As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 91 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

92. Primavera, segundo ano

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Primavera, segundo ano

 

Uma parte de mim esperava que, com a mudança da estação e os dias ficando mais longos, mais coisas derretessem além da neve. Como as mudanças de humor da minha mãe, que pareciam ser ditadas tanto pelo gosto do ar quanto por suas enxaquecas. E o estranhamento entre mim e Axel, que persistia desde o baile de inverno.

Mas só piorou. Comecei a sentir que não deveria mais ir à casa dos Moreno. Eu ainda o via durante a aula de arte, mas era só isso. E Leanne tinha começado a comer com a gente, o que praticamente arruinava o almoço para mim.

Estava concentrada em meu portfólio – nenhum projeto de arte antes havia ocupado tanto a minha vida. Eu trabalhava até tarde da noite e, muitas vezes, adormecia sobre os pedaços soltos de carvão, acordando com minha pele e roupas completamente sujas e manchadas. Mergulhei com intensidade nos desenhos até parecer que tudo o que eu respirava era o pó decorrente dos meus dedos cuidadosos e tudo o que eu via ser composto por tons de preto e cinza.

Vi meus dedos desenhando coisas, as quais nunca pensei que pudessem ser colocadas no papel. As delicadas linhas da depressão de minha mãe. O ressentimento sombrio em relação ao meu pai. O espaço negativo das lacunas e das separações de nossa família. O desejo forte e intenso que eu sentia por Axel.

Fiz vários rascunhos de tudo, dando mais acabamento aos meus traços, mudando a luz e as sombras, alterando o foco. Tudo o que eu precisava para a inscrição eram três obras fortes, apenas uma amostra de uma série hipotética. Três obras. Parecia um novo mantra. Apenas três obras boas.

 

Saí do meu mar de carvão e papel logo que o ar da primavera começava a esquentar. Troquei meu avental por uma regata e uma bermuda, e voltei ao porão de Caro pela primeira vez em séculos.

– Você tem conversado com Axel ultimamente? – perguntei.

– Mais ou menos – respondeu Caro, sentada em um banquinho, mexendo nos mostradores de uma velha câmera. – Vocês estão estranhos um com o outro.

– Eu sei.

– Talvez você devesse falar com ele sobre isso – Caro sugeriu.

– Não tenho certeza de que ele queira ter essa conversa. Ele não é muito adepto dos confrontos.

Eu estava fazendo um rápido estudo a lápis de Caro com seu longo tronco curvando-se sobre o banquinho, mas ela se moveu e a luz ficou diferente. Então, virei para uma nova página.

– Você deveria tentar.

Encolhi os ombros, mesmo sabendo que Caro geralmente estava certa sobre o assunto que fosse.

– Como vão as coisas entre você e Cheslin? – perguntei.

Logo na sequência, percebi que pareceu que eu estava comparando Axel e eu com ela e Cheslin. Só que Axel e eu sempre fomos amigos com esse ponto patético de sentimentos não correspondidos. Mordi o interior de minhas bochechas, esperando que ela não pensasse em nada disso.

– Está tudo bem – Caro respondeu, sorrindo. – Nós decidimos que estamos prontas para… você sabe… ir até o fim.

– Uau!

– Eu tinha essa preocupação que pudéssemos acabar nos perdendo, sabe? Porque às vezes é isso que acontece.

Não consegui entender se ela também estava falando sobre mim e Axel, mas odiei ter esse pensamento. Não gostei da ideia de que ele e eu pudéssemos, um dia, não precisar um do outro.

Eu precisava dele. Precisava dele muito mais do que ele imaginava.

– Mas está tudo bem – continuou Caro. – Só é um pouco assustador estar tudo tão bem.

– O que você quer dizer com assustador?

Caro encolheu os ombros.

– É que nosso relacionamento como um todo é a recompensa de sermos corajosas o bastante para lutar por algo que nós duas queremos. Mas temos que continuar sendo corajosas.

