Azeitona
Capitulo 10
10.
Na primeira gravação oficial para o Novos Pais, Emília e Ian precisaram mais uma vez recusar o carro da emissora. Durante todo o trajeto de metrô, os dois trocavam olhares assustados, e um entendia exatamente o que o outro estava pensando. Catarina iria levá-los a uma consulta com um obstetra.
Tudo poderia ir por água abaixo nas horas seguintes. – Por que você veio de uniforme também? – Emília
perguntou quando saiu do banheiro e encontrou Ian do lado de fora, depois de trocar de roupa no banheiro do metrô.
– A Iris acordou na mesma hora que eu hoje. Emília hesitou antes de fazer uma pergunta a Ian enquanto
subiam as escadas.
– O que você acha que a sua irmã vai dizer quando ela
precisar saber disso tudo?
– Sinceramente – Ian encarou Emília –, eu não sei. Penso
que ela pode surtar de preocupação, mas também a vejo confiando em mim e entendendo o motivo disso tudo.
– Você é apegado a ela? – Emília perguntou. – À sua irmã? – Sim – Ian balançou a cabeça encarando o chão. – Eu falei
para você, a minha família é só ela. Nosso amor é meio que concentrado, sabe? Afinal, a gente não tem ninguém pra dividi-lo. Agora ela vai casar e ter um filho, então talvez só eu não tenha com quem dividir.
Emília riu. Ian fitou a garota por alguns instantes,
perguntando-se se ela havia pensado que ele estava querendo insinuar algo.
– E isso é ótimo, sabe? – Ian disse. – Pra mim e pra ela. É
muita responsabilidade ser a única pessoa de alguém – ele terminou a frase com um sorriso torto que fez Emília desviar o olhar.
– Entendi – ela respondeu.
Os dois continuaram caminhando sem trocar muitas
palavras até a fachada do prédio, com suas paredes de concreto ao redor da entrada de vidro gigantesca.
– Você trouxe os contratos, certo?
– Ian perguntou. Emília retirou sua pasta e mostrou as
assinaturas falsas. Respiraram fundo, olhando-se no reflexo do vidro ao longe, e começaram a caminhar ao mesmo tempo em direção à porta.
Catarina mais uma vez os esperava na recepção, e eles nem
precisaram ficar muito tempo dentro do prédio novamente.
– Que bom que vocês chegaram, a van já está esperando
ali na frente – Catarina apontou. – só entrar.
– Os contratos estão aqui.
Ian observou enquanto Emília entregava a pasta. A garota
não olhava Catarina nos olhos, como costumava fazer. Parecia que sua confiança estava abalada por causa da visita ao médico, e isso o preocupou ainda mais. Se Emília já estava esperando que aquela visita fosse o fim dos dois, como ele pensaria de outra forma?
A produtora levou os contratos até uma das recepcionistas
e pediu a ela que os deixasse em sua sala.
A porta automática do prédio se abriu e os dois entraram
na van com Catarina. O ar-condicionado estava ainda mais forte que o da recepção. Ian começou a tremer, não sabia se de frio ou de nervosismo.
– Você enjoou muito esses dias? – Catarina perguntou,
enquanto o automóvel era manobrado de volta à rua.
– Hum, na verdade, não. – Emília olhou para Ian. – Ela só está com um pouco de desejo – o rapaz se meteu.
Ele não pôde ver, mas ela cravou as unhas no estofado da van com força como se o fizesse no braço do rapaz. Ian tentou buscar a primeira coisa que veio em sua memória. – Ela está comendo muito doce…
Catarina parecia interessada, mas não fez nenhuma
pergunta. Esperou que ele completasse.
– A mãe dela tem uma confeitaria – ele revelou. Emília
ajeitou-se no banco, fuzilando-o com o olhar.
– Jura? – Catarina sacou o celular da bolsa e anotou a
informação. – Vamos gravar lá um dia, então!
Emília engoliu em seco e sorriu para Catarina. Depois
encarou Ian sem expressão alguma enquanto o peito estufava de ar. Ela o soltou pela boca de uma vez só, antes de voltar a observar a janela, emburrada. Ian sentiu o hálito da garota, que parecia ter mascado um chiclete de menta, e virou a cabeça para a frente, prestando atenção no trânsito.
Talvez os dois só tivessem chegado até ali porque não se
conheciam quando tudo começou. Eles teriam discutido melhor o assunto se não se preocupassem tanto em pisar em ovos, sendo gentis um com o outro, como em qualquer início de relacionamento. Mas agora já eram íntimos o suficiente para brigar.
Emília parecia brava, e o que eles mais precisavam
naquele momento era de cumplicidade.
A produtora pareceu entretida com o celular. Permaneceu
concentrada até perceber que já estavam próximos do local onde iriam descer.
– O.k., no consultório – Catarina falou – vai acontecer
assim: a gente vai acompanhar vocês nesse encontro com o médico. Ele vai examinar você – se dirigiu à Emília – e conversar. Vai ser tranquilo.
Os dois pararam de respirar.
– Mas não era só para conversar com o médico? – Ian
perguntou, com os olhos arregalados.
– Claro que não. A gente precisa das imagens da Emília
fazendo os exames, o ultrassom e – ela deu ên fase no “e” – conversando com o médico. – E, Emília, você está bem? Tá meio pálida. Pelo menos já estamos indo ao médico.
– Eu já tenho um médico – Emília disse, com a boca
encolhida num bico igual ao de uma criança prestes a chorar. Era isso que acontecia quando ela tentava parecer brava.
