Azeitona
Capitulo 4
4.
Ian geralmente passava o domingo sozinho. Sua irmã trabalhava nesse dia e, para compensar, folgava em algum dia da semana. Às vezes ele ia com amigos para uma pista de skate perto de onde morava. Mas neste domingo era o aniversário de iris.
A irmã saiu no meio de uma chuvarada, bem cedo. Ela
estava organizando sozinha seu primeiro brunch executivo. O evento era para poucas pessoas, mas eles pagavam bem. Antes de abrir o próprio negócio, Iris esteve por anos trabalhando para duas sócias que faziam eventos gigantescos. Quando uma das donas da empresa se mudou para outro país, ela foi demitida, já que boa parte dos funcionários fixos era de parentes da outra sócia. Iris continuou participando de eventos, mas começou a oferecer seus serviços para festas menores também.
Antes de sair, despediu-se do irmão, que ainda dormia. – Vou voltar umas quatro da tarde, tá?
– Dá bom – Ian respondeu num grunhido. Ian despertou levemente e abriu um dos olhos,
defendendo-se da luz que entrava pela porta, por trás da irmã. Abriu os braços em direção a ela, que já estava saindo. Iris largou a porta e foi dar um abraço no irmão.
– Velizaniberzário – ele a apertou. Sua bolsa escorregou
para o chão, e ela, por cima de Ian.
– O bebê, o bebê! – Ela se defendeu, brincando, enquanto
apontava para a barriga.
Ele riu, ainda com o rosto inchado de sono, enquanto Iris
tentava se levantar.
Depois que a irmã saiu para trabalhar, ele se revirou na
cama por mais uma hora antes de começar a checar as notificações no celular. Quando passou pela última mensagem da produtora, sentiu um frio na barriga que o fez despertar de vez. Ele havia lembrado que no dia seguinte teria que conversar com Emília.
Ian pulou da cama por volta das 11 horas. Esquentou algo para comer e foi até a garagem de tranqueiras sobressalentes de festas. Você deixou todas as outras princesas desempregadas, Elsa, Ian pensou, enquanto passava os olhos pelos milhares de artigos de Frozen. Já era uma tradição Ian preparar algo apenas para a irmã e para ele quando era o aniversário de um dos dois.
Quando Ian ainda não trabalhava, ela geralmente
comprava a torta para o próprio aniversário. Mas, desde o ano anterior, quando o rapaz começou a ajudá-la nos eventos, ele fazia questão de comprar. Agora, que recebia algum dinheiro da mãe de Caio também, pela primeira vez poderia comprar uma torta com mais recheio do que glacê.
Ian começou a catar nas prateleiras os enfeites e a colocá-
los numa caixa, que levaria para dentro de casa. Pegou balões azuis e brancos e um topo de bolo gigante com a cabeça da Elsa. Passou os olhos pela toalha azul, o tecido de pelúcia que deveria imitar neve e as placas de papelão de um metro de altura que simulavam os personagens, todos empilhados num canto, mas decidiu levar apenas o que já tinha separado.
Quando era menor, empenhava-se mais. Mas, conforme
foi crescendo, começou a perceber a expressão de desespero da irmã, mesmo que ela tentasse esconder o pânico num sorriso constrangedor enquanto afastava lentamente para o canto os enfeites mais caros.
Antes de começar a preparar qualquer coisa, Ian conferiu
o relógio e viu que já era quase meio-dia. Deixou a caixa no chão da cozinha e saiu para comprar uma dúzia de empadinhas – o salgado favorito de Iris –, brigadeiros e uma torta. Ela não iria tomar refrigerante, então Ian comprou apenas uma latinha para si mesmo, já que qualquer bebida que não fosse chá havia sido excluída das compras mensais, e ele não queria comemorar nada com chá.
Na verdade, ele comeria boa parte do que havia comprado.
Iris estava comprometida demais com a gravidez para deixar sua alimentação saudável de lado, mesmo que fosse apenas por um dia.
Pelas próximas duas horas ele ficou no sofá, revezando-se
entre encher alguns balões e assistir a How I Met Your Mother. Ao fim, amarrou duas pilhas de balões num barbante e as colocou nos cantos da cozinha acima da mesa. Restou pelo menos mais uma dúzia de balões no chão, que ficariam por ali mesmo.