Senti que fiquei, ao mesmo tempo, feliz por ela e triste por mim. Coragem era uma palavra que eu nunca havia colocado no contexto dos relacionamentos. Mas era exatamente isso que eu não tinha. Eu não era corajosa o suficiente para dizer a Axel como me sentia.

– Ei, e como vai o tal portfólio que você está fazendo com a ajuda de Nagori? – Caro quis saber.

– Eu literalmente acabei de enviá-lo – respondi.

– Ah, demais! Não sabia que você já tinha terminado.

– Quase achei que não conseguiria – disse a ela.

Era verdade. O prazo final tinha sido apenas alguns dias antes, e eu havia desperdiçado muito tempo nos meses anteriores. Finalmente encontrei meu impulso, mas tinha que interromper a produção sempre que papai estava em casa. Eu colocava os trabalhos debaixo da minha cama e tentava evitar discussão. Ele se sentava na cozinha e ficava falando comigo enquanto eu assava biscoitos ou limpava a geladeira, mantendo minhas mãos ocupadas para afastar a ansiedade de não poder trabalhar na minha arte, meu coração pulsando apenas três obras contra minhas costelas.

Em algum momento, também tinha limpado a minha sujeira. Sob as pilhas de roupas, esboços e lápis, mais uma vez desenterrei os objetos que encontramos no porão. A pulseira. O livro de Emily Dickinson. As cartas. A foto.

Na verdade, foram esses elementos que me fizeram terminar meu portfólio.

– Ei, você vai ficar para jantar, certo? Meus avós estão aqui.

– Claro – respondi. – Vai ser ótimo.

Como de costume, Charles e Gaelle fizeram sua cena de romantismo.

– Gosto muito de Cheslin – Charles falava com Caro. Ele dizia o nome de Cheslin como se começasse com Sh em vez de Ch. – Ela é inteligente. E bonita também.

– Obrigada, papi – Caro disse revirando um pouco os olhos.

– Um dia talvez você decida que ela pode ser uma boa companheira para a sua vida. – Ele sorriu.

– Oh, Deus – disse Mel. – Lá vem a conversa de casamento…

Gaelle me serviu um pouco de pudim de pão e perguntou:

– E como você está, querida? Como vão seus pais maravilhosamente românticos?

Meu estômago revirou e dei um sorriso fraco:

– Hum, bem.

– E aquele seu namorado? – Mel quis saber.

Por um segundo, pensei que ela estivesse falando do beijo em Weston e fiquei confusa e apavorada por alguém saber daquilo.

– Axel, não é? – Mel concluiu.

– Mãe – disse Caro, morrendo de vergonha.

Naquele momento, soube que Caro sabia exatamente o que eu sentia por Axel, e o que era pior: ela, sua mãe e talvez até seus avós tinham falado sobre mim e ele. Nós dois. Eles tinham conversado sobre Leigh e Axel, e talvez até mesmo sobre como era triste que ele não sentisse por mim o mesmo que eu sentia por ele. Provavelmente tinha sido assunto de algum jantar que contou com a simpatia de Gaelle e os conselhos de Charles para alguém que não estava presente.

Fiquei incomodada.

Assim que o jantar terminou, desculpei-me e fui rumo à porta para ir embora.

– Me desculpa – disse Caro, seguindo-me pelo corredor. – Desculpa, desculpa, desculpa.

– Está bem – respondi, embora quase não conseguisse olhar para ela.

– Na verdade, eu não disse nada de concreto. Mas, alguns meses atrás, minha mãe me perguntou o que existia entre você e…

– Está tudo certo. – Você e Axel. Era o que ela estava prestes a dizer. A frase me fez querer vomitar. – Não estou brava – respondi sem ser cem por cento honesta.

– Escute – Caro disse. – Já que tocamos nesse assunto… – Eu resmunguei e revirei meus olhos. – Não, é sério. Há algo que eu preciso te dizer. Axel e Leanne estão juntos de novo.

Eu pisquei, atordoada.

– Ela convidou ele para o baile de inverno, e teve todo um drama em relação a isso. Então não é como… Não é exatamente um acontecimento repentino. Eu só achei que você deveria saber.

