Azeitona
Capitulo 6
6.
A manhã seguinte na escola seguiu como se nada tivesse acontecido para os dois. Ian estava tranquilo com o rumo da situação. Em breve conversaria com Emília e, se ela não topasse entrar nessa com ele, talvez fosse até um sinal. Bastava dizer a Catarina que a namorada tinha dado para trás e evitar de vez uma dor de cabeça maior.
Eloy achou estranho ela não tentar puxar algum assunto
com Ian nem querer conversar “sobre o trabalho”. Ele ainda acreditava que os dois iriam tratar de temas amorosos naquela tarde.
Ian viu de longe, quando chegava em casa, que o cunhado
estava lá, pois seu carro estava estacionado em frente ao portão. Quando Iris e Leo tinham algum tempo livre, ela cozinhava e eles almoçavam juntos. Ela não se aventurava tanto na cozinha, mas os pratos simples que fazia eram deliciosos. Naquela tarde, tinha feito um peixe assado com purê de aipim e uma salada de rúcula, tomate e palmito.
Ela e o namorado eram empreendedores, então o assunto
quase sempre acabava em trabalho. Mesmo atuando em ramos diferentes, os dois tinham histórias engraçadas de clientes. As de Leo ganhavam em disparada, uma vez que seus clientes eram excêntricos o suficiente para contratar um arquiteto para construir uma casa de cachorro. Iris só não ficava de fora porque em festas infantis acontece muita coisa.
– As pessoas perguntam se vejo muita coisa nas festas de
quinze anos – ela disse, antes de fazer uma pausa para mastigar o pedaço de peixe que havia colocado na boca. – Mas as festas de um ano... elas são as piores.
Iris explicou que as mães se juntavam num canto para
conversar e, como as crianças não tinham idade para lembrar o que estavam ouvindo, elas discutiam absolutamente tudo. Enquanto passava por elas, ajudando as garçonetes depois que a festa já havia começado, a irmã de Ian ouvia frases soltas:
– ...sim, beterraba tem bastante ferro...
– ...puxa com força e aí está um nó de caminhoneiro... – ...a isabel agora que está começando a tentar levantar,
cada um tem o seu tempo...
– ...depois que você compra sua primeira arma ilegal,
nunca mais quer saber de...
– ...o Julio joga a mamadeira longe, ainda tenho que ficar
segurando...
Depois do almoço, Ian foi para o quarto e começou a reler todos os papéis do Novos Pais deitado na cama, meio desajeitado, com uma das pernas para fora. Algumas partes assustaram Ian, como a multa gigantesca caso ele decidisse rescindir o contrato. Também não seria permitido aparecer em outras emissoras. Bom, se consegui nunca aparecer em nenhuma emissora até agora, acho que posso fazer isso por mais alguns meses…
O que a grávida tinha falado no consultório depois que
Catarina saiu, sobre os participantes ficarem conhecidos no país inteiro, é que não tinha saído da sua cabeça. Ele se lembrava de ver até pôsteres do programa pela cidade, mas não sabia que era algo tão popular. Como manteria a história do bebê depois que o programa acabasse se a imprensa ficasse em cima dele?
O relógio já marcava 13 horas e pelo jeito sua irmã ainda
não havia saído para trabalhar. Não seria nada legal conversar com Emília enquanto Iris estivesse em casa. Saiu do quarto e foi dar uma volta pela cozinha para verificar. Ela ainda estava conversando com o namorado. Ian não parou para prestar atenção na conver sa, mas era alguma coisa sobre a casa nova que iriam procurar em breve.
Ele voltou para o quarto. Começou a ensaiar baixinho
como começaria a explicar para Emília o que tinha acontecido.
– Olha só, Emília, senta aí. Na verdade, não chamei você
aqui pra fazer o trabalho.
Será que eu já falo assim? E se ela sair correndo sem querer
ouvir nada?
– Sabe o nosso trabalho? Então, antes disso precisamos
conversar sobre uma coisa: recebi uma proposta para participar do Novos Pais e... eu sou novo. Mas, bem, ainda não sou um pai. Para acreditarem que sou um pai, preciso de uma garota. E você é uma garota. Eles pagam muito dinheiro para quem participa. A menos que você seja muito, muito rica, dinheiro é uma coisa de que a gente sempre precisa. Ainda mais quando está prestes a entrar na faculdade. A gente pode entrar junto nessa e...
Desta vez todo o discurso fluiu. Ele tentava cuidar para
que ela não pensasse que ele estava querendo usá-la. Até porque os dois sairiam ganhando. Ian repassou mais uma vez o discurso, tentando explicar tudo mais rapidamente – se ela tivesse menos tempo para pensar, talvez tivesse mais chance de aceitar.
– Ian? – Iris bateu à porta e a abriu. Ian levou um susto
que o fez soltar um suspiro muito alto. – nossa!
– Você não pode bater antes? – Ian perguntou, ajeitando-
se na cama e colocando os papéis atrás de si. – Precisamos “trabalhar melhor” minha privacidade.
Nos eventos que ele acompanhava, sempre ria de Iris
dando ordens como: “Precisamos trabalhar melhor esses arranjos”, “Vocês têm que trabalhar melhor a posição dessas cadeiras”, “Tem um pedaço da imagem saindo da tela! Tem que dar uma trabalhada nesse projetor”.
– Você precisa trabalhar melhor a louça agora – Iris disse.
Em seguida, despediu-se do irmão e saiu para trabalhar. Ele a seguiu até cozinha e se despediu do cunhado também.
Enquanto lavava a louça, listou o restante das atividades daquele dia – aula de tênis para o Caio às 16 horas, depois de convencer uma colega de escola a participar de um programa de televisão para casais adolescentes esperando bebês. Um pouco diferente do que estava acostumado, mas tudo bem.
Três buzinas seguidas o tiraram do transe enquanto
lavava a louça. Ele vinha passando a esponja nos pratos num movimento automático, com o pensamento muito além da pia da cozinha. A casa não tinha campainha, mesmo ele e a irmã sabendo que precisavam de uma porque nunca ouviam as pessoas chamando. Talvez resolvessem isso depois que retirassem o anjo da sala.
