Azeitona
Capitulo 13
13.
– Ian… O que foi isso? – Iris disse, piscando os olhos lentamente no meio da frase. Parecia estar prestes a ter um ataque de nervos. Os dois estavam dentro do carro, no estacionamento do condomínio de Estela.
O rapaz não sabia o que falar. Será que já era hora de
contar a ela? Ian começou a analisar suas alternativas: a) se ele contasse que não sabia do que Estela estava falando, ela iria ligar para a mulher para entender melhor; b) se ele dissesse que realmente tinha engravidado uma garota, aí sim ela teria um ataque; c) se ele corresse e se escondesse em algum lugar no condomínio, teria mais algumas horas para bolar algum plano.
Seu plano era contar após a formatura da irmã, mas, no
fundo, ele sabia qual era sua única opção naque le momento.
– Tá, vou contar toda a verdade – Ian disse. Iris abriu a
boca, parecia ainda mais sério do que ela imaginava. – Vamos conversar em casa, mas não é nada muito grave. Só fica calma. Não é nada. É uma brincadeira nossa.
Ian tinha ouvido falar que não era bom que grávidas
passassem por estresse. Tentou tranquilizá-la para que ela pudesse dirigir sem se preocupar até os dois chegarem seguros em casa.
É melhor que seja uma brincadeira – Iris estava séria. Ian percebeu que Iris tremia enquanto colocava a chave na
ignição. Durante o caminho, tentou puxar assunto sobre o evento que Iris organizava para Estela, pensando que talvez assim pudesse diminuir a importância de seu segredo. A verdade era que nem ele estava conseguindo se concentrar direito. Ele temia que, se contasse para ela naquele momento, sua reação fosse ainda pior.
Os dois já estavam mais calmos quando chegaram em
casa, mas Iris estava longe de ter esquecido. Assim que entraram, ela apoiou sua bolsa na mesa e perguntou:
– O que foi aquilo que a Estela disse de você também estar
esperando um bebê? – seus olhos estavam vidrados nos de Ian.
Ele apoiou os braços cruzados nas costas de uma das
cadeiras.
– O que ela falou, sobre eu ser pai também… é
complicado. Bom, é mentira. – Ian balançou as duas mãos, negando. – Eu não vou ser pai, mas…
– Ian, fala de uma vez. Eu tô grávida – Iris sabia usar os
artifícios que tinha.
– Sabe o programa Novos Pais? Eu meio que fui convidado
para participar dele e, sem querer, coloquei uma colega da minha sala junto e… ela aceitou.
Iris ficou paralisada por alguns segundos, sem entender o
que tinha acabado de ouvir.
– Ahn?! Tá, mas por que você iria participar disso? – ela
balançou a mão no ar. – Essa menina tá grávida? – Não! Ela não está grávida. – Ian respirou fundo e tentou parecer mais calmo e confiante. – Eles pagam um cachê enorme, isso iria ajudar muito a gente.
– Mas você não foi idiota de querer aceitar isso, né? – Iris
suspirou, parecendo até aliviada.
– Iris, a gente precisa do dinheiro – ele justificou. O rapaz se sentou e começou a girar a fruteira em cima da
mesa, quase deixando tudo cair em vários momentos. Iris preferiu continuar de pé.
– O quê?! – A voz da irmã estava alterada. – Você quer
mentir num programa de TV pro país inteiro por que precisa de dinheiro? Você passa fome, Ian? – A esse ponto Iris já gritava. Sua voz tremeu e falhou na última frase, e Ian viu que ela estava prestes a chorar.
– Não, e sei que foi por causa de você que isso nunca
aconteceu. – Ian colocou uma mão no braço de iris, tentando fazer um carinho que pudesse aju dar a contornar a situação, mas ela rejeitou o gesto. Vendo que ela não iria se sentar, ele voltou a ficar de pé. – Participar desse programa só vai ajudar a nossa família. Você vai ganhar um filho agora, se casar… a gente pode aumentar a sua equipe! – Ian começou a se empolgar. – Você não disse que agora, depois do evento da Estela, pode conseguir outros grandes? A gente pode fazer isso junto!