Já estava em seus planos agir de forma alterada se quisesse
parecer convincente na hora de se negar a fazer os exames, então decidiu começar ali mesmo.
– Todas as meninas já tiveram a primeira consulta
quando a gente começa as gravações, querida, é só trocar o médico. Duvido que você tenha se consultado com um médico melhor que o dr. Rômulo – Catarina disse enquanto retirava da bolsa seu tablet com a pauta da gravação. Ian descobriu depois que ela podia ver as imagens das câmeras por ali também.
– Mas eu não vou trocar de médico! – Emília falou num
tom de voz mais alto do que esperava.
O olhar de Ian ia de uma para a outra. Para ajudar na
encenação, ele segurou o braço de Emília com uma mão e fez carinho com a outra, como se tentasse acalmá-la. Catarina parou o que estava fazendo e lançou um olhar enfurecido para a Emília.
A van estacionou e os outros membros da equipe
observaram Catarina, que segurava a porta de correr ao seu lado, impedindo que alguém saísse.
– Tudo bem, Emília – Catarina respirou fundo,
controlando-se, e disse com voz didática: – Você não precisa trocar de médico. Mas você vai fazer os exames com esse. E a gente vai voltar aqui sempre que necessário. E trate todos muito bem lá dentro, porque eles anunciam neste programa. E é esse anúncio que paga o seu cachê. – Sem esperar a garota responder, puxou a porta com força e saltou do veículo, seguida da equipe técnica.
Ian ficou aliviado ao ver a fachada da clínica. Não era a
mesma que a irmã frequentava.
– Vamos? – Ian ofereceu a mão para ajudar Emília a descer
da van, mas garota o ignorou e saiu sozinha.
Ele percebeu que, da porta do consultório, os
cinegrafistas já os filmavam caminhando pelo estacionamento em direção à entrada.
Os dois foram até o balcão de atendimento. Eles tinham
sido instruídos a fazer tudo como se as câmeras não estivessem por perto, para parecer natural e uma escolha deles estar ali.
– Tá tudo bem – Ian cochichou para tentar acalmar
Emília, antes de a recepcionista se virar para atendê-los. – Vai dar tudo cert… – ele ficou paralisado – merda!
Emília encarou Ian, espantada. Ele tinha sido burro ao
citar a confeitaria de sua mãe, e – se eles passassem por aquele dia sem sair do programa – iriam se ferrar de qualquer forma por causa da boca grande dele. Estava brava com o colega, mas o susto dele a preocupou.
Ian se virou para o lado esquerdo como uma enceradeira
desgovernada e foi andando em direção às janelas.
O hall principal do consultório tinha um formato de T – a
base do T era por onde eles tinham entrado. Na ponta esquerda, além das janelas, havia uma porta para o almoxarifado, com uma placa de “entrada proibida” e grandes vasos com plantas. Na ponta direita, os banheiros e mais um corredor comprido que levava às salas do consultório.
– Você tá louco? – Emília foi atrás de Ian. A recepcionista
que estava prestes a atendê-los os observou sem compreender nada. – o que… o que você tá fazendo?
– Fala baixo. – Ele tentou caminhar disfarçadamente, com
o rosto abaixado. – Tem uma mulher de amarelo que vai sair do corredor a qualquer momento e não pode me ver.
– A Catarina vai matar você – ela sussurrou para o colega.
O microfone já não os alcançava.
– É a minha irmã, caramba! – Ian bradou, tentando
manter a voz discreta. – se a Catarina não me matar, a minha irmã mata!
Emília ficou paralisada.
Quando o irmão a reconheceu, Iris havia acabado de sair
de uma sala de exames e conversava com uma enfermeira. Ele saiu de seu campo de visão antes que ela o visse.
Emília estava de frente para Ian, que tinha as costas
pressionadas contra a janela, escondendo-o para que ninguém o visse. Se não fosse a mão sobre o rosto para não ser reconhecido, ele quase poderia encostar seu nariz no dela. A garota se virou para observar Catarina e seu cotovelo tocou de leve o abdome de Ian, que sentiu um arrepio.
A produtora acompanhava a cena com a boca semiaberta e
linhas de preocupação na testa. Não parecia nem um pouco contente. As câmeras estavam abaixadas por sua ordem. Seus braços cruzados indicavam que estava aguardando que um dos dois lhe desse alguma satisfação sobre o que havia acabado de acontecer.
Emília a ignorou e seus olhos se voltaram para a irmã de
Ian, que vinha do corredor. Ela a havia reconhecido das fotos que vira na casa dele.
– Ela tá vindo. – Emília avisou Ian.
– Pra cá?! – ele perguntou desesperado, enquanto se
ajeitava. Colocou as mãos na cintura dela para afastá-la e se virou para a janela, sem levantar a cabeça. A janela deixava o disfarce menos ridículo, já que ele poderia fingir estar observando o lado de fora.
– Não. Ela está conversando com a recepcionista agora –
Emília sussurrou, sem mover a boca. – Eu não acredito que você deixou isso acontecer, Ian! Parece que você está nos sabotando por querer.
– Eu não sabia que era nessa clínica que ela viria,
caramba! – Ele disse, encarando o vidro. – Ela sempre vai a outra. Essa aqui tem cara de ser muito chique, a que ela vai é bem menor. Eu nunca ia imaginar...