Ian correu para a rua. Duas vans enormes estacionavam
em frente à sua casa. Na verdade, as vans não eram enormes, elas eram do tamanho de vans. Mas eram estranhas porque ele esperava apenas um veículo, que imaginava não ser uma van.
Ele tomou um susto quando reconheceu o logotipo
estampado na lateral do automóvel. Catarina desceu. Seu cabelo ruivo parecia reluzir debaixo do sol.
– Boa tarde, Ian – Catarina disse alto, para que ele
escutasse de longe. – se tudo der certo, você ainda vai ver muito esse pessoal – ela apontou para a equipe. Contando Catarina, eram oito pessoas, distribuídas em duas vans cheias de equipamentos de luz e gravação.
Ian diminuiu o passo enquanto chegava perto do portão,
usando esse tempo para analisar o problema que daria se Emília chegasse enquanto aquele pessoal ainda estivesse ali.
– A garota… – Catarina checou no tablet que carregava
consigo e se corrigiu. – A Emília já chegou?
Ian ficou parado em frente ao portão, sem responder e
sem saber se o destrancava ou não. O maior problema – ele pensou, vendo o tanto de pessoas que estavam ali trabalhando naquele projeto – não era mais Emília descobrir e achar uma loucura, ficar brava ou dar um piti. O problema era enganar tantas pessoas. Ali estavam apenas oito das centenas envolvidas no programa, incluindo os executivos da emissora, sem considerar os milhões de telespectadores que assistiriam ao reality.
– Não, ela não está aqui. Mas eu estava pensando em
conversar com ela a sós agora. Não sabia que vocês viriam – ele percebeu atrás da porta de uma das vans que dois homens montavam uma câmera enorme.
– Mas não precisa se preocupar! A gente vai gravar um
pouco com vocês agora só para ter algumas imagens, em geral isso nem entra no programa. Como falei pra você, é só um teste, digamos assim.
– Mas…
– Eu me interessei muito pelo perfil que você me passou
no e-mail, mas precisamos ter certeza de que vocês são o casal que procuramos. Estamos muito atrasados. Hoje de manhã gravamos com outro casal – ela explicou, pacientemente. – Tá, você não vai abrir o portão? Tá meio calor aqui embaixo desse sol. – Já não parecia mais tão paciente.
Ian abriu, ainda meio receoso. Catarina foi entrando e
analisando a parte de fora da casa.
– Gente – ela gritou para os funcionários próximos da
van –, estacionem mais pra frente para pegarmos imagens da fachada. – E então se voltou para Ian. – Amei o jardim. FAZ UMAS IMAGENS DO JARDIM – voltou a gritar para a equipe.
Ian percebeu que ela era agitada. Talvez a profissão
exigisse que ela fosse assim. Descarregaram duas câmeras e uma infinidade de tripés de ferro com luzes em bolsas pretas. Diversas vezes, enquanto conversava com Ian, ela dava ordens para alguém da equipe. Como se tivesse olhos atrás da cabeça, o que não era um bom sinal para Ian.
– Gente, quem tem um anjo fazendo xixi na sala? – ela
disse, maravilhada, para si mesma.
– É que quando cho...
– IMAGENS DO ANJO – Catarina estalou os dedos para um
dos cinegrafistas, interrompendo Ian.
O olhar de Catarina foi da estátua para a estante da sala em poucos segundos. Ela encontrou algumas fotos de família e queria saber quem era quem.
– Sua irmã é linda, hein. Realmente muito nova – Ian
havia contado que ela praticamente o havia criado. – Como é a relação de vocês? Vocês brigam como irmãos normais?
Ian tentou chegar mais perto para ver quais fotos ela
olhava. Tinha três porta-retratos, sendo uma foto da mãe quando era jovem, uma só da irmã, de quando tinha começado a faculdade – era essa que Catarina tinha visto; a única coisa que tinha mudado em Iris eram algumas marquinhas a mais nos olhos quando sorria –, e na outra apareciam os três num parque aquático. Ian estava com duas boias nos braços, sendo segurado pela mãe.
– Não brigamos muito – ele disse, olhando para a foto da
irmã e tentando resgatar alguma briga mais grave. – É como se você tivesse apenas uma roupa bonita. Você só a usa em ocasiões especiais porque cada vez que lava ela fica mais velha.
Catarina tirou os olhos dos porta-retratos e encarou Ian
por alguns segundos, surpresa. Balançou a cabeça e voltou à fotografia.
– Vocês parecem ser bem amigos também, é verdade? Do
tipo que conta segredos e tudo?
Ian engoliu em seco.
– Ela tem esse senso maternal e protetor que às vezes me
incomoda, mas eu diria que somos amigos, sim. Não de contar tooodos os segredos, claro.
Catarina saiu em direção à cozinha, antes mesmo de Ian
completar a frase. Ele a acompanhou.
– Parece ser um relacionamento bem bonitinho. Pra TV
talvez a gente tenha que colocar alguma ação, né? – e deu uma risada gentil. – As pessoas gostam de relacionamentos assim, mas, se não tiver conflitos, não têm graça.
Ian estranhou o comentário. Um reality show não deveria
mostrar justamente a realidade?
Nos poucos minutos em que estava ali, a equipe transformara a sala – e parte da cozinha – de Ian em um estúdio de TV. Os tripés de ferro seguravam luzes gigantes. Na ponta de uma vara enorme, como aquelas de salto em altura, havia um microfone coberto com uma espécie de pelagem cinza, segurado por um senhor de uns cinquenta anos com bigode, fone de ouvido e pochete.
Ian não fazia ideia de que eles usavam tanta coisa assim
para gravar um programa de TV como aquele. Parecia tão simples – só ligar a câmera, apontar para os participantes e deu.
Catarina saiu por alguns momentos, quando foi até a van
buscar alguma coisa ou retocar a maquiagem impecável.
– Fala alguma coisa aí para eu regular o nível do som – o
senhor do bigode falou.
– Alguma coisa.
– Fala mais – Ian desconfiou de que ele já tinha ouvido
aquela piada mais de uma vez e por isso nem se deu ao trabalho de esboçar um sorriso.
– Hum… Bom, tem um monte de coisa na minha sala.