– Eu não quero que você faça esse tipo de coisa e coloque a
culpa em mim, Ian! Eu não preciso disso, eu me programei pra isso, lutei sozinha até hoje e…
– Exatamente! – Ian a interrompeu e ajeitou o cabelo,
enquanto respirava fundo mais uma vez. – Você precisa me deixar ajudar você! Caramba, não acha que me sinto mal por ter sido o responsável por você largar a carreira, largar tudo, porque precisava criar o seu irmão mais novo?
Ian estava tremendo, mas não sentiu vontade de chorar.
Estava apenas com raiva de tudo o que havia acontecido com sua mãe, raiva do seu pai e raiva do peso que ele era e de sua impotência diante de todos os problemas pelos quais os dois passaram quando ele era pequeno.
A dona da casa em que eles moravam tinha sido uma peça
importante para que eles não passassem fome nos primeiros meses. Ela deixou que eles continuassem morando ali sem pagar nada por oito meses, até Iris conseguir um emprego que pagasse mais.
Ian precisou aprender a ficar sozinho em casa nos fins de
semana, quando ela trabalhava nos eventos, primeiro como garçonete – até assumir a parte de recepção de convidados e, por fim, a decoração.
– Olha, iris, entendo tudo o que você fez por mim, mas
participar desse programa e receber esse dinheiro não vai prejudicar ninguém! – Ian gesticulou como se tivesse implorando por um favor. – imagina que é tipo um trabalho.
– Você acha que não vai prejudicar ninguém? Vai
prejudicar a pessoa mais importante pra mim. – Iris estava com a voz mais calma. Passou a mão nos olhos para secá-los. – Você, Ian.
Iris tentou segurar o choro, mas não conseguiu. Seu irmão se aproximou e a abraçou.
– Não… não… não vai acontecer nada. Você tem que confiar
em mim, eu preciso tomar as minhas decisões. – Ele a afastou, segurando seus ombros, e olhou em seus olhos. – Você precisa deixar eu tomar as minhas decisões.
Iris explodiu em um choro ainda mais forte. – Exatamente, cara! isso é uma loucura! Eu criei você,
queria que você visse que isso é uma loucura! Uma loucura! – Ian viu que a irmã parecia um pouco descontrolada, o que o deixou com um pouco de medo. Nunca a havia visto daquela forma. Talvez sejam os hormônios, pensou. Iris recuperou o fôlego. – seus colegas vão ver isso, as pessoas vão lembrar pra sempre, isso não é uma coisa simples. Não é!
– Eu posso contar para os conhecidos que a minha
namorada está cuidando do bebê sozinha.
– Que exemplo de homem – ela disse. – Meus parabéns! – Ou posso dizer que é tudo mentira, as pessoas não
acreditam mais no que passa na TV. Posso dizer que aquilo foi tudo roteirizado.
Iris respirou fundo, colocou as duas mãos sobre o rosto e
caminhou até o sofá arrastando os pés. Escorou a cabeça no encosto, olhando para o teto.
– Eu preciso de um crédito, iris. – Ele a seguiu. – nunca
fugi das suas regras, nunca fiz nada de errado. – Ian parou e se corrigiu: – De muito errado. É um trabalho, só isso.
– O que você quer que eu faça?
Ian não entendeu a pergunta. Será que ela já tinha aceitado
assim tão fácil?
– Nada – ele respondeu. – Pode ser que eles queiram que
você apareça. Para mostrar o nosso dia a dia. Nada demais. Só acho melhor eles não saberem que você está grávida, porque… o meu sobrinho pode nos ajudar.
