As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 61 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 62

 

Quarenta e três dias. Faltam seis.

Penso na última lembrança, minha mãe tentando falar com Axel sobre mim. Isso nubla minha cabeça com tons de sépia.

Por que eu precisava ver tal cena? Para lembrar o quanto nos afastamos? Não entendo como aquilo pode me ser útil.

Tento sacudir o nevoeiro que ocupa minha cabeça. Tudo parece desnivelado, rachado, manchado de tinta preta. Sei que é apenas resultado da minha insônia, que não é o mundo real. Mas não posso deixar de sentir que tudo à minha volta começa a se quebrar.

Naquela manhã, não há ninguém sob o gazebo no parque, então waigong e eu ocupamos um dos bancos.

Ao nosso redor: o coro das cigarras, as conversas dos pequenos pássaros.

Na mesa de madeira, há um tabuleiro quadrado, de pedra, com linhas brancas gravadas, desenhando um sistema de grades. Há caracteres chineses esculpidos no centro. É um jogo de tabuleiro. Eu me pergunto como são as peças – se são redondas como moedas, se têm outros caracteres chineses gravados nelas…

Meu avô passa os dedos por cima do tabuleiro.

Então, tenho uma ideia. Pego meu telefone e passo as duas primeiras telas até encontrar o aplicativo certo.

– Veja! Quer jogar?

Waigong não diz nada, apenas franze a testa diante do telefone.

Mostro quatro dedos erguidos:

– Tudo o que você precisa fazer é colocar quatro em uma linha. Então, você ganha.

Aponto para mim e coloco a primeira peça. Pego seu dedo e toco na tela, fazendo o movimento do jogador dois. É o jogo mais rápido de todos, e eu o deixo ganhar, já que é apenas uma demonstração.

Há um brilho em seus olhos. Acho que ele entendeu.

– Ok, então agora vamos jogar de verdade! – digo a waigong.

Assim que carrega a nova partida, ele toca na tela com o polegar, colocando sua peça diretamente no centro.

Vamos para a frente e para trás e estou tão focada em criar uma estratégia que acabo me descuidando e, de repente, ele consegue as quatro peças seguidas e vence. Meu avô fica exultante, suas bochechas se arredondam, sua boca se abre com um riso quieto. Ele se balança de um lado para o outro, parecendo satisfeito como verde tilo.

Eu ganho as duas partidas seguintes, mas ele continua sorrindo para mim, muito emocionado, como se fosse o vencedor, independentemente do resultado.

As árvores ao longo do caminho alcançam as nuvens, suas folhas se balançam de maneira gentil. Caminhamos bem devagar, buscando novamente a flor perfeita. Observo com minúcia todas as direções, tentando ter alguma ideia de como usar minha rede. Pergunto-me se o pássaro costuma ir ali.

Em nosso caminho de volta, waigong me segura e aponta para algo no ramo grosso de uma árvore, no nível dos olhos.

Vemos uma cigarra marrom e solitária. Esta daqui está viva: incha e se move, incha e se move.

É a metamorfose.

Nós a assistimos, paralisados, enquanto percorre seu caminho pelas costas, onde a casca se abre como se fosse uma fantasia. Lentamente, o corpo fresco se move, um verde pálido. As novas pernas chutam algumas vezes, os olhos escuros brilham como se soubessem de tudo. Enrugadas ao longo do corpo, suas asas se desprendem e se abrem, grandes e lisas, verdes nas bordas e translúcidas no centro, finas como um delicado papel.

Sua casca, marrom e rígida, fica presa ao galho. Um fantasma deixado para trás.