Já eram quase 16 horas quando ele começou a arrumar o
bolo que havia comprado na mesa. Na verdade, precisava apenas posicionar a vela. As empadinhas e os brigadeiros ficariam na caixa em que vieram.
Em cima da plataforma de plástico que ele encaixou no
topo da torta, havia uma Elsa da cintura para cima, como se estivesse enterrada na cobertura. Ela tinha uns quinze centímetros e sorria por trás de uma vela. Uma das mãos ficava levantada, segurando um floquinho de neve. O único problema era se olhasse de perto. Ela era feita com um plástico vagabundo e, se não tivesse a maquiagem de Elsa, poderia ser confundida com uma boneca da Estrela acidentada.
A vela branca na frente da princesa era no formato do
número 9. Ian foi até o depósito de decorações em busca de um 2 para formar o 29. Encontrou uma vela rosa, que, tinha quase certeza, era a mesma que usara no ano anterior. Ouviu o barulho do carro de Iris chegando assim que terminou de posicionar a segunda vela. Então as acendeu e aguardou a irmã entrar.
– Surpresa! – Ian disse, fingindo uma total falta de
empolgação, enquanto abria os braços. Os dois riram. Ele reciclou a mesma brincadeira do ano anterior. Era engraçado chegar a uma festa surpresa que tinha apenas um convidado.
– Eu queria agradecer a todo mundo que compareceu –
Iris colocou as mãos sobre a boca. – Vocês são tudo pra mim.
Iris colocou duas bolsas de plástico enormes que havia
trazido do brunch no chão. Eram parte das toalhas de coração que havia alugado. O restante estava no carro, mas ela precisaria da ajuda do irmão para buscar.
– Parabéns! – Ian disse, abraçando a irmã. – não vou
cantar Parabéns sozinho desta vez, mas o que vale é a intenção.
– Ah, eu tô bem. Não precisa. Vem, me ajuda a trazer o
resto das coisas – Iris disse.
O carro ficava embaixo de um toldo, já que a garagem
tinha virado um depósito.
– Como foi lá? – Ian perguntou, tirando uma caixa de
papelão pesada do porta-malas.
– Foi ótimo, eu acho que era de um evento assim que eu
precisava – Iris disse rápido, empolgada, como se estivesse apenas esperando o irmão perguntar. – Tinha vários donos de empresas muito grandes com as famílias e três pediram meu cartão! se eu começar a fazer mais desses eventos para empresas, vou poder ter funcionários fixos e tudo!
– Daí eu posso ser o seu sócio – Ian disse, antes de fechar
o porta-malas.
– Você vai ser o meu sócio. Quando eu estiver bem
velhinha e com a maior empresa de eventos do Brasil, ela vai ficar pra você, então é bom que você me ajude desde agora.
Iris pousou a mão direita sobre um ombro do irmão, que
ia à sua frente, enquanto entravam em casa novamente.
– Na verdade, vai ficar para o seu filho – Ian riu, olhando
para trás enquanto encarava a irmã. – Eu não vou ser tão novo assim.
– Bom, é verdade– Iris concordou. – Mais um motivo
para você me ajudar agora, se quiser ser parte desse império que está surgindo.
Ian revirou os olhos.
Assim que os dois passaram pela porta, ficaram paralisados – como se uma cobra estivesse enroscada nas cadeiras e qualquer movimento mais brusco fosse fatal.
– Meu Deus – Ian disse, perplexo. – A Elsa virou o
Corcunda de notre-Dame. Você se esqueceu de apagar a vela. Vai, faz um pedido!
– Você viu que tinha mais oito topos de bolo iguais a esse
na caixa, não viu?
– Vi! Foi por isso que peguei.
– Tem um motivo para eles não terem sido usados – Iris
se aproximou das velas, fechou os olhos por alguns segundos mentalizando seu pedido e então assoprou. – Essa vela é errada em tantos níveis – suspirou. – Eu simplesmente acabei de assoprar um monte de fumaça na cara da Elsa, e ela parece estar com metade do rosto gangrenado. Comprei um lote com dez na mesma loja do anjo, veio tudo junto.
– E você usou alguma?
– Usei – Iris parou, pensativa. – E nunca vou me
esquecer… Provavelmente aquela menina também não. Ian preferiu não perguntar mais detalhes. Pegou uma faca na gaveta para que pudessem salvar a torta. Na verdade, a torta mesmo não tinha sido afetada. O supor te de plástico segurou a vela derretida, e a Elsa derreteu apenas o suficiente para parecer ter sofrido uma paralisia facial.