Tiraram meu anjo do lugar… É bom que não chova. Aliás, não faço ideia como pode ficar natural gravar um programa que mostra o dia a dia quando tem três toneladas de lâmpadas ligadas na minha cara...
– Tá bom – o homem o interrompeu.
A equipe parecia não manter muito contato com os
participantes do programa.
Catarina entrou na cozinha novamente, com o batom
vermelho mais forte. Ela se sentou em uma cadeira e indicou a Ian que fizesse o mesmo na que estava à sua frente.
– A gente vai gravar tipo uma entrevista – ela explicou. –
Como eu disse, só pra conhecer você. Eventualmente, se você for selecionado, vai ter vários desses depoimentos exibidos entre as cenas do programa. Você já deve ter viso, sabe como é.
Ian concordou com a cabeça e se sentou. Por causa da
quantidade de luzes em sua direção, ele mal conseguia enxergar Catarina, que estava apenas dois metros à sua frente.
– Não sei como as pessoas conseguem pensar antes de falar qualquer coisa com esse monte de lâmpada na cara – Ian apertou os olhos para limitar a passagem de luz.
– Esse é o segredo do sucesso do programa – Catarina
disse, sorrindo. – Falar sem pensar. – Esse tipo de reality parecia tão apelativo. Ian começava a se perguntar se os produtores de fato incentivavam aquilo e se os participantes tinham noção do que faziam.
A equipe preenchia toda a cozinha e parte da sala de Ian
com os equipamentos. Cada câmera tinha um operador e um assistente. O assistente ajudava a montá-la e garantia que, numa cena com movimento, o operador não caísse, segurando-o pela cintura. Parte para que ele não se machucasse, mas, principalmente, para que 80 mil reais em equipamentos não se espatifassem no chão.
Catarina deu alguns toques na tela do tablet e olhou para
Ian, indicando que iriam começar naquele momento. Uma integrante da equipe pediu licença para dar um aviso.
– Parou um carro ali na frente, não devemos filmar? – Não! – Ian interveio antes que Catarina pudesse
responder. O rapaz levantou-se rapidamente, lembrando-se da única pessoa que estava para chegar naquele momento. – Por favor, não quero que filmem agora – ele já estava calmo naquele ponto achando que Emília não viria mais, que tinha esquecido. Estava atrasada e não tinha falado com ele na aula mais cedo. Eu espero que ela tenha esquecido.
Ian pensou melhor. Se fosse a segunda possibilidade, sua
irmã, seria pior ainda. Mas o que ela estaria fazendo ali? Poderia ter acontecido algo. O coração de Ian começou a bater mais forte e sua boca secou quase instantaneamente.
Colocou a cabeça pela janela atrás da pia e não reconheceu
o carro.
Só podia ser Emília.
Catarina fez um movimento com a mão para os
operadores de câmera indicando que não filmassem. Isso porque aquilo era apenas um teste. Quando o programa era gravado para valer, ela fazia de tudo e mais um pouco para pegar cada passo dos participantes – os bons e, principalmente, os maus momentos. Barracos, discussões, erros, coisas tristes e chocantes. Porque era assim que a TV funcionava, e era isso que as pessoas queriam ver.
E, dependendo do que fosse acontecer nos minutos
seguintes, seria algo parecido com isso que viria à tona. Emília viu a cabeça de Ian saindo pela janela e se virou para a mãe, avisando que ele a havia visto, e saltou do carro.
Ian continuou na mesma posição, fechou os olhos e
respirou fundo, tentando encontrar algum resquício de calma para seus nervos. Não tinha como isso acontecer da pior forma.
Ian repetiu o trajeto que fizera ao abrir o portão para a
equipe, pouco menos de meia hora antes. Todos ficaram esperando dentro da casa.
Quando ele chegou próximo ao portão, Emília já estava
fora do carro, abraçada à bolsa da escola.
– Desculpa o atraso. Minha mãe não conseguiu sair mais
cedo por causa do trabalho – Emília a indicou apontando por cima do ombro, sem se virar.
Ian levantou a mão cumprimentando a mulher, que
espiava de dentro do carro a filha passando pelo portão. Ela respondeu com um meneio de cabeça. Em seguida, deu partida no carro e saiu. Provavelmente elas já tinham se despedido, mas Ian achou estranho Emília nem ao menos olhar para trás.
– Que lindo esse jardim – Emília disse. Havia colocado a
mochila de lado e cruzado os braços. – Vocês não passam ali por dentro? – Ela falou, depois de perceber que Ian havia saído pela traseira da casa e não pela entrada principal, junto do jardim.
O caminho até a porta dianteira era num formato de
zigue-zague, de grama, que Ian cortava todos os meses cuidadosamente, para não destruir nenhuma das folhagens ao redor. Dentro daquele caminho, não era possível ver quase nada além dos coqueiros, das árvores e das folhagens que o circundavam. Pelo chão também era possível ver begônias de várias cores e uma roseira volumosa logo no início.
A casa ficava nos fundos do terreno. Também era possível
chegar até a entrada seguindo a linha reta por onde o carro de Iris passava e entrar pela porta traseira. Do lado de fora, via-se apenas a lateral da construção, por onde Ian espiava quando alguém o chamava no portão.
A dona da casa era apaixonada por natureza e foi ela quem
começou a plantar palmeiras e outras árvores no quintal. Depois que a família de Ian a alugou, quando ele tinha apenas três anos, sua mãe continuou cultivando-as – tanto para atender aos pedidos da proprietária como porque também amava aquele verde. Ellen sempre passava pelo caminho em zigue-zague em vez de seguir pela passagem de carros.
Iris continuou cuidando das flores com o irmão e
aparando as folhagens que invadiam a passagem. Especialmente da roseira trepadeira que cobria um arco improvisado. A mãe havia posicionado três ripas de madeiras pregadas na entrada do jardim. Depois plantou a roseira. Tudo durante a manhã, enquanto Ian e Iris estudavam. Ellen nunca chegou a ver as rosas cobrirem o arco, mas seus filhos fizeram questão de continuar regando para que isso acontecesse.
– Então, nós passamos, sim, aí por dentro – Ian
respondeu –, mas é mais rápido indo reto por aqui, porque já saímos direto na cozinha... – a voz de Ian foi diminuindo quando percebeu que Emília já estava entre as folhagens.
