Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 18 de 23

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Azeitona

Capitulo 18

18.

 

Ian estava sentado no sofá da sala, em meio a dois vestidos estendidos. Para não encostar em nenhum, ele precisou juntar os antebraços em cima da coxa enquanto escorava a cabeça no encosto. De um lado, um vestido turquesa, com renda nos ombros e uma fenda na altura das pernas. Do outro, o vestido coral, feito com um tecido leve e solto, que fizera Iris andar como se flutuasse pela loja no mês anterior.

– Ian, você pode levantar do sofá? – Iris perguntou,

cautelosa. Desde o que acontecera com Caio, ela estava relevando a dura que vinha dando no irmão por causa do reality show. – Você vai amassar os vestidos.

Como se seu cérebro estivesse no automático no momento

em que ele se sentou tomando cuidado para não amassá-los, o rapaz olhou ao redor e foi como se percebesse pela primeira vez que não havia ali apenas o vestido que alugara para a irmã.

Iris, com Leo logo atrás, usando um terno escuro e

segurando em seu ombro, o encaravam com um olhar prestativo. Na verdade, parecia um olhar de pena.

Iris ajeitou o penteado com cuidado. Havia acabado de sair

do salão. A maquiagem escura a deixava diferente, seus olhos pequenos e cordiais de repente ganhavam outra leitura – mais séria e intensa.

– Por que tem dois vestidos no sofá? – Ian perguntou,

levantando-se apenas com a força dos músculos da perna para não se apoiar onde os vestidos estavam dispostos.

– O outro é da sarah – Iris disse. – Depois da colação ela

vai vir aqui em casa pra nos trocarmos e irmos à festa.

Ian concordou com a cabeça.

A buzina do lado de fora anunciava a chegada de Emília.

Ela avisara para a mãe que iria dormir na casa de Ávia e levou consigo seu vestido quando saiu. Na casa da amiga, arrumou-se e chamou um táxi. Não aceitou a carona de Gael para evitar qualquer problema.

Ian passou pela irmã e pelo cunhado para atender o portão.

Os dois se viraram, seguindo-o com o olhar. Iris se desvencilhou carinhosamente do braço de Leo e foi para perto do irmão.

– Ouça, não quero você assim pra baixo logo hoje. Você

está se sentindo culpado de novo por algo que não teve nada a ver com você – Iris olhou para o chão por alguns instantes. – Eu quero você feliz hoje, porque eu estou feliz. – sua voz falhou no final, e Iris levantou a cabeça, respirando fundo, temendo ter perdido três horas no salão para chegar ao evento com a maquiagem borrada. – Quero que você aproveite essa festa e se divirta como se fosse o melhor dia da nossa vida... Porque é! É como se fosse um marco pra nós dois. O futuro é brilhante e imprevisível.

Ian sorriu. Fazia apenas uma semana desde o incidente

com Caio, e ele não pensava em outra coisa desde então. Iris fingiu não ter se importado tanto por perder o trabalho com Estela, mas Ian sabia que, no fundo, estava devastada... Talvez naquela noite devesse realmente pensar nas coisas boas que iriam acontecer dali para a frente, e apenas nisso.

– Vamos ser positivos agora – Iris balançou a mão no alto

com o punho fechado. – Você não vai ser preso! não vai! Vai dar tudo certo! – disse com sarcasmo, sorrindo.

Ian achou engraçado. A irmã já parecia ter superado o fato

de que ele estava decidido a participar do programa. O que era bom, porque hoje ela também seria gravada por Catarina.

Quando Ian chegou ao portão, o táxi já havia partido, e

Emília o esperava em um vestido azul-marinho escuro com pedras que subiam num degradé até abaixo dos joelhos. A boca, com um batom rosa claro quase imperceptível, tirou a concentração de Ian por um momento, fazendo com que ele se esquecesse de abrir o portão depois de girar a chave.

Os dois se cumprimentaram com um abraço meio

desconfortável, como se fosse a primeira vez que se viam.

Desde que Emília começara a considerar a ideia de Gael de

tirar Ian do programa, ela e o colega haviam parado de trocar mensagens com frequência. Ela precisava analisar friamente a situação e não queria aumentar seu laço afetivo com o garoto.

