sabia como era ter a oportunidade de trabalhar fora das quatro paredes da sua casa, com o burburinho da interação humana. Apesar de que depois do longo trabalho que fez, ansiava por uns dias de solidão. Lidar com o público era parte de seu trabalho, e isso nunca foi fácil.

Exatamente às dez, uma mulher entrou torcendo as mãos e com o olhar furtivo percorrendo o café. A mulher do e-mail. Abby.

Jordan se aprumou. Mesmo que não tivesse visto sua foto, saberia que era a cliente. Já havia feito isso muitas vezes. Apesar de que. normalmente, as noivas não eram tão relutantes quanto a moça soou ao telefone. Elas adoravam ter atenção extra. Talvez Abby fosse um desafio maior que o normal.

Jordan disse a ela que estaria usando uma camiseta amarela. Sabia que contrastava com sua pele queimada de sol, sempre recebia elogios quando usava essa cor. Escolheu calça preta e um par de tênis brancos para parecer casual, mas também arrumada. Se estivesse formal demais no primeiro encontro, costumava prejudicar tudo.

Jordan ficou de pé e acenou para Abby.

Ela estendeu uma mão quando a moça se aproximou.

— Obrigada por vir, Abby. É um prazer te conhecer.

A cliente apertou sua mão com força e ofereceu um aceno de cabeça, se sentando de frente para ela. Usava blusa preta e jeans escuros. As unhas estavam pintadas de vermelho. Isso dizia a Jordan que Abby se cuidava. O

cabelo escuro era na altura dos ombros, levemente ondulado. E ela tinha lindas maçãs do rosto. Sem dúvida nenhuma, Abby era incrível. Segurou a bolsa Coach marrom conforme analisava Jordan de cima abaixo.

Será que seu cabelo loiro, os olhos azuis e o melhor sorriso passariam no teste? Parecia que sim, porque o corpo de Abby relaxou visivelmente.

— Quase não vim. — Ela tinha um leve sotaque escocês. Então se recostou na cadeira. — Mas fiquei pensando na educação que recebi em casa. Sei que você veio de Brighton, então seria grosseria te dar um bolo. —

Os ombros se levantaram e depois relaxaram novamente. — E agora, aqui estou. Quanto tempo vou ficar... bem, aí depende.

— Depende do quê? Se o café é gostoso? Estou achando que sim. —

Jordan chamou a atenção de uma garçonete.

Abby fez o pedido. Se revirou no assento novamente antes de pendurar a bolsa na parte de trás da cadeira.

Ela ia ficar. Jordan conseguiu vencer a primeira rodada.

— Tenho que admitir, você não é o que eu estava esperando.

— É? — Jordan raramente era. — O que você estava esperando?

— Alguém usando um vestido de madrinha. Eu sei que é idiota. Você não está em um casamento, então por que faria isso? É só que você parece uma das minhas amigas. Alguém que eu conheceria. Não estava esperando algo assim.

Jordan sorriu.

— O trabalho é mais ou menos esse. Preciso aprender a me misturar e a fazer parte da sua vida. Posso fazer isso do jeito que você preferir. — Ela ergueu algumas mechas do cabelo loiro na altura do ombro. — Essa é quase a cor natural do meu cabelo, com um pouco de ajuda do salão. Mas já pintei de vermelho, castanho e até mesmo preto quando precisei. Sou quem você precisa que eu seja. — Jordan observou a estatura de Abby. A moça ainda estava tensa. Seu trabalho era continuar a falar para fazer com que relaxasse. Era sua especialidade. — Mas já estou indo longe demais.

A garçonete trouxe o café.

— Quer alguma coisa para comer? — Será que Abby comia no café da manhã? Jordan apostava que não.

Ela balançou a cabeça.

— Não, obrigada.

— Certo. Então acho que devo falar um pouco mais sobre o meu trabalho. Comecei no ramo, porque vi que havia demanda, e o negócio cresceu por meio de indicação. Como o Marcus me encontrou?

