As Extraordinárias Cores do Amanhã

Emily X. R. Pan · Capítulo 56 de 109

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As Extraordinárias Cores do Amanhã

Capítulo 56

 

Depois que Feng partiu, waipo e eu nos dirigimos para casa em um silêncio gelado.

Agora o apartamento está silencioso, tão silencioso que posso ouvir meus avós se mexerem em sua cama. Há um grilo distante que faz sua contagem rítmica em algum lugar nas ruas. Um carro passa de vez em quando. Minha culpa, em inspirações e expirações ruidosas, é ouvida como ondas de tempestade batendo sobre as rochas.

Se Axel estivesse aqui agora, perguntaria: Qualéa cor?Não tenho certeza se saberia responder. Talvez seja uma cor que ainda não descobri.

Tento tirar os pensamentos sobre Feng de minha cabeça.

Minhas mãos agarram as tiras da camiseta. Começo novamente a trança, meus dedos direcionam o tecido, curvando-se para manter a trama frouxa. Concentro-me em passar a tira por cima e por baixo, em dar nós rápidos e deixo minha mente vagar.

Houve um fim de semana em que Caro e eu passamos o sábado todo lendo sobre tetracromatismo e tentamos descobrir se uma de nós ou ambas tinham tal competência. É uma aptidão extremamente rara e significa que você pode ver cores que outras pessoas não podem. Então, seria tipo uma pessoa comum que olha para o céu e vê um azul perfeito enquanto quem tem tal capacidade insiste que ali também há vermelho, amarelo e verde.

Pergunto-me se seria similar ao fato de ver o pássaro. Se aqueles de nós que o viram têm algo especial em seus olhos, em seu cérebro, em seu coração – uma característica que lhes permite ver essa outra dimensão da existência com uma nítida clareza.

Porque o pássaro é real. Ele tem que ser.

Tenho tanta certeza disso quanto tenho do fato de que nasci. De que estou viva. De que meu nome é Leigh Chen Sanders.

E, então, lembro-me de que um dos artigos dizia que a maioria das aves são tetracromatas.

Isso deve valer para minha mãe, como um pássaro. Tem que valer. Pergunto-me se ela pode ver as cores que eu não posso. Se, para ela, o céu está cheio de tons de púrpura e laranja enquanto o atravessa. Se a lua parece um pincel carregado com um milhão de tons diferentes de tinta, esperando para ser limpo.

É como se meus pensamentos desencadeassem algum tipo de magia. As cores do meu quarto começam a aprofundar suas matizes, como flores desabrochando. Carmesim nos cantos. Cor do céu ao longo das rachaduras, mais para baixo. Índigo na janela. Verde luminescente contornando os cantos da parede mais próxima da cama. As coisas que já são pretas de alguma forma ganham um tom mais verdadeiro, escuro e vazio.

Pisco com força, e tudo volta ao normal por um momento.

Mas, então, tudo volta, como se a tinta fosse derramada e se espalhasse rapidamente. Na superfície brilhante das manchas, vejo partes do passado. As memórias se desdobram.