Na noite anterior, Iris saíra com o namorado e dois casais de amigos. Arla era amiga de Iris desde a segunda série. Aliás, fora a mãe de Iris quem “salvara” Arla de um ano extra na escola. Ela tinha sido matriculada por engano na primeira série quando chegou de salvador com a família. A mãe de Iris era professora daquela turma e resolveu conferir o histórico escolar da menina ao notar que ela estava mais avançada que os colegas.
Num momento em que a mesa estava sem muito assunto,
depois de uma conversa inflamada sobre política que não chegara a lugar nenhum, Iris decidiu contar para as amigas sobre a gravidez. As duas vibraram.
O fato de ter se tornado tão responsável para cuidar do
irmão mais novo desde muito jovem fez com que ela desenvolvesse uma aspiração maternal muito forte.
O namorado de Iris era do tipo que gostava mais de
cachorro do que de crianças. Ela não se sentia confortável em tocar no assunto, já que os dois nem moravam juntos ainda, apesar de terem conversado sobre casamento. Leo era formado em arquitetura e, por mais que não fosse levado tão a sério quando contava isso para as pessoas, estava investindo no prolífero ramo de construção de casas para cachorros.
Ele tinha largado tudo para se dedicar a esse projeto havia
apenas quatro meses, e as coisas estavam indo… decentemente bem, mas definitivamente não acima de suas expectativas. Com o tempo, ele se conformou em ser o maior nome da arquitetura em casa de cachorros do Brasil, em vez de ser o maior nome da arquitetura do Brasil.
Como era uma coisa totalmente nova, toda semana ele
dava entrevistas para jornais, programas de rádio e até na TV local. Com isso, conseguia chegar às famílias mais ricas – as únicas dispostas a pagar um arquiteto para projetar a casa do cachorro.
Leo chegava sempre cheio de ideias, empolgado em criar
um design ultrainovador, mas a conversa era sempre a mesma.
– Eu quero uma casinha pro leonardo igual a nossa, só
que pequenininha. Vai ficar tão linda! – Geralmente os nomes dos cachorros eram nesse estilo. A casinha de seu xará leonardo foi a segunda que ele projetou.
Desde o começo, vinha conseguindo fazer uma por mês.
Exceto no mês anterior, em que tinha sido procurado por três clientes – o vídeo da entrevista que ele dera para a TV local fora ao ar nacionalmente num programa de humor. Para expandir os negócios, ele vinha desenvolvendo projetos de casinhas mais baratas. Seriam três modelos diferentes apenas, portanto ele não precisaria gastar seu tempo desenvolvendo um por um.
Leo tinha ido ver Iris em um sábado após ela enviar uma
mensagem dizendo que eles precisavam conversar. Ela não estava trabalhando no dia, e Ian estava dando aula de tênis para Caio. Os dois se sentaram no sofá e ela iniciou um discurso emocionado.
– Eu nunca tive contato com a família do meu pai. A
minha mãe foi filha única – ela disse. Estava com os olhos um pouco vermelhos, parecia ter chorado antes de ele chegar. – Quando meus avós morreram, uma parte de mim se foi, assim como quando meu pai saiu de casa. Minha mãe era tudo pra mim. Era tipo a minha conexão com o mundo. Minha e do Ian. Quando ela se foi, meu irmão tinha só seis anos.
Leo já sabia de tudo aquilo, estava achando aque la
conversa estranha. Quando alguém diz que “precisa conversar”, na maioria das vezes é porque quer terminar, e aquela parecia uma forma estranha de terminar um relacionamento.
– É muito, muito, muito ruim não ter uma mãe a quem
recorrer quando surge algum problema. – Iris percebeu que estava começando a se enrolar demais. – É muito ruim ter tanto amor dentro de mim e só você e o Ian para compartilhar.
Iris começou a chorar para valer, deixando Leo ainda mais
confuso e com um aperto na garganta, sem ao menos saber o que estava acontecendo.
– O que foi, meu amor? – ele perguntou, com a voz
trêmula.
– Eu estou grávida.
Iris ficou encarando o namorado esperando por sua
reação. Sabia que não era um plano que ele tinha para agora, e os dois estavam apenas namorando.
Leo ficou em silêncio por alguns segundos, com o olhar
meio perdido. Iris percebeu seus olhos se encherem de lágrimas.