— Acho que por um site. — Ela apertou os lábios e franziu o cenho. — Acho esquisito que ele saiba que esse tipo de serviço exista.

— Quando ele me mandou e-mail, me pareceu que queria que seu casamento corresse o mais tranquilo possível. Esse é o meu trabalho, e eu o faço muito bem. Você pode conversar com qualquer uma das noivas com quem já trabalhei, e elas vão reiterar o que digo.

— Vou confiar em você. — Abby bebeu o café, acenando para Jordan.

— Tinha razão. É bom mesmo. Sobre o que você conversa nesse primeiro encontro?

Jordan limpou a garganta.

— O que posso fazer para ajudar. Mas também é uma chance para a gente se conhecer e ver se conseguiremos trabalhar juntas. Se conseguirmos, é bem direto. Não aceito todos os clientes que me procuram, e também não são todos que me aceitam. Então, sem pressão. — Jordan fez uma pausa. Abby era uma pessoa complicada de se analisar. — Vamos começar com algo fácil. Me conte sobre a sua vida. Seu trabalho, sua família... e a coisa mais importante: como você conheceu o Marcus.

Abby cruzou as pernas antes de assentir para Jordan.

— Bem, para começar, sou gerente de projetos na Investwell. Estou concorrendo a uma promoção para gerente de equipe. Temos um projeto para implantar um novo sistema em nossa divisão de ativos. Meu chefe é simpático, mas entediante. Se terminar como ele, vou me dar um tiro. O

meu trabalho não é empolgante, mas paga bem. Faço coisas e as pessoas gostam. — Ela encarou Jordan. — Se não estou errada, também é o que você faz, certo?

Ela era perspicaz. Jordan assentiu.

— Em parte. Mas pense também que sou como uma líder de torcida para te encorajar. Seu braço direito e também alguém para quem você pode contar suas mágoas. — Às vezes, Jordan dizia “terapeuta”, mas tinha quase certeza que se falasse isso, Abby sairia correndo. Aquela mulher parecia ser do tipo independente, daquelas que nunca pediam ajuda. Será que

contrataria Jordan? Não tinha ideia. — Sendo gerente de projetos durante o dia, fazer o mesmo trabalho no seu tempo livre deve ser a última coisa que você vai querer. — Hesitou. — Você arruma sua casa?

Um sorriso fez o rosto de Abby se abrir. Ela ficava ainda mais bonita.

Balançou a cabeça, negando.

— De jeito nenhum. O Marcus ganha essa batalha. Sei que deixo canecas de café espalhadas por dias a fio, e isso o deixa maluco.

— Não é possível tomar conta de tudo o tempo todo — Jordan respondeu. Ela tinha acertado na análise. — E sua família?

— Minha família. — O sorriso de Abby se abriu ainda mais. — São muito mais fáceis de lidar do que a família do Marcus. Minha mãe, Gloria, é professora na faculdade de Glasgow, mas está morando em St. Albans.

Meu pai conserta aspiradores de pó.

Jordan hesitou por um momento.

— Esse é o emprego dele?

— Todo mundo me pergunta a mesma coisa. É, sim. — Ela sorriu. —

Ele não é meu pai biológico, mas é como se fosse. Foi ele quem me criou.

Seu nome é Martin. As três primeiras letras do seu nome são iguais às do homem com quem vou me casar. Talvez isso os tornem especiais, não é?

Jordan inclinou a cabeça.

— Talvez, sim. Meu pai se chama Bob, então não saberia responder.

— Ela fez uma pausa. — Me conte como você conheceu o Marcus e como ele te pediu em casamento.

Abby alisou o jeans.

— Bem, o que posso dizer sobre o Marcus? Ele é um fofo. Sou sortuda por tê-lo em minha vida. — Sua boca estremeceu conforme falava. — O

pedido foi feito depois de um jantar romântico em sua casa. Ele se ajoelhou e perguntou. — Abby fez uma pausa. — Foi bem antiquado e bonito. Ele pediu minha mão aos meus pais na semana anterior, porque é um cavalheiro. Esse não é o tipo de coisa que amo, pois não sou propriedade deles. — Abby continuou balançando o pé. — Mas meu noivo é assim: tradicional e fofo. Além disso, ele faz um curry verde delicioso. Minha mãe acha que devo me casar só por ele saber cozinhar.

