As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 45 de 109

Páginas do PDF

As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 45

 

Meu coração ainda batia forte quando a pálida luz da aurora inundou o apartamento.

A noite passou muito rápido e muito devagar, uma passagem agonizante por todas as cores sombrias e silenciadas.

Quarenta e dois dias agora. Sei exatamente o significado do sonho: a cada dia que passa, minha mãe diminui. Eu tenho que encontrá-la.

Quarenta e dois dias.

Na sala de estar, encontro waigong na porta, tirando os chinelos e colocando um sapato de sair para a rua. Ele se apoia com uma mão na parede e usa a outra para colocar seu tênis e fechar o velcro.

Meu avô sorri para mim quando nossos olhares se encontram. Ele estende a mão com a palma virada para baixo e a acena para o chão. Levo um momento para processar o gesto: ele está me convidando para ir com ele.

Quarenta e dois dias.

Talvez vejamos algo. Uma dica do pássaro. Uma pista.

Waigong é mais lento do que waipo por conta de sua bengala, que o ajuda a se manter equilibrado. O céu ainda está acinzentado quando partimos, mas se abre para as cores suaves da manhã enquanto caminhamos. Terminamos no parque, passeando pela vegetação, fazendo uma pausa para assistir a insetos rastejando por dentro das flores.

A princípio, o silêncio é estranho. Mas assim que me acostumei, comecei a falar com ele em inglês. É legal fingir que ele me entende.

– Eu tive um sonho – digo-lhe. – Um sonho horrível.

Meu avô me olha fixamente. Ele nos conduz a um banco, onde nos sentamos para apreciar a vista. Observamos dois garotinhos correndo um atrás do outro em torno do parquinho. Do outro lado, há uma mesa sob um gazebo. Dois idosos estão sentados frente a frente e contemplam algo entre si. Algum tipo de jogo. Eles se revezam na movimentação em torno de peças planas.

– O que estão jogando? – pergunto.

Waigong não diz nada, mas imagino que seja algo como gamão, ou talvez damas.

Enquanto ele os observa, eu o estudo um pouco, procuro os traços de Ping em seu rosto. Seria ele? Eu tento imaginar waigong crescendo ao lado de waipo, como um irmão.

A estranheza do pensamento me incomoda. Mesmo que ela fosse adotada. Ainda assim. Irmão e irmã, noivos, e depois casados. Eles não achavam estranho?

Um zumbido toma o ar. Há um som de percussão, acelerando sua batida, encontrando um ritmo constante. O ruído fica entre um arranhar e um zumbido elétrico.

Meus olhos fazem uma varredura rápida, mas não encontram nada em que se fixar.

– O que é isso?

Waigong aponta com um dedo trêmulo.

Lá está, no ramo fino da árvore mais próxima, quase do tamanho do meu polegar, marrom e imóvel.

Uma cigarra.

Eu a observo por um longo momento antes de perceber que ela está muito parada. É apenas a casca, uma casca deixada para trás, uma casa vazia.

Não podemos ver a que está cantando, mas seu canto é cada vez mais alto. O ritmo muda, acelera, ralenta. É como uma onda que recua na maré baixa. Nós a ouvimos até a música morrer.

Antes de voltarmos para casa, meu avô para próximo a algumas flores roxas. Ele as toca, passando os dedos por suas bordas sedosas, empurrando cada uma delas para o lado até encontrar a flor perfeita. Seus dedos descem pelo caule até perto da grama, onde ele aperta bem e o quebra.

Quando ele segura a flor diante de mim, digo-lhe:

– Isso é adorável.

A flor mais perfeita. Nós a levamos para casa, para waipo.