Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 1 de 23

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Azeitona

Capitulo 1

1.

 

Além de Ian, havia sete pessoas na sala de espera do consultório médico. Três delas visivelmente grávidas, uma possivelmente e mais três com certeza não grávi das. Deste último grupo, dois eram maridos que batiam papo na entrada do lugar, enquanto suas mulheres liam revistas acomodadas no sofá. O outro conversava com a mulher, que estava com a barriga tão protuberante que, se estivesse gripada, o bebê já teria sido colocado para fora com um espirro.

A sétima pessoa, que poderia ou não estar grávida, era,

digamos, muito esguia, Ian pensou. Ela estava em pé e se revezava entre fazer perguntas para a recepcionista, que parecia não ajudar muito, e falar agitada ao telefone.

Ian estava com um celular sem bateria e nenhum

conhecido por perto enquanto aguardava na sala de espera. Ele até contaria o número de valinhos no teto do consultório, se este não tivesse uma camada grossa de gesso, o que fez com que sua única saída fosse tentar ouvir as conversas enquanto fingia estar ocupado verificando a higiene das unhas.

O rapaz levantou os olhos por alguns segundos e deu de

cara com a mulher que falava ao telefone olhando em sua direção. Ela parecia assustadoramente animada.

A mulher desligou o telefone e sentou-se ao lado dele. Ian

não sabia ao certo se ela iria falar com ele, mas ficou um pouco nervoso. Ela estava sorrindo.

– Prazer, meu nome é Catarina. – Ela estendeu a mão. Catarina usava um blazer e, mesmo sorrindo, parecia tão

séria e importante que, enquanto a cumprimentava, Ian se sentiu segurando as mãos firmes da prefeita da cidade. E de fato ela deveria ser importante, porque era uma manhã de outono bem quente para alguém pensar em usar mais que uma camada de roupa sem necessidade.

– Ian… – Apresentou-se. – Comigo tá tudo bem. – Que demais! Eu amo nomes curtos. Não tenho filhos,

mas minha cachorrinha se chama ivy – ela disse, empolgada, forçando uma identificação tão convincente quanto “você gosta de comida? Meu Deus, eu amo comida!”. Ian respondeu com um sorriso e ela continuou: – Desculpa, eu não estou comparando o seu nome com o de um cachorro, mas... bem, você entendeu, né?

Ela riu, simpática.

– Não, não se preocupe! É que… – Ian não fazia ideia do

que dizer, dado o rumo que a conversa tinha tomado. – Tudo bem.

– Enfim – ela se ajeitou na cadeira, trazendo a pasta de

documentos que estava sobre seu colo para mais perto de si. – Vamos ao que interessa. Você estuda? Trabalha?

Naquele momento ele teve certeza de que ela não o estava

paquerando. No auge de seus trinta e poucos, talvez fosse velha demais para dar em cima de um rapaz de dezesseis.

O que o levou à segunda opção: curso profissionalizante.

Ele sabia, porque aquilo já havia acontecido antes: alguém chega com um sorriso no rosto e uma simpatia duvidosa. Quando você vê, estudou dois anos de gestão empresarial a partir dos catorze anos e, agora, passados alguns meses da conclusão do curso, se sente tão preparado para gerenciar uma empresa quanto uma lhama.

– Eu estudo – respondeu. – E tenho um trabalho de meio

período como instrutor particular de tênis. Minha irmã trabalha com organização de festas, e às vezes eu a ajudo também.

– Quanta responsabilidade! Ainda mais essa, né? – Ela

apontou a porta da sala do médico. – Eu acredi to que neste momento o que você mais precisa é de grana, certo? Criar uma criança demanda um grande investimento.

O rapaz sentia lá no fundo que acabara de ser chamado de

pobre, mas não tinha certeza. O casal que estava sentado ao lado de Ian parou de conversar e agora parecia prestar atenção na conversa, enquanto as outras duas mulheres permaneciam entretidas com suas revistas.

– Na verdade, quem realmente vai investir na criança é a

minha irmã. Ela está se formando agora e tal, daí vai conseguir mais tempo pra se dedicar, montar uma empresa de verdade.