Iris virou o corpo todo para Ian num pulo. – Você quer meter o meu filho nessa também? – Ela balançou a cabeça, decepcionada. Ian odiava quando ela fazia aquilo. – Eu não acredito nisso. Tá bom, você sempre foi responsável. Mas de repente isso? Uma coisa que vai meter um monte de gente na nossa vida, que o país inteiro vai ver! não sabia que você estava acumulando os problemas que nunca me deu durante todos esses anos.
– Acho que você está fazendo tempestade em copo d’água.
Muitos desses participantes de reality shows desaparecem. Ninguém lembra! Eles aproveitam o que podem e depois voltam pra suas vidas, é simples!
Iris estava parada de frente para Ian.
– Eu nunca vou compactuar com isso – Iris disse com a
voz trêmula. – nunca vou apoiar. Sabe por quê? Porque eu me importo com você e sei que isso tudo pode dar muito errado, Ian!
Ele sentiu um aperto na garganta pela primeira vez em
muito tempo. Notou que estava prestes a chorar. Ainda faltavam dois anos para que ele fosse maior de idade e respondesse por si, portanto a irmã, que tinha sua guarda, era quem mandava em sua vida, ele querendo ou não.
– Eu não acredito que você vai fazer isso – Ian disse, mal
abrindo a boca.
– Você não pode fazer isso sem mim, né? Quero dizer,
você é menor de idade. Você precisa de uma assinatura – Ian permaneceu em silêncio, Iris percebeu que havia algo estranho. Então perguntou: – Você já fez alguma coisa sem a minha permissão?
Ian engoliu em seco.
– Já faz um mês – ele disse.
Iris pôs a mão sobre os olhos e abaixou a cabeça
lentamente, com os cabelos escorrendo pelos ombros enquanto curvava o pescoço.
– Eu tive que assinar no seu lugar.
– Você falsificou a minha assinatura? – Iris gritou,
pulando da posição em que estava. – Vai se ferrar, Ian. Vai se ferrar. Você disse que queria fazer alguma coisa por mim. Então você poderia ser uma pessoa decente, como eu te ensinei. Eu acho que te ensinei. Você me deixaria muito mais feliz.
Iris encarou o irmão por alguns segundos, mas ele não
conseguiu olhar nos olhos dela. Para não causar mais problemas, decidiu acabar a discussão.
– Então – Ian perguntou –, o que eu faço? – Você tem quase dezessete anos. A esta altura, já deveria
saber o que é melhor pra você. – Iris parou por um momento enquanto olhava para o chão. – Preciso de um tempo maior pra saber o que acho disso tudo. Sei que você não está fazendo isso por mal, Ian – terminou a frase num suspiro. – Tenho que pensar em tudo o que pode acontecer com você se essa história maluca der errado, porque isso pode acabar com a sua vida. As pessoas amam ver os outros se ferrando na TV, amam arruinar a vida dos outros na internet, como se os problemas dos outros fossem apenas entretenimento. Se algo der errado, elas vão acabar com a sua vida sem ter nem ideia do que estão fazendo. Você entende?
– Já pensei em tudo isso. Eu não sou burro, iris. Sei o que
é melhor pra mim, só preciso que você acredite nisso. Você me ensinou coisas boas: ser honesto, não prejudicar ninguém. Sei que estou mentindo pra mui ta gente, mas não significa que esse dinheiro não seja honesto. – Iris balançou a cabeça, parecendo não concordar com o irmão. – Poxa, é um programa de TV, todo mundo ali está fingindo ser alguma coisa que não é! não é um julgamento de assassinato numa corte.
– Que bom que o crime por enquanto seja falsidade
ideológica e não assassinato.
Ian esperou ela dar a palavra final.
– Então, você deixa eu participar? – Eu nunca vou apoiar isso. – o coração de Ian disparou. –
Me sentiria horrível se acontecesse alguma coisa com você, me sentiria em dívida com a mãe. Mas você já é grande. – Ela respirou fundo e ficou calada por quase um minuto. – Vou deixar você fazer sua própria escolha. Afinal, é melhor que eu esteja aqui pra ajudar caso algo de muito errado aconteça.