– Ah, mas parece ser bem mais divertido vir por aqui –
ela se virou para Ian. – se eu não morasse em apartamento e minha casa tivesse, assim, várias árvores, eu iria passar entre elas todos os dias – ela disse, como se Ian estivesse cometendo algum delito.
Ele estava preocupado. Não poderia demorar muito tempo
ali e não sabia como chegaria ao assunto que interessava.
– A gente se acostuma, na verdade. Passar por aqui era
bonito, no início, mas com o tempo a gente começa a optar pelo lado mais prático. É igual quando você passa pelo mesmo outdoor todo dia, várias vezes: uma hora ele fica invisível.
– É verdade – Emília mordeu os lábios. – E eu acho que
isso acontece com pessoas também – ela disse para si mesma. Antes que Ian pudesse responder alguma coisa, a garota se abaixou, entretida com uma joaninha andando sobre uma pétala branca de lírio.
– Fazia muito tempo que eu não via uma dessas – ela
colocou o dedo calmamente sobre a joaninha, que voou assim que foi importunada.
Emília continuou andando até o fim do caminho e parou,
esperando que Ian abrisse a porta. Os dois estavam sob a sombra da última árvore. Ela formava um desenho no rosto dos dois.
– Emília, olha só – Ian engoliu a saliva, preparando-se
para falar e ganhando alguns segundos para pensar. – Eu sei que a gente não é exatamente amigo… ainda. Mas você parece ser uma menina legal – ela franziu o cenho, com os lábios formando um sorriso gentil em uma linha fina, sem entender muito bem onde aquilo iria chegar. – E por algum motivo eu me lembrei de você quando…
– MEU DEUS! OLHA ESSA LUZ! A IMAGEM ESTÁ LINDA! Os dois levaram um susto, principalmente Emília.
Catarina estava debruçada sobre a janela e, do seu lado, um dos cinegrafistas segurava uma câmera acima dela.
– Você deve ser a Emília – parecia encantada com os dois
no meio daquelas flores com os rostos desenhados pela sombra das árvores. Catarina se esticou para cumprimentá-la, mas desistiu quando viu que Emília estava longe demais. – Vocês dois juntos, meu Deus... lindos. Não posso falar isso, mas acho que tenho meus pré-candidatos favoritos. Entrem aqui porque aí não conseguimos capturar o áudio, venham.
– Você está no quarto da minha irmã?! – Ian perguntou,
com as sobrancelhas esticadas. Àquela altura Catarina já havia saído da janela, esperando que os dois a acompanhassem.
Emília olhou para Ian. Estava com a boca entreaberta e completamente confusa.
– O que foi aquela câmera? – ela perguntou. – E aquela
mulher?
Ian foi até o fim da calçada para ver se ninguém estava
indo buscá-los. Catarina estava com a cabeça para fora da janela da cozinha. Assim que viu o rapaz, começou a fazer um gesto empolgado para que eles entrassem. Ian respondeu também com as mãos, pedindo a ela que esperasse, e voltou até onde Emília estava, longe da visão da produtora.
– Eu juro que explico tudo pra você – Ian disse. – Não é
nada grave, juro. Mas é muito, err, complica do explicar.
Emília balançou a cabeça dando de ombros, indicando que
ele poderia explicar qualquer coisa que já seria de bom tamanho.
– Eu fui num consultório com a…
– Crianças, desculpem – Catarina surgiu repentinamente
do lado da casa –, mas não posso ficar esperando vocês como se eu pudesse fazer isso. Eu tenho uma agenda a cumprir. – Ela foi até Emília e a cumprimentou com um beijinho no rosto. – Catarina.
– Emília – a garota respondeu, desconfiada. – Vem, Emília. Vamos – Catarina segurou seu braço
gentilmente e ela a acompanhou. – Ian? – Catarina olhou para trás e chamou o rapaz, que não teve outra opção a não ser acompanhar as duas até dentro da sua cozinha.
A calçada, revestida de cacos de cerâmica de várias cores,
cercava a casa toda. Emília percebeu, enquanto passavam pela janela da cozinha, no lado da casa, que uma câmera os seguia. A porta já estava aberta. Emília olhou para trás enquanto era guiada pela mão quente de Catarina.
– Não fala nada – Ian balbuciou, e fez um gesto de segredo
com o dedo indicador sobre a boca. – Por favor. – Emília se virou e continuou andando.
Assim que entraram na casa, a garota passou o olhar pelo
ambiente extremamente iluminado por grandes luzes artificiais. Seus olhos se encolheram.
Ian entrou em seguida.
– Que tá acontecendo? – Emília perguntou, com uma das
mãos sobre os olhos.
– Ah, é assim mesmo – Catarina disse, antes que Ian
tentasse contornar a situação –, as luzes, as câmeras… É tudo enorme, mesmo sendo um reality show. Mas todo mundo se acostuma. E... com licença. – Catarina pediu, antes de colocar a mão sobre a barriga de Emília. Ela sentiu um arrepio e ficou paralisada por um instante. Olhou para a produtora e recebeu um sorriso compreensivo; a mulher balançava a cabeça positivamente. Emília sabia o que passar a mão sobre a barriga de uma mulher significava, mas não estava grávida. Portanto, aquilo não fazia o menor sentido.
Ela se virou para Ian.
– O que tá acontecendo? – perguntou, mais incisiva.
Catarina fez um sinal para os cinegrafistas e foi para trás de uma das câmeras. Na mesma hora, os dois posicionaram os equipamentos por cima dos ombros, e o bigodudo colocou o microfone sobre os dois.
Ian olhou para a produtora como uma criança olha para a
mãe sem saber o que fazer, esperando que ela assumisse o problema e o resolvesse.
– Bom, esse pessoal aqui é do Novos Pais – Ian disse.
Emília passou os olhos por todos novamente, e quando chegou a Catarina abriu a boca, lembrando que já havia visto a produtora antes. Ela parece mais alta na TV, Emília pensou. – Eles estão aqui fazendo um teste pra ver se escolhem… a gente… pra participar... eu falei pra você, já – ele soltou uma risada nervosa. – lembra?
