Azeitona
Capitulo 16
16.
Ian estava abalado com o sumiço de Caio. Dizem que as primeiras vinte e quatro horas são cruciais, mas, quando a polícia foi acionada, o desaparecimento já ha via sido notado fazia doze horas.
Haviam se passado mais de doze horas desde então. Caio
perdera o segundo dia de aula e, naquela manhã de sexta-feira, Ian tinha de ir ao estúdio da emissora para uma gravação do Novos Pais, mesmo estando devastado e com medo.
A gravação daquele dia não era tão cedo, então Emília e Ian
se encontraram na escola e foram a pé até a entrada do metrô, quase sem trocar palavras. Os dois não tinham muito que esconder agora – a irmã de Ian já sabia de tudo e o namorado de Emília também. Só precisavam manter Catarina acreditando na história até o fim do programa.
A gravação daquele dia era misteriosa. Ninguém sabia o
que iria acontecer. Mesmo dentro do estúdio não era possível ver nada. Todos os participantes estavam atrás de uma grande tapadeira, que os separava de onde aconteceria a gravação. Catarina os posicionou atrás de uma porta que se abria para os lados, como a de um elevador, e que revelaria o palco onde gravariam.
Por sorte, lisa também tinha chegado um pouco mais
cedo, então ela e Emília fizeram companhia uma à outra. Emília não queria perguntar o motivo de Ian estar tão quieto. Sentia-se culpada por estar pensando na ideia que o namorado havia dado, antes mesmo de decidir se iria seguir com ela.
Após sair do shopping com lisa, no dia anterior, ela se
encontrara com Gael, que explicara seu plano. O namorado queria que ela dissesse que o bebê não era de Ian, e sim dele. O que faria Ian sair do programa recebendo um cachê que mal pagava um jantar.
Com ela e o namorado recebendo o dinheiro, os dois
poderiam escolher entre morar juntos ou viajar ou fazer o que quisessem com dinheiro.
– Você precisa contar para a produtora sobre isso na
próxima vez que a vir – Gael disse. – se o seu coleguinha disser que você nunca esteve grávida, eu consigo um exame de gravidez e até um de DnA, mas a gente vai participar desse programa juntos. Eu estou preparado.
O problema era que Emília não sabia se estava preparada
para fazer isso com Ian. Sentia que estava traindo o colega apenas de estar ao seu lado sem mencionar a ideia maluca do namorado. Se ela decidisse recusar, nunca contaria aquilo a Ian, então precisava superar esse pensamento.
Catarina começou a explicar como seria a gravação
naquele dia. Assim que terminou, Ian viu todo mundo se movimentando e perguntou a Emília, confuso:
– O que ela disse?
– Ué, ela acabou de falar – Emília respondeu, impaciente.
Então ficou com pena, afinal já estava segurando uma faca pelas costas do colega. – Ela disse que a porta vai se abrir e vamos entrar todos juntos. Vai ser um bate-papo igual ao das outras vezes, mas agora temos convidados especiais.
Ian fez sinal de que havia entendido.
– Você está bem? – ela não se conteve. – Está meio
desligado.
– É por causa do Caio. Sabe aquele menino que eu ensino
tênis? Ele sumiu ontem de manhã. Não sei o que aconteceu, ninguém sabe.
– Ah, caramba. Espero que dê tudo certo. A polícia não
tem nenhuma pista? – Emília perguntou, preocupada.
– Ainda não. Tô com medo de que ele tenha feito alguma
coisa por conta de algo que eu tenha dito.
Emília não sabia o que ele quis dizer com aquilo, mas não
tinham muito tempo para conversar ali. Catarina pediu silêncio porque as portas iriam se abrir naquele momento.
– Acho que você não deve se culpar. Sei que você gosta dele. Seja lá o que tenha dito, não foi sua intenção. Ian abriu com dificuldade um sorriso de canto de lábio, agradecendo o apoio. Emília se virou para a porta, que ainda estava fechada, e soltou o ar pela boca. Ela definitivamente não poderia falar nada para Catarina. Não naquele dia. Não quando Ian estava daquele jeito. A garota balançou a cabeça afastando os pensamentos. Ela não poderia fazer aquilo nem se ele estivesse bem. Era assustador como Gael tinha uma capacidade manipuladora sobre ela.