Suas palavras foram como um soco no meu estômago. A expressão no rosto de Caro era tão terrível, e então entendi que se tratava de uma notícia que ela estava escondendo de mim. Ela parecia estar em agonia.

Mas não chegava nem perto de como eu me sentia.

– Uau – eu disse. – Ok.

– Leigh?

– Isso é… Isso é ótimo. Há quanto tempo?

– Já faz um tempinho – disse ela. – Eles… se mantiveram distantes na escola. Mas Axel me contou.

– Por que eles fariam isso? – Eu ri. – Por que se preocupar?

– Você está bem?

– Eu estou ótima.

– Mesmo? De verdade? Você está sendo sincera?

Por que todos na minha vida eram tão exigentes?

– De verdade – falei, apenas para encerrar o assunto.

– Certo, então me promete uma coisa…

– O quê? – suspirei.

– Vamos para o Fudge Shack amanhã? Por favor?

Balancei a cabeça diante do quão desencaixado aquele pedido parecia estar. Mas parecia que ela achava que se fôssemos ao Fudge Shack juntas as coisas voltariam ao normal.

– Ok. Está bem.

– Às três horas – disse ela. – Pode ser? Apenas me encontre lá. A gente compra aquele sorvete de nozes, que é o seu favorito. E vai ter degustação de sundae.

Não corrigi Caro dizendo que sorvete de nozes era o favorito de Axel, e não o meu.

– Então, até amanhã.

Eu deveria saber o que estava prestes a acontecer.

Fui caminhando para o Fudge Shack porque não queria pedir carona a ninguém. Eram apenas vinte minutos da minha casa, e eles passaram bem rápido. Eu fui com os fones de ouvido conectados ao meu telefone, e vinte minutos foram quase o tempo que levei para escutar duas vezes as quatro trilhas de Lockhart Orchard, do Axel.

A lanchonete estava cheia. Lembrei-me por que eu odiava ir lá nos fins de semana. A degustação de sundae era superestimada, mas todos iam por esse motivo. Era o único lugar na cidade que oferecia a degustação em casquinhas de verdade em miniatura. Além disso, eles tinham opções confortáveis para se sentar. Em um dia normal, pelo menos. Naquele dia, todas as mesas estavam ocupadas.

Passei os olhos buscando ver se Caro já estava sentada em algum lugar e acabei encontrando Axel. Ele estava inclinado sobre uma das mesas ao lado das janelas e tinha uma cadeira vazia à sua frente. Seu olhar estava estranho e fixo no pedaço de sorvete de nozes à sua frente. Eu tinha certeza de que ele havia me visto.

– Oi – cumprimentei, andando em sua direção.

– Oi.

– O que você está fazendo aqui? – perguntei.

Se havia uma pessoa que odiava ir ao Fudge Shack nos fins de semana mais do que eu, essa pessoa era Axel. Comecei a procurar por Leanne.

– Hum, esperando a Caro – ele respondeu.

– Oh. – No início, pensei que ele tivesse dito Leanne,porque era o que me parecia mais lógico. E, então, meu cérebro revisou suas palavras e eu escutei Caro claramente. – Ah.

– Deixe-me adivinhar… – disse ele, também se dando conta da situação.

Olhei a hora.

– Sim. São três e seis.

Caro nunca se atrasava. Ela tinha armado para nós.

Eu queria matá-la. Queria abraçá-la. Queria fazer as duas coisas.

Suspirei.

– Bem, quer sair daqui? Está um pouco barulhento.

– Claro. – Axel empurrou a cadeira para trás.

Cinco anos como melhores amigos, pensei comigo mesma. Como as coisas desandam desse jeito?

Ou talvez não tivessem desandado. Rezei para que ele realmente falasse comigo.

Atravessamos a multidão e alguns da escola falaram com Axel: – O que há de novo, Moreno?

– E aí, cara!

Ele acenou de volta e atravessamos a pesada porta, saindo para a calçada. Respirei um pouco do ar da primavera.