– Por que a sua irmã? Os seus pais não vão ajudar com o

bebê, é isso?

– É que nós moramos juntos, minha irmã e eu. Não

moramos com nossos pais – respondeu, sério. Ele não gostaria de ter que explicar toda a história para uma desconhecida.

– Ah, claro – Catarina pareceu achar a informação

interessante. – Mas você não se sente meio mal com isso? Ela pagando tudo? Eu acredito que você queira o melhor para a criança. – Ian olhou para o lado e viu que o casal parecia tão concentrado que aceitaria o curso em seu lugar antes mesmo de ele ser oferecido.

– É claro que quero o melhor pra ela. Na verdade, eu não

tinha parado para pensar nisso, talvez possa ajudá-la mais com os eventos, não sei.

– Ian parou de falar quando percebeu que estava se

justificando demais para alguém que nem sabia quem era.

A equipe que sua irmã costumava contratar realmente era

limitada, variando conforme o orçamento previsto para o evento. O que ela mais fazia era festa de criança e debutante e, de vez em quando, casamento. Em geral, grandes empresas eram chamadas para cuidar de eventos maiores, como formaturas em universidades e jantares corporativos.

Catarina parecia realmente disposta a fazer com que Ian se

responsabilizasse pelo futuro bebê da irmã, que estava na sala ao lado, em sua primeira consulta pré-natal com o obstetra.

A mulher começou a ressaltar as dificuldades financeiras

de criar uma criança e como nos primeiros meses bebês consumiam fraldas como verdadeiras máquinas de fezes. Ian olhou para as próprias roupas, tentando encontrar os buracos que a teriam levado a pensar que ele estava tão necessitado. Porque, mesmo não estando, agora já havia se convencido de que precisava de mais dinheiro.

Ian parou de prestar atenção quando, ao desviar os olhos para a pasta transparente que ela segurava no colo, viu lá dentro um crachá:

 

Catarina Raizer

Produtora

REDE BPS

 

Não era sempre que Ian entrava em conversas importantes

com desconhecidos sobre o futuro de seu sobrinho do tamanho de uma semente de gergelim. Mas saber que ela trabalhava na maior rede de TV do país o deixou curioso.

– …o que eu quero dizer com isso tudo? Tenho uma

proposta que vai mudar a sua vida – Catarina agora estava mais séria e confiante.

O rapaz concordou com a cabeça, esperando ela

prosseguir.

– Vem aqui – ela deu um toque suave em seu ombro,

levantou-se e seguiu em direção ao outro canto da sala, próximo à porta do médico. – Precisamos conversar com mais privacidade.

Ian a seguiu. A sala de espera não era tão espaço sa, mas,

com o silêncio do casal que tentava ouvir a conversa, e como os outros dois pais, embalados num papo interminável sobre futebol, tinham andando aos poucos até chegar à calçada, o lugar estava extremamente quieto.

– Eu trabalho na TV BPs – ela cochichou, batendo as unhas

compridas e bem-feitas sobre a pasta transparente –, na produção do Novos Pais. E acho que você e sua namorada... Aliás, eu acho que é namorada – ela se corrigiu. – Você ainda não se casou, né?

Ian não entendeu direito. Soltou um “não” confuso, mas foi cortado pela produtora.

– Pela sua cara nem pretende – riu sozinha. – Bom, você é

um rapaz bonito e tem o quê? Dezessete? Dezesseis?

Ian fez que sim com a cabeça.

– Certo, tem dezesseis anos, a idade perfeita pra esse

projeto. E acredito que você e sua namorada sejam perfeitos candidatos para essa nova temporada. Um casal desistiu de última hora, e acho que, se você quiser, é quase certeza que…

A fala de Catarina foi interrompida pelo toque do seu

celular. Ela rejeitou a ligação e pressionou os lábios. Estava visivelmente atrasada.

– Ian, é o seguinte: não posso esperar ela sair do

consultório. Mas conversa com a sua namorada e, por favor, me retorne – ela abriu a pasta e retirou um documento de umas cinco folhas. – Aqui está tudo o que você precisa saber sobre o funcionamento do programa, inclusive com a melhor parte: o cachê de cada um – ela fez um sinal com as sobrancelhas ruivas. Já estava comandando a quarta temporada do programa, então sabia o que mais interessava aos participantes.

