As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 4
O caixão permaneceu aberto durante o funeral e, quando me aproximei daquela caixa de madeira, quase achei que ia ver um montinho de cinzas.
Mas não. Havia uma cabeça. Havia um rosto. Eu vi a marca de nascença amarronzada na cavidade acima da clavícula. A blusa era da minha mãe, uma que ela havia comprado para um recital e depois decidira odiar.
Diante de mim estava um corpo mais acinzentado do que um rascunho. Alguém havia aplicado maquiagem com cores para tentar fazê-la parecer viva.
Não chorei. Aquela não era minha mãe.
Minha mãe está livre no céu. Ela não tem o peso de um corpo humano, não é composta por um único ponto cinza. Minha mãe é um pássaro.
O corpo no caixão nem sequer tinha o pingente de cigarra de jade que vi minha mãe usar todos os dias da minha vida. Aquele pescoço estava nu. Mais uma prova.
– Qual é a cor? – Axel sussurrou ao chegar ao meu lado.
Foi a primeira vez que nos falamos desde o dia em que minha mãe morreu, uma semana antes. Ele deve ter ficado sabendo por sua tia Tina, depois que meu pai ligou para ela. Sei que não deveria tê-lo mantido distante, mas não podia suportar a ideia de conversarmos. O que eu diria? Toda vez que eu tentava imaginar as palavras, tudo em minha cabeça ficava frio e vazio.
De pé, no funeral, ele parecia terrivelmente fora do lugar. A sua roupa habitual – camisa xadrez sobre uma camisa com alguma imagem, calças jeans gastas – tinha sido substituída por uma camisa social muito grande, gravata brilhante e um cinto por cima de calças escuras. Vi como ele olhou, nervoso, para o caixão, como sua atenção cuidadosamente se voltou para o meu rosto mais uma vez.
Se ele olhasse em meus olhos, saberia como havia me trespassado como uma flecha que ainda estava presa em meu peito e se retorcia cada vez que meu coração batia.
E talvez ele visse como minha mãe havia acabado com todo o resto. Como, ainda que ele pudesse tirar aquela flecha dali, o resto de mim continuaria completamente destruído, de uma forma que nada seria capaz de unir meus pedaços.
– Leigh?
– Branco – sussurrei de volta, e pude sentir sua surpresa. Talvez ele esperasse um azul glacial ou o vermelhão intenso do fim da tarde.
Eu o vi aproximar a mão de meu cotovelo e depois hesitar, deixando-a cair.
– Quer ir à minha casa mais tarde? – ele perguntou. – Ou… eu poderia ir à sua casa?
– Não tenho certeza de que seja uma boa ideia.
Eu podia sentir o rosa subir por ele.
– Não quis dizer…
– Eu sei – interrompi sua frase. Não porque fosse verdade, mas porque não poderia suportar que ele a concluísse. O que ele não quis dizer? Que rompemos a barreira entre nós e unimos nossas bocas no mesmo momento em que minha mãe morria?
– Só quero conversar com você, Leigh.
Isso foi quase pior.
– Estamos conversando agora – retruquei, meu interior se retorcia com as palavras que saíam de minha boca.
Mentira mentira mentira. As palavras ecoavam em minha mente e eu tentava empurrá-las para algum lugar em que não pudessem ser ouvidas.
Foi só quando Axel se afastou que percebi como seus ombros tremiam. Ele ergueu uma mão para arrancar a gravata e caminhou em direção ao outro lado da sala. Em um instante, como se tivesse uma visão do futuro, observei a distância entre nós, que se desenrolava como uma fita métrica, até que estivéssemos separados por quilômetros e quilômetros. Até que estivéssemos tão distantes quanto duas pessoas conseguem estar sem sair da superfície da Terra.
Axel achava que conversar poderia ajudar em quê, depois de tudo o que havia acontecido com minha mãe?
O que poderíamos consertar?