As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 26
As mãos da minha mãe viraram asas. Os cabelos, penas. Sua pele clara agora é vermelha como sangue, vermelha como vinho, cada tom de vermelho do universo.
O pássaro. O pássaro. O pássaro. É só no que consigo pensar.
Ir para a cama é como nadar através de uma substância densa e turva. Meus membros ficam pesados. O cérebro está nebuloso pela privação de sono. Os olhos doloridos, as margens da minha visão, borradas e lacrimosas.
Eu deveria conseguir dormir. Estou exausta.
Mas, no momento em que fecho os olhos, eles se agitam. Tenho que lutar para mantê-los fechados.
O pássaro o pássaro o pássaro.
Minha mãe o pássaro.
Percebo que estou esfregando o polegar sobre o contorno da cigarra de jade.
É engraçado como, quando você não consegue dormir, o cérebro se revira e se torna uma parte desesperada e avassaladora. Tudo o que desejo é cair de cabeça no mais negro preto. Tudo o que quero é que tudo seja desligado, que eu possa, finalmente, descansar. Que as cores parem. Que os pensamentos possam ir embora.
Que tudo fique quieto.
É assim que se sente quando se quer chegar ao fim? É esse o tipo de existência que levou minha mãe a se tornar um pássaro?
Há um som ritmado vindo do lado de fora, cada vez mais e mais alto. O bater das asas. Eu me levanto e abro a cortina.
Nada. Apenas a lua brilhante no formato de uma moeda e um pouco de nuvens inquietas cor de café.
Talvez se eu sair ela venha até mim, como fez em casa.
Sem acender as luzes, cruzo o apartamento, meus pés descalços garantindo que eu fosse mais silenciosa. Penduro nos dedos um par de sandálias que espero estar do lado de fora para colocar.
O ar exterior ainda é espesso, quente e úmido, as luzes fluorescentes lançam seus feixes fantasmagóricos sobre a rua. Paro na esquina mais próxima e espero para perceber se ouço as asas novamente. Aguardo algum tipo de sinal. Um som, ou um cheiro. Uma visão. Qualquer coisa.
Mesmo focando o olhar, não consigo ver nada se movendo pelo céu. Tudo está escuro, sombrio e quieto. As ruelas vizinhas estão silenciosas, mas ainda consigo ouvir sons distantes de trânsito, de carros passando.
Estou tão tranquila no vazio que, quando me viro e vejo um homem de pé sob uma árvore, quase salto de surpresa. Ele me olha fixa e duramente, mal se move, suas mãos estão ao lado do corpo. Continuo esperando que ele vá embora, mas ele não vai. Então, quebro o contato visual e volto para o apartamento. Odeio a ideia de que ele saiba onde moro, mas quando olho mais uma vez sobre meu ombro, ele se foi.
Não há brisa, mas a árvore onde ele estava se movimenta ligeiramente e, por um segundo, acredito ter visto algo como uma névoa que se deslocava pelos galhos. E, então, ele se foi. A árvore ainda está lá, e estou sozinha na rua.
No andar de cima, no meu quarto escuro, sento-me na cama. Acontece em um clarão, num segundo: meus olhos se fecham e, quando se abrem mais uma vez, o quarto está iluminado como se fosse dia, o teto brilha de tão branco – exceto pelas rachaduras na pintura, que se ramificam em todas as direções acima de mim. São tão irregulares quanto o relâmpago, como se algo pesado tivesse batido do outro lado e começado a entrar no meu quarto. As linhas intermediárias tão finas, completamente negras, como se não houvesse nada além dessa camada de teto, apenas um abismo que desafiasse a gravidade. Ouço o vento em meus ouvidos, ele me suscita um arrepio.
Isso não faz sentido.
Pisco de novo, e o quarto está escuro mais uma vez. Meus dedos buscam o interruptor: o teto está perfeitamente bem. Não há sequer uma rachadura. Nem vento, nem som. Apenas meu coração batendo, batendo.