As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 5 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 5

 

 

Eu ainda não tinha decidido se ou como contaria ao meu pai sobre o pássaro, mas, enquanto caminhávamos de volta para o carro, depois do funeral, tropecei em um desnível assombroso no chão.

Então, um ditado que costumava ouvir quando criança me veio à mente:

Não pise nas fendas das calçadas ou as costas da sua mãe serão quebradas.

Essas palavras ficaram presas em minha mente. Pisquei e caí entre a grama e a calçada. Papai me ajudou a levantar. Havia uma mancha esverdeada em meu joelho, e isso provocou uma saudade do passado, de um tempo mais simples, quando as manchas de grama estavam entre as minhas maiores preocupações.

– O que é isso? – perguntou papai.

A princípio, pensei que ele estivesse se referindo à mancha. Mas não, ele apontava para um longo e fino ponto vermelho a poucos metros de mim.

Durante a minha queda, a pena tinha saído do meu bolso e deslizado pelo chão. Peguei-a e a enfiei no bolso.

Era sobre isso que papai estava perguntando, é claro. E eu não podia mentir. Principalmente porque tinha a ver com minha mãe.

– É da mamãe – tentei explicar quando entramos no carro. – Ela veio me ver.

Papai ficou em silêncio por alguns segundos, as mãos apertando o volante. Eu vi o milissegundo em que seu rosto se contorceu de tristeza. Sua expressão era tão barulhenta como um rugido, embora o único som que houvesse fosse o do carro movimentando-se sobre o asfalto e o som suave dos pedais sob seus pés ao frear.

– Ela veio ver você – ele ecoou. A preocupação em sua voz era óbvia.

– Ela veio como… Ela se transformou em… – Engoli em seco. Agora que estavam na ponta da língua, as palavras pareciam um pouco ridículas. – Ela é um pássaro agora. Enorme e vermelho. E bonito. Ela pousou na varanda ontem à noite.

Ele virou à esquerda na Mill Road e entendi que estava fazendo o caminho longo para casa, a fim de prolongar a conversa. Eu estava presa.

– Qual é o significado de ela ser um pássaro? – ele indagou, depois de um profundo vazio, e eu soube, naquele momento, que ele não acreditava em mim e que não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer que fosse capaz de fazê-lo mudar de ideia.

Não respondi, e ele suspirou silenciosamente. Compreendi com clareza. Virei o rosto para a janela, meu polegar acariciando a pena.

Com os dedos, ele tamborilou algumas vezes sobre o volante, como costumava fazer quando estava pensando.

– O que o vermelho significa para você? – ele tentou novamente, e soou quase como uma palestra, como se fosse alguma técnica aprendida com o doutor O’Brien.

– Não criei o pássaro, pai. É real. Eu vi. Era a mamãe.

Começou a chover. Entramos diretamente no caminho da tempestade. A água caía fazendo muito barulho e escorria pela janela, cortando a imagem do meu rosto nela espelhada e me cortando cada vez mais.

– Estou tentando entender, Leigh – explicou enquanto conduzia o carro à entrada da casa.

Ele não pressionou o botão para abrir a porta da garagem. Também não desligou o carro. Ficamos lá, sem fazer nada, e os suaves tremores do motor estavam começando a me deixar enjoada.

– Tudo bem – respondi.

Pensei em dar-lhe uma chance. Se ele estava fazendo um esforço real, eu poderia fazer o mesmo. Se ele queria falar disso, tudo bem. Eu só precisava que ele tentasse, por um segundo, acreditar em mim.

Assisti a seus dedos tamborilando sobre o volante enquanto ele procurava as palavras certas. Por um momento, ele fechou os olhos.

– Eu também desejo… poder ver sua mãe novamente. Mais do que qualquer outra coisa.

– Certo – retruquei.

Minha mente escureceu, como a tela de um computador desligado. Soltei o cinto de segurança, abri a porta e saí do carro.

A chuva se agarrava a mim enquanto eu revirava minha bolsa em busca da chave de casa. Era uma chuva quente, e parecia cinza à medida que caía do céu. Imaginei que era uma armadura líquida, tomando a forma do meu corpo onde o tocava. Protegendo-me de tudo.

 

Caro também não acreditava em mim. Tentei contar-lhe tudo quando chegamos ao Fudge Shack, depois de termos trocado a roupa que usamos no funeral. Nós nos sentamos nos bancos altos, uma fatia intocada de fudge à minha frente, sobre o papel-manteiga. Ela tomava grandes goles de seu milk-shake de chocolate e engolia devagar, deixando-me terminar. Caro estava silenciosa, como sempre fazia quando não concordava com algo. No paciente aceno de compreensão e no brilho de seus olhos, pude ver que a estava perdendo com cada palavra que saía da minha boca.

Chegou o momento em que não aguentei mais olhar para o seu rosto. Então, meus olhos recaíram sobre a tinta azul que ela usava no cabelo supercurto. A cor havia desbotado e se parecia com cacos de vidro no fundo do mar. Caro tinha mechas azuis desde que nos conhecemos, no primeiro ano, e elas nunca estiveram tão verdes.

– Estou preocupada com você – ela disse quando terminei.

Passei o dedo no meu fudge e depois o afastei e fiquei olhando a marca que havia feito.

– Sei que você não gosta muito do doutor O’Brien – Caro continuou –, mas talvez valesse a pena… procurar alguma outra pessoa…

Dei de ombros.

– Vou pensar a respeito. – Ela sabia que eu estava dizendo aquilo apenas para que ela parasse de falar daquela maneira.

Olhei a hora no celular e inventei uma desculpa para pegar meu fudge, descer do banco e seguir rumo a qualquer compromisso imaginário para o qual estava atrasada.

Mais tarde, me senti culpada. Será que Caro não estava apenas tentando ajudar?

Mas como alguém poderia me ajudar se não acreditava em mim?

O que eu queria era falar com Axel sobre a minha mãe, pular cem dias para a frente daquele beijo, tentar apagá-lo da memória dele e da minha. Queria contar-lhe sobre o pássaro. Sentei-me no sofá com o meu anseio, fiquei girando um pedaço de carvão entre as mãos, de um lado para o outro, uma e outra vez, até meus dedos estarem pretos o suficiente para que tudo o que eu viesse a tocar ficasse manchado, sujo.

Axel acreditaria em mim? Eu queria pensar que sim. Mas, com toda a sinceridade, não fazia ideia.

Depois de eu não ter atendido o celular, ele ligou para o telefone de casa, apenas uma vez. Ninguém respondeu. Ele não deixou mensagem.

Nunca havíamos passado tanto tempo sem nos ver. Nem quando tive um problema de estômago, seguido por uma gripe e, depois, por uma infecção das vias respiratórias – ele veio mesmo assim, enfrentou o ar tóxico dos meus pulmões para se sentar no sofá ao meu lado e pintar. Nem mesmo quando meu pai me obrigara a ir a Mardenn, aquele acampamento de verão horroroso. Eu estava tão infeliz que Axel pegou um ônibus e foi até lá para me ajudar a fugir de volta para casa.

Ele nunca se afastaria. Disso eu sabia. A decisão estava nas minhas mãos.

Pensar sobre isso era torcer a flecha entre minhas costelas. Então, me deixei engolir por pensamentos sobre o pássaro, minhas perguntas rodando em espiral, como: onde o pássaro estaria agora? O que ele quer?

Tentei desenhá-lo no meu bloco de desenho, mas não consegui um bom resultado das asas.