– Se aquela é menor, ela provavelmente teve que fazer um
exame em algum laboratório maior – Emília especulou. – se a sorte continuar a nosso favor desse jeito, eu não quero nem saber como isso vai terminar.
Catarina parecia irritada com o casal.
– Eles estão lá parados como se não estivessem gravando
a droga de um programa de televisão. – A produtora desabafou com o assistente de câmera ao seu lado. Sem paciência, decidiu intervir. Mandou o operador de áudio levar a vara do microfone até eles e as câmeras voltarem a gravar.
– Ah, droga… o cara do microfone tá vindo pra cá. Não
fala mais nada. Agora, com todas as câmeras apontando pra cá, a sua irmã vai olhar pra nós.
Os dois ficaram quietos. Não sabiam o que fazer. – O que está acontecendo aqui? – Iris perguntou para a
recepcionista, quando viu a movimentação das câmeras.
– Eles estão gravando o Novos Pais hoje. Aquele programa
de pais adolescentes, sabe? – A atendente era uma senhora gordinha, que falava de forma mansa.
– Ah, eu já assisti – Iris disse, empolgada. – Eles estão
aqui, o casal?
– Sim, foram ali do lado – ela apontou com a cabeça. –
Acho que conversar. Eu sempre vejo os casais vindo aqui, e é a primeira vez desses dois.
Iris olhou para onde a mulher havia indicado. Um homem
segurava uma vara enorme, que ela seguiu com os olhos até chegar à bola de pelo que era o microfone apontado para uma garota. Iris tentou ver se sua bar riga já estava visível, mas ela deveria estar grávida de poucos meses.
– Essa veio sem o namorado?
– Não, ela entrou com ele. Um casal tão bonitinho. – A
recepcionista tentou esticar o pescoço curto para vê-los. – Estranho. Eles estavam juntos. Bom, você pode buscar o resultado em três dias.
– O.k., obrigada – Iris respondeu sem prestar muita
atenção e se despediu com um aceno. Ela reconheceu a produtora do programa quando a mulher passou voando em direção a Emília.
Iris saiu do consultório na mesma hora em que Catarina
chegou até Emília, que estava sozinha.
– O que tá acontecendo? – Ela parecia transtornada. – Eu
já estava achando que o Ian iria pular dessa janela.
Emília esperou um momento após Iris sair, só por
garantia, e abriu a porta do almoxarifado.
– Ian, eu sei que é difícil, mas a gente tem que encarar
isso, sabe? É o nosso filho – Emília disse para o colega.
Ian não era tão bom ator quanto Emília. Ele apenas soltou
um pedido de desculpa em voz baixa, para que Catarina ficasse com pena, sem se aventurar em criar qualquer desculpa. A produtora encarou os dois. – Vocês são o casal mais estranho que já passou pelo programa. E ainda é a nossa primeira gravação oficial. – Catarina coçou a testa com os olhos fechados, como se não aguentasse mais vê-los em sua frente. – isso não fez o menor sentido... Bom! Eu apoiei a entrada de vocês no programa. É bom que não me decepcionem, porque vou me ferrar se não cumprirem as expectativas. – Ian e Emília engoliram em seco. – Vamos só gravar essa parte de novo com vocês entrando, como pessoas normais, e depois gravamos com o dr. Rômulo. Venham. Ian e Emília a acompanharam receosos até a saída, observando qualquer sinal de que Iris ainda estivesse por perto.
Ian e Emília entraram apreensivos no consultório, onde já estava parte da equipe com as câmeras apontadas para os dois. Ele era espaçoso o suficiente para caber todos e tinha as paredes num tom de gelo, cobertas com quadros emoldurados de bebês cuja gestação o dr. Rômulo havia acompanhado.
Emília achou o ambiente confortável, até entrar em seu
campo de visão uma maca. Ela tinha duas hastes de ferro estofadas na ponta. A garota olhou para Ian e apontou o objeto com os olhos, onde provavelmente teria de se deitar em alguns minutos, com os pés para cima.
– Bom dia! – dr. Rômulo estendeu a mão para Ian e depois para Emília. Ele tinha a mão grande e firme.
– Vocês podem se sentar. Vamos conversar um pouco
agora e depois partimos para o ultrassom e vou pedir alguns testes para...
– QUÊ?! VOCÊ VAI FAZER UM… – Emília não tinha
controle de quão alto falava e tentou se controlar, mesmo que parecer louca fosse o intuito. – Você vai fazer um ultrassom?
– Sim, pra ver ser se está tudo certo com o bebê – o
médico disse. O seu tom de voz era tão aveludado e seguro que com uma frase Emília quase se convenceu de que realmente deveria fazer um ultrassom. – É muito importante no início da gestação.
A sala ficou em silêncio, enquanto na cabeça de Ian e na de
Emília neurônios corriam em fervorosa procurando uma solução para fugir daquela situação sem arriscar a participação deles no programa. As mãos de Ian escorriam úmidas pela barra de ferro da poltrona.
– O.k., como estão os enjoos? – dr. Rômulo quebrou o
silêncio.
Todas as respostas de Emília foram genéricas. Ela só
queria terminar aquilo o mais rápido possível. Nunca tinha parado para pensar em gravidez até estar naquela situação, então seu conhecimento sobre o assunto era muito limitado.
– Bom, me parece que não temos nenhum sintoma
anormal, isso é bom. – o médico constatou após as perguntas. Ian e Emília sorriram. Dr. Rômulo se levantou e foi em direção à maca. – Você pode deitar aqui, por favor. Vamos fazer um ultrassom.
