As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 104
Nosso avião pousa antes do previsto, mas ainda assim só vamos para casa tarde da noite. As estrelas e os grilos estão todos nos chamando para entrar. Nossas cortinas estão fechadas, mas há um brilho suave em suas bordas.
Uma angústia familiar me atinge. Era assim que a casa costumava estar quando eu voltava para casa depois do anoitecer e mamãe estava na sala de estar, tocando piano.
Se eu não entrar, talvez possa apenas ficar ali de pé, parada, com minha mala, e pensar que ela ainda está lá, esperando que eu entre para que ela possa gritar uma saudação mais alto do que a música que seus dedos tocam. Posso fingir que, quando terminar o Rachmaninoff, ela virará as pernas para o outro lado do banco do piano e se levantará para me dar um abraço.
E, em alguns dias, quando for domingo, vou me levantar da cama e encontrá-la na cozinha fazendo waffles com baunilha e creme. Vou ouvir sua voz iluminada me dizendo “Bom-dia!” enquanto ainda estou afastando os vestígios do sono, e vou resmungar uma resposta, lembrando-me de sorrir para ela e oferecer ajuda para preparar a massa.
Eu farei todas as coisas que sempre esqueci, todas as coisas que gostaria de poder voltar e acrescentar, como uma nova camada em uma pintura aquarela.
– Você vem, Leigh? – pergunta papai.
O motorista se afasta de nossa casa e fico na entrada com a mala, de pé, sozinha, olhando meu pai procurar a chave na varanda da frente.
Solto o ar longa e lentamente.
– Acho que esquecemos de apagar as luzes, hein?
– Não esquecemos, não.
Essas palavras fazem meu coração bater mais forte. Por que o que mais isso poderia significar além de que minha mãe está realmente viva e em casa, esperando por nós?
Meu coração acelera enquanto puxo minha mala até a varanda, seguindo papai através da suave luz amarela para dentro de nossa casa.
– Você voltou! Bem-vinda!
Braços se envolvem em torno de mim e demoro para processar aquele ombro pressionando minha bochecha, a camisa macia contra minha pele, o cheiro de desodorante e xampu totalmente errados.
– Axel. – Pisco muito rápido para que ele não consiga ver o quão perto estou de chorar.
– Tem alguma coisa para beber na geladeira? – pergunta meu pai, que já tirou os sapatos e está indo para a cozinha.
– Na verdade, só fiz uma limonada – Axel responde.
– Boa, garoto! Vamos. Vamos todos tomar um copo.
– É claro que eu sabia que você estava em Taiwan – Axel diz. – Quem você achou que iria cuidar de Meimei? – A gata circula entre suas pernas fazendo um oito.
A culpa verde óxido cromo me invade. Como eu poderia ter me esquecido da gata da minha mãe? Claro que papai teria chamado Axel ou Tina.
– Nós somos melhores amigos agora, não somos, Senhorita Gata? – Axel diz com uma voz adorável que tenho certeza de que ele nunca usaria na frente de mais ninguém. Ele se inclina para acariciar as orelhas da gata. O volume do ronronar aumenta.
A expressão “melhores amigos” ecoa em volta de mim, pressiona o interior do meu crânio. Isso é o que somos, certo? Isso é o que seremos, para sempre, não é?
Papai solta um longo bocejo.
– Obrigado de novo, Axel. Isso significa muito. – Ele se levantou. – Vou tentar me recuperar do fuso horário, mas vocês dois podem ficar conversando o tempo que quiserem.
Sério? Papai deixando Axel ficar em casa depois da meia-noite?
Nós ouvimos os pés de meu pai revestidos com meias subindo as escadas, o ranger do último degrau, a curva do corredor. A porta de seu escritório se fechar atrás dele.
Muito silêncio. Ele rasteja entre nós, cavando um fosso profundo que parece cada vez mais difícil de se atravessar.
– Então… – Axel diz.
Odeio como essa única palavra é uma pequena ilha de pensamento, repleta de perguntas e expectativas.
Meu cérebro procura algum assunto para acabar com a estranheza.
– Papai deve ter pago você. Para cuidar da gata, quero dizer.
– Ele tentou. Mas eu não podia aceitar seu dinheiro.
– Axel…
– Deixa isso para lá, Leigh – ele me interrompe, sacudindo a cabeça. – Fiz isso por mim tanto quanto fiz por vocês. Foi bom estar aqui, sozinho apenas com a gata e as memórias. – Memórias. Penso na fumaça do incenso e nos lampejos do passado. – Como você está?
Eu sei o que ele quer dizer. Já se passaram dois meses desde que minha mãe morreu.
Morreu. Aquela palavra.
Acho que ela realmente se foi.
– Um pouco melhor – eu lhe digo, e é a verdade. – E você?
– Também. – Ele balança a cabeça.
Puxo o ar com força:
– Posso te perguntar uma coisa?
– Claro. – Axel se ajeita na cadeira.
– Aqueles e-mails… – paro, porque não tenho certeza de como formular minha pergunta.
– E-mails?
– Sim. Humm. O que eles queriam dizer?
– Hein? – Seu rosto estampa uma expressão engraçada.
– Quero dizer… – Sinto meu rosto ficando quente e já estou arrependida de tê-los mencionado. – Eles eram bastante estranhos. Alguns deles… não tinham nenhum contexto. Não que tudo precise de contexto, mas assim, tipo, eles eram um pouco sem sentido.
– Leigh – ele diz. – Não tenho a menor ideia do que você está falando.
