As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 14 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 14

 

Tomo um gole de chá em minha minúscula xícara, grata por ter algo para ocupar minhas mãos e boca. O sabor do oolong é colorido pelo cheiro de fumaça, porções salgadas que se desprendem do altar em minha direção. Nem uma hora atrás, estávamos diante das estátuas do bodisatva, acendendo incensos e usando os finos hashis em uma tigela de arroz e cinzas. Papai fechou os olhos e tentei seguir seus passos, mas não tinha certeza se deveria estar rezando, guardando um momento de silêncio ou, talvez, ouvindo algum som distante.

Na minha cabeça, as palavras riscadas no fim do bilhete não paravam de rodar.

Eu quero que vocês se lembrem

O pássaro queria que eu viesse, e aqui estou. Inspiro a fumaça salgada e tento fazer uma oração. Por favor, diga-me o que preciso fazer aqui. Por favor, me diga do que preciso lembrar.

Não recebo nenhuma resposta. Bem, e o que eu esperava?

Agora estamos todos sentados na sala de estar. Meu pai e eu em poltronas de brocado, waipo e waigong em um sofá feito de madeira e com almofadas. Sob brilhantes luzes halógenas, estudo seus rostos. Os lábios finos de minha avó ficam esticados em um eterno sorriso, suas bochechas têm algumas manchas e seu nariz é pequeno e plano. Ela usa argolas simples de ouro nas orelhas, e seu cabelo branco está puxado para trás em um coque solto. Meu avô assente enquanto conversamos, seu cabelo curto é cinza, os dentes são levemente tortos e sua pele tem sardas que formam pequenas constelações castanhas.

Tento encontrar o rosto de minha mãe em cada um deles. Quão diferentes estariam da última vez que ela os viu? O que causou tamanho abismo entre eles?

Papai e waipo conduzem a maior parte da conversa. Pego algumas palavras que entendo. Avião. América. Comer. Clima.

Como é estranho isso. Sentarmos aqui e termos essaconversa educada sobre o chá, quando o que nos uniu foi uma tragédia.

Papai traduz as coisas para mim em inglês como um jogo de telefone sem fio: esta é uma casa nova, eles se mudaram para cá faz dois anos. Waigong não fala uma palavra desde que sofreu um acidente vascular cerebral. O clima estava bom nas últimas semanas, não tão quente como de costume, graças a um tufão no oceano que trouxe um pouco de chuva. As frutas-do-conde e as pitaias estavam particularmente boas nessa temporada. As goiabas que waipo usava para fazer smoothies também.

Quem diabos se preocupa com as goiabas quando minha mãe é um pássaro? Meus joelhos balançam com velocidade e firmeza.

Papai coloca sua mala ao seu lado e a abre, seu conteúdo brilha como as entranhas de um baú do tesouro. Ele tira pacotes de doces: Kisses, da Hershey’s. Chocolates Godiva. Caramelos Tootsie Roll.

Os olhos de waipo se iluminam, mas então ela balança a cabeça.

– O que há de errado? – pergunto.

– Ela está dizendo que é demais – meu pai me explica. – Mas eu queria trazer todos os que ela mais gosta.

As palavras incomodam com um marrom oxidado, a injustiça me fere profundamente. Por que ele sabe do que minha avó gosta e eu não?

Agora, por fim, ficamos sem ter o que dizer, e um silêncio paralisante toma conta do ar. Ninguém fala. Ninguém se move, exceto waigong, que come um caramelo e move-se com suavidade.

Meu corpo fica mais tenso a cada segundo. Estou a ponto de explodir.

Waipo pega o controle remoto da televisão e, em pânico, cuspo uma palavra em inglês:

– Espere! – As palavras se espelham na minha memória: – Deng yixia.

Como podemos ficar ali sentados e assistir à televisão juntos? Vamos fingir que estamos apenas tendo uma noite normal em família? Não é assim que isso deveria ser.

Todos me observam com expectativa. Ergo um dedo, sem ter certeza de que esse fosse um sinal universal, e vou até a sala de visitas. A caixa está na minha mochila, cuidadosamente embrulhada em um jeans. Eu abro a tampa.

Hesito por um segundo – é isso que minha mãe quer que eu faça? Mas como eu saberia? Não posso perder tempo. Se ela está aqui, tenho que encontrá-la.

– Leigh – meu pai diz em tom de advertência quando volto para a sala de estar segurando a caixa.

Ignoro-o e ajoelho no chão entre o sofá e as poltronas, extraindo com cuidado o que está abrigado no interior da caixa. Waipo diz algo e a melodia de suas palavras forma um ponto de interrogação no ar. Papai não responde. Quando meus olhos se encontram com os dele, observo suas sobrancelhas franzidas, o canto da boca repuxado. Ele não quer que eu faça isso.

Bem, não me importa. Não percorri todo esse caminho para manter os segredos.

