As Extraordinárias Cores do Amanhã
43. Inverno, primeiro ano
43
Inverno, primeiro ano
No fim das férias de inverno, Axel e eu estávamos terminando de ver as últimas caixas.
– Ai! Caramba! – ele gritou, levantando-se e balançando os braços.
– O que foi? – Levantei-me, alarmada. – O que aconteceu?
– Aconteceu uma aranha. Com certeza, era uma aranha. Entrou ali embaixo. – Ele apontou para a caixa que estava abrindo.
Revirei os olhos, inconformada.
– É sério? A menos que seja venenosa…
– Não… ugh. Acho que era uma daquelas marronzinhas.
– Pô, Axel! Uma aranhinha daquelas. Elas são praticamente a vergonha da família dos aracnídeos. Achei que você já havia superado isso.
– Não é engraçado – ele retrucou, apertando os dentes. – Você vai matá-la?
– Claro, se você me ajudar a levantar a caixa para que possamos encontrá-la.
– Ugh. Está bem.
Ele pegou duas bordas da caixa e segurei do lado oposto. Nos movemos três passos para a direita e, quando esticamos o pescoço, vimos a marca quadrada no carpete bege. A marca era funda e não havia nada ali.
– Eu não vejo nada.
Ele apertou os olhos.
– Meu Deus. Se estiver nesta caixa…
Naquele momento, vi as patinhas da aranha saindo pela borda inferior, não muito longe da minha mão esquerda.
– Não olhe – comecei a dizer, mas já não dava mais tempo.
Axel gritou e soltou o seu lado da caixa, dando um pulo para longe. Eu também soltei. A mudança de peso foi muito rápida para que eu conseguisse segurar tudo sozinha.
E, então, não pude evitar: curvei-me, gargalhando amarelo monoazo; rindo tanto que chegava a cuspir. Eu ri até meu estômago começar a doer e minha garganta estar seca. Eu chorava de rir. Era por causa da aranha, mas também porque eu não me sentia tão à vontade e normal em meses.
Ele abriu um sorriso tímido.
– Parece que está morta.
– Feliz agora? – Eu ainda tentava engolir as últimas risadas.
– Ficarei assim que você se desfizer do corpo.
– Jesus Cristo. – Fui procurar um lenço.
– Você não acredita em Cristo.
– Também não acredito em matar coisas, e olha o que acabei de fazer por você.
Nós abrimos a caixa juntos. Então ficou óbvio: aquela era diferente das outras. Em vez de pastas e papelada, aquela caixa continha, principalmente, envelopes.
Axel pegou alguns e espalhou-os em um leque.
– Estão todos fechados.
Eu escolhi um. Estava endereçado a Dorothy Chen, mas havia três caracteres chineses ao lado do nome. O endereço do remetente estava escrito em chinês, exceto pelo final, onde se podia ler: TAIWAN (REPÚBLICA DA CHINA).
Ordenamos os envelopes pelas datas neles indicadas. Os últimos eram de quase uma década atrás.
– Caramba – soltei. – Não posso acreditar que ela nunca leu nenhuma dessas cartas.
– De quem você acha que são? – questionou Axel.
Balancei a cabeça. Eu queria perguntar ao meu pai… Mas não havia como ele me dizer coisa alguma.
– Você acha que são deles? – indagou Axel. – Dos seus avós?
Peguei uma pilha de cartas e as examinei. Em todas elas, o endereço do remetente dizia Taiwan. E o nome – ou o que eu deduzi ser o nome, composto por aqueles traços de caneta – também era sempre o mesmo.
Fiz que sim lentamente com a cabeça.
Axel alcançou a caixa para tirar mais algumas cartas e um item pesado caiu de sua mão. Ele puxou o objeto para fora: uma pulseira. Eram pequenas peças verdes e leitosas de jade sobre ouro amarelo, as peças ligadas entre si. Coloquei em meu pulso; as pedras eram pesadas e frias no contato contra minha pele. A quem haveria pertencido?
– Isso é inusitado – disse Axel, erguendo um livro de couro antigo onde se lia: Os poemas de Emily Dickinson.