Emília e o namorado haviam discutido sobre a ideia

durante quase toda a semana. Ela não poderia negar que Gael tinha ao menos um pouco de razão – Ian a havia colocado naquilo tudo simplesmente porque queria o dinheiro.

– Ele está te usando – Gael dissera, enquanto tentava

convencê-la. – Além do mais, se essa foi a motivação dele, o que garante que o seu colega não vai fazer algo parecido? Que não vai dizer que você inventou essa gravidez e que ele é que foi enganado, tirando você do jogo e saindo como um santo, aproveitando para tirar até o último centavo de toda a exposição que teria? Essa pode ter sido a intenção dele desde o início. Pelo que você me disse, ele parecia estar muito confiante desde o começo, mesmo dizendo não ter planejado nada.

Emília e Ian caminharam em direção à porta. Ela já não se

sentia tão à vontade quanto antes ao lado dele. Pouco tempo antes, os dois tinham um segredo jun tos que os colocava num outro patamar de confiança, e agora ela tinha um segredo que precisava esconder dele. As coisas mudavam rápido.

– Você tá bem? – Emília perguntou antes que os dois

entrassem em casa. O motivo número um para ela não tomar nenhuma decisão naquela semana havia sido o problema com Caio, que deixara Ian abalado.

– Tô bem, sim – Ian respondeu e colocou a mão sobre o

trinco da porta. Antes que pudesse abrir, parou num solavanco. – opa, espera. É agora. Oficialmente você vai conhecer minha irmã.

Emília arqueou as sobrancelhas.

– Tudo bem. Se ela não matou você, que é o culpado disso

tudo, acho que não vai fazer nada contra mim.

Ian levantou os ombros, indicando que não tinha tanta

certeza. Então abriu a porta, esticando-se para não botar o pé para dentro da casa e dando espaço para Emília entrar primeiro. Iris e Leo os observaram. A garota fez para o colega um gesto indicando que não queria entrar primeiro, um gesto que começou tímido, mas na terceira vez já estava bem claro e até engraçado. Então Ian entrou e Emília o seguiu.

Iris foi inclinando a cabeça enquanto espremia os olhos na

direção de Emília. Leo a observava, alternando entre uma e a outra, esperando alguma reação.

– Eu não acredito – Iris bufou. – Eu não acredito. Eu não

acredito – ela continuou repetindo, incrédula, como se o papa tivesse entrado na sua cozinha para lhe pedir um copo d’água.

Leo olhou Emília de cima a baixo para tentar encontrar o

problema que parecia incomodar iris. Viu o pequeno enchimento oval que a garota havia roubado sob o vestido justo no corpo. De fato parecia uma autêntica barriga de grávida, mesmo que de poucos meses, praticamente idêntica à de iris.

– Hum, essa é a Emília – Ian apontou para a colega, sem

saber o que estava acontecendo com a irmã.

– Eu sei que essa é a Emília – Iris respondeu, e a

compaixão dos minutos anteriores havia sumido. – Quer dizer, agora eu sei que essa é a Emília, porque, quando a encontrei naquela clínica, achei que fosse apenas uma participante louca do Novos Pais – terminou a frase gritando. – não acredito que vocês dois estavam naquele consultório. Vocês têm ideia de quantas pessoas estão envolvendo nisso?

– A gente pode não brigar agora, por favor? – Ian pediu. –

A equipe já deve estar chegando, não quero que essa história pareça mais louca do que já é.

Iris apenas bateu uma palma e balbuciou um “o.k.”, como

se estivesse expulsando energias negativas, e saiu em direção ao quarto para vestir a roupa da colação. Ian, que já estava pronto, separou aquele tempo para expli car ao cunhado sobre a gravação daquela noite.