– Você quer se casar comigo? – ele mal conseguiu
terminar a frase, rindo de nervoso no final.
Naquele dia eles chegaram à conclusão de que precisavam
de um lugar maior para quando a criança nascesse. A situação ainda não era das mais favoráveis, mas, até o bebê chegar, as coisas caminhavam para estar bem melhores.
Antes de ir embora naquele dia, Leo se mostrou
preocupado. Pediu a Iris que marcasse logo um médico e tomasse “aquelas vitaminas pro bebê nascer inteiro”, e comentou que ela não poderia mais se depilar.
– O quê? – ela disse, sem saber se ele estava falando sério. – Quando minha prima estava grávida – ele come çou a
contar –, minha avó disse que ela não poderia se depilar. E ela teve oito filhos, tem bem mais experiência que a gente.
– A sua avó tem bigode. Essa coisa da depilação era só
uma desculpa para ela continuar tendo bigode.
Os dois mantiveram o segredo em família até aquela noite
antes do aniversário de iris, quando contaram para os amigos. Após saber da gravidez, Arla perguntou, empolgada, sobre o casamento.
– A gente nem pode montar uma festa agora, tanto por
questão de dinheiro como de tempo mesmo. Eu não quero casar com a barriga enorme. E, depois que a criança nascer, vou querer que ela traga as alianças, então lá se vão mais uns dois anos. – na verdade, os dois nem tinham parado para pensar no assunto, porque sabiam que era algo fora de cogitação no momento. – E sou produtora de eventos, caramba! Tem que ser a melhor festa que já fiz!
Em alguns meses, quando a gravidez estivesse mais
avançada, os dois iriam viver juntos e buscar por uma casa maior. Enquanto isso, Leo iria focar o trabalho e juntar dinheiro para comprar fraldas, roupinhas, bercinho e para pagar a faculdade de arquitetura da criança, porque acreditava que já era bom pensar no futuro dela naquele momento.
Quando se despediram na noite do jantar, Arla e Vanessa
deram tchau também para o bebê enquanto passavam a mão na barriga de iris, que já estava maior.
Ainda não por causa do bebê. Ela só havia acabado de
jantar.
Iris e Ian se sentaram no sofá para assistir a um filme juntos depois de comer a torta. Ela se deu o direito a um pedaço, mas não chegou a provar o brigadeiro. O recheio da torta era o favorito de Ian, com nozes, creme de avelã e bombom.
– Então, o que vamos assistir? Esse Nove Meses, com o
Hugh Grant e a Julianne Moore, ou esse documentário sobre bebês? – perguntou iris.
Ian olhou para a irmã, achando que ela estava brincando.
Ela não estava.
– Bom, com essa diversidade de opções prefiro que você
escolha – era o aniversário dela, afinal.
O documentário acabou sendo interessante. Ian não sabia
que os bebês podiam ouvir as coisas de dentro da barriga e que eles dormiam DEZEssEis HoRAs PoR DiA nos três primeiros meses.
– Tá vendo, Ian, se meu bebê dormir mais duas horinhas
por dia ele quase vai passar você! – Iris riu.
Ian precisava acordar cedo para as aulas todo dia, mas, em
compensação, durante a tarde sempre ficava com sono e acabava se rendendo. Ele respondeu alguma coisa sobre estar em fase de crescimento, mas Iris já não comprava aquele discurso havia um tempo.
Ela se levantou para lavar os pratos que haviam acabado de usar. O documentário já estava nos créditos finais.
Ian a acompanhou até a parte da cozinha separada pelo
balcão da TV. Enquanto ela lavava os pratos, ele retirava os balões que tinha pendurado.
Os dois sempre trabalharam muito bem juntos. Desde que
passaram a viver sozinhos, Iris deixou claro que os dois precisavam se ajudar e que a casa era de ambos e eles precisavam ter responsabilidades. Ninguém estava ali para cuidar de ninguém, mesmo que os dois soubessem que aquilo não era bem verdade.
– Eu não durmo tanto… – Ian disse, ainda pensando na
brincadeira da irmã, enquanto fazia força para puxar os balões que tinha enrolado em um preguinho no forro. Sem muito sucesso, ele decidiu descer e pegar uma tesoura para retirá-los e, em seguida, desvencilhar a linha do prego. – E eu trabalho e tudo. Vários colegas meus nem trabalham.
