Azeitona
Capitulo 22
22.
O prédio da emissora que exibia o Novos Pais tinha um andar dedicado apenas à produção de reality shows. Talvez fosse o andar mais caótico – um espaço amplo com mesas compartilhadas por algo em torno de vinte e cinco pessoas. Havia duas salas de reuniões com paredes de vidro e mesas enormes, que, junto com as cadeiras estofadas, eram os únicos móveis da sala.
Enquanto seguia a recepcionista apressada ao lado de Ian,
Emília observava as portas dispostas ao redor da área de mesas compartilhadas, cada uma com o nome de um programa. Uma delas era do reality de um cantor famoso, que a fez virar o pescoço como em uma cena d’O Exorcista. Por um momento ficou empolgada com a possibilidade de conhecê-lo, mas era improvável que ele estivesse de fato atrás daquela porta. Aqueles eram os escritórios particulares dos showrunners – os produtores responsáveis, como Catarina era, por comandar cada um daqueles programas.
Ian também parecia curioso, observando os funcionários
atendendo telefones e escrevendo, com fones de ouvido nas orelhas para evitar distrações. Os dois não poderiam perder a recepcionista de vista ou nunca mais se encontrariam por ali. Ela não olhava para trás enquanto caminhava.
– Aqui está – a mulher bateu na porta com força, seus
cabelos curtos e lisos balançaram. – A Catarina sabe que vocês estão aqui. Caso ela demore muito, vocês podem se sentar – apontou para um banco minimalista de madeira encostado na parede.
Ian agradeceu, e a mulher saiu tão rapidamente quanto
tinha chegado.
– Pode entrar – a voz abafada de Catarina veio de dentro
da sala, menos de um minuto depois.
Os dois colegas ficaram em dúvida se tinham ouvido
direito por causa do barulho do escritório. Ian, que es tava mais próximo da porta, decidiu entrar, mas deu três batidinhas enquanto o fazia para garantir.
A produtora digitava em um notebook quando eles se
aproximaram de sua mesa com cautela. O escritório dela era iluminado por uma grande janela de vidro, que ia da metade da parede até o teto de um lado a outro da sala. Ao lado da mesa havia uma estante com algumas pastas de arquivos e, na outra parede, um quadro branco enorme com anotações e post-its grudados.
Ela parou de digitar e levantou a cabeça em direção aos
dois. Ian sentiu como se aquilo tivesse acontecido em câmera lenta, mas talvez tivesse sido apenas o medo do que poderia acontecer aos dois naquela reunião. Era a primeira vez que se viam desde que a gravidez falsa de Emília havia sido revelada.
Catarina havia ligado três vezes para os dois na semana
que sucedera a revelação. Eles contaram todos os detalhes. Não havia mais segredos entre os dois e a produtora. O convite – que soou mais como uma ordem – para que os dois fossem até o prédio da emissora aconteceu sem muitos detalhes. Ian e Emília imaginavam que saberiam as consequências que sofreriam naquela manhã. A sensação não era das melhores.
– Quando ouvi que você não estava grávida – Catarina
disse, juntando as mãos no ar com os cotovelos apoiados na mesa –, eu quis te matar. Eu juro! Minha carreira poderia acabar – ela se levantou da mesa e foi para o lado contrário da sala, obrigando os dois a virarem suas cadeiras giratórias. A coisa parecia estar ficando séria. – Como que eu poderia deixar passar uma participante que não estava grávida depois quatro temporadas? Até o Rômulo mentiu pra mim.
Emília franziu o cenho, tentando entender a quem ela se
referia. Então se recordou do médico que a havia atendido.
– Ah, o dr. Rômulo? Ele... não contou nada para você? –
Emília perguntou, quebrando o monólogo de Catarina.
A produtora riu.
