As Extraordinárias Cores do Amanhã
61. Fumaça & Memórias
61
Fumaça & Memórias
Estou de pé no quarto principal. O próprio quarto onde aconteceu.
Meus olhos vão ao ponto no tapete onde vi a mancha na forma da minha mãe. Mas ela não está lá. Claro que não está lá.
– Não acho que seja uma boa ideia incentivá-la – diz meu pai.
Ele está sentado contra a cabeceira da cama, beliscando a ponta do nariz entre um polegar e o dedo indicador. Ao seu lado, a lâmpada da luminária sobre o criado-mudo está acesa. Minha mãe está ao seu lado, enrolada e de frente para a parede. Ela não diz nada.
– Eu apenas me preocupo com ela, você sabe disso, certo? – meu pai continua. – Ela não tem irmãos. Não tem primos. Ela tem o quê? Um amigo?
– Um bom amigo – minha mãe responde, sua voz abafada e fraca. – Um grande amigo pode ser tudo o que ela precisa.
– Bem, as amizades mudam… – meu pai retruca.
Minha mãe volta a ficar em silêncio.
– Essa coisa da arte está ficando intensa demais. É só isso que ela faz.
– Ela ama arte – diz minha mãe, na defensiva.
– E isso é ótimo. Mas os hobbies também mudam. E há uma dúvida sobre se… isso irá sustentá-la? Vai fazê-la feliz?
– Ela deveria fazer o que ama.
Papai vira o rosto para as costas de minha mãe e fala bem baixinho: – Você faz o que ama. Você está feliz?
Ela não responde.
– Dory – ele diz depois de um longo intervalo.
Só é possível escutar o som da respiração profunda do meu pai. Ele suspira e apaga a luz.
Uma nova explosão de cores.
No canto mais escuro, os ponteiros do relógio da sala brilham suavemente, pequenas hastes verde-lua que mostram que já passa da meia--noite. A luz se espalha a partir do corredor – o suficiente para que o resto da sala fique visível. Minha mãe está no sofá, de olhos fechados, uma almofada debaixo da cabeça, uma manta cobrindo seus ombros. No começo, é difícil situar a memória no tempo – ao longo dos anos, houve muitas noites em que ela dormiu no andar de baixo porque seu quarto se tornara uma caverna de insônia.
Mas, então, meu pai aparece na sala de estar, vestindo seu colete favorito de quando eu estava no ensino fundamental II. Ele se inclina sobre o sofá para ajeitar o cobertor, puxando-o sob o queixo da minha mãe, tirando um pouco de cabelo de seu rosto.
Ele se vira para sair da sala, mas para com os olhos fixos em determinado ponto: uma pintura apoiada contra o suporte de partituras, sobre o piano. Lembro-me daquele desenho – era do final da sexta série. Mamãe me levou um pacote especial de carvões artísticos e eu os compartilhei com Axel, que não podia pagar por um material tão legal, mas odiava os que a senhora Donovan tinha para nos oferecer na sala de artes. A tarefa era desenhar sapatos, e Axel e eu trocamos de sapato para deixar o trabalho mais interessante. Ele desenhou meu Converse novo, mas que já estava manchado de roxo. E eu fiquei com seu par de tênis que, de tão velho, além de ter um furo perto dos dedos do lado esquerdo.
Os defeitos dos sapatos de Axel tornaram o meu desenho especialmente interessante – fiquei obcecada pelo sombreamento correto, buscando replicar a sujeira com perfeição.
Quando terminei, coloquei-o no suporte de partituras para que mamãe pudesse vê-lo, como de costume. Eu nem esperava que meu pai se desse conta. Naquele ano, ele já havia parado de prestar atenção à minha produção artística. Ou, ao menos, era o que eu pensava.
Eu o vejo levar o desenho até o corredor e observá-lo sob a luz, inclinando-se para apreciar os detalhes que eu havia capturado, seus olhos percorrem os laços, o calcanhar desgastado, a borracha rachada.
No sofá, atrás dele, os olhos de minha mãe se abrem. Ela se move sem fazer nenhum ruído e inclina a cabeça para trás, observando-o.
– Hmm – ele murmura para si mesmo e vai para a cozinha, de onde tira uma velha câmera de uma gaveta e clica uma foto do desenho antes de colocá-lo de volta no lugar e ir embora na ponta dos pés.
A luz dourada se apaga, mas sei que os olhos da minha mãe ainda estão abertos, ainda o olham.
As cores mudam.
Minha mãe fazendo waffles em uma manhã de domingo. Eu não devo ter acordado ainda, porque Axel está sentado à mesa, sozinho, virando uma caneca de café de um lado para o outro.
Seu cabelo está uma bagunça, todo despenteado de um jeito divertido.
– Vocês formam uma boa dupla – diz minha mãe, comendo creme batido fresco.
– Quem? – pergunta Axel. – Eu e Leigh?
Minha mãe concorda com a cabeça.
– Ela gosta muito de você, sabe disso, né?
– Ela é minha melhor amiga – Axel ri com desconforto.
Mamãe balança a cabeça mais uma vez.
– É raro encontrar uma amizade tão forte.
Axel disfarça, cortando seus dois waffles em pedaços minúsculos.
– Tem xarope de bordo? – ele pergunta.
Minha mãe tira uma pequena garrafa da geladeira.
– Eu fico feliz que ela tenha você – ela diz com um meio sorriso.
A cozinha cintila e desaparece.