– Eles vão me ver pelada? – Emília apontou para a equipe
de gravação, numa tentativa de adiar o teste.
O médico riu. Salvo os cinegrafistas e o técnico de som, o
resto da equipe, até mesmo Catarina, estava fora da sala. A produtora acompanhava as imagens pelo tablet.
– Você não precisa ficar pelada, Emília. – o médico mexeu
em uma parte da maca que fez com que o encosto para os pés descesse. – só precisa deitar e levantar a blusa.
Emília olhou para a Ian, esperando que ele tivesse alguma
solução. Ela não sabia que a melhor solução que ocorria a ele era puxá-la pela mão e sair correndo.
Ela se levantou e, lentamente, foi até a maca. Forçando a
barriga o máximo que podia. Então se deitou.
– Você pode levantar a blusa agora.
Os olhos da garota estavam vidrados no do médico. Ela
morria de medo de que ele passasse a mão na sua barriga como Catarina fizera diversas vezes e acabasse percebendo.
Ela a levantou com receio.
– Agora eu vou passar um gel, ele é bem geladinho. Assim que o dr. Rômulo colocou o gel, Emília contraiu o
abdome sentido um arrepio e voltou a estufá-lo o mais rápido que pôde. Seu coração acelerou.
A convite do médico, Ian sentou-se ao lado de Emília para
acompanhar na tela as imagens do ultrassom. O rapaz segurou a mão dela e a observou, também com o coração acelerado, sem saber se ela teria ou não um plano.
Dr. Rômulo pegou o aparelho que transmitiria as imagens
e o levou em direção à barriga de Emília. Assim que o encostou na pele da garota, foi interrompido por Ian:
– NÃO! – Ele gritou, a voz desafinou. Com a parte externa
do antebraço, o rapaz raspou o gel de cima pra baixo da barriga da garota e o sacudiu, deixando o chão todo gosmento. O médico afastou o aparelho. – Você não vai fazer isso na Emília.
O doutor olhou de relance para a câmera, tentan do
descobrir se aquilo não era alguma brincadeira. Sem perder sua postura profissional, o homem perguntou:
– Eu posso saber por quê?
Emília estava com vontade de rir. Parte do gel ficara
acumulada na borda de sua calça por culpa de Ian.
– Radiação – ele disse, com a respiração ofegante. Aquele
era seu plano B, e ele esperou até os últimos segundos para usá-lo. – Eu sei que ela pode causar vários danos ao bebê.
– O ultrassom não é igual ao raio X – Dr. Rômulo falou,
calmamente. – não tem radiação, a gente vê o bebê literalmente por ondas de som.
Emília se sentou e, com a ponta do papel que cobria a
maca, começou a secar sua barriga. Ian se aproximou do médico.
– Como você espera que eu acredite nisso se a gente não
enxerga o som, doutor? – o rapaz disse, em tom de ameaça. – Você sabe quantos episódios eu já assisti de Grey’s Anatomy?
– Eu também entendo bastante de medicina, inclusive fiz
uma faculdade disso – ele parecia estar se divertindo. Não era possível saber se genuinamente ou porque estava cercado de câmeras. – E acho importante sua namorada fazer um ultrassom. Garanto que não vai prejudicar em nada seu filho.
– Não – Emília já havia abaixado a blusa e agora estava
com os braços envoltos no abdome. – Você não pode me obrigar. É pelo bem da criança.
Ian e Emília pareciam dois malucos.
– Mas você precisa fazer um ultrassom – o médico disse
enquanto entregava a Emília algumas folhas de papel para que ela se limpasse. Ela as pegou e levantou a blusa novamente para secar o restante do gel. – Como eu disse, é um exame importan…
– Mês que vem – Emília o interrompeu. – Talvez no mês
que vem.
Dr. Rômulo levantou as sobrancelhas, tentando
compreender enquanto encarava os dois.
– Emília, sei que é difícil para você passar por isso tão
nova e sei que você está preocupada. Se você se sente assim, é porque já ama essa criança – Emília desviou o olhar –, então preciso que dê o seu máximo para que eu possa te ajudar.
A garota permaneceu calada.
As coisas ficavam mais sérias do que eles imaginavam a
cada dia que passava. Mentir tanto a respeito daquilo estava tornando a ideia de ter um filho cada vez menos estranha para Ian. Seria até mais fácil se nós... Ian balançou a cabeça. O cheiro refrescante da clínica parecia ter arejado demais seu cérebro.
Os três ficaram de pé perto da porta, Ian e Emília prontos
para sair e encarar Catarina bufando. O médico se despediu dos dois, educado, e entregou um cartão a Emília, que o colocou no bolso.
– Você pode me ligar a qualquer momento se sentir algo.
E, pensa no que falei, sou um dos melhores médicos obstetras do país. Confiando em mim, você está em boas mãos.
– Hamm, corta! – a equipe ouviu, pelos fones de ouvido,
Catarina encerrando a gravação, e as câmeras foram desligadas.
A porta se abriu e todos foram saindo da sala. Ian viu o
rosto de Catarina de relance. Seus olhos estavam pressionados numa linha fina, e ela passava a língua na ponta dos dentes. Era uma imagem quase assustadora.
Dr. Rômulo fez um gesto com a mão para Emília, e ela o
seguiu até o canto da sala. Naquele momento não havia nenhum membro da equipe: só os dois e Ian.
– Eu sei que você não está grávida – o médico disse, como
quem convida para tomar um suco.
