As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 106
No dia seguinte à nossa volta para casa, a agência dos correios enviou todas as correspondências que haviam chegado para nós. Foi aí que vi a carta: o carimbo com a data mostrava que ela fora entregue logo depois que partimos para Taiwan. Enviada de Berlim para a nossa casa.
No canto está impresso KREIS-RAUM FÜR KUNST.
– E então? – meu pai diz. – Você vai abrir ou vai ficar aí parada?
– Você abre. – Entrego-lhe o envelope.
– De jeito nenhum. Essa carta é sua. Orgulhe-se, independentemente do resultado.
– Você sabe mesmo o que é isso? – eu paro. – A mamãe te contou?
– Sim, ela me contou.
Minhas mãos tremem tanto que praticamente destruo o envelope tentando abri-lo.
Cara Leigh Chen Sanders:
É um grande prazer convidá-la para participar da nossa exposição internacional para
jovens artistas no Kreis-Raum für Kunst.
Começo a gritar após essa primeira frase. Quando enfim me acalmo o suficiente para ler o resto, sinto um peso caindo em meu estômago. Olho para o meu pai, esperando que ele me diga que isso é impraticável, que não é algo que vale a pena…
– O que foi?
– Eu quero muito ir – digo a ele.
– Claro que você vai! – ele diz, sorrindo. – E eu vou com você.
– Está falando sério?
– Muito sério.
Meu coração explode em um milhão de cores tropicais e eu pulo para abraçá-lo.
Depois, obviamente, ligo para o Axel.
– Eu sabia – ele afirma.
– Estou ferrada – deixo o pânico se expressar. – Fiquei em Taiwan o tempo que deveria ter usado para dar os últimos retoques ao restante da série.
– Quantas peças você vai levar no total? – Axel pergunta, sempre a voz da lógica e da razão.
– Inscrevi três obras, e posso levar até sete além dessas três. Então, no total são dez.
– Mas você não precisa mandar com antecedência, precisa? Só precisa levar com você, certo?
– Certo, mas…
– E quando é a exposição?
– Na última semana do mês… Eu vou voltar literalmente um dia antes de as aulas começarem…
Do outro lado da linha escuto alguns barulhos, e Axel comenta: – Ok, agosto…
– Axel, o que você está fazendo?
– Pesquisando passagem de avião, é claro.
– Você também… vai? Para Berlim?
– Você está de brincadeira? Não perco isso por nada. Você se deu conta de que estaremos lá no seu aniversário?
– Mas são as suas economias…
– E eu faço o que quiser com elas. De qualquer forma, vai dar tudo certo, Leigh. “Até dez” não significa que você precise levar dez obras.
– Não há nenhuma chance de eu ficar entre os vencedores – suspiro.
– E daí? Esse não é o objetivo. Quer dizer, tudo bem, talvez tenha sido o objetivo inicialmente. Mas você está na exposição. Isso é uma grande conquista.
– Ugghhhh.
– Não tem mais que ser sobre vencer. Agora é diferente. Agora você está fazendo isso por si mesma. E não dá mais tempo de se acovardar.
– Eu sei – respondo. – Eu sei. Vou fazer isso. Tenho que fazer isso. É só que estou…
– Com medo? – Axel sugere.
– Tudo o que tenho são trabalhos inacabados! Tudo o que aconteceu com minha mãe… isso quebrou meu ritmo.
– Então, por que ainda está falando no telefone? Vá trabalhar!
– Está bem, está bem – eu suspiro mais uma vez.
– Eu falo com você quando já tiver trabalhado o suficiente para merecer um descanso.
– Uggghh. – Escorrego no sofá, ficando na horizontal. – Mas pelo menos sei o que devo fazer.
– O quê? – Axel pergunta, embora ele pareça saber o que vou dizer.
– Tenho que pensar nas cores.
– Sim. Sim, você tem – ele responde com um sorriso em sua voz.