O cheiro azedo, de mofo, indicava ser uma obra antiga. Um objeto uma vez amado, mas depois esquecido. Eu esperava encontrar anotações nas margens; não havia nenhuma. Mas havia trechos sublinhados, caixas tinham sido desenhadas em torno de determinadas palavras, destacando histórias inteiras. Algumas páginas estavam faltando, outras estavam manchadas. Os cantos já amassados e frágeis de tanto serem dobrados para marcação.Abri o livro em uma página aleatória:
Deixaste-me duas heranças –
Uma de amor
Digna do Pai Celeste
Se a ele legada for;
Outra, de dor infinita
Vasta como o mar,
Entre o tempo e a eternidade,
O teu e o meu meditar.4
– Essa é a única coisa em inglês aqui – disse Axel, olhando para a caixa. – Supondo que todas as cartas estejam em chinês, é claro.
E elas estavam? Era uma questão importante. Mas se eu abrisse um envelope, seria como ultrapassar um limite. O que eu estava fazendo agora, olhando as caixas, era simplesmente exploratório. Mas no momento em que abrisse uma carta de outra pessoa, estaria bisbilhotando. Estaria invadindo sua privacidade. Meu corpo sentiu o laranja com a culpa preventiva.
Um pensamento me atingiu: e se meus avós nem soubessem que eu existia? E se eles não tivessem ideia de que havia um descendente deles, meio asiático, meio branco, na cidade de Fairbridge, morrendo de vontade de encontrá-los?
Isso seria um problema e tanto. Eu podia ouvir a raiva de Caro agitando-se na minha caixa torácica, e a curiosidade de Axel espalhando-se por minha espinha.
O que eu sentia, independentemente dos sentimentos dos outros?
Apenas o fresco verde-menta de ser incapaz de processar tudo o que estava diante de mim.
Abri uma das cartas de Taiwan antes de ter a chance de mudar de ideia.
Linhas de caneta fluíam pelo papel em traços finos e precisos. Estava tudo em chinês. Não consegui ler uma palavra. Achei que fosse reconhecer, pelo menos, algo – um você ou um eu ou um de… mas nada parecia se encaixar. Essa escrita não era como a que eu costumava ver quando papai me ensinou alguns dos princípios básicos. Parecia o equivalente chinês da letra cursiva. Elegante. Movendo-se como água. Difícil de ler.
Enquanto mexia na última pilha de cartas, um pequeno retângulo rígido escorregou do meio dos envelopes. Ele caiu no meu colo, virado para baixo.
Uma fotografia. Em preto e branco – ou mais para marrom e amarelo, já que o tempo a havia desbotado – que mostrava duas garotas lado a lado, encarando a câmera, sem sorrir. Ambas usavam vestidos claros e sapatos boneca pretos. O cabelo de uma das meninas estava preso em uma longa trança espinha-de-peixe colocada na frente de um dos ombros. A outra tinha tranças altas que pendiam de cada um dos lados da cabeça. Elas pareciam irmãs.
Axel se inclinou para ver:
– Quem você acha que elas são?
– Não tenho ideia.
– Talvez uma delas seja a sua avó? – ele sugeriu.
Apertei os olhos como quando eu tentava identificar os pontos mais claros e mais escuros para um desenho. Meus olhos procuravam algo para chamar de familiar em algum dos rostos, mas o que estava lá para ver? Eram apenas duas meninas, provavelmente ambas com menos de oito anos. Eu coloquei a foto no livro de poesia.
Naquela noite, vi as meninas da fotografia. No meu sonho, elas tinham os mesmos rostos, usavam os mesmos vestidos e sapatos, mas haviam ficado mais altas. Abaixo do pescoço, seus corpos eram velhos e enrugados. Eles se curvavam ao caminhar.
– Quem é você? – elas indagaram sem mover a boca. – Quem é você?
– Sou a filha de Dory – respondi.
– Dory não tem uma filha – elas disseram.
Elas estenderam as mãos e pegaram apagadores escolares, daqueles que têm feltro na parte de baixo, e começaram a me apagar, iniciando pelos meus pés e subindo pelo meu corpo. Quando meus joelhos se foram, fiquei presa no lugar, forçada a assistir meu corpo desaparecer.
Eu acordei, assustada, bem quando elas estavam prestes a apagar minha cabeça.
Tradução extraída de: OLIVEIRA, S. R. 14 poems by Emily Dickinson: a translation. In: Revista Estudos Germânicos, v. 7, n. 1, p. 161, dez. 1986. Belo Horizonte: UFMG, 1986.