– O quê? – Emília soltou um berro indignado. O tio do
bigode fez uma careta, provavelmente porque o fone que usava para controlar o áudio estourou em seus ouvidos.
– Eu sei que você talvez não queira expor nosso… é… bebê
– Ian achou estranho falar isso em voz alta. Deu uma olhada de canto para Catarina, que fez um gesto para ele continuar. – Mas isso vai ajudar outros jovens, como nós.
Emília ficou séria. Não disse nada pelo que pareceram séculos para Ian e balançou a cabeça em desaprovação, como se aquela fosse a coisa mais bizarra que já tinha ouvido na vida.
Ela olhou para as duas câmeras, uma apontando para ela e
outra para Ian. A primeira coisa que passou pela sua cabeça era que aquilo era uma pegadinha. Mas por que diabos Ian iria chamá-la em sua casa para fa zer uma pegadinha? Ela não era ninguém importante. Nem amiga dele era para que isso acontecesse. E qual a porcentagem de pessoas no mundo que já esteve em uma pegadinha na TV? 0,1%? Qual é a chance de isso estar acontecendo comigo?, pensou.
Emília observou todos mais uma vez, sem conseguir ver
os rostos direito por causa da luz. Começou a dar uma risada lenta e incrédula, enquanto a cabeça ia de um lado para o outro. Na mesma hora Catarina se aprumou, parecendo considerar aquela atitude de Emília muito presunçosa para quem queria participar de um programa tão bem-sucedido.
– Nós temos vários casais na lista, na verdade – Catarina
disse séria, encarando Emília. – E o cachê é bom o suficiente pra qualquer pai ou mãe adolescente aceitar, então, por favor, não me façam perder meu tempo.
– Ela se virou para Ian – Você não disse que os dois
estavam de acordo?
A boca de Emília foi aos poucos se encolhendo em um
bico e suas sobrancelhas ficando cada vez mais apertadas, enquanto virava o pescoço em direção a Ian.
Ele ficou assustado ao assistir à cena. Parecia que ela
estava prestes a matá-lo.
– O que tá acontecendo aqui, sério? – Emília não deu
chances para Ian responder para Catarina. Desde que havia entrado, ela não tinha largado a bolsa da escola, que agora apertava contra o corpo.
Emília contou cinco segundos em ordem reversa em sua
cabeça, como se estipulasse um prazo para que Ian começasse a se explicar. Quando a contagem terminou e ele ainda não havia aberto a boca, a garota saiu num rompante porta afora.
Antes de correr para seguir a colega, Ian ouviu um
gemido impaciente de Catarina, que revirava os olhos enquanto os cinegrafistas desligavam as câmeras.
Por sorte, ninguém foi atrás deles. Emília estava prestes a
discar o número da confeitaria de sua família para que alguém viesse buscá-la quando ele a alcançou.
– Desculpa não ter explicado antes tudo e ter deixado isso
acontecer com você – Ian não teve coragem de encará-la.
Emília colocou as mãos sobre a cabeça e, no movimento, a
bolsa que estava em seu ombro rodopiou.
– Só me explica que merda é essa, cara! Eu estou nervosa,
já, e nem sei o que está acontecendo. Porque até alguns minutos atrás eu estava achando isso tudo estranho, mas pensei que fosse apenas problema seu! – Emília umedeceu os lábios, sua garganta também estava seca. – Aquela ruiva da TV passou a mão na minha barriga! Tinha achado que ela fosse sua parente, sei lá.
– Ela não é nada minha – Ian respirou fundo. – o que
aconteceu foi que a minha irmã está grávida. Ela nem sabe de nada disso, nem que essa gente está aqui na nossa casa. Mas, enquanto eu estava com ela no consultório, a Catarina veio e perguntou se eu não queria participar com a minha namorada do Novos Pais – Ian disse o nome do programa mais baixo, como se fosse amenizar a situação –, achando que eu estava aguardando essa minha namorada no consultório. E, quando ela perguntou o nome da minha namorada… eu me lembrei de você. Não sei por quê. Foi aleatório, não sei. A primeira menina que veio à minha cabeça.
– Você pensou na menina mais gorda da sala, que poderia
parecer grávida, e lembrou de mim? Foi isso? – Emília perguntou, mais brava ainda.
– Não! – Ian respondeu imediatamente. – Você não é a
menina mais gorda da sala.
– Eu não sou a mais magra também, sou? Ian encarou o chão. Emília respirou fundo. – Mas por que você fez isso? – A raiva parecia ter cedido um espaço maior à sua curiosidade, mesmo que sua voz ainda parecesse exaltada. – Era só dizer que quem estava lá dentro era sua irmã. Você precisa de um psiquiatra. Não é difícil falar que você não é pai de um bebê quando você não é.
Os dois pararam em frente ao portão. Emília não iria sair
até que alguém fosse buscá-la, mas preferia esperar ali mesmo. Longe daquela loucura toda em que ele tinha se metido.
– Procurei na internet sobre esse programa e tem garotas
que até engravidam de propósito para tentar participar – Ian explicou também que todos que tinham saído do programa haviam se dado bem. Alguns apenas usavam o dinheiro do cachê para sustentar os filhos e nunca mais apareciam na mídia. Outros aproveitavam a fama e conseguiam ainda mais dinheiro. – É uma oportunidade muito rara pra simplesmente jogar fora sem nem pensar duas vezes.
Emília ouviu tudo com atenção. Balançou a cabeça
afirmativamente, como se estivesse tentando compreender os motivos do colega.
– E então? – Ian perguntou.
– O quê?
– Você topa participar comigo?
Emília arregalou os olhos, surpreendida. – Ah, meu Deus... – colocou a mão sobre a testa e balançou
a cabeça. Então voltou a encarar o rapaz. – o.k., eu posso ajudar você. Mas vai demorar muito isso?
– Eu diria que… uns seis meses, se você estiver, tipo,
grávida de uns três meses.
– O quê?! – Emília bradou. – Você quer que eu participe
do programa inteiro e fingindo estar grávida?
Ian olhou ao redor para ter certeza de que ninguém estava
espiando os dois. Ela falava tão alto que o rapaz temia ainda que alguém pudesse ouvi-la. A essa altura já não duvidava de que Catarina poderia estar no meio do jardim com uma câmera escondida. Ele se aproximou de Emília.