– Ian e Emília, vocês já podem ir agora – a conversa dos
dois foi interrompida antes mesmo de começar por Catarina, que entrou num rompante. – o motorista vai levá-los embora. Nós vamos captar agora o depoimento do dr. Rômulo sobre a consulta e o bebê… se é que isso vai ser possível depois do que vocês fizeram aqui. – Ela estava furiosa. – Por hoje é isso.
A garganta de Emília estava tão seca quando saiu da sala
que arranhava quando ela tentava engolir a saliva. Ian pediu ao motorista que fossem deixados em uma rua perto da escola, para que os pais de Emília a buscassem depois. Poderia trocar de roupa em uma lanchonete por lá, já que faltava mais de uma hora até o sinal da saída. Emília permaneceu com o olhar fixo na janela do carro durante todo o percurso de volta. Eles não podiam conversar nada na frente do motorista. Enquanto Ian estava aliviado por terem se safado da primeira gravação, Emília estava com mais medo do que na ida.
Assim que desceram do carro, a garota esperou o veículo se afastar e então abriu a boca pela primeira vez desde que saíram do consultório.
– O médico sabe que eu não estou grávida – a voz dela
estava trêmula. – Ele deve ter acabado de contar pra Catarina. Ou seja, ela descobriu da pior forma possível. Não vamos receber o dinheiro. Nossa parte do programa não vai ao ar e não vou ter mais namorado quando ele descobrir isso tudo. Minha mãe vai querer me matar e vão, sei lá, me prender por falsificar assinaturas.
Ian tentou falar alguma coisa, mas o que saiu de sua boca
parecia mais como sílabas avulsas e confusas.
– Vou esperar meu pai por aqui – Emília disse. Cruzou os
braços e virou na direção oposta de Ian. – E você pode ir, por favor.
Os três primeiros andares de estacionamento do shopping estavam lotados, restando apenas o último para Iris manobrar em uma vaga apertada. A decoração do hall de entrada chegava a machucar os olhos com os milhares de bandeirinhas coloridas descendo do teto alto, por causa das festas de são João.
Por sorte, o tipo de loja à qual Iris e Ian estavam indo
costumava ter um grande sofá confortável, a ser ocupa do pelos maridos das clientes. Afinal, não havia muito para um homem fazer em uma loja de vestidos.
Assim que entrou, Iris foi certeira em direção a um
manequim no meio da loja, como se já o tivesse visto antes. Ian sabia que a irmã não ia demorar tanto – ela estava atolada com um trabalho grande que havia pegado.
Ian se sentou e apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça
nas mãos para pensar. Espiou de canto de olho e viu que nas mãos da atendente já se acumulavam alguns cabides que a irmã levaria para o provador. Ela iria escolher o presente de aniversário que Ian havia prometido: o vestido de sua formatura, que já era no mês seguinte.
Vendo a irmã feliz, Ian se sentiu angustiado com a
possibilidade de ter estragado tudo naquela manhã no consultório. Seu maior medo eram os problemas que aquilo ainda poderia trazer. Logo agora que as coisas estavam indo tão bem.
Ele acreditava que, sempre que acontece algo ruim, é
porque algo muito bom está por vir. Como se cada um tivesse uma balança com um lado bom e o outro ruim. A meta era deixá-la em equilíbrio. Quanto mais coisas ruins caíssem na sua balança, mais coisas boas iriam acontecer para ela se estabilizar de novo.
Com a morte da mãe, o abandono do pai, os problemas
financeiros e as frustrações profissionais, amorosas e pessoais que Iris passara na companhia do irmão, já estava mais do que na hora de os dois preencherem o lado positivo de suas balanças.
– Ian! – o garoto olhou rápido para irmã, que o chamou
pela segunda vez sem que ele percebesse, tirando-o da tempestade de pensamentos. – Você tá viajando muito hoje. Vou dar uma cápsula do meu suplemento de vitaminas pra você.
A caminho da loja de vestidos, ele não ouvira nenhuma
palavra que Iris dissera sobre o evento corporativo que estava organizando. Ela até perguntara se tinha acontecido algo, mas Ian desconversara.
– Tá, esse aqui, o que você acha? – Iris perguntou. –
Bonito, né? Tô entre esse e aquele coral. – Apontou para o vestido que a atendente segurava ao seu lado.
– Hum, gosto desse que você tá vestindo. Acho que o azul
é mais… bonito… do que o laranja. – Ian não conseguiu encontrar outros adjetivos. Apenas achava mais bonito.
– Ah, não sei. Ele tem muita pedra, né? O coral combina
com a minha pele, parece que eu fico mais bronzeada – Iris disse. A atendente concordou. Se ela estivesse provando a cortina da loja, a atendente também teria feito uma observação positiva.
Por fim, Iris se decidiu pelo coral.
– Será que até mês que vem vai caber em você? – Minha barriga não vai crescer tanto assim em um mês.
– Iris se virou para a atendente. – Quanto custa pra alugar?
A atendente mostrou na tela do computador o valor
daquele modelo.
Ian olhou para iris, depois para a vendedora, que batucava
sobre a madeira da bancada. A mão da comissão chega a tremer, Ian pensou.
– A gente pode fazer em duas vezes? – Ian perguntou
baixinho para a vendedora, como se Iris não pudesse ouvi-lo.
Ela confirmou com a cabeça, e o rapaz entregou a primeira
prestação em dinheiro à vendedora.