Viro-me para meus avós e aponto para o pacote. As cartas, em uma pilha com equilibrada cuidado. As fotografias se espalharam. O colar de cigarra, que tiro da bolsa.

Waigong para de assentir.

Minha avó ajoelha-se ao meu lado e passa os dedos pela corrente de prata, contorna a cigarra.

– Baineng – ela diz, e na sequência uma rápida sucessão de palavras brota de sua boca, cujas sílabas saem como seda e nós, como picos e vales.

Papai responde devagar, mantendo o olhar voltado para o chão.Seja lá o que ele tenha dito, fez minha avó balançar a cabeça, seu corpo começar a tremer de tensão.

– O que foi? – Cruzo os braços. – Conte-me.

Meu pai enfim levanta o olhar.

– Onde mesmo você diz ter encontrado essa caixa?

A raiva se acende dentro de mim como um fósforo. O fogo queima rapidamente nas minhas costelas.

– Eu te disse. Mamãe veio como um pássaro…

– Pare. Isso está indo muito longe, Leigh. – Sua voz é como uma serpentina quente.

Eu me levanto.

– Não estou mentindo. Eu não mentiria sobre a mamãe.

Minha avó começa a balançar para a frente e para trás.

– Diga-me o que ela disse – exijo.

Papai inspira profundamente e aperta os olhos.

– Você nunca deveria ter tido acesso a esta caixa.

– O que diabos isso significa? – Rolo meus olhos e deixo a linguagem deslizar, por acidente.

Seu rosto se contrai, mas é óbvio que outras coisas são mais importantes, porque ele não fala sobre isso.

– Eles nunca enviaram isso. Não há postagem no pacote.

– Eu disse isso a você – retruco, tentando conter meu tom. – Não foi enviado por um serviço de correio…

– Não – ele diz. – Escuta. Seus avós fizeram esse pacote, planejando enviá-lo. Mas mudaram de ideia e o queimaram. As fotos e as cartas. O colar, que enviei para eles. Eles queimaram tudo.

Waipo murmura algo, balançando a cabeça.

– Eles queimaram para que sua mãe pudesse ter tudo com ela em sua próxima jornada – diz meu pai, com a voz baixa.

– Mas a mamãe, o pássaro… – Sinto como se tudo se movesse de forma confusa. É como se eu estivesse balançando no alto de um turbilhão da cor de asfalto manchada com branco de zinco. – Você tem que contar sobre o pássaro.

Papai se afasta da poltrona.

– Esta conversa termina aqui.

Escuto com descrença o som de seus pés caminhando pelo corredor, a porta da sala de visitas se fecha atrás dele com um clique.

Waigong fecha os olhos, agarrado à sua bengala, e solta um longo suspiro que fica entre um zumbido e um arquejo, quase silencioso demais para ser audível.

Volto-me para minha avó.

– Mama shi – começo, mas então demoro para me lembrar de como dizer pássaro: – Niao. – Será que consegui o tom certo?

Minha avó pisca para mim.

Pego uma caneta e um bloco de papel da mesa ao lado do sofá, perguntando-me como fazer para conseguir explicar isso.

O silêncio é mais alto do que nunca. Dessa vez, ninguém faz nada para que ele acabe.

Começo com um rápido esboço do rosto da minha mãe. É a primeira vez que a desenho desde que se transformou em um pássaro, e começo lentamente. Mas meus dedos se lembram – meus músculos sabem como desenhar os olhos escuros, as sardas na bochecha direita, a inclinação de suas sobrancelhas. Seu rosto se materializa a partir de traços da tinta.

Waipo se inclina para ver, e viro o bloco para ela. Minha avó estuda o desenho. Ela pisca, e o reconhecimento floresce em seus olhos. Aponto para uma fotografia da caixa e depois de volta para o rosto, apenas para confirmar.

– Mama – digo novamente.

Minha avó balança a cabeça.

Depois, desenho uma seta. Onde ela termina, começo a fazer o pássaro.

Waipo se atenta, observando minha caneta trabalhar. A tinta não flui suavemente e não consigo fazer as asas direito, mas não importa. É o pássaro. Olho para cima, triunfante.

A expressão da minha avó é indulgente. Ela balança a cabeça e murmura algo em mandarim.

Uma abordagem diferente, então. Em uma nova página, minha caneta imprime o corpo gordo e felpudo de uma lagarta. Uma nova seta aponta para o outro lado, onde faço uma borboleta. Antes que eu termine, waipo já está acenando com a cabeça. Ela entende. Seu dedo traça a flecha de um para o outro.

Arranco a página onde desenhei minha mãe e o pássaro e a coloco ao lado do desenho da lagarta e da borboleta.

Por um momento, há apenas o tique-taque do pequeno relógio na prateleira. E então waipo engasga ao entender. Ela toca o braço de waigong. Ele abre os olhos e fita as páginas.

– Minha mãe se transformou em um pássaro – digo em meu idioma.

Waipo balança a cabeça.