Não consigo definir se ele está sendo covarde ou realmente sincero.
– Os e-mails.
– Certo, essa parte eu entendi. Mas que e-mails?
– Todos eles? – Começo a ficar impaciente. – Todos os que você me enviou enquanto eu estava em Taiwan.
– Entendi. – Ele franze a testa. – Não sei do que você está falando… porque enviei zero e-mails para você durante esse tempo em que esteve em Taiwan.
– Como é que é?
Olho para ele. Ele olha para mim. Ele está brincando?
Pego meu telefone e abro na caixa de entrada, puxando o dedo para rolar a tela, mais furiosa a cada segundo. Minha mão faz uma pausa à medida que o aplicativo carrega.
E se os e-mails não fossem reais? E se eu realmente os tivesse imaginado?
Mas não. As mensagens estão lá, graças a Deus. A raiva me domina, mais quente e mais forte do que antes. Será possível ele ser tão covarde assim?
– Estes e-mails. – Coloco o telefone bem na frente do seu rosto. – Você se lembra agora?
Axel tira o telefone da minha mão. Ele clica nos e-mails, um por um. Eu vejo enquanto seus olhos leem as palavras, acompanham as pinceladas de aquarela. Quando ele me devolve o telefone, seu rosto está estranhamente pálido.
– Leigh, preciso que você acredite no que eu vou dizer, está bem?
De repente, sinto-me estranhamente calma. Se este é o jogo que ele quer jogar, não há nada que eu possa fazer a respeito.
– Você está prestes a me dizer que não me enviou esses e-mails.
– Eu não mandei os e-mails.
– Mesmo depois de eu ter acabado de provar que me mandou.
– Deixe-me terminar – ele pede, puxando o lábio inferior com os dedos. – Eu escrevi esses e-mails. Mas nunca os enviei.
– Isso deveria fazer algum sentido?
– Eles estavam na minha caixa de rascunhos. Eu… eu faço isso. – Ele engole em seco. – Eu escrevo rascunhos. E-mails que eu, tipo, fantasio enviar algum dia. Mas nunca envio. Só deixo eles lá.
Observo seu rosto de perto, esperando enxergar o mínimo sinal de que ele esteja mentindo.
– Juro por Deus, Leigh. Estou… eu só… No momento, só estou morrendo de vergonha por você ter visto isso tudo. – Axel solta uma risada sem jeito.
– Você disse adeus… – paro porque não tenho certeza de como fazer a minha pergunta.
– O quê?
– Seu primeiro e-mail. Ele dizia “adeus” e tinha um link para a última faixa que você escreveu para o conjunto Lockhart Orchard. O que você quis dizer com isso? Por que disse adeus?
– Aquilo… O que eu queria – sua voz fica muito baixa – era me despedir de sua mãe. Mas percebi, mais tarde, que não se encaixava naquela composição, mesmo tendo usado a mesma estrutura e os mesmos instrumentos. O que você achou que significava?
Não sei o que responder.
– Então – Axel diz, finalmente –, você acredita em mim? Acredita que eu não enviei os e-mails?
– Deixa eu ver sua caixa de rascunhos – retruco.
– O quê?
– Pegue seu telefone. Abra na pasta de rascunhos. Não preciso ler. Só quero ver que eles existem.
– Meu Deus – ele resmunga, incrédulo, mas, mesmo assim, tira o telefone do bolso.
Eu o observo navegar no celular. Tento memorizar as expressões em seu rosto. Essa vai ser a última vez em que nos falaremos? Este será o fim de tudo? Ele não pode tentar recuperar o que enviou. As circunstâncias mudaram de forma irreversível naquele dia em seu sofá.
– Hum. – Seus olhos se arregalam. – Que diabos.
– O que foi?
– Todos os meus rascunhos desapareceram! Tudo o que escrevi. E, em vez disso, há apenas… Há apenas isso. – Ele me entrega o telefone.
É uma fotografia da sombra de um pássaro sobre meu gramado. O gramado do lado de fora da casa em que estamos.
– Nunca vi isso antes – Axel afirma. – Não tenho ideia de como isso foi parar no meu telefone! Isso está muito estranho!
O pássaro. O incenso. Feng. Nada mais era muito estranho para mim. Não depois de tudo o que passei.
– Está certo – digo.
– O que está certo? – Ele parece atordoado.
– Estou concordando. Eu aceito sua resposta. – Mas preciso sentar--me sozinha em algum canto para reler todos os e-mails com essa nova informação. Meu peito dói só de pensar nisso. – Eu realmente acho que preciso ir dormir.
– Espere – Axel se levanta. – Quero mostrar uma coisa para você.
– Agora?
– É no andar de cima – ele diz.
E por um momento vem à minha mente o terrível pensamento de que ele vai me fazer entrar no quarto principal e caminhar sobre a mancha. Eu sei que tecnicamente não há mais nenhuma mancha ali. O tapete foi retirado, apesar de ninguém usar o quarto. Ainda.
– Leigh? – Posso ouvir a incerteza em sua voz.
– Sim? – Viro minha cabeça para encontrar seu olhar. – Onde exatamente estamos indo?
– Para o seu quarto. Tudo bem?
Sinto o alívio espalhar-se pelo meu corpo.
Então, outro tipo de pânico surge. Já estivemos no meu quarto muitas vezes antes. Mas uma coisa é chegarmos lá casualmente, e outra coisa totalmente diferente é ele me conduzir para lá de maneira intencional.
– Ah. Ok. Tudo bem. – Eu me ouço dizer.