Só iriam pegar o vestido dias antes da festa, mas o
pagamento de uma parte precisava ser adiantado. Ela agradeceu, e os dois saíram em direção à praça de alimentação do shopping.
– Eu economizei nos últimos meses pra conseguir fazer
essa formatura. Se não der pra pagar o vestido, não se preocupe, eu mesma já iria pagar, tá? – Iris penou para dizer isso, sabia que faria o irmão se sentir mal.
– Não precisa. Quando receber da Estela eu pago. Só não
tinha todo o dinheiro aqui – Ian disse. – Mas vou pagar o vestido pra você, eu disse que ia te dar.
Às vezes, Iris parecia tão superprotetora que Ian sentia
que ela nunca o deixaria crescer e fazer algo sozinho. Os dois almoçaram na praça de alimentação. Ian inventou qualquer coisa sobre sua manhã ter sido ótima na escola e, assim que terminaram, Iris o levou em casa para trocar de roupa para a aula de tênis do Caio.
Ele não sabia, mas também teria uma longa tarde.
Ian ficou muito tempo sentado no sofá, com a casa toda em silêncio e as janelas fechadas. Estava ansioso, mas com medo de ligar para Catarina, mesmo que fosse para colher verde sobre a sua situação e a de Emília.
Uma buzina na rua o assustou. Provavelmente a irmã
queria que ele levasse algo até ela no carro ou…
Droga.
Ele não sabia se estava louco ou se podia mesmo ouvir o
próprio coração agitado bombeando sangue para o seu corpo.
Será que eu digo que quero um teste para comprovar a
gravidez da Emília quando Catarina me acusar? Será que vale a pena mentir mais ainda? Ou assumo que foi tudo invenção agora?
Ian notou pela janela que Catarina fazia um movimento
inquieto com as mãos, sinalizando para ele abrir o portão. E então ele foi. As câmeras não estavam ligadas, e isso era um mau sinal: se ele estava fora do programa, por que iriam filmá-lo?
– Você está pronto? Entra na van. – Catarina disse, sem
expressão.
– Por quê? – Você vai me matar depois de me deixar por um
mês num cativeiro fedido?
Catarina segurou uma das barras de ferro do portão. – Você realmente está me perguntando isso? Depois do
papelão que fizeram nesta manhã, o mínimo que espero é que você assuma suas responsabilidades com profissionalismo – ela respondeu, zangada.
– Desculpa – Ian balançou a cabeça. – sério, sei que isso
pode sobrar pra você. E você foi muito legal me convidando. Eu não deveria nem ter cogitado entrar nesse programa pra começo de conversa.
A produtora virou a cabeça, analisando a expressão de Ian.
Colocou a mão pela grade na cabeça dele, que tomou um susto e se contraiu, achando por um segundo que ela puxaria seus cabelos espremendo sua cara pelo portão. Mas ela apenas passou a mão no canto de sua cabeça, fazendo um cafuné.
– Não se sinta assim – ela falou numa voz carinhosa que
Ian nunca havia ouvido sair de sua boca. – É difícil pra todo mundo no começo ter uma equipe enorme seguindo o tempo inteiro, eu cobrando sem parar, ainda mais nesse momento tão complicado que é ter um filho quando você ainda é praticamente uma criança.
Ian arregalou os olhos. Catarina retirou a mão da cabeça
do rapaz sem arrancar nenhum tufo de cabelo.
– Por que você está aqui mesmo? – Ian pergun tou com
cautela, aproveitando a afabilidade repentina de Catarina.
– Isso aqui é um reality show – Catarina disse. – A gente
vai filmar o seu dia. Hoje vamos filmar você dando aula para o menino do tênis. Você precisa conferir os e-mails que eu mando com mais calma, a sua agenda de gravação está lá. Mais profissionalismo, o.k.? Vai se arrumar logo, vamos esperar na van.
Ian respondeu um “aham” confuso e entusiasmado e
correu para dentro de casa para se trocar. Mal podia esperar para contar a Emília que estava tudo bem. Só queria saber o que o médico havia dito a Catarina. Qual seria o motivo de ele não ter avisado sobre a gravidez falsa de Emília?
Assim que entrou na van, ele não se conteve: – Deu… tudo certo? Quero dizer, lá no consultório? – Ian perguntou assim que o automóvel partiu. – A gente
ainda tá no programa, tá tudo certo, né?
Ela parou e olhou para ele, séria.
– Isso aqui não é um reality show com eliminatórias. Nós
assinamos um contrato e assumimos um compromisso que vale muito dinheiro. Vocês só vão sair desse programa se algo muito, muito grave acontecer. E, se isso acontecer, eu não vou apenas tirá-los do programa. Mas vou matá-los. Com as minhas próprias mãos – Catarina disse. – Agora, se deu certo? É óbvio que não. Olha o vexame que vocês dois deram! ouça, não me importo que vocês sejam loucos. Ninguém liga a TV pra ver gente normal e chata. Mas sabe o motivo de esse programa acontecer?
– É... mostrar a realidade dos jovens que…
– Dinheiro – Catarina o interrompeu com um sorriso de
canto de lábio. – isso que você disse é o que a gente fala para quem assiste. Era nisso que vocês deviam ter pensado antes de fazer o que fizeram no consultório do dr. Rômulo. Ele é um dos patrocinadores desse programa e tem uma reputação a zelar. Ele não quer se envolver com gente escandalosa que duvida das suas habilidades médicas.