– Ele contou até pra você que sabia que você não estava grávida? – a produtora passou a mão pelo cabelo num gesto rápido para ajeitá-lo, mas apenas fez com que alguns fios ficassem fora do lugar. – A primeira pessoa com quem fui conversar quando descobri foi com ele. Aquele desgraçado!
Ian e Emília trocaram um olhar surpreso. – Ele vai manter o patrocínio? – Ian perguntou. – Eu me
lembro de você falando sobre isso quando fomos ao consultório. Ele ficou bravo?
– O mínimo que ele tem de fazer é continuar patrocinando
esse programa. E se eu fiquei brava com ele? Fiquei. Como vocês já sabem – ela verificou se o sofá do canto do escritório estava atrás de si, e se lançou contra o estofado –, quase perdi tudo o que conquistei na minha carreira e, por causa de vocês, o nosso namoro acabou também.
– Você namora o dr. Rômulo? – Emília perguntou. – Namorava. E ele não me disse nada só para conseguir
ferrar com o outro médico – ela balançou a cabeça enquanto retirava o casaco. – Todos nós temos nossas prioridades, e a dele era essa. É bom que ele fique feliz com a clínica bem-sucedida dele sozinho.
Ian arregalou os olhos. Ela falava como se estivesse bem
com tudo aquilo, mesmo que fizesse apenas uma semana. É assim que pessoas maduras se comportam ou ela já planejou uma vingança terrível, Ian pensou.
– Me desculpe – Ian disse –, não pensei que isso
prejudicaria você.
– É difícil nunca prejudicar ninguém. Para realizar os seus
planos, os de alguém deixam de acontecer, mas... sempre que puder, você precisa tentar minimizar os danos – Catarina falou, como se recordasse seus próprios problemas.
A mulher voltou a se sentar em sua cadeira, inquieta. – Por causa do que vocês fizeram, precisei fazer uma
reunião com os executivos. Vocês têm noção do que é isso? – Catarina disse, apontando o dedo indicador para a própria cabeça. – Eu quase me caguei. Depois, eles precisaram fazer uma reunião com os anunciantes, e novamente eu me caguei, e os executivos também se cagaram.
Enquanto ela falava, Ian começou a imaginar a cena dos
executivos da emissora, que lidavam com milhões de reais de investimentos, desesperados por causa dele, que na vida só chegara a ganhar, de Estela, um salário que não pagaria nem um par de meias de um daqueles engravatados. Naquele momento ele já havia entendido a magnitude do problema.
– O que vocês decidiram? – Ian perguntou, com medo. Tanto Ian quanto Emília haviam lido tanto suas cópias do
contrato nos últimos dias que praticamente poderiam recitá-los de olhos fechados. Não havia nada sobre mentir – provavelmente Catarina pediria que essa cláusula fosse adicionada no futuro –, mas o descumprimento das regras resultaria em uma multa de 50% do valor do cachê, mesmo as imagens sendo usadas normalmente. Eles também poderiam ser processados por falsificar assinaturas e por causar prejuízos à emissora. Portanto, se saíssem daquela situação sem receber nada, mas sem um processo, já era de bom tamanho. Porém os dois não acreditavam que aquilo pudesse acontecer.
Catarina relaxou as costas sobre a cadeira estofada e
colocou as mãos no encosto, analisando a expressão dos dois. Parecia estar aproveitando aquele momento, como se se alimentasse de ansiedade e nervosismo.
– Nós pensamos em manter vocês no programa e, com
apoio dos patrocinadores, acobertar a sua mentira, mas... quem poderia garantir que vocês manteriam segredo se recebessem milhões de outra emissora para revelar esse segredo e acabar com a reputação desse programa e dos anunciantes?
– Por que vocês levaram essa história para os
anunciantes, então? – Emília rebateu. – não era melhor resolver isso entre vocês?
