Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 23 de 23

Páginas do PDF

Azeitona

Capitulo 23

23.

 

Pela primeira vez em quase um mês, a boca e as bochechas de Iris pareciam ter algum sangue circulando por elas. Um fato animador para Ian, que acompanhava a lenta recuperação da irmã, vendo os ferimentos no rosto se fechando aos poucos, mesmo que a pele acinzentada indicasse que ainda havia um grande caminho a ser percorrido. Por outro lado, levando em consideração a gravidade de seus ferimentos, na comparação com os de sarah, ela se recuperava tão bem quanto a colega.

Leo havia se oferecido para ficar na casa de Ian enquanto

Iris permanecia internada. Ele aceitou, a casa ficava desconfortável com ele sozinho o tempo todo.

Iris ficaria um pouco mais do que o planejado no hospital,

mas, com as férias da escola, Ian só saía do quarto da irmã quando precisava gravar para o reality. Leo a visitava todos os dias, e, quando não estava trabalhando, substituía o cunhado. Iris precisava de um acompanhante o tempo todo no quarto, já que praticamente não conseguia se mexer.

Por causa do acidente, ele faltou vários dias na escola,

logo antes da semana de provas daquele trimestre.

Acabou, inclusive, perdendo algumas. Os professores

relevaram as faltas porque sabiam do acontecido e permitiram que ele as fizesse quando retornasse das férias.

Os colegas que não sabiam do acidente cochichavam pelos

cantos que Ian devia estar com vergonha de aparecer na escola depois que apareceu com Emília na chamada do Novos Pais na TV. Foi uma surpresa para todo mundo, já que ninguém sabia que os dois estavam juntos, até porque Emília tinha um namorado quando as primeiras chamadas foram ao ar – mas ela e Ian não fizeram questão de explicar nada a ninguém, exceto aos amigos mais próximos.

– Você está bem? – Ian perguntou quase inaudivelmente, enquanto se aproximava da cama, como se a irmã fosse uma taça de cristal que pudesse se quebrar com um barulho mais forte.

Iris reparou no irmão com o canto dos olhos,

impossibilitada de realizar movimentos mais bruscos com o pescoço por causa da coluna. Sentiu a mão do rapaz pousando sobre o lado de sua cabeça que não estava machucado. Ela fechou os olhos por um instante, aproveitando o gesto afável.

– Você realmente tá perguntando se eu tô bem? Olha pra

mim – ela disse, rindo na medida do possível para sua baixa disposição, e apontou com um movimento de olho para o resto do corpo. Estava com a voz meio cansada, mas definitivamente mais animada do que nos outros dias, quando mal conversava. – na verdade eu tô bem, sim. Estava me sentindo quase como uma planta, nem entendia direito o que estava acontecendo nas últimas semanas. Acho que por causa dos remédios pra dor. Mas agora já estou melhor.

Ian encostou sua testa na da irmã e fechou os olhos,

abrindo um sorriso sem mostrar os dentes. Era agradável sentir, pelo calor do rosto dela, que os dois estavam vivos e que estavam bem.

– Você quer conversar? – ele perguntou. – Muita coisa

aconteceu com você, é bom... colocar isso pra fora.

Iris esticou os lábios em um bico e lançou um olhar

pensativo para o teto.

– Já estou nessa cama há um tempo para ter expulsado o

que precisava ser colocado pra fora – ela disse. – Primeiro, é bom estar viva. Segundo – ela fez uma pausa –, meu bebê era um sonho meu e eu o amava, mas eu nunca o vi de verdade, a gente nunca conversou, eu nunca o alimentei… É triste não ter tido tempo de fazer isso, mas, se eu tivesse perdido você, me sentiria muito mais arrasada. Você entende? Me sinto insensível em pensar assim, mas me deixa mais calma.

Ela fez uma pausa, e Ian a esperou completar. – A minha vida toda eu quis ser mãe porque criei você, e

pensava: “se já amo meu irmão dessa forma, imagina o meu filho!”. Eu estava procurando por aquele amor incondicional de que todo mundo ouve falar desde criança, sabe? Aquele que muda sua vida.

Ian percebeu que a boca de Iris estava seca e ofereceu o

copo de água com um canudo que estava na mesinha ao lado da cama. Ela aceitou e então continuou:

– E esse tempo em que estive aqui neste hospital,

pensando, me fez perceber que o amor se constrói. Eu sempre quis ser mãe, mas não tinha parado para perceber que já era – os olhos de Iris começam a encher de lágrimas, e Ian se obrigou a desviar seu olhar, para não fazer o mesmo. – Esse amor incondicional... eu já sinto. Por você.

A voz de Iris falhou e uma lágrima escorreu pelo

esparadrapo que cobria um ferimento.

Ian apertou a mão de iris. A expressão do rapaz ficou

engraçada quando o sorriso foi se entortando para a cara de choro contra a qual ele lutava.

– Quando eu soube do acidente – Ian disse, com a voz

embargada –, foi o momento mais desesperador da minha vida. Ver você nessa cama também me dá agonia. No começo eu fiquei mal por isso ter acontecido porque... como algo tão rápido pode mudar uma vida tão drasticamente? Mas, hoje, fico muito feliz por você estar aqui conversando comigo. Sério – Ian limpou a lágrima que escorria tímida, antes que ela pudesse atravessar sua maçã do rosto. – Você sempre foi uma ótima irmã e uma ótima mãe. Aliás, você ainda quer... ter outros filhos, certo?

