As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 73 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

74. Fumaça & Memórias

74

 

Fumaça & Memórias

 

A fumaça me leva a um quarto grande parecido com uma uma residência estudantil para universitários onde papai costumava me levar para jogar pebolim e tomar refresco de máquina. A sala está cheia. A maioria são estudantes, reunidos em pequenos grupos, alguns parecendo mais amigáveis do que outros.

No centro da minha visão: a jovem Dory e o jovem Brian sendo apresentados por amigos. Ela parece tímida em um vestido cor de lavanda. Óculos de plástico gigantes sobre o nariz. Meu pai, com sua camisa larga de botões, inclina-se para dizer algo engraçado. O resto do ambiente faz barulho demais para eu conseguir ouvi-los, mas posso ver minha mãe gargalhar, seu rosto entrando em erupção como um foguete, os olhos apertados, os dedos finos que se aproximam para esconder a amplitude de seu sorriso.

Clarão.

Dory e Brian estão em um auditório vazio, compartilhando o banco do piano. Ele observa os dedos dela se moverem. Seus olhos estão fechados, e Schumann flui por suas mãos, um pé calçando tênis pressiona e solta o pedal dourado.

Clarão.

Dory, fora do apartamento de Brian, segura a cigarra de jade que pende de seu pescoço. Seu rosto está tenso e fechado. Ele abre a porta.

– Dory… Meu Deus! São três da manhã. O que foi?

– Desculpe – ela diz. – Quando me ligaram, era uma hora da tarde para eles. E depois precisei de alguém para me trazer até aqui… Estão todos dormindo.

– Calma – diz Brian, tomando seu pulso e puxando-a suavemente para dentro. – Quem ligou?

– Meus pais – explica Dory. – Eles ligaram porque… eles falaram que…

Brian aguarda. Seus olhos estão cheios de medo. Dory estremece e ele a leva até uma cadeira.

– Minha irmã – ela sussurra, enfim. – Ela está morta.

Meu coração se aperta, transforma-se em gelo.

– O quê? Oh, meu Deus, Dory. – Brian envolve seus braços ao redor dela. É quando ela começa a chorar. – Eu sinto muito.

Morta. A palavra é fria e plana, aquamarine como geada acumulada, e enche meu corpo com essa cor, e com as sílabas que ecoam. Morta morta morta.

Jingling morreu. Minha mãe tinha uma irmã, e minha mãe perdeu sua irmã, e ninguém nunca me contou.

– Eles não sabem o que aconteceu. Sua companheira de apartamento a encontrou no chão. Parecia que ela apenas havia desmaiado. – Dory espera parar de tremer, espera sua respiração pesada se aliviar. – Volto para Taiwan amanhã.

– Amanhã – Brian repete. – E quando você estará de volta?

– Eu não vou voltar – ela lhe avisa.

Brian se afasta enquanto a compreensão se assenta em sua expressão.

– Mas… ainda faltam três semanas.

– Já falei com o diretor do curso. Eu… eu cancelei.

– Tudo bem – Brian diz, lentamente. – Você quer que eu vá com você? Para Taiwan?

Dory parece confusa.

– Por quê?

– Bem. Hum. Eu sei que é um momento péssimo. Mas isso… é importante para mim.

– Isso?

– Nós. – Ele gesticula apontando para ela e, depois, em direção a si mesmo. – Você e eu.

– Faz apenas alguns meses – diz Dory.

– E?

Ela fica em silêncio.

– Diga-me o que você quer – ele diz, sua voz desafinando um pouco. – Por favor. Apenas seja honesta. Porque eu sei o que quero.

– O que você quer? – Mal dá para escutar a voz de Dory.

Ele olha para ela como se não pudesse acreditar que ela estivesse fazendo aquela pergunta.

– Quero que fiquemos juntos. Para começar.

Clarão.

