Antes que Você Diga Sim
Vinte e seis
Abby se virou.
Marcus olhou para as duas. E franziu o cenho.
— Está tudo bem? Vocês estão um pouco estranhas. Aconteceu alguma coisa no final de semana que eu deveria saber?
O sangue de Jordan congelou, mas não disse nada.
Abby abriu a boca para falar, mas Marcus ergueu a mão.
— Quer saber, o que quer que tenha acontecido, não preciso saber.
Melhor. — Ele sorriu para sua noiva com uma expressão tão tomada de amor que o estômago de Jordan se revirou. — Se contrataram um stripper, se beijou outro homem, tudo faz parte. Desde que esteja pronta para se casar comigo agora, é tudo que importa.
Jordan sequer olhou para Abby, porque não importava o que o seu rosto dizia ou o que ela estava pensando.
Abby havia escolhido Marcus.
E ela precisava terminar seu trabalho e seguir em frente.
Vinte e seis
JORDAN ENTROU NA Turnbull House, a mansão-hotel onde aconteceria a recepção do casamento. Não precisava perguntar ao pessoal onde ficava o restaurante, porque já esteve lá algumas vezes nas últimas semanas, coordenando os ajustes de última hora com floristas, fornecedores, banda e a cerimonialista. Pelo menos, assumir o planejamento do casamento significava que seus deveres não se concentravam apenas em Abby. Tinha quase certeza de que a noiva também era a favor disso.
As reuniões que tiveram juntas foram rápidas, e Abby preferiu fazer a maior parte por e-mail ou mensagens, com o mínimo contato.
Mas quando se encontravam em algum lugar, o ar parecia carregado.
Como não poderia ficar? Só fazia quatro dias desde o avião.
E agora tinham que fingir que os laços eram somente profissionais e nada mais.
Jordan manteve a compostura. Até mais cedo, quando ensaiaram a cerimônia. Foi quem todos esperavam que fosse: uma profissional de primeira.
No entanto, esta noite era diferente. Não conseguia ficar parada. Não conseguia relaxar. Fazia sentido. O jantar de ensaio aconteceria na frente de todo mundo. A primeira celebração de Marcus e Abby como um casal feliz.
Como ela reagiria? Teria que descobrir. Alisou seu vestido rosa curto e elegante, ajeitou o broche prateado e respirou fundo.
A primeira pessoa que encontrou foi Marjorie. A mulher nunca parecia nada menos que glamurosa. Será que ela dormia usando maquiagem e pérolas? Não ficaria surpresa se a resposta fosse sim. Marjorie a cumprimentou com um sorriso comedido e um aceno de aprovação.
— Você, minha querida, sabe bem como usar um vestido. Talvez devesse dar algumas dicas para Abby nesse quesito. Ela sempre usa a cor ou o corte errado, não acha?
Não concordava. Toda vez que via Abby, ela estava linda de morrer.
— Acho que ela se veste bem — respondeu.
Marjorie não desviou do assunto.
— É a pele pálida de escocesa dela. Não é muito boa. Até ofereci a moça que faz meu bronzeamento, mas ela dispensou. Eu só estava tentando ajudar, já que ela vai vestir branco no grande dia, o que não vai ser a cor mais natural para ela.
Ela sorriu. Ah, o discurso da sogra. Era bom saber que Marjorie estava se convertendo para fazer o tipo. Deixava Jordan mais à vontade e dava uma estimativa de qual posição ela precisava tomar no casamento.
Foi só quando olhou por cima do ombro de Marjorie e viu Abby e Marcus indo na direção delas que seus músculos tensionaram.
Porque a ideia que Jordan tinha da noiva era muito mais precisa que a de Marjorie.
Quando seus olhares se encontraram, algo se passou entre elas. Algo que fez o peito de Jordan doer.
Não encontrava alguém que a impactava dessa forma há muito tempo.
Tinha algo com Abby. Ela a fazia sorrir, o que contava muitos pontos. E
tinham visões de mundo parecidas. Se ela ao menos acreditasse em seus instintos...
Mas isso não aconteceu, e agora estava se casando com Marcus.
Precisava esquecê-la.
— Aqui está, o casal do momento! — Marjorie cumprimentou os dois com beijos no ar e não os abraçou direito, da forma que pessoas ricas costumavam fazer. — Preparados para ensaiar o casamento?
Abby assentiu, focando na futura sogra.
— A cerimônia correu bem. Agora vamos para o jantar e os discursos.
— Não tomar muito vinho é a chave de tudo — Marjorie respondeu.
Marcus balançou a cabeça.
— Bobagem. Não existe isso de muito vinho. Não é, Jordan? — Ele sorriu para ela. — Aliás, você está linda. Esse tom de rosa cai muito bem em você.