A entrada se abriu e todos espremeram os olhos com a
intensidade da luz vinda do estúdio. Aos poucos foram entrando e vendo quem eram os convidados. Era possível ouvir gritinhos empolgados e alguns participantes colocando a mão na boca, sem acreditar no que estavam vendo.
Liana e mais duas ex-participantes que haviam se
destacado na última temporada estavam sentadas de frente para as poltronas dos atuais participantes.
– Olá, vocês podem se sentar – liana iniciou a
apresentação. – Fico feliz que estejam animados em nos ver. Vamos bater um papo sobre essa experiência maluca de ficar grávida tão jovem. Quem vai comandar a conversa são vocês. Eu quero saber quais são as suas perguntas para nós.
Liana estava sorridente e não era difícil entender por que
havia sido um dos destaques de sua temporada. Tinha um grande carisma e falava bem em frente às câmeras.
Emília percebeu que ela parecia bem mais magra do que
na TV – um pouco porque não tinha mais duas crianças dentro da barriga, mas também porque de fato havia emagrecido. Com isso, ela aparecia em várias revistas falando da dieta. O cabelo também estava mais loiro e a maquiagem, mais iluminada.
– Por que você decidiu expor sua vida no programa? –
Priscila perguntou.
– Com licença, meninas – Catarina chamou a aten ção para
si, estalando os dedos. – As perguntas são sobre gravidez, o.k.? Não vamos focar o programa.
– Pelo dinheiro – liana respondeu sussurrando, como se
contasse um segredo a Priscila, e depois riu, junto com os outros participantes. Provavelmente se identificaram com a franqueza da garota. – Eu queria dar uma vida melhor pra minha filha.
Lena levantou a mão e liana acenou com a cabeça para que
ela fizesse a pergunta.
– Quão desesperada você ficou quando descobriu sobre a
gravidez?
– A forma como eu descobri foi desesperadora por si só.
Eu trabalhava em uma loja de calçados e fiquei o dia inteiro tentando bater minha meta. Quando cheguei em casa, cansada, trouxe comigo um teste de farmácia que tinha comprado durante o horário de almoço. Estava com medo porque minha menstruação nunca tinha atrasado daquela forma. Eu estudava à noite e fiz o teste correndo antes de tomar banho para ir à aula.
Todos os participantes tinham os olhos fixos em liana. Ela
já havia contado essa história enquanto participava do programa, mas ouvir ao vivo era ainda mais emocionante. Ela continuou:
– Enquanto esperava o resultado, comecei a me ensaboar.
Abri a porta do boxe e vi de longe o palitinho, lá no canto, mostrando o segundo risquinho rosa aceso – ela parecia lutar para manter o sorriso, piscando os olhos em demasia. – Fiquei ajoelhada no chuveiro chorando mais tempo do que poderia e saí de lá desnorteada e atrasada para a aula, com espuma na orelha. Saí com tanta pressa que tropecei na mesa, onde a minha família toda tomava o café da tarde. O aparelhinho, que tentei esconder embolado na toalha de banho que iria levar para estender, voou longe e foi parar nos pés da minha mãe.
– A sua mãe ficou brava? – Lena perguntou. – Ela só conseguia dizer “ah, meu Deus, ah, meu Deus”,
mas não de felicidade. Parecia mais desesperada. Depois veio um “liana do céu...” mais manso, e terminamos a noite com ela acariciando minha barriga. – Emília levantou as sobrancelhas. Em algum momento ela teria de explicar como foi sua experiência ao contar aos pais e teria de inventar algo mais bonito do que a mãe xingando-a enquanto o pai a segurava. – Mas, quando descobrimos que eram gêmeos, aí sim ela quis me matar.
Rosa riu, provavelmente se identificando com essa parte
da história.
– Você pensou em interromper a gravidez? – lisa
perguntou. Todas as garotas ficaram com os olhos vidrados em liana.
– Óbvio – ela respondeu, e esperou a reação dos
participantes. Não se ouvia uma respiração. – E aposto que todas vocês aqui também. Algumas mais seriamente, outras como um lampejo distante. Todo mundo pensa quando acontece nessa idade. Mas não me arrependo de ter continuado. Quando segurei aqueles dois pacotinhos vermelho-arroxeados, ainda deitada na maca do hospital, foi estranho porque sabia que eram meus, mas não pareciam reais. Eu senti que os amava, mas não morreria por eles no primeiro dia. Hoje, sim. E toda vez que meus bebês sorriem eu me contorço de fofura e quero morder aquelas bochechas e grudar aqueles rostinhos no meu.