Ian engoliu em seco.
– Dr. Rômulo falou alguma coisa?
– Ele pediu que eu esperasse um tempo, depois me
chamou e se recusou a gravar o depoimento para o programa. Eu estava prestes a acabar com a vida de vocês – Catarina falou, apertando os dentes. – Mas no fim ele disse que fazia questão de manter o patrocínio, desde que ficasse claro no programa que a Emília estava sendo tratada na clínica do dr. Mauro Bench, o concorrente dele.
Ian ficou em silêncio tentando buscar um sentido no
pedido do médico.
– Você sabe por quê? – o rapaz finalmente perguntou. – É claro que ele quer que o concorrente trate dos
participantes malucos porque acha que iriam prejudicá-lo. Sinceramente, não sei como você e a Emília poderiam causar um problema grande o suficiente para a carreira dele. Afinal, nós podemos sempre editar o material da forma mais apropriada. Mas, enfim, concordei com a ideia de vocês citarem apenas um “dr. Mauro”, sem o sobrenome, para não causar problemas. Todo mundo vai associar àquele dr. Mauro.
Ela explicou que a clínica de dr. Rômulo era dos dois antes
de o sócio encontrar uma brecha no contrato e quebrá-lo, saindo e levando consigo metade de todo o capital da empresa. Rômulo quase faliu, e os dois passaram a ser considerados rivais, já que na primeira temporada apareciam juntos no Novos Pais e dividiam outdoors da clínica sorrindo, um ao lado do outro, por toda a cidade.
Catarina disse não ter entendido bem o pedido do dr.
Rômulo porque um casal maluco, como ela definiu, traria, inclusive, benefícios para o médico. Eles chamariam mais atenção, e consequentemente o médico ganharia mais espaço.
Mas não um casal que estava mentindo sobre a gravidez,
pensou Ian.
Se em algum momento o segredo fosse revelado, a mídia
não perdoaria o médico responsável, que perderia sua credibilidade. Mas a esta altura a intenção de Ian não era revelar o segredo em momento algum. Ele não iria deixar isso acontecer.
A menos que o próprio dr. Rômulo o revelasse.
O carro da emissora havia acabado de chegar à frente do condomínio de Caio. De longe, o porteiro observou o automóvel. Não era a primeira vez que uma emissora de TV visitava aquele condomínio.
– Ian, vou avisar dona Estela, tudo bem? – Quando estava
sozinho, ele podia entrar sem precisar ser anunciado, mas, dada a companhia, o porteiro achou prudente comunicar. Ian concordou com a cabeça. Ele estava no banco do passageiro. Sentou ali durante a viagem para ensinar o caminho.
– Espera aí – Ian se tocou do que o homem havia dito e
perguntou, assustado –, ela tá em casa?
– Hum, acredito que sim. Não vi o carro dela saindo essa
manhã – ele respondeu com o interfone no ouvido, enquanto esperava a ligação ser atendida.
Ian começou a pensar que deveria tê-la avisado. Mas não
podia se culpar porque não teria como adivinhar que ela estaria em casa justo no dia da gravação. Estela nunca estava em casa.
Seus pensamentos foram interrompidos com o barulho
motorizado do portão de ferro se abrindo. O porteiro acenou com a cabeça para o motorista, que seguiu até o estacionamento.
– Posso conversar com a Estela antes da gente filmar? Eu
meio que não avisei que… isso iria acontecer – Ian abordou Catarina, enquanto os equipamentos eram retirados da van.
– Tá bom, vai lá – ela acenou com a mão. – A gente
também precisa da autorização de imagem, afinal.
Ian correu até a casa de Caio e tocou a campainha. Quando
estava prestes a tocar pela segunda vez, a porta se abriu e quem atendeu foi a própria Estela.
Desde que começara a trabalhar para ela, Ian a havia visto
no máximo três vezes. Ela trabalhava nos horários em que ele visitava Caio, inclusive nos sábados.
– Então você tá em casa mesmo – Ian disse, abrindo um
sorriso meio incômodo.
– Como você pode perceber – Estela fez um gesto com a
mão. – Tive uma reunião em casa hoje. Mas eu quero saber o porquê de você ter vindo junto com o carro da TV. Eles te deram uma carona? – ela perguntou.
– Então, sabe aquele programa, o Novos Pais? Eu... Meio
que tô participando dele.
Estela olhou séria para Ian e passou a mão pelo colar
dourado, com as unhas bem-feitas, enquanto pensava. Tinha ficado confusa porque achara que a equipe estava ali para entrevistá-la e que o assessor de imprensa da empresa não a avisara a tempo. Mas então percebeu o que significava Ian participar daquele programa.
– Meu Deus – ela colocou as mãos sobre a boca –, você
vai ser pai nessa idade também?
Ian não entendeu o “também”. Por um momento
imaginou Caio sendo pai, mas a ideia parecia bizarra.
O rapaz não sabia se contava ou não para Estela a verdade.
Não teve tempo para decidir. Era melhor não envolver muita gente na história, ainda mais alguém que podia contar na mão as vezes em que havia conversado.
– Como assim “também”? Tem alguém… esperando um bebê também?
– Não! A nossa… “fábrica” já fechou. Mas é que, espero
que você tenha percebido, sou uma mulher jovem.
– Ian concordou com a cabeça. Havia percebido desde a
primeira vez que a vira: era jovem e muito bonita. – Eu ganhei o Caio mais ou menos com a idade que você tem hoje.