— Já ouvi motivos piores — Jordan respondeu.

— Tenho certeza de que sim. — Abby bebeu o café antes de umedecer os lábios e um sorriso se insinuar em seu rosto. — Por favor, me conte por

que devo te contratar como minha falsa madrinha de casamento.

— Porque consigo aliviar todo o estresse do casamento e fazer com que você goste da experiência de se casar. O pacote mais caro me inclui como uma de suas madrinhas. Se quiser que eu escreva seus votos, organize a despedida de solteira ou arrume o sutiã ideal para o grande dia, é o que vou fazer. Até consigo te fazer dormir na noite anterior ao casamento.

Abby riu com o comentário.

— Você também é mágica?

— Já me disseram isso. — Jordan retribuiu com seu melhor sorriso. —

Se não quiser o pacote completo, posso ser contratada por diária como uma assistente. Faço com que sua vida seja mais fácil, e posso fazer o que você precisar.

Abby assentiu conforme pensava.

— Se decidir pelo pacote VIP, a história que conto é que sou uma amiga de infância que você reencontrou e reatamos a amizade. — Jordan apertou os cotovelos contra o abdômen, virando as palmas das mãos para cima. — Prometemos que seríamos madrinhas de casamento uma da outra, e aqui estou. — Ela se aproximou mais, fixando o olhar em Abby. — Essa história sempre funciona. Você ficaria chocada com o fato de que as pessoas quase não pedem mais detalhes. — Jordan coçou a bochecha. — Por mais improvável que seja, se perguntarem algo além, sou discreta e ótima atriz.

Me dou bem com todo mundo, o que é parte do trabalho. Marcus disse que o problema é sua sogra. Tenho experiência com elas também.

Abby começou a balançar o pé novamente.

— Você tem uma sogra?

Jordan sentiu um arrepio da cabeça aos pés.

— Não. Se tivesse, imagino que também seria difícil de lidar. — Ela sorriu. — Mas já tenho experiência e conhecimento. Me formei em psicologia e sei como lidar com as pessoas. Sei enfrentar o problema, e posso evitá-los antes mesmo que aconteçam. Se é com ela que você está tendo dificuldade, pode me contar tudo, e não vão conversar mais antes do casamento.

Abby pareceu absorver suas palavras por alguns instantes.

— Isso soa tentador. No entanto, já tenho duas madrinhas. A principal está arrumando a despedida. Não sei o quanto eu precisaria de seus serviços.

Jordan deu de ombros.

— Sem problemas. Posso ser a madrinha extra que ajuda a aliviar a tensão. Posso ser a madrinha principal em tudo, menos no nome. — Ela ergueu as mãos. — Não quero encrenca com ninguém. Se a sua madrinha já está com tudo pronto, ótimo. Mas... — Jordan hesitou. Esse era sempre um assunto delicado. — Para ser sincera, ela está com tudo organizado? Está melhorando sua vida ou piorando?

Abby franziu a boca para um lado, depois para outro. Por fim, soltou um longo suspiro.

— Cacete, ela é um pesadelo. — Depois, colocou a mão sobre a boca.

— Não conte que eu disse ou ela me mataria. Merda, não deveria verbalizar isso.

Jordan reprimiu um sorriso. Dois palavrões em apenas duas frases.

Abby estava começando a relaxar.

— Essa é uma história bem comum. — Ela se inclinou para frente, colocando uma mão no braço de Abby.

A moça se retraiu, olhando para os dedos da madrinha e depois para ela.

Alguma coisa se contorceu dentro de Jordan. Segurou o olhar de Abby por um instante antes de balançar a cabeça.

— O que eu estava dizendo?

O que ela estava dizendo? Tentou se concentrar.