O sol estava escondido atrás de algumas nuvens e havia uma brisa fresca. Grandes arbustos se moviam atrás de nós, sacudindo e fazendo ruídos como os da chuva. Cruzei meus braços, lutando contra o frio, e tentei encontrar algum lugar para focar meus olhos – o estacionamento, a grama, meus sapatos – qualquer lugar que não fosse o rosto de Axel. As palavras de Caro ecoavam ao meu redor. Axel e Leanne voltaram.

– Quer um? – Ele estendeu um saquinho branco de papel-manteiga com fudges dentro.

– Não, obrigada. – Balancei a cabeça. – Eu só quero conversar.

– Tudo bem – disse ele.

Depois de fechar o saquinho de fudges, Axel me olhou com expectativa.

Abri e fechei a boca. Respirei fundo.

– É que… – comecei, ao mesmo tempo em que Axel falou: “Olha…” – Ok, pode continuar – eu disse rapidamente, perguntando-me se ele iria mencioná-la.

Axel chutou uma pedra na calçada.

– Sinto que as coisas andam muito estranhas. Já não somos mais os mesmos.

– Sim – concordei.

Uma nova brisa soprou e tentei ignorar a maneira como ela tocava seus cabelos escuros.

– Podemos, não sei… tentar começar de novo? – ele propôs.

– Com certeza.

– Não tenho certeza se é possível voltar totalmente ao normal. Ou pelo menos, ao normal que podemos definir por como costumávamos ser. Eu não sei.

Assenti com menos intensidade, fingindo que tinha entendido algo de sua última frase. Era por causa de Leanne? Ela era a razão pela qual não poderíamos voltar ao normal?

– Sinto muito sua falta. Você… você é minha melhor amiga.

Suas palavras saíram um pouco truncadas. Respirei fundo para engoli-las.

– Eu também sinto sua falta – afirmei, suavemente.

– Bem, eu estava começando a ficar preocupado.

Revirei os olhos, mas não pude deixar de abrir um pequeno sorriso.

– E eu também sinto muita falta dos dumplings de cebolinha da sua mãe.

– Eu sabia! – retruquei. – Todo esse tempo, você esteve me usando apenas para comer dumplings!

– E waffles – acrescentou. – Eu já fui um bom rapaz. Os waffles foram minha derrota.

Meu sorriso diminuiu. Há apenas algumas horas eu estava na cozinha fazendo waffles sozinha, mesmo sem ser o dia deles. Quando subi no quarto principal para tentar fazer minha mãe se levantar, ela simplesmente se enrolou ainda mais nos lençóis. Acabei sentando-me no balcão da cozinha com os waffles frios, frutas ácidas e sem Axel, enquanto Meimei deslizava entre minhas pernas, passando para a frente e para trás, para a frente e para trás.

– Bem. – Axel limpou a garganta. – Desculpe, mas tenho mesmo que ir. Eu disse para Caro que não poderia ficar muito tempo…

– Oh – tentei não parecer decepcionada. Quase não consegui me impedir de perguntar se ele precisava ir embora para se encontrar com Leanne.

– Desculpa. Mas é que prometi a Angie que íamos ensaiar a surpresa para o dia dos pais… É meio bobo.

Soltei a respiração lentamente, aliviada.

– Mas vamos deixar isso de lado. Você sabe do que lembrei hoje pela manhã? – ele perguntou.

Balancei a cabeça.

– Amanhã é o dia Dois Ponto Cinco!

– Ah, meu Deus. – O calor fez meu estômago borbulhar. Era mesmo, não era?

Era o dia que ficava exatamente dois meses e meio após o aniversário de Axel e dois meses e meio antes do meu. Era um motivo anual para nos reunirmos, fazermos uma mistura esquisita de pipoca doce e salgada e desenharmos um o pé do outro. Uma celebração nossa, e uma celebração do fim das aulas, porque sempre caía mais ou menos na semana antes do início das férias de verão.

– Não posso acreditar que me esqueci – falei, meio atordoada.

– Então, vai lá em casa. A gente fica no porão e faz pipoca.

– Sim – eu disse com um sorriso sincero. – Com certeza.