– Claro – ela respondeu. – Mas vai acontecer... quando

acontecer. Não acredito mais naquele amor incondicional. Quer dizer, acredito porque eu o sinto. Está aqui – ela apontou com os olhos para o próprio peito.

Ian acariciou a mão da irmã como resposta. O barulho de

batida na porta fez com que Ian se virasse.

– Com licença – Leo entrou com um balão nas mãos. Iris

franziu o cenho sem entender o que ele fazia com um balão ali, enquanto observava o noivo abaixando o cordão que segurava o enfeite para que ele passasse pela porta.

– O que é isso? – Iris perguntou.

– Pra deixar você mais feliz – Leo respondeu. Ian deu

espaço para que ele o amarrasse na cama. O objeto tremulava logo acima da cabeça de Iris com o vento que vinha do ar-condicionado. – E vou ser o seu acompanhante pelos próximos dias até que ele estoure. Acredito que o Ian não vá se importar em te ver apenas durante os horários de visita nesse tempo.

– Não, você não precisa... – Ian se interrompeu quando

percebeu que o cunhado indicava o balão com a cabeça. – Ah, claro! – ele riu, lembrando a conversa que tivera com o cunhado no carro, a caminho de sua casa, no dia do acidente. – Tudo bem por mim, mas esse balão parece bem resistente.

– Tá tudo bem, se demorar muito ela já vai estar boa o

suficiente para ter opção de correr quando ele estourar – Leo disse. Iris acompanhava a conversa sem entender. Enquanto estivesse ali deitada recebendo sabia-se lá quais remédios que estavam dando a ela, duvidaria duas vezes de sua sanidade em todas as oportunidades. O noivo de Iris continuou: – A sua amiga tá ali na recepção te esperando, mas não vi nenhuma câmera. Vocês estão gravando para o programa hoje?

– Não – Ian respondeu, e seu rosto ficou vermelho. Iris

entortou a cabeça com dificuldade, tentando ler a expressão de Ian. Nesse caso ela não precisaria duvidar da própria sanidade – estava na cara.

– Ela precisa falar comigo primeiro e passar pela minha

aprovação – Iris forçou um semblante sisudo.

Ian riu e abriu a porta do quarto. Saiu e colocou a cabeça

de volta para dentro, através de uma fresta.

– Você pode falar com ela quando puder correr atrás dela,

também – ele brincou. – Que sirva de motivação.

Após quase morrer, Iris se sentia esperançosa como

nunca. De repente, o futuro parecia ainda mais empolgante.

Porque, depois de uma tempestade, a poeira abaixa. E é nesse momento que conseguimos enxergar o caminho.

 

FIM

Quando tudo parece como nos filmes

Sim, você sangra apenas para saber que está vivo

 

Iris, Goo Goo Dolls

AGRADECIMENTOS

 

Agradeço, primeiramente, a você que leu o meu livro. Sério. Sempre sonhei em publicar um livro e que, eventualmente, alguém o lesse, e você o fez! A menos que você esteja lendo os agradecimentos antes. Enfim, você foi a primeira pessoa a quem agradeci, então, se fizer uma resenha, não aceito menos que cinco estrelas.

Agradeço aos meus seguidores na internet. Este livro não

existiria sem vocês, eu não teria continuado sem vocês, minha vida não teria tomado o rumo que tomou sem vocês. Se você já clicou num botãozinho para me seguir alguma vez, você mudou a minha vida. Obrigado.

Sem a minha mãe eu é que não existiria, então agradeço a

ela também. Ela que me criou sozinha e me entupiu de livros na infância, mesmo sem nunca ter tido ela mesma o hábito de ler.

Agradeço à minha irmã, Ana Paula, e ao meu irmão,

Eduardo – foi por meio dela que conheci o livro que me fez ficar viciado em livros, e dele ganhei o computador em que escrevi este. Então, sem eles, este livro não existiria também.

Já sem a minha editora, Raquel Cozer, o livro existiria

com os personagens “balançando a cabeça” e “franzindo o cenho” a cada página. Não poderia ter tido editora mais divertida, comprometida e capaz de fazer uma pessoa teimosa como eu concordar com cada uma das suas observações sobre este romance.

Ao Felipe Brandão, por sua maestria ao descobrir o maior

talento literário do Brasil: eu. Obrigado por acreditar em mim e me encorajar e cuidar com tanto carinho do marketing do livro. Também a toda a equipe que trabalhou de alguma forma para que ele acontecesse: Rogério silveira, que fez as fotos; Elisa von Randow, que fez a capa; às revisoras e a todo o pessoal da Planeta.

À querida dra. Daniela Engelender, que ajudou quando

meus conhecimentos de medicina provenientes de Grey’s Anatomy não foram suficientes. E a Rafaela, que colaborou com informações sobre o universo da organização de eventos – e evitou que eu dormisse na rua no primeiro evento literário em que estive (longa história).

À minha cachorrinha Pink, uma vira-lata marrom meio

salsicha, meio pinscher, que está na família há doze anos e deixou meus pés mais quentinhos enquanto eu escrevia este livro.

A Bel, Pam, Pedro e Hugo pelas risadas e por me ajudarem

a não enlouquecer durante o processo de publicação do meu primeiro livro.

A todo mundo que já me conheceu, passou pela minha

vida ou passou por mim na rua. Vocês estão neste livro ou estarão em algum outro que eu venha a escrever. Desculpa.

Você terminou Azeitona

Bruno Miranda

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.