Ele colocou um braço ao redor da mãe e os dois se afastaram, deixando Abby para trás, encarando Jordan.
— Ele tem razão — ela disse, ao lado de Jordan e olhando para seus lábios. — Você está realmente linda.
Jordan a encarou de volta.
— Você também.
Abby tocou em seu braço antes de ir atrás de Marcus. Mas, ao se virar, seu olhar era de puro desejo.
Jordan fechou os olhos e respirou fundo.
Só mais dois dias e tudo isso acabaria.
***
Duas horas depois, já estavam no prato principal do jantar.
O estômago de Jordan estava roncando, mas ela não estava prestando atenção. Tinha perdido o apetite. Na mesa comprida, conseguia ouvir Delta rindo de algo com Taran e Gloria ao seu lado. Jordan insistiu para se sentar na ponta, caso precisasse cuidar de algum outro problema que surgisse.
Contudo, isso significava que cada vez que olhava para sua direita, via Abby conversando e parecendo empolgada para se casar no final de semana. Jordan tinha que pressupor que ela estava realmente feliz. Queria poder só aceitar e pronto, mas conforme a noite avançava, só queria ir embora.
O padrinho de Marcus, Phillip, bateu na taça para chamar atenção, e todos os olhos se voltaram para ele.
— Só gostaria dizer que não consigo pensar em ninguém melhor para o Marcus do que a Abby. Ela é gentil, carinhosa e está fazendo a coisa certa em deixá-lo esperar e não se mudar para casa dele até o grande dia.
Perguntei se ela estava esperando para consumar o casamento também, mas ela não me respondeu.
Jordan tomou outro gole do vinho. Devia parar. Precisava dirigir para casa ainda essa noite. Capri Carrie estava esperando lá fora, para a consternação da equipe do hotel, que preferia que o carro não estivesse lá.
Sempre acreditou que pessoas ricas gostavam de antiguidades, mas aparentemente, isso não valia para carros.
Marcus estava de pé agora, acenando para Phillip.
— Eu teria aceitado qualquer coisa que a Abby estipulasse, desde que ela concordasse em se casar comigo. E ela concordou.
Ele segurou a mão dela, olhando para a noiva com adoração.
Jordan desviou o olhar.
Ainda assim, conseguia ouvir.
— Abby, mal posso esperar para revelar meus votos para você no domingo. Para dizer o quanto eu te amo. Te prometer que estou pronto para ser seu pelo resto de nossas vidas. Não há mais ninguém no mundo com quem eu queira compartilhar essa jornada de vida. Sou o homem mais sortudo do mundo por saber que você sente o mesmo.
O estômago de Jordan embrulhou. Empurrou o prato para longe. Isso era um pouco demais, até mesmo para ela. Precisava de ar. Se levantou e ficou tonta. Uma mistura de vinho, nada de comida e um coração partido.
— Também gostaria de agradecer às madrinhas da Abby que tornaram essa jornada épica. Obviamente vou fazer um brinde oficial com presentes para todas.
Jordan se sentou de novo com um estrondo.
— Mas, em especial, quero agradecer à melhor amiga de Abby, Delta, e sua amiga mais antiga, Jordan. Particularmente a Jordan, que fez tudo o que podia para que as coisas corressem bem até o nosso grande dia. Tanto que ela está generosamente sentada lá na ponta vestida de rosa, cuidando de qualquer problema e se certificando de fazê-lo desaparecer. Esse é para você! — Marcus ergueu a taça na direção dela.
A mesa inteira se virou para aplaudir Jordan. Ela ofereceu um sorriso cansado.
Então encontrou o olhar de Abby.
Ela estava tão linda.
Jordan estava cansada da noite de hoje.
Quando os aplausos acabaram, e Marcus começou a falar de outro assunto, pegou a bolsa e saiu pela porta lateral da maneira mais silenciosa que conseguiu. Então voltou para a recepção e para os degraus principais da mansão. Os jardins bem cuidados se estendiam diante dela embaixo do pôr do sol. Era um lugar lindo para um casal lindo. Era assim que o mundo funcionava. Já tinha visto o bastante para entender isso. Se ela se casasse um dia, nunca aconteceria em um lugar como esse. Também não ia querer que acontecesse. Esse tipo de lugar não era feito para alguém como ela.
Estava prestes a descer os degraus para atravessar o jardim e chegar no estacionamento quando a porta principal se abriu.
Era Abby. Seus lindos ombros estavam a mostra. Os mesmos ombros que havia segurado no avião.
Jordan ficou imóvel, encarando-a.
— Você se perdeu?
Abby balançou a cabeça.
— Te vi sair. Queria checar se estava tudo bem.