– Mas eu nunca disse que você precisava trabalhar – Iris
disse, tentando não parecer grosseira. – não estou culpando você, viu? Sei que você faz o que pode, e fico feliz por isso, porque eu também sou assim.
Ian começou a retirar os balões do outro lado. – Eu faria o mesmo por você. – Ian disse, sem se virar
para a irmã.
– O que está acontecendo? – ela disse, interrompendo o
que estava fazendo. – Por que você está assim? Você precisa de alguma coisa?
– Não aconteceu nada – Ian mentiu. Não conseguia parar
de pensar na proposta de Catarina, que estava prestes a aceitar. – na verdade, eu tô feliz pelas coisas que estão por vir pra nós. Você finalmente vai se formar, depois de ter largado a faculdade pra cuidar de mim. Você esperou tanto tempo...
Eles já haviam conversado havia duas semanas sobre
aquilo. Iris ainda não sabia, mas o presente de aniversário que Ian daria para a irmã seria, inclusive, útil para quando ela fosse se formar, dali a dois meses.
Ela chacoalhou as mãos na pia, tirando a espuma, e se
virou para Ian, que descia da cadeira com a linha de balões cortada.
– Eu sinto como se você se preocupasse tanto com isso até
hoje. Não foi culpa de ninguém o que aconteceu – ela pegou uma toalha e secou as mãos. – Assim como a gente não tem como prever as coisas boas, a gente não tem como desfazer as ruins. Eu fiquei com medo também, mas agora tudo está se encaminhando, vai ficar tudo bem.
Ian balançou a cabeça concordando, olhando para o chão. – Se eu fosse mais velho quando você ficou sozinha, pelo
menos eu poderia ajudar mais.
– Caramba, você está chato hoje, hein? – Iris disse.
Segurou os ombros do irmão com as duas mãos, como quem dá bronca em uma criancinha por alguma mal-criação. Entretanto, para olhar nos olhos do irmão ela precisava levantar a cabeça. – Eu não queria que a gente tivesse passado por nada disso, mas o que de pior pode acontecer? Quanto mais problemas você passa, mais resistente fica. Mais coisas boas acontecem.
– Você acha que, se tivéssemos mais dinheiro, seríamos
mais felizes? – Ian perguntou, tentando não dar pistas do que o levara a fazer a pergunta.
– Você tá estranho – Iris disse, desconfiada. – Talvez nos
preocupássemos menos se a gente tivesse mais dinheiro. Só.
Ele balançou a cabeça concordando e começou a estourar
os balões. Nunca havia sentido falta de nada, na verdade. Mas agora estava prestes a prestar vestibular e começar a dar os primeiros passos para o seu futuro. E isso não era nem um por cento do que sua irmã tinha precisado passar. Ele queria retribuir de alguma forma.
– Preciso contar uma coisa para você – ele decidiu que
teria de contar para a irmã, mas não sabia se ela iria ou não apoiá-lo na decisão de mentir para ganhar dinheiro.
– O que aconteceu? – Agora, sim, ela parecia assustada.
Ian parou para pensar. Vou participar de um progra ma que vai passar em rede nacional e mentir para todo mundo para ganhar um dinheiro que não seria meu por direito. Não parecia uma boa ideia. Ela provavelmente não daria os parabéns a ele.
– Eu… – ele não fazia ideia do que poderia inventar.
Colocou as mãos no bolso, nervoso, e sentiu o presente que iria dar à irmã, todo amassado. – Toma!
Ele entregou à irmã um papel todo amassado. Iris leu o
papel, desconfiada.
– É sério isso? – Ela riu. – Você sabe que é caro, né? No papel estava escrito, a caneta e em letras garrafais
“VALE UM VESTIDO DE FORMATURA”. Ela citou algumas vezes a necessidade de alugar um vestido quando falava sobre a festa, e Ian pensou que seria um bom presente.
Ainda era cedo, e os dois se deitaram um de cada lado do
sofá para ver algo que estivesse passando na TV até que pegassem no sono. Toda essa conversa fizera com que Ian ficasse nostálgico. Ele estava feliz por tudo estar dando certo – Iris ia se formar em breve, havia um membro novo da família a caminho, logo ela iria viver com o pai do seu bebê, o homem que ela amava.
Mas Ian temia o futuro. Ao mesmo tempo em que se sentia
uma pedra no caminho da irmã, sabia também que, por enquanto, era seu único alicerce.