As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 18 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

18. Fumaça & Memórias

18

Fumaça & Memórias

 

A fumaça desaparece, a escuridão se derrete e me vejo em um local completamente diferente. Um lugar que conheço muito bem, na casa onde vivi toda a minha vida.

Paredes em tom esverdeado. A entrada arqueada. Minha sala de estar.

A mamãe está ao piano, seus dedos tocam uma sonata de Beethoven, as teclas se movendo para cima e para baixo incrivelmente rápido.

Estou olhando para minha mãe. Minha mãe minha mãe minha mãe.

Minhas costelas estão quase se quebrando.

– Mãe.

O piano encobre minha voz.

Suas mãos deslizam pelas teclas, moldando arpejos largos, o tronco balançando no ritmo das ondas escuras da música. Lembro-me desta peça: “A tempestade”.

Há um perfume suavemente doce suspenso no ar – o xampu de coco da minha mãe, o único xampu que a vi usar, o mais próximo de um perfume que eu já senti nela. As cores na sala estão em silêncio e há uma qualidade meditativa na música, em seu ritmo cíclico. Não estou perto do piano, mas posso sentir as teclas suaves sob os meus dedos.

– Pare – alguém sussurra atrás de mim, rindo.

Eu me viro e, em nosso sofá, está sentada uma menina de cabelos escuros que, sem a menor dúvida, sou eu, só que mais jovem, com um sorriso enorme e cutucando uma versão mais jovem e desajeitada de Axel. Os rostos estão um pouco embaçados, mas com certeza somos nós. Estou em pé, na frente deles, mas eles não me veem. Isso é tão estranho.

– O quê? – ele pergunta, seu rosto demonstrando a mais pura inocência.

Meu eu mais novo rola os olhos dramaticamente, brilhando o tempo todo. Será que eu já sabia o que sentia por ele naquele momento?

Aquilo é uma seção do passado, de alguma forma preservada. Não lembro da cena. Então, por algum instinto, percebo que essa memória pertence à minha mãe. É por isso que tem o seu cheiro.

A faixa no meu cabelo é roxa, então essa Leigh-lembrança tem, talvez, cerca de doze anos e ainda é muito despreocupada. Ela e Axel seguram seus cadernos de esboços sobre o colo e se chutam nos tornozelos.

Escuta-se um forte ruído vindo do andar de cima: passos descendo rapidamente as escadas. Meu pai aparece, seu rosto se acende. Eu tinha me esquecido daquele som, do bater alegre dos pés. Quando nos tornamos pessoas silenciosas?

– De onde vem esse cheiro incrível? – diz a versão do meu pai na memória.

Um temporizador na cozinha dispara, e as cores mudam como se despertassem. Minha mãe se vira no banco e se levanta. Ela dá um beijo no nariz do papai e passa dançando por ele rumo à cozinha. Ele se vira para vê-la, encantado.

Era uma vez uma família quase perfeita. Eu queria que pudéssemos rebobinar o tempo, voltar a viver naqueles anos para sempre.

Tudo se torna ainda mais desfocado, e o cheiro do xampu de coco desaparece devagar sem a presença de minha mãe ali. Entro na cozinha, e os contornos são precisos e as cores brilhantes mais uma vez. Seu rosto está radiante e há um leve sorriso quando ela tira a assadeira do forno.

– Chega de suspense!

– Conta pra gente o que é! Agora! – grita Axel, da sala.

– Danhuang su – responde meu pai.

Sigo minha mãe de volta para a sala de estar, seus braços esticados à frente do corpo, de modo que o prato abre o caminho. Ela empilhou perfeitamente uma dúzia de doces perfeitamente redondos, enrolados e dourados, ornamentados com sementes de gergelim.

Essa é a mãe da qual quero me lembrar. Essa alegria. A maneira como seu brilho preenchia uma sala. Seu bom humor, seu amor pela boa comida, seu riso resplandecente e alegre.

Dou um passo adiante, desesperada para poder tocá-la, mas minha mão desaparece contra seu ombro, como se eu fosse o fantasma.

Meus pais compartilhavam um doce, puxando as camadas enroladas com os dedos, pegando um pouco da pasta de feijão. Minha mãe deixa para meu pai a gema salgada do miolo – sua parte favorita.

Permaneço ali, com os pés enraizados no tapete daquela lembrança, observando até que minhas costelas me atravessem e pulverizem meu coração, enviando o calor da minha falta a todos os lugares. O sofrimento sai de mim em um sépia escuro.

As cores se invertem. A luz se afasta. Pisca. Brilha.

Há uma Leigh do passado, ainda mais jovem dessa vez, ainda sem os cabelos pintados, agachada à beira de um lago escuro. Meu pai aparece ao seu lado; em suas mãos, várias folhas de grama verde. As cores mudaram sua tonalidade, como se alguém tivesse mexido nos níveis para torná-las mais quentes. O cheiro é completamente diferente, como de folhas de papel secas no secador – o cheiro característico do meu pai.

É uma memória dele.

– Então, aqui está o truque. Pegue um destes… – Ele coloca as folhas de grama em um local plano e escolhe uma para o meu eu da lembrança. – Agora faça um sanduíche entre os polegares. Pressione para que fiquem bem juntas.

A pequena Leigh obedece e mostra suas mãos para ele. Também não me lembro de nada disso.

– Sim, assim. Pressione mais forte. Então você faz assim…

Meu pai leva o polegar até o rosto. Ele infla as bochechas e força os lábios, soprando forte entre os dedos e produzindo um grito estridente que canta pela água.

Eu assisto como a versão de mim na memória o imita, soprando seus polegares. Suas folhas de grama apenas rangem.

– Eu também não consigo fazer isso – diz minha mãe, que está a alguns passos de distância, sobre uma rocha, observando e segurando suas próprias folhas de grama.

– Leigh quase conseguiu. Continue tentando, filha.

Meu pai se afasta da margem do lago para ajudar minha mãe.

A versão de mim sopra e sopra. Ela endireita o pedaço de grama. Pega uma nova folha, pressiona os polegares para que fiquem ainda mais juntos. Por fim, um assobio soa alto e forte, a meio caminho entre um kazoo e um pato.

Ela olha por cima do ombro.

Minha mãe é uma silhueta contra o céu claro. Os braços dela em volta da cintura do meu pai, a bochecha contra seu ombro. Os dois se balançam juntos, no ritmo de uma música que apenas eles podem ouvir.

Há o brilho. As cores se invertem.

Quando retorno ao quarto, estou sentada na minha cama no apartamento dos meus avós, em Taiwan. As memórias terminaram.

Meu polegar e o dedo indicador estão comprimidos tão fortemente que chega a doer. Olho para baixo: o pedaço de incenso desapareceu. Acendo a luz para ter certeza: nenhum rastro dele em lugar algum. Nada de cinzas. Simplesmente desapareceu.

Abro minhas mãos e as noto trêmulas. Fico ali sentada, tremendo, até o amanhecer.