Lisa soltou um suspiro alto que fez todos voltarem os
olhares para ela. A amiga de Emília estava chorando copiosamente.
– Por que você está chorando, minha flor? – liana
perguntou, com carinho.
– Eu... eu ouvi você falando sobre isso em uma entrevista
assim que descobri que estava grávida. Eu queria ter o meu bebê porque ele era saudável e eu poderia criá-lo – lisa limpou o nariz com as costas da mão. – nem minha mãe queria que eu o tivesse, e sigo angustiada desde que decidi continuar a gravidez sem saber se foi a opção certa.
– A decisão certa é a que fala mais alto no seu coração –
liana disse. A garota olhou para Catarina, que balançava as duas mãos em um “x”. Como tinha classificação livre, o programa poderia sofrer penalidades pelo Ministério da Justiça se induzisse a atividades consideradas criminosas, como o aborto era no país. Liana tentou contornar: – Há sempre a opção de entregar a criança para adoção também. A gente nunca sabe quando um aborto vai dar errado e comprometer a sua vida, afinal ele é ilegal.
Lisa encarou liana, como se as duas fossem as únicas
dentro daquele estúdio.
– Não no meu caso – ela disse com a voz serena. Ninguém soltou um suspiro sequer. Catarina, que
acompanhava a discussão contente por liana coordenar tão bem o bate-papo, arregalou os olhos. Apenas Emília e Ian não haviam entendido o que aquilo significava, já que eles nunca tinham precisado pesquisar sobre aquele assunto.
As três convidadas seguiram respondendo às perguntas
dos participantes durante quarenta minutos, agora de forma mais cautelosa. Catarina avisou que a pergunta de Alana seria a última, e a garota quis saber se liana achava que teria tido mais oportunidades caso não tivesse ficado grávida.
Liana respondeu algo sobre amadurecer e abrir os
horizontes para novas possibilidades, quando provavelmente o que queria dizer era que nunca teria ganhado tanto dinheiro se não tivesse tido seus bebês – mas nun ca falaria aquilo na frente das câmeras.
– Ótimo, corta! – Catarina anunciou, cruzando o palco
para agradecer às convidadas.
Como sempre depois das gravações, algumas pessoas
começaram a conversar em pequenas rodinhas. Outras, incluindo lisa, foram conversar e tirar fotos com as ex-participantes. Emília a acompanhou.
– Pessoal, nós três – liana apontou para as outras duas
ex-participantes – temos mais algumas coisas pra gravar aqui mais tarde, então vamos estar na lanchonete aqui do prédio agora, caso vocês queiram continuar o bate-papo com... os temas mais secretos – ela riu.
Após o anúncio, as três saíram da sala, seguidas por quase
todos os outros participantes. Ian se virou para falar com Emília antes que ela as seguisse.
– Eu não vou poder ficar, vou até a casa do Caio para ver se posso ajudar com alguma coisa. Tudo bem você voltar sozinha?
– Claro, tudo bem – Emília balançou a cabeça
efusivamente. – E me avisa se vocês o acharem, vou torcer pra dar tudo certo.
Ela não pareceu genuinamente interessada, mas Ian
agradeceu e se despediu com um beijo no rosto. Emília o viu sair, certa de que não deveria acatar a sugestão de Gael.
– Emília, vem cá! – Catarina a chamou para o canto. Duas
rodinhas de conversa não tinham sido desfeitas e estavam no meio do estúdio enquanto o palco era desmontado. – os seus pais precisam participar de alguma gravação – a produtora disse, com os olhos arregalados. Sua intenção aparentemente era meter medo.
–A irmã do Ian ainda não apareceu – Emília se justificou. – Nós temos a formatura da irmã do Ian confirmada para
semana que vem. Mas nada ainda de seus pais.
– Eu disse pra você que os meus pais são envergonhados,
não disse? – Emília rebateu. – E no contrato não diz que eles precisam aparecer.
Rebeca voltava do banheiro enquanto observava a garota.
Parecia uma cobra, lentamente rodeando a presa para esmagá-la de súbito.
Enquanto Emília e Catarina discutiam, Rebeca correu os
olhos pela sala e parou num celular enfiado no vão do encosto de braços na poltrona de Emília. Como quem não quer nada, sentou-se na poltrona e passou a mão pelo vão, levando o celular até o meio das coxas. Segurou o aparelho enquanto com a outra mão o cobria para não levantar suspeitas.