– Minha mãe vai surtar quando souber, ela adora o Novos Pais – Leo disse, encarando Ian e Emília sentados do outro lado da mesa como em um interrogatório. – Ela fica resmungando durante o programa inteiro, mas não perde um. Aliás, será que a gente não pode começar a falar, despretensiosamente, sobre casinhas de cachorro? Imagina o sucesso que não seria se saísse em um programa desses? – Ele percebeu que ninguém se pronunciou e continuou: – não que eu queira me aproveitar, sei que é uma coisa de vocês, mas… bom, todo mundo está se aproveitando aqui, né?

Ian se virou para a colega com um sorriso tímido. Ela não

retribuiu, desviando o olhar.

 

Iris precisou se cuidar para que o salto não afundasse na parte gramada próxima ao portão da casa. Assim como quando Emília havia entrado, as duas precisaram sair na ponta dos pés, quase como bailarinas.

– Tô me sentindo o Voldemort – Iris disse, referindose à

roupa comprida e escura de formanda.

A equipe de gravação já havia chegado. Catarina até tentou

puxar algum assunto com a irmã de Ian, mas ela respondia de forma direta, sem margem pra conversa. Talvez estivesse apenas sendo precavida.

– O.k., uma câmera vai com vocês para filmar o trajeto –

Catarina apontou para Ian. – nós vamos no outro carro.

Os pais de Leo também iriam à formatura. Ele foi buscá-

los, enquanto iris, Ian e Emília seguiram direto para o salão onde aconteceria a colação.

Após dez minutos de viagem, quando Catarina percebeu

pelo seu tablet que os três realmente não iriam começar nenhuma conversa – intimidados pela câmera no carro –, ela ligou para Ian e o obrigou a puxar um papo com Iris sobre a formatura e seus planos. Ela continuou se esquivando de respostas mais completas, deixando Catarina, que acompanhava tudo do outro carro, irritada.

Quando chegaram ao evento, Iris se esqueceu por alguns

momentos de tudo aquilo. As câmeras os filmavam de longe e se misturavam com as outras que já estavam ali registrando a colação.

Iris se sentou junto aos outros formandos e deu um

tchauzinho de longe quando viu se sentarem, ao lado de Ian e Emília, seu namorado e os pais dele.

O discurso do reitor durou mais do que o previs to. Ele

sempre era o orador, mas não parecia ter um discurso pronto, tamanha a paixão com que falava sobre os formandos e os cursos. Além dos alunos de tecnolo gia em eventos, os de design de interiores também estavam se formando.

– ...e vocês não são apenas organizadores de eventos,

vocês organizam momentos inesquecíveis e tornam sonhos realidade. Vocês serão marcos na vida de cada um de seus clientes. – Ele balançou a cabeça por vários segundos. Ian achou que ele fosse chorar. – Esse é um trabalho que depende de abnegação. As pessoas vão comentar seus erros, mas os seus acertos... Esses vocês verão de longe, enquanto os convidados vivem um momento inesquecível.

Emília riu, tentando não fazer muito barulho. Ian

concordou que o discurso estava ficando engraçado. O rapaz ficou contente pela reação de Emília. Ela parecia distante já fazia um tempo, mas, nas primeiras vezes em que ele perguntou se algo havia acontecido, ela tinha respondido que não. Talvez estivesse apenas pisando em ovos com ele, assim como sua irmã. Elas sabiam como ele se sentia em relação a Caio.

O acidente do menino só não tinha sido fatal porque ele

caíra sobre os galhos das árvores antes de aterrissar num matagal farto. Havia caído de lado, quebrando o braço direito e deslocando o ombro. Um arranhão enorme marcou sua barriga de fora a fora, e vários outros menores se distribuíram pelos seus braços e pela lateral esquerda do rosto.

– Iris Maya Brito – a voz firme do reitor ecoou pelos

alto-falantes minutos depois de o discurso ter chegado ao fim.

Ian sacou o celular e gravou a irmã indo receber o canudo.

Ele sentiu um frio na barriga enquanto a irmã cruzava o palco com um sorriso de mostrar a gengiva. Naquele momento, teve a sensação de que tudo ficaria bem.

Emília se distraiu com uma mensagem recebida no celular

e perdeu o momento de Iris no palco.

“Emília, você tem que fazer isso hoje”, Gael escrevera.

“Você não está fazendo uma escolha entre ficar ou não com o dinheiro, e sim com quem você vai ficar.”

