As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 1 de 109

Páginas do PDF

As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 1

 

Minha mãe é um pássaro. Não no sentido metafórico de algum fluxo de consciência de William Faulkner. Minha mãe. Literalmente. É um pássaro.

Sei que é verdade, assim como sei que a mancha no chão do quarto é tão permanente quanto o céu, do mesmo jeito que sei que meu pai nunca vai se perdoar. Ninguém acredita em mim, mas é um fato. Tenho certeza absoluta.

No começo, aquele buraco em forma de mãe era feito de sangue. Um sangue escuro e pegajoso no tapete.

De tempos em tempos, eu volto àquela tarde de junho. Cheguei da casa de Axel apenas a tempo de ver meu pai sair, cambaleando, para a varanda. Ele me procurava. Nunca serei capaz de esquecer essa cena: suas mãos sujas e tremendo, o rosto com manchas avermelhadas, o peito pesado, como se, em vez de ar, seus pulmões estivessem se enchendo de chumbo. A princípio, pensei que ele estivesse ferido.

– Leigh… sua mãe…

Ele engasgava ao falar, seu rosto tinha uma expressão horrível. Quando finalmente conseguiu pronunciar aquelas palavras, sua voz veio até mim como se atravessasse um oceano. Era um som da cor do céu, frio, distante e distorcido. Não consegui processar o que disse. Não consegui por um bom tempo. Nem mesmo quando a polícia chegou. Nem quando vieram retirar o corpo da minha mãe de casa.

Aconteceu no Dia Dois Ponto Cinco. O nosso dia, aquele que havia se tornado uma tradição anual para mim e Axel. Deveria ser um momento de comemoração. O ano letivo estava quase acabando e as coisas finalmente estavam voltando ao normal, mesmo com a presença de Leanne. Já estávamos fazendo planos para o verão que se aproximava. Mas acho que o universo tem uma maneira de acabar com o que acreditamos estar garantido.

Onde eu estava naquele dia: no antigo sofá de tweed no porão de Axel, apoiada em seu ombro, tentando ignorar a enorme barreira de eletricidade que havia entre nós.

Se eu encostasse minha boca na dele, o que aconteceria? Levaria um pequeno choque elétrico? A barreira desmoronaria? Nos uniríamos em um só corpo?

E Leanne desapareceria? Um beijo poderia fazê-la desaparecer? Mas a melhor pergunta era: o quanto um beijo poderia arruinar tudo?

Minha mãe sabia onde eu estava. Esse é um dos pontos que ainda não consigo superar.

Se eu pudesse ter sido mais forte que meus malditos hormônios por apenas um minuto, talvez meus neurotransmissores me dissessem para voltar para casa. Talvez eu tivesse me forçado a enxergar tudo o que estava desencaixado ali, ou pelo menos tivesse percebido que as cores ao meu redor estavam todas erradas.

Em vez disso, eu me escondi em minha concha, me permiti ser uma dessas adolescentes egocêntricas e distraídas. Nas aulas de educação sexual, nossos professores sempre fizeram parecer que os caras sentiam mais tesão. Mas ali, naquele sofá, eu tinha certeza de que algum detalhe crucial sobre o corpo feminino, ou pelo menos sobre o meu corpo, havia sido ignorado. Eu estava como um fogo de artifício já aceso, e se Axel se aproximasse, eu subiria aos céus e me despedaçaria em um milhão de fragmentos.

Ele estava usando uma camiseta marrom nesse dia. Era a camiseta dele que eu mais gostava, a mais velha e a mais macia de sentir contra meu rosto quando eu o abraçava. Seu cheiro de garoto se espalhava: o aroma doce do desodorante, o leve toque floral de algum outro produto, e, por trás disso tudo, um suave cheiro de grama à noite.

No fim, foi ele quem tirou os óculos e me beijou. Mas, em vez de irromper em faíscas, meu corpo congelou. Se eu me mexesse um milímetro, quebraria. Só de pensar na palavra – beijo – era como tocar meu peito com uma varinha de gelo. Minhas costelas se apertaram, ficaram duras, congeladas e racharam como teias de aranha. Eu já não era mais um fogo de artifício. Eu era alguma coisa gélida no meio do Ártico.

As mãos de Axel se esticaram nas minhas costas e me desbloquearam. Eu estava mole, ele havia ativado a chave da entrega, e eu o beijava com vontade. Nossos lábios estavam em toda parte e meu corpo estava laranja fluorescente… Não, um roxo brilhante… Não. Meu corpo tinha todas as cores do mundo, estava iluminado.

Pouco antes, estávamos comendo pipoca com chocolate, e era exatamente esse o sabor que ele tinha. Doce e salgado.

Uma explosão de pensamentos fez com que eu me afastasse. A nuvem de pensamentos consistia na lembrança de que ele era meu melhor amigo, a única pessoa em quem confiava cem por cento – além da minha mãe –, e que eu não deveria beijá-lo, não podia beijá-lo…

– Qual é a cor? – Axel perguntou calmamente.

Essa é a pergunta que sempre fazemos para descobrir o sentimento um do outro. Somos melhores amigos desde que caímos na mesma sala, durante a aula de artes da senhora Donovan – tempo o suficiente para que isso seja tudo de que precisamos. Uma cor para descrever o humor, uma conquista, um fracasso, um desejo.

Não consegui responder. Não podia dizer-lhe que eu estava piscando por todo o maldito espectro de cores, incluindo uma nova dimensão de matizes que nunca antes havia experimentado. Em vez disso, eu me levantei.

– Merda – suspirei.

– O que foi? – ele perguntou.

Mesmo sob a fraca luz da única lâmpada do porão, eu conseguia ver como seu rosto estava corado.

Minhas mãos, eu não sabia onde colocar minhas mãos.

– Desculpe, eu tenho que… Eu tenho que ir.

Nós tínhamos uma regra de não enrolarmos um ao outro. E eu vivia quebrando essa regra.

– Sério, Leigh?

Quando ele falou, eu já estava subindo as escadas e agarrando o corrimão para ir mais rápido. Saí no corredor ao lado da sala de estar e recuperei o fôlego como se tivesse acabado de voltar à superfície depois de um mergulho profundo.

Ele não veio atrás de mim. A porta da frente bateu quando saí – até sua casa estava irritada comigo. O som teve cor de vômito verde. Pensei na capa de um livro que fechava sendo que a história ainda não havia sido concluída.