– Quanto tempo você achou que seria? Você nunca viu esse
programa? – protestou, num tom mais baixo.
– Achei que você queria que eu participasse disso só hoje!
– Emília disse, brava. – Eu poderia mentir por um dia, se isso rendesse alguma coisa, mas... seis meses?! – Ela então parou por alguns segundos, pensativa. – E você é um babaca! Me fez vir até aqui pra participar dessa loucura e mentiu sobre um trabalho da escola que nem existe!
– Realmente, você não precisaria vir aqui pra fazer o
trabalho – Ian começou a explicar, mas Emília respirou fundo, buscando o número da confeitaria no celular mais uma vez. – Espera! Eu não sabia que eles viriam pra minha casa hoje, chamei você pra conversar, apenas. Eu não poderia falar na escola na frente de todo mundo.
– Não passou pela sua cabeça me chamar e dizer “quero
conversar com você em particular”?
– Você iria? – Ian disse, acreditando ter acabado com as
justificativas da colega.
– É claro que eu iria, seu idiota! Quem você acha que eu
sou, a Rainha Elizabeth? – Ian olhou para ela com uma careta depois de ter sido xingado duas vezes num intervalo de um minuto. – Você acha que eu recusaria ouvir o que você tinha a dizer para ficar morrendo de curiosidade depois?
– Mas nós nem somos amigos.
– Exatamente! – Ao perceber que quase havia gritado,
Emília baixou o tom. – nós não somos amigos, então... o que eu estou fazendo na sua casa cheia de pessoas que acham que eu estou grávida de um filho seu?
Ian não soube responder a essa pergunta porque Emília
estava certa. A garota lançou um olhar de reprovação para Ian e andou até o arco quadrado sobre o caminho cercado de folhagens que levava até a porta da sala. Ligou para a confeitaria e quem atendeu foi um dos funcionários. Seu pai não estava na loja e a mãe não pôde falar porque estava na cozinha, então mandou avisar que só ficaria livre para buscá-la em uma hora.
Emília não tinha dinheiro suficiente para ir para casa de
táxi. Ian foi até onde ela estava assim que percebeu que a garota havia desligado o telefone.
– Eu ainda não pensei em tudo, mas acho que não tem
motivos para se preocupar. É como se estivéssemos participando de um reality normal, isso não é legal? – Ian esperou uma resposta, mas Emília permaneceu estática. – A única diferença é que você precisaria estar grávida. Você poderia usar talvez… aqueles enchimentos e fingir um enjoo ali, um desejo aqui…
– E quando o bebê nascer?
– Que bebê?
– Pois é, Ian.
– Ah, como eu disse, não consegui decidir esses detalhes
ainda. Mas a minha irmã tá grávida, vamos ter um bebê novinho em folha quase na época em que você teoricamente ganharia o nosso. Eu posso ligar pra Catarina no dia dizendo que você ganhou o bebê, sei lá, deitada no tapete da sala. Quando a equipe vier, o bebê já vai estar todo embrulhadinho, e o melhor: vai se parecer comigo.
A última parte quase pareceu fazer sentido para Emília.
Mas usar uma barriga falsa? Não poderia dar certo.
– Ian, eu tenho um namorado de verdade. – Tem? – perguntou, tímido, como se fosse uma
informação nova para ele.
– Sim. Você acha que ele entenderia assim, de boa, ver a
namorada se passar por uma grávida de outro garoto na TV, com todos os amigos dele vendo, com os pais dele vendo? E o que eu diria para os meus pais?
– Mas você pode explicar – Ian disse. – Quer dizer, não
agora. Mas você pode explicar pra todo mundo mais pra frente. Uma hora a gente vai ter que explicar para a nossa família, mas tem de ser tarde o suficiente para que eles não possam mais fazer nada para nos impedir.
Emília encarou Ian. Para quem não havia parado para pensar direito, ele estava muito preparado para os possíveis problemas que poderiam surgir.
– Eu não sei se confio em você. A gente é só colega e você
parece, sei lá, um criminoso falando desse jeito – ela fez uma pausa, pensando duas vezes antes de falar. – Você acha que a pessoa que participa fica muito famosa? De ser fotografada quando vai comprar um hambúrguer e tudo?
– Claro. A foto dos participantes fica por tudo quanto é
lado. Colocaram um outdoor do programa aqui na esquina de casa. Você deve ter visto algum, está pela cidade inteira.
Emília só balançou a cabeça, sem dizer nada. – Mas, sabe – Ian continuou a falar –, eu não me importo
muito com isso. Na verdade, nem acho que é uma coisa boa ser famoso. Mas o dinheiro… o dinheiro viria em ótima hora. Fiquei pensando na possibilidade de poder comprar esta casa para que eu e a minha irmã e o meu cunhado continuássemos morando aqui mesmo depois de ela ganhar o bebê. Então eu iria reformá-la, para deixá-la mais espaçosa. A gente tem muitas memórias aqui pra simplesmente largar tudo.
– Espera aí, comprar UMA CAsA? – o pescoço de Emília
foi pra frente. – De quanto dinheiro estamos falando?
– Não, acho que não daria para pagar a casa toda, mas...
uma boa parte dela – Ian disse. Em seguida, colocou a mão ao lado da boca, como quem conta um segredo, e revelou o valor para Emília. A garota ficou de boca aberta enquanto olhava algumas flores no chão, sem realmente prestar atenção nelas.
– De onde eles tiram tudo isso? Esse dinheiro iria dar para
eu morar sozinha por, sei lá, dois anos – ela voltou a olhar as flores. – Eu trabalho com a minha mãe na confeitaria dela e todo o dinheiro que recebo eu tento guardar justamente porque preciso sair de casa. E não sei se em dois anos eu conseguiria juntar dinheiro para ficar fora nem por, sei lá, seis meses.
A última tentativa de Ian era colocar a responsabilidade
em Emília. Estava na mão dela o futuro dos dois.
– Se você não topar, eu não tenho escolha senão acabar
com tudo agora – Ian começou a olhar para as mesmas flores que ela.
– Eu acho que, se eu fizer isso, minha mãe vai de fato me
colocar pra fora de casa – Emília ponderou.