– Porque vocês eram a minha aposta para essa edição,
caramba! – Catarina se alterou. – E você apareceu na chamada que fizemos na TV, e vocês foram um dos casais que apareceram no preview desta temporada, que mostramos para todos os patrocinadores! – ela disse, sem parar para tomar fôlego. – simplesmente por isso. Não poderíamos simplesmente sumir com vocês de repente.
– A gente ferrou com os patrocínios do programa? – Ian
perguntou. Aparentemente ele era a pessoa menos exaltada daquela sala, mesmo estando longe de estar calmo.
Catarina passou o dedo por dentro da gola da camisa de
algodão, parecendo agoniada.
– A segunda opção, e a mais óbvia, era apenas explicar o
que aconteceu aos anunciantes e avisá-los de que iríamos retirá-los do programa – ela disse. Ian e Emília não esboçaram nenhuma reação, sabiam que, dos males, aquele seria o menor. – Mas os anunciantes protestaram. Quando você trabalha com publicidade, precisa estar preparado para todo tipo de loucura – Catarina disse, aproximando-se mais dos dois, curvando-se por cima da mesa. – o que aconteceu é que eles amaram a ideia de ter uma menina que não esteja grávida participando do programa.
Emília e Ian ficaram sem reação por alguns segundos. Em
partes porque a expressão de Catarina não entregava se ela estava feliz ou não com aquela situação.
– Isso é... ótimo, não é? – Emília disse para si mesma,
enquanto trocava um olhar de cumplicidade com Ian, esperando que Catarina respondesse.
– Nós vamos fingir que essa ideia foi da produção o
tempo todo e que você e Ian são apenas atores – a produtora disse, parecendo estar entediada. – “Fizemos” isso pra vocês contarem depois como é conviver com outros adolescentes que estão esperando filhos.
– Nós vamos receber o dinheiro, então? – Emília
perguntou.
– Sim – Catarina respondeu num suspiro –, o contrato
permanece o mesmo.
– E quanto ao Gael?
Catarina estreitou os olhos como um felino pronto para
pular por cima da mesa e atacar Emília.
– Você, por favor, não cite o nome desse seu namorado no
programa. Eu nem o coloquei em jogo durante aquela reunião. Inclusive, deletei todos os arquivos em que ele aparece – ela disse entredentes. Então falou pra si mesma: – o que não era necessário ter feito, mas eu estava brava. – levantou a cabeça, ajeitando os cabelos.
– E, além do mais, eu nem conseguiria explicar a eles a
bagunça que vocês fizeram com o meu programa.
Ian não fez pergunta alguma, apenas observou a conversa
entre as duas. Não tinha a menor vontade de continuar no programa com Emília, mas não poderia negar que as coisas acontecendo daquela forma eram melhores do que ele jamais pudera imaginar.
Mesmo a garota estando todos os dias com ele no
hospital, enquanto acompanhava a irmã, eles mal conversavam. Ela não confiou nele, mas era nesse momento que estava se mostrando uma grande companheira. E Ian não poderia negar, só a presença de Emília era de alguma forma agradável.
Emília tinha um olho em seu pão de queijo e outro nas mesas ao redor da sua no café do prédio da emissora. As chances de encontrar algum famoso naquele local eram as segundas maiores do país – ficando logo atrás da sala de embarque da ponte aérea.
– Agora que o nosso trabalho vai incluir dar depoimentos
– ela disse para Ian, que a acompanhava tomando um café –, dizendo o que pensamos de cada participante, posso acabar com a Rebeca… mas eu não vou, claro, porque sou uma boa pessoa. Mas as coisas acabaram se desenrolando muito bem, não é? Lembra quando a gente conversava, lá no começo dessa loucura toda, sem fazer a menor ideia do que ia acontecer?
O rapaz a encarou, recapitulando rapidamente tudo o que
havia acontecido nos últimos meses. Por mais que as coisas tivessem acabado bem, a última semana havia sido a pior de sua vida.
– Err, perdão – Emília disse, percebendo a própria gafe. –
Mas a sua irmã está se recuperando bem, é isso que importa. E nós vamos ter muito dinheiro, e você vai poder investir na empresa dela...
