As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 49
Estou ficando louca, entre o rugido das lembranças e a contagem dos dias. Tecendo e contando novamente, apenas sete dias restantes, sete dias para encontrar o pássaro.
Estou cansada das lembranças. Cansada de sombras e tempestades sendo puxadas para a superfície da minha mente, malva derramada em terra escura. Cansada de reviver o passado, os erros.
Eu venho tecendo uma rede muito apertada, então, tenho que desfazer tudo e começar de novo. Maissolta, lembro-me, porque a cada vez que me deixo levar pelas memórias, acabo me distraindo e meus dedos enrolam, puxam e apertam. Preciso de laçadas maiores, uma rede mais solta, maior. Preciso fazer isso direito para poder pegar o pássaro. Um suspiro de frustração, e os dedos perdem o controle. Novamente tenho uma pilha de tiras de tecido, que já começa a enrolar nas bordas, onde a tesoura cortou no tecido de algodão.
A memória de outra pessoa, é disso que preciso. Algo para me refrescar e me soltar.
E é assim que me vejo em pé diante da gaveta, puxando a caixa de incenso mais uma vez. Não sobraram muitas varetas.
Não presto atenção o suficiente para contar. Estou cansada de contar. Mas sei com apenas um olhar que vão acabar em breve.
O fósforo já está aceso quando me lembro de que preciso de algum tipo de gatilho. Como as folhas de chá.
Agito o fósforo até que esteja apagado e procuro no quarto algo que possa servir. As folhas funcionaram porque waipo as tocou, porque o chá é importante para ela, era um elemento ligado ao seu passado.
Meus olhos se fixam na caixa recebida do pássaro. Eu não havia tocado nela desde a partida de papai. Talvez já estivesse na hora de passar por isso novamente.
Fotografias. Cartas. Desdobrei um envelope e tirei seu conteúdo. Havia uma página coberta com caracteres chineses manuscritos e, atrás, um desenho. Um desenho de anos atrás, um que eu não me lembro de ter feito. Eu devia ser bem pequena, porque no topo está escrito Para papai com a letra mais horrível que já vi, espessos traços verdes de pastel a óleo, todos irregulares e desencaixados.
O que isso está fazendo na caixa?
Pergunto-me o que esse papel me daria, se eu o queimasse.
A lembrança de como a pena e o chá se desintegraram em cinzas me faz parar. Alguém guardou esse desenho por algum motivo. Eu não podia simplesmente sacrificá-lo por uma memória.
Mas no segundo seguinte, meu quarto muda e volto a ver as rachaduras. Elas chegam na metade das paredes. No teto, faltam peças aqui e ali, deixando pequenos buracos de vazio. Enquanto observo, outra peça começa a desmoronar. Elas se desintegram, a poeira cai, deixando para trás apenas o preto.
Ouço um grito agudo, como o que ouvimos fora do templo. O bater das asas.
Uma explosão de vermelho entre as rachaduras do teto. Asas com um milhão de matizes diferentes. Vermelhão, carmesim, o vermelho do sangue. Uma longa cauda passa deslizando.
Uma pena cai através da maior fenda. Ela flutua como um suspiro, pousa em cima do desenho, e depois desaparece.
Não é preciso que me digam duas vezes. Meus dedos estão tremendo, então preciso de algumas tentativas para acender o novo fósforo. Levo a chama ao incenso. O papel fica em brasa. O desenho começa a queimar. Grossos fios de fumaça preta se formam, girando, enrolando-se.
Faz-se a escuridão.
Então, a faísca e o clarão.