As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 47 de 109

Páginas do PDF

As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 47

 

O sol da tarde divide meu quarto em linhas e triângulos, manchas de luz e sombras geométricas. Estou sentada na minha cama, tentando pensar em tudo o que vi. Tudo o que sei.

Minha mente está cambaleante. Se fecho os olhos, sinto uma forte sensação de vertigem, como se estivesse em queda livre em um abismo enorme e escuro. Um desfiladeiro profundo que marca onde o mundo da minha família se separou, onde a fundação ruiu. É a ruptura na história da minha família. A ruptura ampliada pelo fato de a minha mãe ter se transformado em um pássaro.

Meus olhos doem. Uma pressão envolve meu crânio, como duras correntes que se enrolam contra minhas têmporas e me apertam.

Tento ignorar a dor de cabeça, lutar contra ela apenas com força de vontade. Meus dedos juntam os fios das camisetas e começo a tecer minha rede. No início se parece mais com uma trança, os fios passando por cima e por baixo são como ondas no mar. Fico preocupada com o fato de não ter tecido suficiente para fazer uma rede tão grande quanto preciso, mas isso só significa que terei de ser muito precisa ao usá-la.

Meu telefone apita. Há novos e-mails esperando por mim.

Um é de meu pai, porque nunca respondi à sua primeira mensagem.

DE: bsanders@fairbridge.edu

PARA: leighinsandalwoodred@gmail.com

ASSUNTO: RE: Check-in

Leigh, já falei por telefone com sua avó e lhe dei essa informação, mas meu número de

Hong Kong está abaixo, então, fique à vontade para me ligar. Ou escrever. Me conte como

você está.

Revirei os olhos e salvei a mensagem. Há uma questão mais urgente: uma nova mensagem de Axel.

DE: axeldereckmoreno@gmail.com

PARA: leighinsandalwoodred@gmail.com

ASSUNTO: (sem assunto)

Dory não sabia que a estava gravando. Eu fui para sair com você, mas você não estava em

casa por algum motivo. A porta estava destrancada, então entrei e Dory estava ao piano. Ela

tocava algo diferente do que de costume. Eu a observei de trás da parede e parecia que ela

estava tocando uma melodia específica. Gravei um bom pedaço e pareei com alguns

sintetizadores e cordas. Às vezes, quando escuto

O e-mail termina assim.

Clico no link na parte inferior. Outra música em MP3. Demora uma eternidade para carregar, mas quando enfim toca, um arrepio serpenteia pela minha coluna.

É Teresa Teng, a mesma música que waipo colocou quando tomávamos café da manhã.

Atrás de minhas pálpebras, vejo as cuidadosas mãos da minha mãe passando pelas teclas, sentindo a melodia com seus altos e baixos, os olhos fechados, a expressão no rosto nos tons sépia da nostalgia por conta da música azul viridiano.

Posso vê-la.

Posso ver tudo.