– Na verdade, eu…

– Aqui está o meu cartão – ela o interrompeu. Colocou a

pasta embaixo do braço enquanto o retirava da bolsa. – Qualquer coisa me liga, manda mensagem, e-mail… Tô atrasadíssima mesmo! – Catarina disse apontando para o celular, e foi em direção à porta, de costas, virada para Ian. – Pode ligar quando quiser, viu? Ele voltou para o banco em que havia estado sentado com as cinco folhas na mão, enquanto tentava entender a confusão que tinha acabado de acontecer.

– Desculpa me meter, moço – a grávida que estava com o

marido a uma cadeira de distância de Ian disse, esticando-se para cutucá-lo. Uma manobra perigosa, Ian constatou, com uma barriga tão grande, uma das nádegas suspensa a alguns centímetros do banco pode causar, sei lá, uma despressurização.

– Aquela era a moça da TV, né? – Perguntou a grávida. Ela estava mesmo tentando ouvir a conversa.

– Acho que sim – Ian ainda estava um pouco confuso. –

Ela disse que trabalha num programa chamado Novos Pais.

– Eu sabia, natan! – ela disse, dando um tapinha no

marido. E se voltou para o garoto novamente. – A gente assiste ao programa, ela aparece de vez em quando falando com os participantes. Eu devia ter tirado uma foto! – falou, quase culpando o marido, que provavelmente defendera a ideia de que não poderia ser Catarina de verdade.

Ian soltou um sorriso amarelo para encerrar a conversa,

mas a mulher estava empolgada. A irmã dele descobrira a gravidez havia apenas três semanas, então ele ainda não tinha percebido mudanças no comportamento dela por causa dos hormônios. Mas, se ela fosse ficar igual à grávida ao seu lado, talvez isso viesse a ser um problema.

– A liana, uma das protagonistas na temporada passada,

vai dar uma palestra no fim de semana no auditó rio da Uniale. Até comprei ingresso! – A mulher estava realmente exultante. – Tomara que a Anitta e o luan esperem a palestra passar.

– Quem? – Ian perguntou.

– Os bebês – o pai respondeu. – são gêmeos. – Ah, claro. Parabéns! – Ian sorriu e fez um aceno

positivo com a cabeça. – Mas os participantes viram, tipo, celebridades?

– Claro! – Ela se virou, com um pouco de dificuldade,

para ficar mais de frente para Ian. – são doze casais, todos adolescentes, que mostram como está sendo enfrentar a ideia de ter um filho tão cedo na vida. Acontece de tudo. A liana foi a que mais se deu bem porque era meio louca e não quis fazer o teste de DnA até ganhar os bebês, gêmeos também. E ela não sabia quem era o pai! Daí dois rapazes acompanharam ela no programa todo. Foi uma tensão porque, afinal, um deles não iria ser o pai, coitado. Mas sabe o que aconteceu? – ela esperou Ian responder.

– O quê?

– Cada gêmeo era filho de um dos pais! – Ela bateu uma

palma no ar de empolgação, dando um susto em Ian. – saiu em todos os jornais, até fora do país. Você deve ter visto.

– Acho que vi, sim – Ian se lembrou vagamente. A notícia

saíra fazia quase um ano.

– Pois é. E a casa dela era bem simples, tinha dois quartos

e moravam seis pessoas – a grávida aproximou seu rosto no de Ian. – Agora? Mora num apartamento no centro! Dizem que comprou só com o dinheiro que recebeu. E ainda faz palestra, foi capa da Filhos&Filhas, e os pais dos gêmeos lançaram uma biografia daquelas vira-vira: de um lado é a de um pai, daí você vira o livro e está lá a do outro.

Ian relembrou o que Catarina havia dito. Ela queria que ele

fosse o próximo participante do programa! Mas… eu não tenho uma namorada, muito menos uma que esteja esperando um bebê! Ian balançou a cabeça, tentando esquecer toda aquela besteira.