– Perfeito, você vai realizar seu sonho.
Os dois se olharam. Ian sorriu.
– Você acha que isso é certo, Ian? Mentir assim é uma
coisa terrível – ela disse, arrumando a bolsa no ombro. – Você é terrível.
– Mas e você?
Emília pensou na pergunta de Ian.
– É... talvez eu também seja terrível – ela respondeu,
desistindo de lutar contra aquela ideia que a havia seduzido bem antes do que Ian imaginava.
– O.k., vou fazendo algumas perguntas e vocês respondem para a câmera, tudo bem? – Catarina disse, numa voz mais passiva. Ian e Emília balançaram a cabeça afirmativamente. Ele estava sentado no mesmo lugar que antes, mas agora a colega estava ao seu lado.
– Onde tudo começou? – Catarina terminou de ler a
pergunta do seu tablet e olhou para os dois, sorridente. Os dois foram pegos de surpresa. Pelo menos estavam juntos e poderiam complementar a mentira um do outro. Emília tomou a frente.
– Na escola...
– Espera, corta aí – ela foi interrompida por Ian, que se
dirigiu à mulher que manuseava a câmera acima do tripé, com a voz trêmula. – onde começou o nosso relacionamento, você quer dizer? Porque, se for o bebê, não foi na escola. É bom... Deixar isso claro.
Emília olhou para Ian sem acreditar. Estava começando a
se arrepender de ter entrado naquela roubada. Toda a confiança dela havia sumido de repente. Catarina mandou que os dois continuassem. Eles poderiam responder seja lá o que tivessem entendido, desde que não interrompessem a gravação.
– A gente começou a estudar junto neste ano e… – Espera – foi a vez de Catarina interromper a fala de Ian.
– se você se conheceram neste ano, então fizeram um filho no primeiro dia que se viram? – Perguntou, analisando as datas.
– Nós nos conhecíamos antes – Emília mentiu. – Amigos
em comum. Pouco depois que as aulas começaram, a gente se encontrou numa festa, há três meses – ela pronunciou a data lentamente, garantindo que Ian pudesse corrigi-la se desse alguma informação errada –, começamos a nos falar e daí aconteceu. Nós viemos aqui pra essa casa, e os pais dele estavam viajando.
– Irmã – Ian corrigiu rapidamente. Emília olhou para ele
e sorriu.
– E o milagre da vida – a garota disse, enquanto passava a
mão sobre a barriga – aconteceu bem atrás daquela porta.
– No banheiro? – Catarina perguntou.
– Daquela – Emília apontou para a próxima porta do
corredor.
Ian completou dizendo que depois daquele dia os dois
haviam se apaixonado, e tentou pegar a mão de Emília. Ela não queria cruzar os dedos com ele, mas Ian insistiu, fazendo força. Quando viu que não conseguiria, voltou as duas mãos de forma constrangedora para cima das próprias coxas.
Era a primeira vez que eles se tocavam por mais de três
segundos. Ian achou a pele de Emília tão macia quanto ele imaginava. Não que ele imaginasse a textura da pele de Emília com frequência, mas era definitivamente uma pele macia.
– O que vocês mais gostam um no outro? – Eu gosto… – Emília olhou para Ian, tentando encontrar
alguma qualidade de última hora. – não sei, ele é tão fofo. – o elogio saiu um pouco mais forçado do que ela imaginava.
– O que eu mais gosto na Emília é o… é esse amor que ela
tem pelos animais.
Emília virou o rosto para o lado rapidamente e encarou
Ian, na mesma velocidade com a qual os bonecos de plástico dos Power Rangers giram a cabeça quando se transformam.
Ela nunca tivera um gato nem um cachorro sequer. Sofria
de uma alergia que não permitia que ela tivesse nem bichinhos de pelúcia. Os dois não sabiam absolutamente nada um sobre o outro.
– Como foi quando você descobriu que a Emília estava
grávida?
– Bom, eu lembro como se fosse há cinco minutos –
Emília disse, tomando a vez de falar de Ian. – Foi naquele jardim lindo lá na frente – o rapaz engoliu em seco. – nós dois estávamos sob uma árvore grande, como num filme romântico, quando eu disse: “Você vai ser papai de uma linda menininha”.
– Espera – Catarina disse, confusa –, o seu bebê tem o
tamanho de uma azeitona e você já sabe o sexo?
– …ou menininho, por favor, me deixe terminar a frase. E
foi lindo. Choramos. A gente foi no médico, ele me fez fazer xixi no palitinho, de novo, e então tivemos certeza. Eu lembro até hoje das palavras dele. Ele disse: “Você está grávida”.
Catarina preferiu deixar que os executivos decidissem se
eles pareciam um casal apto para participar do programa, apesar das inconsistências. Ela sabia que um médico não faria outro teste caseiro em vez de um exame de sangue, mas os dois poderiam ainda estar nervosos com a primeira gravação.
– No começo pensamos como iríamos criar esse bebê, já
que somos tão novos – Ian começou o discurso tentando se lembrar de todas as cenas parecidas de novelas que já tinha visto. – De onde tiraríamos dinheiro? Como trocar uma fralda? Se eu não posso encostar na cabeça dele por causa da moleira, quando eu vou saber que ela já está dura o suficiente?
– Agora a última pergunta: vocês sabem que vão se expor participando desse programa. Qual a motivação para compartilhar esse momento tão especial com o país inteiro?
– Não é o dinheiro – Ian respondeu prontamente. – Definitivamente não é o dinheiro – Emília concordou. – Nem pensamos sobre o dinheiro.
– Eu acho que ajudaria outros adolescente que também
estão passando por essa situação de..estar com um bebê… de estar esperando um bebê.
– Faríamos isso até se não tivesse dinheiro envolvido –
Ian frisou.
– Sim – Emília disse, – dinheiro é o de menos. Catarina se levantou da cadeira em que estava e encerrou a
gravação. A equipe começou a desmontar os equipamentos enquanto ela foi até o casal.