– É, na verdade ela tem mais alguns meses até se
recuperar completamente. Eu ainda não consigo, cem por cento, ver isso tudo, inclusive esse acidente, como uma coisa positiva. Mas sei lá, acho que coisas desse tipo precisam acontecer – Ian disse, balançando seu assado de frango no ar enquanto gesticulava. – só me preocupa nesse acidente... o que aconteceu com o bebê... e de que forma isso vai impactar na vida dela. Ela já passou por muita coisa.
– Você vai estar lá, o amor cura – Emília disse, inspirada.
Quando viu que Ian pareceu achar aquilo meio estranho, completou: – Você nunca viu Frozen?
Ian não conseguiu segurar o riso.
– Eu sou a Anna, então?
Mordendo a ponta da língua, Emília balançou a cabeça
afirmativamente enquanto ria também, imaginando Ian com duas tranças ruivas escorrendo pelos ombros.
O rapaz hesitou por alguns instantes em perguntar a
Emília sobre Gael. Quando percebeu que Ian queria dizer algo, a garota o encarou até que ele abrisse a boca.
– Você e o Gael – Ian gesticulou com a xícara de café na
mão, derrubando alguns pingos da bebida na mesa – vocês ainda... estão juntos?
– Não – Emília respondeu, encarando seu copo de suco de
goiaba. – sabe quando você vê uma palavra que nunca tinha visto antes e de repente parece que ela aparece em todos os lugares? Todas as vezes que conversei com Gael, depois de saber que... – ela não havia contado a Ian sobre lisa e provavelmente não contaria, em respeito à amiga. – Enfim, depois que isso tudo aconteceu, toda vez que falei com o Gael, os defeitos dele me incomodaram como um ventilador barulhento. Não consigo sentir nada além de repulsa.
– Isso significa que você não está mais apaixonada. Você
não o vê mais através daquele filtro mágico, que torna a pessoa perfeita – Ian fez uma pausa. – Mas ele é realmente um babaca.
– Olha, desculpa mesmo – Emília fez um carinho
desajeitado na mão de Ian sobre a mesa. – Você nunca escondeu nada de mim, não é? Eu errei. Fui uma idiota. Ian a encarou. Os olhos dos dois se encontraram e nenhum dois desviou. Passaram-se três segundos, cinco, dez... E aquilo parecia certo.
– Eu posso não ter contado que – Ian passou da cadeira em
frente à de Emília para a que estava ao seu lado, e o coração de Emília começou a bombear o sangue com mais força – tem um motivo para o seu nome ter sido o primeiro a vir à minha cabeça para esse programa. Mesmo se você não tivesse faltado naquele dia na escola, o seu nome ainda seria o que viria à minha cabeça primeiro. Porque eu gosto quando estou perto de você. E... e eu gosto de você. Muito.
Emília soltou um riso nervoso.
– Por que não me falou?
– Ouvi você dizendo que “a gente não combina” e sobre o
seu namorado de infância... era uma história de amor perfeita para querer bater de frente – Ian trouxe sua cadeira para mais perto de Emília. – A gente não deveria ter mantido nenhum segredo. Se você tivesse me contado o seu, eu teria te alertado de que ele é um babaca, e, se eu tivesse te contado o meu desde o começo...
Ele não completou a frase, e a garota não fez questão de
ajudá-lo. Ian fitou os lábios de Emília ao mesmo tempo em que ela os umedeceu. Ela sorriu porque não havia sido de propósito, e ele também, porque, mesmo não sendo intencional, funcionou da mesma forma.
Ian pousou uma de suas mãos pouco acima da nuca de
Emília e com o dedo polegar acariciou sua orelha. Em seguida, aproximou seu rosto lentamente do da garota, olhando por vezes seus olhos, por vezes sua boca, até seus lábios se encontrarem.