“Você não quer mais ficar comigo se eu não aceitar, é

isso?”, Emília respondeu.

A mensagem de volta demorou para chegar. “Você está tentando colocar a culpa em mim? E quanto ao

que você está fazendo comigo?”

Emília não respondeu. Que namorado aceitaria estar num

relacionamento com uma garota que está “grávida” de outro num programa que o país inteiro vai assistir?

Ian havia conseguido as entradas para Rebeca, mesmo sem

entender a repentina amizade entre as duas. Emília chegara à conclusão de que precisava se decidir naquele dia. A única forma de tirar a atenção do que Rebeca tinha para falar era criando um problema ainda maior.

É, Emília decidiu, eu vou fazer isso. Ela se levantou para seguir Ian assim que percebeu que o

rapaz não estava mais ao seu lado.

– Parabéns – ele disse, abraçando a irmã, numa voz

embargada. Iris já havia borrado toda a maquiagem.

Leo foi em seguida e a beijou. Seus pais também deram

um abraço na moça. Catarina e Emília a parabenizaram com um aceno. As duas estavam uma ao lado da outra, um pouco mais distantes dos outros.

– Acho que a gente vai ter que refazer a maquiagem

também – sarah chegou e abraçou a amiga. Ela morava em uma cidade a três horas dali, por isso seu vestido havia ficado na casa de iris.

– A gente precisa se trocar agora – Iris apontou para a

colega com a cabeça. – Alguém vem com a gente?

– Hum... – Catarina murmurou. – Acho melhor eu e vocês

dois – apontou para Ian e Emília – já irmos, porque a Rebeca está a caminho.

– A gente pode esperar todos juntos, não pode? – Emília

disse, querendo prolongar a situação. – Elas não vão demorar tanto assim para trocar de vestido.

– Mas é longe, meu anjo – a produtora disse. Emília

odiava quando Catarina falava daquele jeito. Geralmente o argumento era precedido por uma piscada de olho lenta e esnobe. – Eu só preciso fazer as imagens de vocês se divertindo e conversando, e a gravação acaba. Vocês podem ficar o tempo que quiserem por lá depois disso.

Emília já estava se acostumando com os procedimentos

das gravações. Enquanto gravavam, eles eram instruídos a conversar o máximo possível. Catarina em algum momento interviria, dizendo que já tinha o queria, e pediria a eles que dançassem como se estivessem se divertindo muito. Depois, ela convidaria as meni nas a ir ao banheiro juntas e diria para conversarem sobre alguma coisa que estava acontecendo na festa. “o público adora sentir como se soubesse de um segredo”, ela dizia.

– Tá tudo bem, vocês podem ir antes e aproveitar a festa –

Iris disse a todos. – A gente não vai demorar nem trinta minutos. Talvez quarenta – Iris apontou para a maquiagem borrada. – Vocês vão pra festa, dona Rose?

– Perguntou para a sogra.

– É claro que vamos. Você acha que a gente é velho demais

pra ir a uma festa?

– Claro que não – Iris disse, sorrindo. Conhecia a língua

afiada da sogra: tão diferente do filho! Ele herdara dela apenas os cabelos negros, o nariz quadrado e... o cavanhaque. – Que ótimo que vocês vão. Você pode levá-los direto pra lá, amor, por favor. Eu e a sarah vamos nos trocar e já vamos.

– Ótimo! – Catarina se voltou para a porta. – Vamos? A produtora, a equipe técnica e Emília foram para a saída.

Ian deu mais um abraço na irmã, desta vez mais apertado e demorado.

 

As câmeras já estavam rodando quando Emília e Ian desceram do carro. Rebeca e Arthur os esperavam na fachada da casa de festas, já cheia com os convidados. Era possível ouvir uma batida de funk abafada pelo lado de fora.

– Oi, amiga – Rebeca disse de uma forma morbidamente

convincente antes de encostar seu rosto no de Emília, em um abraço suspeito.

Emília não tinha entendido até ela começar a forçar a

barra, passando a mão sobre a barriga e dizendo que ela era a pessoa em quem mais confiava. Rebeca queria que o beijo armado de Emília em seu namorado parecesse ainda mais cruel.