– Eu gostei muito de vocês juntos. Vocês ainda estão meio
travados com a câmera. Mas isso é normal, todo mundo fica nervoso. Ainda acho que vocês são os que têm mais chances entre os candidatos para entrar no programa, tem algo diferente em vocês…
– Ah é? – Ian perguntou, sorrindo. – Eu acho que é o
amor. – E então colocou o braço direito sobre as costas de Emília e a puxou para perto de si. Catarina riu e concordou. A garota continuou no personagem e sorriu, sem entusiasmo.
A produtora colocou a mão mais uma vez na barriga de
Emília, que se perguntou se ela faria aquilo o tempo todo.
Carregando os equipamentos desmontados, a equipe foi
acompanhada por Ian e Emília até o portão. Antes de entrar na van, Catarina parou e falou para os dois:
– Vocês devem ocupar o lugar de um casal que desistiu.
Estamos fazendo tudo isso de última hora. Vamos definir isso até sexta, e, se der certo, as gravações já começam nas próximas semanas. A primeira de que vocês participariam é uma com todos os casais juntos, no estúdio da emissora. Estou torcendo por vocês – disse, antes de se despedir e embarcar no automóvel.
Ian se perguntou se ela dizia aquilo para todo mundo apenas para garantir a empatia dos casais que realmente fossem escolhidos.
Os dois acompanharam as vans fazerem o retorno em
frente à casa e sentiram um friozinho na barriga quando viram novamente o logotipo enorme da emissora na lateral do veículo.
Emília caminhou em direção às árvores, pensativa. – Caramba… que loucura – ela começou a arrancar
folhinhas sem querer, enquanto processava tudo que tinha acontecido na última hora.
– Sabia que eu meio que queria que você não topasse? –
Ian confessou. Emília virou-se.
– Ah, agora você me diz isso? Você disse que já tinha
pensando em tudo e que não parecia ter grandes riscos.
– O que sei é que isso não vai prejudicar ninguém – ele
disse, encolhendo os ombros. – Bom, nem tudo na TV é de verdade, e no final a gente vai levar disso uma história muito engraçada, talvez.
– Talvez? Você esperou eu topar pra começar a me
confessar que na verdade você não faz ideia do que está fazendo? Olha, espero que você não ache engraçado ser preso, porque não quero contar essa história “engraçada” para os nossos netos imaginários – Emília colocou a mão sobre a barriga de brincadeira, mas o semblante permanecia sério.
Ian riu, mas lá no fundo sentiu o medo se multipli car e
um frio na barriga ainda maior surgir.
Ian acompanhou Emília até o portão quando sua mãe voltou para buscá-la. Os dois tinham ficado conversando por quase uma hora sobre o programa e assistido a vídeos dos episódios anteriores antes de ela chegar.
Ian tentou cumprimentar a mãe da colega com um aceno
de cabeça, mas ela pareceu não ter visto, então foi para dentro antes mesmo de vê-las partir.
O carro estava com um cheiro gostoso, que Emília
conseguia identificar facilmente. Ela tinha sete anos quando a família começou um negócio de chocolate caseiro, com bombons e trufas, que foi dando certo até abrirem uma confeitaria. A maioria dos produtos de lá eram de chocolate.
– Pega ali no banco de trás aquela caixa, tem os brownies
novos que falei pra você que eu estava fazendo – Helena apontou, enquanto manobrava o carro.
Emília precisara ser vigiada durante toda a sua infância
para não atacar as receitas. Elas preenchiam a cozinha inteira com um perfume inebriante sempre que a mãe cozinhava. Antes de passarem para uma cozinha profissional, eram feitas em casa mesmo. Conforme Emília foi crescendo e entrando na adolescência, o medo de ficar cada vez mais voluptuosa, como a mãe, fez com que ela se segurasse.
– Hum. Aquele branco?
– Isso, com nozes – Helena olhou para Emília enquanto
ela provava. – Ficou um pouco mais doce que o normal, porque, como é branco, não deu para colocar chocolate amargo. Mas ficou bem cremoso por dentro. Deixa a tampa da caixa embaixo pra não sujar o carro todo, Emília – ela terminou a frase num tom feroz, que fez o sabor do doce instantaneamente amargar na boca de Emília.
Ela não disse nada, apenas balançou a cabeça, sinalizando
que o brownie estava gostoso. Como estava segurando os farelos com a mão por baixo do doce, não pegou a tampa.
Elas passaram pelo outdoor do Novos Pais na esquina de Ian.
Emília reteve o olhar, tentando ler tudo. A temporada atual estava quase na reta final. Seu coração bateu mais forte ao pensar que ela poderia estar ali em alguns meses.
– Quando cheguei, vi duas vans da TV estacionadas ali perto da casa do seu colega, você viu?
Emília ficou assustada e apenas assentiu com a cabeça.
Helena lembrou assim que passaram pelo outdoor do programa. Mães às vezes parecem ter um sexto sentido assustador.
– E o que eles estavam fazendo ali?
– Uma reportagem.
– Mas sobre o quê? Você viu com quem foi? – Sobre… – Emília não conseguiu falar direito com a boca
cheia, o que a fez ganhar um pouco mais de tempo para pensar enquanto mastigava – sobre o nosso trabalho. É uma experiência e… vai fazer parte de um projeto da escola, daí… eles foram ali pra filmar a gente fazendo.
– Sério? E é uma coisa tão importante assim? Vai passar
na TV e tudo? – Helena tinha ficado curiosa. – Que horário?
– Deve ser no jornal do meio-dia, não sei – Emília estava
começando a perceber, assim como Ian, que ia ser mais difícil do que parecia esconder isso por muito tempo.
– Vê se não caiu farelo, depois enche de formiga – Helena
avisou, sem tirar os olhos da rua.
Emília viu todos os farelos que segurou na mão enquanto
comia. Grudou um por um com a língua, lambendo os últimos vestígios do brownie. Nada havia caído no chão. As duas permaneceram caladas pelo resto do percurso. Elas não estavam brigadas e até tinham momentos divertidos juntas, mas, na maioria das vezes, a relação era tão desconfortável quanto farelo de salgadinho grudado no pescoço.
Até chegar em casa, Emília tentou não se importar tanto
com a implicância da mãe por algo tão pequeno. Foi em Helena que ela havia pensado quando Ian a fez refletir sobre os outdoors, que somem com o tempo para quem os vê todos os dias – uma já não conseguia enxergar a outra após tantas discussões repetidas.