Jordan se virou, descendo as escadas em uma tentativa de escapar.
— Estou bem.
Mais passos na escada indicavam que ela a estava seguindo.
— Jordan — chamou, tocando seu braço. Abby era rápida quando precisava ser.
Ela se desvencilhou, se virando para a noiva.
— Volte para o jantar, Abby. Você ouviu o Marcus. Ele é o homem mais sortudo do mundo. Você não faria nada para estragar isso.
Abby a encarou.
— Sinto muito Por tudo. Por te beijar. Por transar com você. É tudo minha culpa, e acabei te arrastando para dentro dessa confusão.
— Não sente tanto quanto eu. — O coração de Jordan bateu mais rápido enquanto a raiva aumentava. — É muito fácil para você. — Ela gesticulou, apontando para o ambiente. — Você tem todo esse mundo confortável para te acolher. Um homem rico e alto para quem você pode correr. Eu não tenho nada disso. E você fez com que eu sentisse coisas. Fez com que eu quisesse coisas. — Respirou fundo. — E agora descarta isso como se fosse nada.
— Não foi nada! Foi o oposto de nada! — A voz de Abby se ergueu e o tom carregado vibrou no ar. Ela parecia chocada com o próprio volume, olhando em volta antes de voltar a falar. — Você sabe que não foi qualquer coisa — sussurrou. — Foi muito. Mas foi na hora errada e no lugar errado.
Não posso mudar de ideia agora. Não importa o quanto eu queira. — Seus ombros caíram em derrota. — Você não faz ideia. Minha vida não é tão fácil quanto você pensa. Não dormi a semana toda, meu trabalho está exigindo demais e não consigo pensar em nada que não seja você.
Jordan sorriu com desdém.
— Pode parar, Abby. Poderia mudar se quisesse. Você não quer.
Jordan a encarou, sem saber o que preferia fazer. Sacudi-la ou beijá-la.
Mas nenhuma das duas coisas ajudaria. Abby poderia até sonhar com as duas ficando juntas, mas se fosse fazer algo sobre esse assunto, já teria feito, não é?
— Eu quero, mas não é fácil. — Foi a vez de Abby de puxar seu braço.
— Você pode achar que é algo que vai me acolher, mas também é uma prisão. Algo que me impede de fazer o que quero.
— Mas você não é desse mundo rico e opulento. O que a sua mãe diria?
Abby abaixou a cabeça, obviamente sem querer responder à pergunta.
Jordan estendeu as mãos e começou a andar em círculos.
— Não sei quanto mais eu consigo aguentar. Achei que poderia lidar com isso, mas a mentira fica presa na minha garganta.
— Também não sou eu. — Abby disse. — Isso, meu trabalho, nada disso sou eu.
Jordan suspirou.
— Parece que é, de onde estou vendo. — Ela fez uma pausa. — Vou terminar o trabalho como prometi. Só não espere que eu fique o dia todo, brindando ao casal feliz.
Abby assentiu, com os ombros subindo e descendo.
— Claro. Só... queria que as coisas fossem diferentes. Que tivéssemos nos conhecido em circunstâncias diferentes. — Ela encostou em seu braço com a ponta dos dedos.
Até mesmo essa carícia leve causou um turbilhão de desejo no corpo de Jordan. Lançou outro olhar para Abby.
— Jamais quis te machucar. Saber que fiz isso acaba comigo.
Jordan engoliu em seco, a emoção à flor da pele. Não podia voltar agora. Não podia apertar a mão de Marjorie e fingir com Marcus que tudo estava bem.
Precisava ir embora.
Tirou a bolsa do ombro e procurou as chaves do carro. Mordeu o lábio, tentando controlar as lágrimas. Não deixaria que Abby a visse assim.
Engoliu em seco, respirando o ar puro da noite. Precisava ser forte.
— Não posso ficar — começou, com as chaves na mão. — Pode dizer que tive uma emergência e que precisei sair?
O olhar de Abby era bondoso. Até demais. Quase fez com que Jordan se perdesse.
— Claro. — Ela franziu o nariz.
Jordan assentiu, sentindo confusão dentro de si. O que Abby era capaz de fazer com ela? Em um minuto, queria sacudi-la e no minuto seguinte
queria segurá-la nos braços e não deixar que fosse embora.
Afastou os pensamentos para longe enquanto cambaleava pelo caminho de pedras, agradecendo por seu carro não estar longe. Entrou e bateu a porta enferrujada com um caráter definitivo. O silêncio ali era estranho e ensurdecedor.
Segurou o volante, respirando fundo. Precisava sair dali, daquela vida estranha que esculpiu para si mesma e que estava lentamente estilhaçando-a por dentro. Precisava de outro trabalho. Algo que não a deixasse tão à beira da loucura.