Sem aguentar mais aquele papo, a garota se virou para

Catarina, que começou a cochichar para que as duas falassem sobre formatura. Rebeca também percebeu e começou:

– Não é ótimo que a sua irmã esteja se formando? –

Rebeca disse para Ian, e então olhou para o céu escuro. – Pena que Emília e eu vamos ter de adiar esse sonho.

Emília revirou os olhos.

– É só uma questão de tempo – Emília disse. – não é como

se nós nunca mais tivéssemos a chance de nos formarmos.

– Você vai ter coragem de deixar o seu filho – Rebeca deu

ênfase – nas mãos de outra pessoa enquanto você estuda?

Emília lançou um olhar fulminante à garota e respirou

fundo antes de responder.

– Se for melhor para nós dois, sim. Quero ensinar à

criança alguns princípios. É importante. Ter princípios – ela lançou as palavras como se fossem flechas certeiras na direção de Rebeca.

A conversa seguiu por mais alguns minutos, quando a

produtora liberou Rebeca, Arthur e Emília para entrarem na festa, enquanto ela pegava o depoimento de Ian sobre a formatura da irmã.

O rapaz foi guiado até o portão de entrada, onde a câmera

conseguia pegar toda a fachada do salão de fundo. Emília os seguiu, recusando-se a ficar junto de Rebeca.

O rapaz respondeu às perguntas de Catarina empolgado,

mostrando-se genuinamente feliz com a conquista da irmã.

– Ótimo, corta! Vamos entrar – Catarina anunciou. –

Agora eu quero ver se vocês sabem dançar.

O coração de Emília bateu um pouco mais forte. A

produtora faria mais algumas imagens da dança e de conversas e depois iria embora com a equipe. O que significava que estava chegando a hora de revelar para Catarina a “verdadeira” paternidade de seu filho. Não seria mais fácil depois de ouvir o discurso exultante de Ian.

Assim que entraram, Ian levou um susto com a foto

enorme de Iris ainda bebê projetada em uma parede branca no canto. Olhou ao redor para ver se encontrava a irmã, que naquele momento já deveria ter chegado. Sabia que eles tinham uma mesa reservada em algum lugar daquele salão, talvez devesse procurá-la por lá.

– Atenção, formandos – o vocalista da banca que tocava

anunciou –, daqui a pouco quero todo mundo aqui no centro para a foto em grupo.

Ian tocou no ombro de Catarina, que tentava encontrar

Rebeca no pilar esquerdo, logo no início do salão, onde haviam combinado se encontrar.

– Você se importa se eu for dar uma olhada em qual mesa

minha irmã está? – ele perguntou.

– Não, tudo bem – ela fez um sinal de joia com os dedos,

caso ele não conseguisse escutá-la com a música alta. – Mas não demora muito que vamos gravar só mais um pouco.

Ian concordou e foi de mesa em mesa procurando algum

rosto conhecido. Três mesas depois da cabine de fotos, encontrou Leo e seus pais. O cunhado também pareceu aliviado ao vê-lo.

– A Iris não chegou ainda? – Ian perguntou. – Eu ia perguntar o mesmo pra você – Leo disse,

levantando-se da cadeira. – Eu tentei ligar, mas é provável que ela tenha deixado a bolsa no carro quando entrou pra se trocar. Eles estão chamando para a foto em conjunto, será que a gente deveria ir buscá-la? Posso pedir para eles segurarem a foto por alguns minutos.

– Acho que é melhor – Ian concordou.

Ele pensou em falar com a família de sarah, mas não

lembraria quem eram. Havia visto eles por um breve momento durante a colação e não os reconheceria – ainda mais no escuro. Na rua, ele tentou ligar para a irmã mais algumas vezes, mas não obteve sucesso. Eles não tinham um telefone residencial, então ir até a casa era a única solução. Talvez ela tivesse tido algum problema com o carro.

 

Emília se sentou na primeira cadeira que encontrou, cansada de esperar pela volta de Ian, longe de Rebeca. Verificou o celular e encontrou mais uma mensagem do namorado.

