As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 54
– Ni kan – diz minha avó. Veja. Ela aponta para uma igreja. O restante de suas palavras vem de longe, indistintas.
Feng está tão perto de mim que a manga de sua blusa toca em meu cotovelo, e o contato me dá arrepios.
– Popo diz que foi aqui que sua mãe aprendeu a tocar piano. Ela aprendeu com uma freira católica que viu que ela era muito talentosa e a deixava ficar praticando quando o piano estava sem uso.
– Podemos entrar? – Minha voz sai totalmente ultramarine.
Ao fazer a pergunta, percebo que reconheço o local. Eu o vi nas memórias de incenso, vi como waipo estava de pé nos degraus, ouvindo a música.
Atravessamos pesadas portas de madeira e chegamos a um pequeno vestíbulo. Um segundo conjunto de portas se abre e ficamos atrás das fileiras de bancos de madeira que brilhavam sob a luz suave. O silêncio é tanto que causa estranheza, parece que o sino caiu sobre nós, isolando os sons da cidade, a pressa do trânsito. Há apenas o ritmo delicado de nossas respirações. Os tímidos ruídos de nossos pés ecoando nos pisos de mármore. O fato mais surpreendente sobre o lugar é o quanto se assemelha às poucas igrejas que vi nos Estados Unidos – acho que esperava algo diferente.
Waipo puxa meu braço e aponta para um piano que está em um canto. Alguém o cobriu com um pedaço de veludo verde-floresta para evitar que fique empoeirado. Pergunto-me se é o mesmo instrumento que minha mãe usou, no qual seus dedos conheceram a sensação das teclas e o espaçamento de uma oitava, suas mãos trabalhando para cima e para baixo.
Tiro o veludo e deslizo meus dedos pela lisa superfície.
– É um piano digital – diz Feng. – O piano em que sua mãe tocou já deve não existir mais.
Uma decepção sombria afunda pelo meu íntimo, escura como lama.
– Vamos para o mercado noturno? – sugere Feng. – O sol está prestes a se pôr.
Sigo minha avó, passando pela porta de vidro de correr, pelas pesadas portas de madeira, descendo os degraus.
Mas assim que Feng faz a curva na rua principal, algumas preguiçosas notas musicais me chamam a atenção. Um piano. Escuto por alguns segundos – claramente vem de dentro da igreja.
– Leigh – waipo me chama enquanto me viro e volto.
A música desaparece assim que abro a porta interna.
São fileiras e fileiras de bancos vazios. Há o piano, o veludo amassado sobre o banco, onde eu o deixei, esquecendo de colocá-lo de volta. Não há ninguém à vista.
Lá fora, waipo olha para mim, confusa.
Feng percebe a expressão no meu rosto.
– Está tudo bem?
– Eu pensei ter ouvido alguém tocar.
Feng encolhe os ombros:
– Um truque do vento, talvez.
Escuto um sussurro à esquerda e, quando me viro, vejo um jovem parado debaixo de uma árvore a poucos passos de distância, observando-me com um sorriso aberto. Sua calça jeans está suja, sua camiseta laranja, manchada na bainha. Ombros curvados, perto das suas orelhas. Dentes amarelos, alguns deles castanhos, podres.
– Qingwen yixia… – ele diz devagar. Posso perguntar… E repete a frase: – Qingwen yixia… Shi Meiguo ren ma? – Suas palavras são tão lentas e claras que eu realmente entendo toda a pergunta: Você é americana?
Cruzo meus braços, tentando me tornar menor. Ele me olha com expectativa, e enfim dou um consistente aceno de cabeça.
– Vamos – diz Feng, nos direcionando.
– O que ele quer? – pergunto.
Feng balança a cabeça.
Quando chegamos ao cruzamento, olho por cima do consistente ombro. O jovem ainda está parado lá. Ele leva as mãos à boca e grita algo para nós.
Waipo fica visivelmente tensa. Ela olha para mim e acelera o passo.
– O que ele disse? – cutuco Feng.
– Nada que faça sentido. – Ela revira os olhos. – Ele disse que os pássaros pertencem ao céu.
Meu coração salta. Quando olho para trás de novo, o rapaz se foi. Só há a árvore, balançando na brisa, e um estranho fragmento desaparecendo entre seus galhos.