Assim que pressionou o botão de início, leu a última
notificação de mensagem que havia chegado para Emília. Gael dizia: “Já contou para a produtora? Espero que ten...”. O restante ela não pôde ler porque precisava sair da tela de bloqueio e o celular de Emília pedia senha.
Rebeca deixou o aparelho onde estava quando viu que não
havia mais nenhuma informação que pudesse tirar dali e foi até a porta, encaminhando-se para a lateral da tapadeira. Seu namorado já tinha saído e a esperava do lado de fora para irem para casa. Escorouse na parede e tentou decifrar a mensagem, ligando-a com o dia em que pegou a Emília roubando os enchimentos do reality.
De repente tudo fez sentido: Emília não estava grávida e o
tal de Gael a estava pressionando para que contasse a Catarina.
Ao final da discussão, sem conseguir convencer Emília, a
produtora disse que marcaria uma data por e-mail. Ao sair, Emília revirou os bolsos e a bolsa à procura do celular. Procurou também na poltrona em que se sentara e sentiu um alívio quando o encontrou.
Não viu mais Catarina nem as outras colegas do reality na
sala. Então se dirigiu à lanchonete. Antes que pudesse abrir a porta, foi parada por Rebeca, que sorria. Mas não era um sorriso alegre ou simpático – era um sorriso sarcástico e ferino, quase assustador.
– Ei, vem cá – ela chamou Emília para a parte mais escura
por trás da tapadeira, deixando o clima ainda pior. – Eu não tinha certeza quando vi você roubando aqueles enchimentos, mas agora eu tenho. Você não está grávida – ela disse, cutucando a barriga da garota com o dedo indicador.
Emília se esquivou. Ela não conseguia enxergar direito a
expressão de Rebeca no escuro. Mas sabia que a sua era de desespero.
– Quem te disse isso? – perguntou Emília. – Gael.
– De onde você conhece o meu namorado? – bradou num
impulso.
Rebeca pendeu a cabeça para a direita e abriu um sorriso
torto, que abriu espaço para uma risada logo em seguida.
– Essa é uma nova informação pra mim. Mas melhor
assim. Quanto mais podres, mais você vai precisar me ajudar... Bom, eu vi o recado dele no seu celular – Rebeca explicou. – E agora eu quero uma ajuda em troca da minha discrição.
– Ahn? Que ajuda? – Emília perguntou, mais por
curiosidade do que por disposição em ceder às chantagens da colega.
– Quando passei por você e pela Catarina agora há pouco, ela estava dizendo que haveria uma formatura em que você e Ian estariam e que seria gravada. Quero um convite pra mim e pro meu namorado – disse, pousando a mão na barriga. Se essa era a tarefa, Emília pensou, eu já estou livre. – E também quero que você fique com o meu namorado na frente das câmeras durante a festa.
– O quê?! – Emília achou graça. – Você é tão ridícula que
está me chantageando em troca de um ingresso pra uma festa e um pouco de carinho no seu namorado?
– Estou chantageando você em troca de ser a vítima do
grande escândalo desta temporada do reality. Todos nós estamos aqui pelo dinheiro, e eu pretendo ganhar ainda mais quando sair daqui, então não posso ser só mais uma. – Ela passou as mãos pelo cabelo. Emília estava com vontade de fazer o mesmo e puxá-los, arrastando a cara da garota pela parede. – ouça, ou você faz isso ou conto tudo o que sei. Não sei como você conseguiu entrar nessa sem estar grávida, mas não vai querer perder esse dinheiro depois de tanto tempo investido. Então beija o Arthur durante a formatura e na frente das câmeras. Se Catarina sair daquela festa sem pegar isso... já era pra você.
Rebeca achava que sabia tudo, embora não estivesse nem
perto disso. Emília voltou a considerar colocar Gael no lugar de Ian. Afinal, o que era melhor? Ser denunciada por Rebeca e ela e Ian perderem o dinheiro ou colocar Gael na jogada, forjar um teste de gravidez e um de DnA, para que ninguém suspeitasse dos dois, e ainda por cima fazer Rebeca sair como a louca da temporada?
Tudo bem, Rebeca. Vou fazer o que você quer – Emília
disse. Precisava de tempo para encontrar uma solução e não queria Rebeca no seu pé. – Vou beijar o seu namorado na frente de todo mundo na festa de formatura da irmã do Ian.