A grávida percebeu que Ian não estava mais prestando

atenção no que ela dizia e usou a tática de diminuir aos poucos o volume da voz, enquanto fingia que na verdade estava contando toda a história para o marido.

Se bem que, realmente, seria ótimo ter algum dinheiro agora.

Já pensou, comprar um apartamento? É, mas preciso primeiro encontrar uma namorada. E, onde quer que ela esteja, muito, MUITO provavelmente, ainda não estará grávida de mim.

– Viviane – o médico chamou, trazendo Ian de volta de

seus pensamentos para a vida real.

Ian acenou com a cabeça para Viviane, que em pé não

parecia ter a barriga mais gigante que ele já tinha visto, e o marido, antes de entrarem na sala do médico.

Após Iris acertar sua próxima data com a secretária,

enquanto saíam do consultório, Ian perguntou:

– Como foi a consulta?

– Foi ótima. Eu tirei um monte de dúvidas e ele me passou

alguns exames – Iris disse, enquanto colocava os papéis dentro da bolsa espaçosa. – E o bebê tá do tamanho de uma lentilha.

Ian parou de andar e olhou para a irmã. Assim que

descobrira, ela disse que parecia uma semente de gergelim.

– Você realmente vai comparar o tamanho do seu filho

com comida até o final? Quando você for ganhar ele vai ser o quê? Um leitão de pequeno porte?

Iris riu e colocou o braço ao redor do pescoço do irmão,

que já era maior que ela, e foram assim até o carro.

– Ah, e o médico disse que era bom não pintar meu cabelo

por agora, também.

Os cabelos de Iris tinham um tom um pouco mais claro e

puxado para o vermelho do que o castanho de Ian. Ela ainda usava uma franja um pouco mais curta que o resto do cabelo, que vivia colocando para trás da orelha. Iris de fato era muito bonita, mas seus lábios pequenos e seus olhos simpáticos faziam com que fosse tudo, menos uma mulher fatal. Nem quando os dois se desentendiam Ian conseguia se irritar com a irmã, por causa daqueles olhos tão cordiais.

– Ian, o que são esses papéis? – a irmã perguntou, assim

que entraram no veículo.

Ele havia chegado ao consultório sem nada nas mãos e se

esqueceu de esconder as folhas entregues por Catarina.

O rapaz não tinha o costume de mentir para a irmã. Ela o

havia criado desde que ele tinha seis anos, e os dois tinham também uma relação de amizade. Só que nada parecido jamais havia acontecido com ele. Se tivesse ido atrás do problema, talvez contasse, mas, nesse caso, o problema veio atrás dele.

– Eu trouxe um pendrive pra pedir na clínica que eles

imprimissem um trabalho para a escola. – Ian disse, enquanto enrolava sem perceber as folhas em formato de cone.

– Você vai amassar se enrolar assim. E por que não

imprimiu em casa? – ela perguntou desconfiada, enquanto manobrava o carro. – Que vergonha Ian, imprimir numa clínica.

Ele tentou jogar a culpa na falta de tinta da impressora, lembrando que a irmã tinha reclamado disso dias antes, mas Iris não comprou a desculpa – os cartuchos eram sempre recarregados assim que acabavam, já que ela precisava imprimir boletos e outros documentos a trabalho.

No caminho para casa, Ian observou a irmã, que cantava

com o rádio do carro a maioria das músicas. Ele sempre se sentiu devendo algo a ela, que precisou abandonar os estudos para criá-lo quando a mãe morreu, meses depois de o pai deles ter saído de casa. Finalmente ela havia voltado a fazer um curso superior, de tecnologia em eventos, e a formatura seria em alguns meses.

Ela já tinha feito de tudo por ele, e era hora de retribuir. A

produtora precisava que entrasse em contato o mais rápido possível. Talvez, se ele enviasse uma mensagem e torcesse para que tudo desse certo, conseguisse alguém para entrar nessa com ele.

Apertou três vezes no botão inicial do celular antes de

lembrar que a bateria havia morrido. Ao menos eu não vou fazer nada por impulso, Ian respirou fundo. Deve ser um sinal para eu não desistir!

Ian claramente não sabia interpretar sinais.