Ian levantou as sobrancelhas, tentando parecer
interessado, mesmo incomodado em deixar Catarina esperando.
– Não deve ter sido fácil, né? – Ian disse, mas não esperou
que ela respondesse. – Você permite que eles filmem o meu dia aqui com o Caio?
Estela caminhou em direção ao sofá, obrigando Ian a
segui-la. Os dois se sentaram um ao lado do outro. Ela se virou para o rapaz.
– Na reunião de hoje, enquanto resolvia os detalhes do
lançamento desse novo projeto da empresa, lembrei de tudo o que aconteceu para eu estar aqui hoje. – Agora que Ian a via mais de perto percebeu que seus olhos estavam vermelhos. Provavelmente o nariz também, mas não era possível enxergar por causa da maquiagem.
Ian balançou a cabeça concordando e olhou em direção à
porta, que permanecera aberta, para ver se Catarina não chegaria a qualquer momento. Lembrou que ela nem ao menos sabia em qual casa Estela morava.
Estela nunca havia conversado com ele daquela forma.
Provavelmente se sentira na obrigação de dar um conselho, já que também havia passado por aquilo.
– Mas sua história foi boa, não foi? Quero dizer, olha esta
casa – Ian girou a cabeça indicando a sala espaçosa.
– É. Na verdade só eu sei disso. Quando as pessoas sabem
que eu era caixa da pizzaria do meu atual marido – Ian concordou –, sempre pensam que dei um golpe. Ele é bem mais velho que eu, mas, quando nos casamos, eu já tinha o Caio e nenhum dinheiro.
– Mas o senhor Rudi também não tinha nada quan do era
mais novo – Ian estava tentando amenizar a situação. Com tanto dinheiro e ninguém para desabafar?
Ele sabia uma ou outra coisa sobre eles do que via na
internet. O casal saía quase toda semana em colunas sociais e dava entrevistas com frequência.
– Sim, ele não tinha nada também. Mas ele não teve um
filho antes de poder ir atrás da carreira. Eu teria feito tudo isso sozinha, se pudesse. Você tá sabendo desse projeto nosso de lançar pizza congelada para vender em mercados do Brasil inteiro? Eu que criei – ela lançou um sorriso singelo para Ian, com orgulho. – A projeção é que, em cinco anos, o faturamento anual da empresa ultrapasse os nove dígitos.
– Uau – Ian nem sabia quanto nove dígitos eram. Teria
que contar nos dedos, mas não o faria na frente de Estela.
– Pois é. Então, primeiro: espero que você apoie a mãe do
seu filho. O filho não é só dela. Segundo: vai ser difícil. Seu sonhos, seu dinheiro, sua diversão. Você precisa ter o triplo de força de vontade pra não deixar tudo se ir por água abaixo.
Ian parecia concentrado, mas na verdade estava apenas
pensando na história de Estela. Ele nunca seria pai tão jovem depois de tanto ouvir sobre isso.
– Mas no final vale a pena, não é? – o rapaz perguntou. Estela engoliu em seco e desviou o olhar. Respirou fundo
antes de responder:
– Eu não sei ser uma boa mãe – ela disse, enquanto alisava
as unhas compridas da mão esquerda com o dedão. – Eu nunca quis, sabe?
O rapaz não sabia como continuar aquela conversa ou
como iria encarar Caio depois de ouvir aquilo. Ela basicamente disse que não queria que ele tivesse nascido, o que é a pior coisa que um filho poderia ouvir. Ian nem acreditava que era possível alguém pensar dessa maneira.
– Assim que ganhei o Caio – Estela quebrou o silêncio –,
tentei fazer de tudo para sustentá-lo. Queria que ele nunca precisasse saber o que é não ter dinheiro, como eu soube. Essa era a minha meta e consegui cumprir. Só que no meio disso eu meio que me perdi.
– Você fez tudo isso pelo Caio? – Ian perguntou, enquanto
puxava os pelinhos de sua perna, pouco acima do joelho, onde o calção esportivo acabava. – Você não acha que no fundo fez tudo por você? Talvez tenha focado mais a meta do que o propósito.
Estela olhou nos olhos de Ian. Ele não conseguiu decifrar
sua expressão. Parecia incrédula e brava e culpada ao mesmo tempo. Como quem desiste de um jogo sério, a mulher respirou fundo e desviou o olhar. Levantou-se, ajeitou o vestido e secou os olhos com os nós dos dedos indicadores, para preservar a maquiagem.
– Você pode filmar o seu dia aqui – falou, séria. Foi até
uma caixa de papelão que parecia ter acabado de ser entregue, pegou um pacote de dentro e entregou a Ian. – Mas use isso. Vou chamar o Caio. – E então subiu para o segundo andar da casa.
Antes de sair, Ian abriu o pacote. Havia uma camiseta
cinza com uma ilustração de pizza no centro e, em letras garrafais, BRENO’S PIZZARIA, nome da rede e do único filho que Rudi teve antes de Estela, circulando as bordas. Ali mesmo ele tirou a camiseta que estava usando e colocou a que Estela entregara.
Durante o tempo que passou com Caio, eles realmente
jogaram tênis. Ian precisou contar a ele, na fren te das câmeras, que iria ser pai. O garoto apenas riu e continuaram jogando. Provavelmente o menino havia guardado as perguntas para quando não tivesse câmeras e microfones por todos os lados.
Ian havia se divertido tanto que, no fim dia, tinha até se
esquecido da conversa que tivera com Estela.