— Ah, sim. Confidencialidade do cliente. Se me contratar, qualquer coisa que diga para mim é em completo sigilo. Qualquer coisa mesmo.

Então não se desculpe. Consigo te ajudar melhor se souber exatamente com o que estou lidando. Certo?

Abby assentiu com as bochechas coradas e desviou o olhar do rosto de Jordan.

— A verdade é que ela é a minha melhor amiga. Seu nome é Delta. É

uma mulher super capaz e incrível. Mas acabou de levar um fora da namorada, e no momento, é tudo em que consegue pensar. Desde que isso aconteceu, ela não fez mais nada, e estou surtando de leve por causa da despedida de solteira em Cannes.

Jordan se recostou na cadeira. Abby precisava de ajuda com a sogra e a madrinha. Com certeza, ela conseguiria esse trabalho.

Gostou dessa noiva. Ela era sincera, e Jordan poderia escutar seu sotaque escocês suave o dia todo. Tinha certeza de que Abby teria sua cota de surtos – todas as noivas faziam isso –, mas também tinha a impressão de que seria razoável. Além do mais, a madrinha era da comunidade LGBTQIA+. Isso também ajudava.

— Se trabalharmos juntas, posso organizar a despedida e aliviar a pressão. Posso cuidar da Delta e da mãe do Marcus. Qual o nome dela?

— Marjorie. — O nome saiu da boca de Abby com um sibilar. — Também começa com “Mar”, não é? Isso acaba com a minha teoria.

— Talvez só funcione com homens.

O rosto de Abby relaxou em outro sorriso. Novamente, isso a transformou. Ela deveria sorrir com mais frequência.

— As pessoas realmente tiram fotos com você no casamento? Uma completa estranha?

Jordan assentiu.

— Sim. Uma moça me contratou porque as madrinhas estavam brigando entre si, e ela as dispensou. Organizei a despedida e fiz tudo que era preciso, inclusive entrar antes dela no altar.

— Entendo. Eu não queria madrinhas, mas a Delta me convenceu. E

agora está lá, chorando as pitangas. Minha prima Taran ainda mora na Escócia, então não pode ajudar em nada.

— Acho que o Marcus estava certo. Você precisa de ajuda.

— Mas Marjorie e Delta? Tem certeza de que está preparada?

Nenhuma delas é fácil. A Delta jogava rugby na faculdade.

Jordan riu.

— Vou tomar cuidado para não ser derrubada.

— Ela é escocesa, assim como eu, mas só nos conhecemos na faculdade, em St. Albans. — O rosto de Abby suavizou enquanto falava. —

Ainda não consigo acreditar que as pessoas aceitam ter uma estranha como madrinha de casamento.

Não era nada que Jordan já não tivesse ouvido.

— Sou uma estranha agora. Se trabalhar com você, não vai ser assim por muito tempo, certo? Além do mais, algumas madrinhas são parentes distantes que só viram a noiva uma ou duas vezes na vida. Quando o casamento acontece, é normal que eu conheça mais as noivas do que as próprias melhores amigas. Casamento é um momento de descobertas.

— Uma madrinha profissional. — Abby balançou a cabeça. — Como começou a fazer esse trabalho?

— É uma longa história. Te conto se me contratar.

— Você realmente se tornaria uma barreira entre mim e a mãe do Marcus?

— Se me lembro corretamente, são só cinco semanas até o casamento, certo?

Abby assentiu.

— Posso me certificar de que vocês tenham o mínimo de contato até lá. A não ser por algum evento particular.

— Levando isso em conta, acho que vale tentar. — Abby fez uma pausa, encarou Jordan e então inclinou a cabeça para trás, soltando um longo suspiro. — Decisão tomada. — Ela se endireitou e estendeu a mão.

— Vamos ver se isso funciona. Você vai ser minha madrinha. Não queria nenhuma, e agora tenho três. — Ela ergueu uma sobrancelha delineada. —

Vamos pedir outro café para celebrar?

— Eu pago. — Jordan chamou a garçonete antes de esticar a mão para apertar a de Abby.