“Essa é minha última mensagem”, dizia, “se você parar

para pensar em todos os prós e contras, vai ver, assim como eu vejo, que entrarmos nessa juntos é a melhor solução e a mais segura para você.”

Emília não respondeu mais uma vez. Travou o celular e

olhou ao redor, procurando por Ian. Ele havia sumido fazia vinte minutos sem avisá-la. Catarina conversava com a equipe num canto. Já ela estava sozinha e começando a ficar com raiva do sumiço do rapaz.

Do outro lado da pista, Rebeca esperava ao lado de

Catarina.

– Por quanto tempo mais você vai ficar aqui mesmo? –

Rebeca perguntou à produtora.

– No máximo... – consultou seu relógio de pulso – mais

uma hora.

A garota saiu decidida, deixando Arthur perdido ao lado

da mulher. Rebeca estava observando Emília de longe e se dirigiu a ela.

– Você vai ou não fazer o que eu mandei? – disse. Emília sentiu que seu tempo tinha chegado ao fim. – Eu não vou fazer isso – disse, levantando-se. – Você vai

sair como a coitadinha da temporada, mas e eu? Acha mesmo que eu faria isso?

– Então você não vai fazer? – ela perguntou, com a

expressão travada. As pálpebras mais baixas que o normal, como se aquilo não lhe interessasse, o que não passava de uma expressão para se sentir mais intimidadora. Emília não disse nada, e Rebeca insistiu: – Me diz que você não vai fazer o que mandei.

Emília a encarou por alguns instantes. As luzes frenéticas

passavam pelo rosto de Rebeca, dando um tom ainda mais dramático à situação.

– Não, não vou beijar seu namorado para você se fazer de

coitada – Emília soltou.

Rebeca esperou Emília terminar a frase. Concordou com a

cabeça, ajeitou o cabelo com uma das mãos e girou o corpo na direção de Catarina. Assim que chegou ao lado da mulher novamente, ordenou:

– Ligue as câmeras.

Aquela sim era a verdadeira Rebeca. Catarina acatou e as

câmeras passaram a apontar pra garota em menos de um minuto. Aquilo não acontecia com tanta frequência, mas, pela experiência da produtora das outras temporadas, quando alguém pedia para ligar as câmeras era porque vinha bomba.

– Elas estão rodando – Catarina disse, enquanto saía de

quadro, ao mesmo tempo em que Emília chegava mais perto.

– Não, você deve ficar, Catarina – Rebeca segurou no

braço da produtora. Com a outra mão, apontou para Emília. – Essa aqui e o Ian estão mentindo. Emília não está grávida.

Catarina franziu o cenho e olhou para Emília. A garota

esperou que ela dissesse algo, mas Catarina esperava o mesmo. A produtora analisou Rebeca, que encarava a outra participante com ódio.

– Que diabos tá acontecendo? – Catarina perguntou. Emília repuxou o rosto, com uma cara de nojo. – Como você joga baixo, Rebeca! – Emília disse,

sentindo-se dentro de uma novela mexicana, enquanto simulava estar completamente ofendida. – Esse bebê... É o fruto de um grande amor – ela verificou se as câmeras estavam pegando sua fala. – Mesmo que... ele não seja do Ian.

Emília abaixou a cabeça e tapou os olhos, fingindo

espasmos com os ombros, como se estivesse chorando.

Catarina abriu a boca em choque e permaneceu assim por

alguns segundos. Repassou o que Emília havia dito em sua cabeça para ter certeza de que não escutara errado com o barulho alto da banda.

Catarina foi para perto de Emília, fazendo sinal para que a

câmera a acompanhasse. Colocou a mão sobre o ombro da garota e o acariciou.

– Você ouviu o que eu disse? – Rebeca gritou. – Ela não

está grávida! não tem bebê nenhum!

– Rápido – Catarina ordenou aos cinegrafistas, ignorando

Rebeca. – Montem os equipamentos para gravarmos um depoimento lá fora.

Eles foram na frente, abrindo passagem, enquanto

Catarina guiava Emília ainda de cabeça baixa.

