As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 27
Os ponteiros do relógio brilham um verde alienígena: são 4h12 da manhã. Existe algum sentido em tentar dormir? Os segundos passam, cada vez mais altos, ecoando nos meus ouvidos.
Então, sobre o som do relógio, ouço de novo. O bater das asas, fraco, ao longe. Acendo a luz. Coloco as pernas para fora da cama.
O ruído se foi.
Meus pés me levam pelo piso frio como a lua para abrir a mesma gaveta que eu abrira antes. Procuro a caixa de incenso abaixo da sacola de doces dobrada. A pena ainda está lá, ligeiramente enrolada, como se estivesse adormecida. Também a tiro de lá, apertando-a entre o polegar e o indicador.
Ainda estou tentando descobrir por que o pássaro me trouxe o incenso – se isso me conduzirá até ela. Ou se é para me ajudar a entender.
Eu quero que vocês se lembrem
Acendo o fósforo. Toco a vareta de incenso – sua ponta acesa e calma em brasa – na ponta da pena.
O que se segue é um chiado que começa em minhas mãos e sobe como uma nuvem. O ruído me rodeia e enche o quarto. A pena de repente fica quente como se estivesse no forno, mas não posso soltá-la, meus dedos estão presos.
Fios de fumaça negra, consistentes como caramelo, seguem uma brisa que não consigo sentir…
Começam os redemoinhos. Começam as voltas. A mudança da luz e das cores.
O quarto fica escuro.