Lá está minha mãe novamente, ainda uma estudante universitária, vestindo um vestido largo de algodão e sentada sobre a mala na calçada do aeroporto. Um táxi amarelo cruza na frente de outros carros para parar diante dela. No início, não reconheço o homem que desce do carro, mas depois percebo os cantos abertos dos olhos, o maxilar forte. É um waigong muito mais jovem. A outra porta também se abre lentamente acima do meio-fio. Waipo sai, os olhos vermelhos, o rosto cinza.

– Descobriram a causa? – pergunta minha mãe.

O som de sua voz é diferente, ela deve estar falando em mandarim, embora a fumaça mais uma vez me permita compreendê-la perfeitamente.

– Um aneurisma – diz waigong. Sua voz é baixa e rouca.

– Ela teve sintomas – acrescenta waipo. – Náusea. Dores de cabeça. Mas ela pensou que fosse apenas uma virose.

Minha mãe abaixa a cabeça, seus ombros caem como se ela tivesse desistido.

– Eu disse a ela para descansar, mas você conhece sua irmã – diz waipo, tremendo. – Sempre trabalhando. Nós até a encontramos no almoço naquele dia.

Uma estranha onda de alívio me percorreu. Um aneurisma. Não foi intencional. Não é como o caso da minha mãe.

Clarão.

Minha mãe está em um canto, segurando um grande telefone plástico entre a orelha e o ombro. Seu rosto está virado para a parede, onde ninguém pode ver sua expressão. Ela enrola as espirais do cabo do telefone em seu dedo indicador, volta por volta, até seu dedo estar todo recoberto. O som da voz de um jovem surge através do aparelho, a voz ligeiramente distante, de modo que demoro um momento para perceber que é meu pai.

– Mas como você está? – ele pergunta.

– Estou bem – Dory responde, sua voz um pouco baixa, um pouco tímida.

Percebo, então, que waipo está a poucos passos de distância, na cozinha, ouvindo atentamente a conversa com um olhar estranho em seu rosto.

– Sinto sua falta – diz Brian.

– Sinto sua falta também – ela diz, suavemente.

– Seus pais ouvem você falando ao telefone? – ele pergunta.

– Sim. Mas não entendem. Está tudo bem.

Ouço o som de sua respiração:

– Eu vou ver você.

Dory faz uma pausa. A postura de seus ombros muda. Ela ergue a mão para segurar o telefone com força.

– Mesmo? Você vem para Taiwan?

– Sim. E se seus pais estiverem dispostos a me conhecer, eu gostaria de conhecê-los.

Ela acena com a cabeça, sem palavras.

– Dory? Você me ouviu?

– Sim – ela responde, finalmente, sua voz cheia de emoção.

A voz de Brian fica mais baixa.

– Você está bem?

Ela acena com a cabeça mais uma vez, embora ele não possa ver.

– Sim. Estou bem. Preciso desligar agora.

– Ok. Até mais, Dory.

– Tchau – ela praticamente sussurra.

Quando desliga, waipo sai da cozinha e se coloca na frente dela.

– Quem era? Com quem você estava falando?

– Um colega de classe – Dory responde.

– Que colega de classe? Um colega de classe americano? Do curso de verão?

– Sim.

– Por que você estava tão estranha? – waipo indaga.

– Eu não estava – Dory retruca, sem fazer contato visual. Ela finge olhar para o relógio. – Vou ao mercado agora, antes que os melhores vegetais acabem.

Waipo não diz nada além de se afastar de cenho franzido.

Enquanto Dory calça os sapatos, ela finge não ouvir a conversa entre seus pais na outra sala: – Quem era? – pergunta waigong.

– Ela disse que era um colega de classe. – Waipo não parece feliz. – Eu acho que foi ele.

– O americano?

– Sim – diz waipo. – Ela estava falando com ele em inglês.

– Ela não pode namorar um americano. Ela deve se casar com um chinês. É um dever.

– Diga isso a ela você – diz waipo. – Ela está estranha.

Dory fecha a porta atrás de si o mais silenciosamente possível e corre pelas escadas.

A luz muda. As memórias somem.