Virou a chave na ignição. O motor roncou e depois morreu. Tentou de novo. A mesma coisa. Tentou uma terceira vez.
Nada.
Bateu com a mão no volante, sentindo as lágrimas inundarem seus olhos. Ela era tão leal à Carrie. Por que ela tinha que falhar justo agora?
Por que sua vida estava falhando justo agora?
Por que ela nunca podia ficar com a garota?
As lágrimas caíram e não havia nada que pudesse fazer para impedi-las. Começou a chorar de verdade. Não se importava.
O desespero tomou conta enquanto ela, normalmente organizada e séria, madrinha profissional extraordinária, se despedaçava aos poucos. A ironia de estar no assento do motorista não passou despercebida. Jordan costumava ser a pessoa que conduzia sua vida. Aquela que tinha o controle.
No entanto, desde que conheceu Abby, nada disso era mais seu, e agora não sabia o que fazer.
Abby ia se casar com Marcus.
Jordan estava apaixonada por Abby.
Um barulho à sua direita fez com que se endireitasse. Alguém estava batendo na janela. Apertou bem os olhos e os abriu de novo. Outra batida.
Ela virou a cabeça na direção do barulho.
Era Abby.
Não podia deixar Abby vê-la desse jeito.
Mais batidas, e então uma lufada de ar quente entrou quando a porta se abriu.
Abby se ajoelhou ao seu lado, segurando sua mão.
Era demais. Não deveriam estar fazendo isso. Abby era como uma droga pesada. Experimentar só uma vez não bastava.
— Jordan, me deixa te ajudar. — A voz de Abby era carinhosa e convidativa.
Jordan balançou a cabeça.
— Volte para sua festa, Abby.
— Não quando você está assim. Especialmente quando seu carro não está funcionando.
Ela pegou um lenço no porta luvas e assou o nariz. Qualquer pensamento que tinha sobre sua aparência já tinha se esvaído. Estava no modo de sobrevivência.
— Estou bem. Talvez só tenha que chamar um táxi e deixar o carro aqui.
Abby ficou de pé, estendendo a mão.
Jordan a encarou por algum tempo, e então cedeu, ouvindo o cascalho amassar embaixo dos seus pés. Quando sua cabeça estava na mesma altura que a de Abby, ela cambaleou.
Como resposta, a noiva a pegou nos braços e a segurou com firmeza.
Jordan não tinha mais força para resistir. Então se deixou mergulhar no abraço. Cada parte do seu corpo se alegrou, e ela deixou que ficasse tudo bem. Não podia fazer mais nada.
Alguns momentos de tranquilidade se passaram, e ela quase pôde acreditar que tudo estava bem. Que ela e Abby estavam juntas. Mas não era verdade. Quando esse entendimento se materializou, ela se afastou, mas continuou a apenas alguns centímetros de distância.
— Desculpe pela confusão. Isso normalmente não acontece. Não costumo transar com as minhas noivas. — Jordan forçou um sorriso.
— Fico feliz. — Abby ofereceu um sorriso triste. — Meu coração também está partido, sabe? — Ela hesitou. — Eu adoro... seu carro. É lindo.
Único. Assim como você.
Jordan segurou os braços de Abby com firmeza. Ela estava tremendo.
Isso a deixava ainda pior. As duas olharam para os lábios uma da outra.
Estavam se aproximando.
O que havia de errado com ela? Precisava parar. De jeito nenhum seria a terceira pessoa em um relacionamento.
Seus lábios se encostaram. Por um instante, o mundo ficou no lugar certo. Com os lábios de Abby nos seus, qualquer coisa era possível.
Até que não fosse mais.
— Que merda é essa que está acontecendo? — Delta se materializou do nada.
Jordan deu um pulo para trás, assim como Abby.
Não sabia para onde olhar.
— Não é o que parece — Abby disse, erguendo a mão.
A madrinha colocou a mão no quadril.
— Então se explique. Porque, para mim, parece que vocês estavam se beijando. E não parece que foi a primeira vez.
Ela olhou de Jordan para Abby.
As duas desviaram o olhar.
Delta ficou imóvel, o entendimento se assentando.
— Ah. Meu. Deus. Não é a primeira vez, é? Eu sabia que tinha alguma coisa esquisita acontecendo em Cannes, mas não sabia que era isso. Quanto tempo faz....
— Aí estão vocês! Estava me perguntando onde estava a minha noiva e as duas madrinhas principais. — Marcus foi até elas, sorrindo. Até que viu as expressões das três. — O que aconteceu? Vocês estão bem? — Ele olhou de Jordan para Abby e então para Delta, antes de voltar para Abby. —