Rebeca quase nunca se relacionava com as outras

participantes e suas conversas acabavam saindo forçadas por causa de sua falta de empatia. Catarina certamente já sabia que ela não seria grande destaque quando o programa estreasse, então era a Emília que deveria dar mais atenção.

– Quem é o pai dessa criança, então? – a produtora

perguntou, não se aguentando de curiosidade.

– O Gael – Emília respondeu com uma voz manhosa. Catarina colocou a mão sobre o peito ainda mais assustada

quando lembrou quem era Gael – o rapaz que havia feito um escândalo no dia do nascimento dos filhos de Rosa. Precisou se controlar para não sorrir, mas aquela era a melhor história que já acontecera no programa desde os gêmeos de dois pais diferentes.

 

Ian e Leo precisaram dar uma volta enorme porque a ponte estava interditada. Provavelmente Iris tinha demorado a chegar em casa porque não sabia do caminho alternativo mais curto. Estavam a poucas quadras de casa quando Ian decidiu conversar com o cunhado, aproveitando que estavam sozinhos.

– Leo, quando você e a minha irmã se casarem... –

perguntou, cauteloso. – Você sabe que eu vou morar com vocês, né?

– É claro que sei – ele desviou o olhar da rua

rapidamente, rindo para Ian. – Eu sei que você é parte do pacote, e não tenho intenção de mudar isso.

– Ah, legal. Só estou dizendo porque ela ainda não tem

filhos, exceto o de vocês, mas bem, eu vou junto.

Leo riu e balançou a cabeça.

– Acho que já passei do tempo de querer pular fora dessa,

você não vai ser um problema. Agora, preciso da sua ajuda para uma coisa: queria fazer um pedido de casamento diferente, sabe? – Leo parou por um momento para prestar atenção na manobra do carro ao estacionar. – Tipo colocar uma aliança dentro de um bolo, cantar uma música, alguma coisa assim.

– Eu não sei – Ian disse, distraído com uma viatura da

polícia estacionada em frente à casa do vizinho. Eles tinham se mudado havia mais ou menos um ano e ninguém sabia muita coisa sobre aquela família. – Eu acho que talvez você possa fazer algo significativo como colocar ela dentro de um balão. A aliança, eu digo. Daí, quando o balão estourar e a Iris a vir, você diz que, mesmo quando tudo parecer se acabar, como aconteceu com o balão, você ainda vai estar lá.

– Caramba... Você já planejou pedir alguém em casamento

para ter esse ideia tão boa? – Leo brincou, descendo do carro.

Ian riu e, assim que saltou do automóvel, meteu a chave

na fechadura, apressado. Antes de entrar, virou o corpo e viu os dois policiais que conversavam com o vizinho vindo em sua direção.

Sentindo um jato de bile em seu estômago, largou a chave

onde estava. O rosto de repente ficou quente, e ele conseguia sentir o coração batendo pela veia saltada na têmpora.

Ian olhou pra casa tentando enxergar alguma luz acesa. O

carro de Emília não estava na rua onde deveria estar naquele momento, mas ela poderia já ter saído depois de se arrumar. Talvez o policial estivesse ali porque ela tinha levado uma multa de trânsito. Tem que ser isso.

Nos segundos em que eles se aproximavam, Ian tentou

criar todo tipo de explicação para si mesmo.

– Vocês são parentes de Iris Brito? – um dos policiais que segurava uma folha nas mãos disse.

– O que aconteceu com ela? – Leo perguntou. Ian não

conseguia falar nada.

– Ela sofreu um acidente – o policial disse. Leo começou a balbuciar várias frases desconexas. Falou

da noiva, do bebê, da ponte.

– Ela tá bem? – foi o que Ian conseguiu falar. A cada

segundo sentia o coração batendo mais forte. – Ela está bem? Onde que ela tá?

A voz do garoto estava mole e ele precisou piscar os olhos

que estavam cheios de água para desembaçar a visão. Um fio de lágrima escorreu por seu rosto assustado.

– Vocês podem vir conosco na viatura – o outro policial

os convidou, sem dar muitos detalhes.