As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 50 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

50. Fumaça & Memórias

50

 

Fumaça & Memórias

 

O sol é uma moeda enorme no amplo céu azul. Estou de pé na entrada da casa que conheço tão bem, com sua rampa torta onde as minhocas se grudam nos dias chuvosos. Um grande ônibus escolar amarelo para.

Atrás de mim, a porta da frente de casa se abre, eu me viro a tempo de ver uma versão mais jovem do meu pai saindo na varanda. Pelo cheiro e pelas cores ensolaradas, sei que é uma das suas memórias. Ele sorri e grita: – O que você tem aí, filha?

Uma menina minúscula e com tranças bagunçadas atravessa a rua e sobe pela entrada, agitando um pedaço de papel como uma bandeira.

Não me lembro disso.

– Olhe o que eu fiz! – minha versão de oito anos grita.

Sigo-a para dentro da casa, onde papai coloca o papel sobre o balcão.

– Uau – ele diz, parecendo sincero. – Acho que é o melhor que você já fez.

– É a mamãe tocando piano! – a pequena Leigh exclama.

– Eu percebi – responde meu pai. – Você fez um trabalho espetacular.

– É para você, papai!

– Uau, obrigado. Acho que isso deve ficar aqui por enquanto, pelo menos até termos a chance de colocá-lo em uma moldura!

Meu coração se torce com a maneira como meu eu mais jovem irradia cádmio brilhante, a maneira como as mãos do meu pai empurram gentilmente tudo o que está na geladeira para abrir espaço para o desenho. Meu pai conseguiu ver o instinto em como eu já tinha percepção das proporções e das dimensões do piano? Ele notou o jeito que tentei misturar diferentes pastéis a óleo coloridos no sombreado?

– O que você acha daqui? – ele pergunta.

– Mais para cima! – diz a miniatura de mim. – Assim a mamãe vai ver.

Meu pai empurra o desenho alguns poucos centímetros para cima.

– Não se preocupe. Será a primeira coisa que ela verá quando chegar em casa.

– Onde ela está? – a pequena Leigh vira a cabeça para um lado e depois para o outro.

– Ela ainda não chegou em casa. Quer um lanche?

– Mas ela sempre está em casa a essa hora.

– Ela foi fazer umas coisas na rua, mas voltará logo. Que tal uma maçã com manteiga de amendoim?

O meu eu na memória faz uma careta.

– Estou enjoada disso.

Meu pai abre o congelador.

– Ok… Que tal palitos de muçarela?

Os olhos da pequena Leigh brilham.

– Mamãe nunca me deixa comer isso no lanche depois da escola.

Meu pai encolhe os ombros.

– É seu aniversário. Não vejo por que hoje não possa ser uma exceção.

– Sim! – minha versão na memória pula no ar, erguendo um punho. Não me lembro de ter tanta energia na minha vida.

Papai está aquecendo o molho marinara, o sol da tarde entra pela cozinha e a casa se enche desse cheiro delicioso. A porta da frente se abre.

– Mamãe!

Minha mãe sorri, ainda na entrada. É uma expressão que atravessa o meu ser.

– Feliz aniversário!

– Onde você estava? – meu eu mais jovem salta do banquinho.

Mamãe tira uma caixa embrulhada, do tamanho da mala, de trás dela e caminha pelo corredor.

– Fui buscar seu presente de aniversário. Você quer abrir agora?

– Sim!

Aqueles dedos minúsculos rasgam o papel com entusiasmo e barulho, revelando uma bela maleta de couro. Os polegares abrem as duas fivelas reluzentes sem hesitação. A tampa se ergue e pequenas prateleiras deslizam para fora, com as cores perfeitamente alinhadas. Estojo pastel oleoso à esquerda e canetinhas abaixo deles. Canetas de gel à direita; giz de cera no nível mais baixo. E lápis. Muitos lápis. Lápis de desenho de diferentes durezas, lápis aquarela – o suficiente para fazer girar a cabeça de Leigh.

Meu eu na memória engasga e não consegue parar de ofegar.

– Você gostou? – minha mãe pergunta.

– É o melhor presente do mundo! – meu eu-memória exclama. – São tantas cores!

E, atrás de nós, à margem, meu pai com um sorriso que eu não via há muito tempo. Um sorriso que pressiona forte contra as minhas costelas, que me faz sentir ao mesmo tempo aquecida e triste.

Um brilho, uma mudança de cores, uma mudança de cheiro.

Minha mãe vagueia sozinha pelo corredor da minha escola. Todo o edifício está preparado para uma exposição de arte dos alunos. Pinturas e desenhos decoram as paredes das salas de aula e os corredores. Murais cobrem os armários. Caixas de vidro foram montadas para exibir objetos tridimensionais: esculturas abstratas de arame, papel machê, cerâmica vitrificada e vasos.

Mamãe passa por todas as peças de arte – mesmo as que, obviamente, não são minhas – e busca a identificação correspondente, procurando meu nome. Toda vez que ela encontra uma das minhas peças, ela volta para tirar uma foto com sua câmera automática.

Ela se enche de orgulho e mostra meus desenhos para qualquer pessoa próxima. O último desenho que ela encontra é o seu retrato. Eu ainda não havia lhe mostrado; foi uma surpresa. Um desenho fotorrealista a lápis suspenso em vidro. Minha mãe ao piano, uma mão sobre as teclas, a outra levantada na direção da página da partitura com um pedaço de lápis prateado para marcar o dedilhado.

– É lindo – ela diz.

A luz muda, tudo se inverte, os cheiros se alteram e, quando as cores voltam, posso dizer, pela tonalidade desbotada, que é uma memória mais antiga. Uma memória de um passado mais distante.

Lá está minha avó – uma versão dela, provavelmente em torno dos 40 anos, caminhando por uma estrada. Ela para ao lado de um conjunto de degraus arredondados que levam até uma entrada onde há um arco pontudo com uma imagem de Jesus no topo. Ela não entra, mas se inclina contra a grade para ouvir.

As cores e os sons se assentam e, então, eu também ouço: as notas de um piano, primeiro animadas e vibrantes, depois, lentas e sombrias. Competentes dedos que brincam sobre as teclas, um hábil coração que expressa sentimento mediante as notas.

A música chega ao seu relutante fim, e minha avó suspira. Ela balança a cabeça um pouco e depois segue seu caminho apressada, como se não desejasse ser vista.

As cores se invertem, e as memórias se vão.