As Extraordinárias Cores do Amanhã
Capítulo 102
Um dia, volto até a casa de Feng. Fico na frente das portas de aço e aperto o mesmo botão: 1314.
Depois do que parece ser uma eternidade, ouço os sons de passos descendo as escadas. Uma das portas se abre e um homem coloca a cabeça para fora.
Eu reconheço sua marca de nascença antes de qualquer outra coisa. Uma nuvem de aquarela na bochecha.
– Você, de novo?
Dou um passo para trás.
– Sinto muito. Não queria incomodá-lo…
– Então, por que você tocou minha campainha? – Ele franze o cenho para mim.
Não era o endereço de Feng que estava na caixa rosa da Hello Kitty. Era o endereço de Fred.
– Eu realmente sinto muito.
Já estou descendo os degraus e me afastando quando ele me chama:
– Aguarde um minuto. Tenho algo para você.
A porta se fecha e ouço seus passos subindo as escadas. Poucos minutos depois, Fred volta, segurando um envelope vermelho.
– Eu não posso aceitar isso – digo a ele. A ideia de aceitar dinheiro…
– Não é dinheiro – ele balança a cabeça. – É o cabelo de Chen Jingling. Eu nunca o queimei. Você pode ficar com isso… Para que você se lembre dela.
Então, o envelope vermelho está na minha mão e Fred me dá um último olhar antes de fechar a porta.
Acho que é isso. Não existe Feng ali. Mas, ainda assim, não consigo ir embora. De pé, na esquina onde ela nos encontrou antes, abro o envelope vermelho para ver o que tem dentro. Há uma mecha escura e brilhante de cabelo, unida por um elástico e uma fita. Há também uma fotografia. A foto é antiga, mas colorida: duas mulheres jovens de pé, em um parque, sorrindo diretamente para a câmera. À esquerda, minha mãe, com um simples vestido amarelo. Eu reconheço seus óculos por conta das memórias que vi. A foto deve ter sido tirada quando ela já era estudante universitária. Ao lado de minha mãe está sua irmã, Jingling, usando um vestido estampado de flores em diferentes tons de vermelho, rosa e púrpura.
Jingling. Ou a mulher que conheci como Feng.
Agora me lembro de sua aparência. Agora posso enxergar com absoluta clareza. O rosto de Jingling estava embaçado em todas as lembranças, mas ainda assim… Como não percebi antes?
Pego meu telefone novamente e busco a foto borrada do dia em que fomos ao topo do Taipei 101. Foi ideia de Feng de tirar a foto. Teria sido essa sua tentativa de me dizer que ela era um fantasma?
O céu começa a escurecer, então, percebo que tenho de voltar para casa. Dou meia-volta, olhando uma última vez. Esperando o vislumbre de uma blusa com estampa floral. Esperando que ela se materialize e se ofereça para me levar para experimentar uma nova comida deliciosa no mercado noturno e me explicar tudo o que aconteceu.
Ela não aparece.
– Tchau, Feng – sussurro.
Uma brisa passa diante de mim e espalha as folhas das árvores.
Na manhã seguinte, contratamos um carro que leva nós quatro a Danshui, para ver o mar. Meu pai carrega uma pequena caixa de madeira que havia mantido escondida de mim todo esse tempo. Minha avó carrega a urna de cerâmica com os dragões azuis.
Lá, na água, espalhamos as cinzas. Da minha mãe. De Jingling.
O vento fica mais forte, reivindicando as cinzas.
E então elas se vão. Nós ficamos ali, com as cores do amanhã. As cores do agora.