Azeitona
Capitulo 20
20.
Gael levou Emília para casa após o encontro traumático que ela tivera com Ian naquela manhã. Depois de almoçar, ainda passaram algumas horas num café pouco movimentado, discutindo possibilidades e certificandose de que tudo seguiria conforme o combinado para a participação dos dois no reality show.
Ian com certeza contaria a verdade a Catarina para
prejudicá-los, mas eles mostrariam um exame de gravidez falso, Emília negaria qualquer consulta e, com Rebeca desacreditada depois do ataque na formatura, Catarina também não daria mais ouvidos a ela.
– Qualquer coisa que a Catarina disser você me avisa –
Gael advertiu, ajeitando uma mecha do cabelo de Emília atrás de sua orelha. – não responda a nada comprometedor antes de falar comigo. Nós vamos pensar juntos os melhores passos daqui pra frente, tudo bem? Emília concordou com a cabeça. Gael se ajeitou no banco do carro e levou o corpo para perto de Emília, dando-lhe um beijo de despedida demorado, que foi interrompido pelo celular da garota. Ela se desvencilhou de Gael e sacou o celular com dificuldade do bolso apertado da calça jeans.
– Eu vou entrando – ela disse, encarando a fachada da
confeitaria. – A gente se fala.
– Espera – Gael segurou o braço de Emília, impedindo
que ela saltasse do caro. – Quem está ligando?
Ela olhou para a mão do namorado que a estava segurando
e puxou o braço gentilmente. Após sair do automóvel, fechou a porta e se virou para responder através do vidro aberto.
– É a minha mãe – respondeu, encarando a tela do celular.
– Eu não costumo sair de casa domingo nesse horário, ela provavelmente achava que eu estava dormindo até entrar no quarto e não encontrar ninguém. Agora deve estar dando três ataques.
– Ah, tudo bem – ele mandou um selinho no ar. Emília retribuiu o gesto e atendeu o telefonema. Deu a
volta no carro e chegou até a calçada.
– Lisa? – ela disse.
– O que foi que você fez?! – a amiga perguntou, com a voz
desesperada.
Emília precisou manter uma expressão indiferente,
acenando para Gael, até que o carro estivesse em uma distância segura o suficiente para ele não vê-la.
– Como assim o que fiz? Você está sabendo de alguma
coisa? – Emília hesitou, sem saber se devia entrar na confeitaria naquele momento ou esperar a conversa terminar.
– A Catarina me ligou avisando que queria gravar um
depoimento comigo, que sou sua amiga, sobre a sua revelação! – Emília quase pôde visualizar lisa enrolando os cabelos com o dedo como fazia quando ficava nervosa. – E depois ela me contou tudo o que você fez e que o Ian não vai mais participar do programa. Por que você faria isso agora, logo depois do que aconteceu com ele? Isso é horrível.
– Não, eu pensei bem antes de tomar essa decisão. E o Ian
não está mais tão abalado com o que aconteceu – Emília disse, referindo-se ao acidente de Caio. – Eu esperei que as coisas ficassem mais calmas, tá tudo bem.
– Mas a Catarina me disse que não está nada bem com ele
– lisa estava brava. – E... Eu preciso conversar com você – ela respirou fundo. – sobre o Gael. Onde podemos nos ver agora?
Quando lisa chegou à confeitaria, Emília tentava disfarçar a tremedeira de nervoso. Os pensamentos sobre a possível ligação entre lisa e Gael rodeavam sua mente desde a reação da colega quando viu a foto dele em seu celular. Ela nunca dera muita bola para aquilo, talvez por medo do que pudesse significar.
Entretanto, com a intimação tão direta da amiga para falar
sobre seu namorado, ela sabia que não poderia esperar boa coisa.
Lisa colocou a bolsa em cima de uma das mesas e abraçou
Emília rapidamente. As duas estavam tensas e não trocaram nem um sorriso. Fora a primeira vez que aquilo acontecera, a amizade verdadeira e sem rodeios parecia estar voltando, como sempre fora.
– Nunca falei sobre isso pra ninguém – lisa começou,
enquanto se sentava, deixando Emília perdida. – Mas preciso contar a você, para que você repense nas suas decisões e escolha a certa a ser tomada. Não consigo imaginar como você foi convencida a fazer isso com o Ian, logo agora. Então, se depois do que tenho pra te falar você ainda pensar da mesma forma, talvez devêssemos continuar nossa vida sem manter contato, como era antes de nos reencontrarmos.
Emília franziu o cenho.
– O que você quer dizer? – ela perguntou, com as duas
mãos estendidas sobre o tampo de madeira.
Lisa olhou para as próprias mãos, como se esquecesse por
alguns momentos que Emília esperava uma resposta sua. Ela piscou os olhos lentamente enquan to respirava fundo, parecendo querer ganhar tempo ou simplesmente evitar a conversa.
– Estou participando do Novos Pais sozinha porque o pai
da criança não sabe que estou grávida. Quando fiz a entrevista para entrar no programa, a Catarina disse que tudo bem o pai não aparecer, que eles precisavam de tipos diferentes de mães adolescentes. Eu também não quero que ele saiba.
Emília percebeu que estava quase curvada de tensão sobre
a mesa. Ajeitou a postura e coçou a cabeça com força, revirando o cabelo. Os braços também pinicavam – uma resposta do corpo para o medo de suas hipóteses serem verdadeiras.
– O Gael... ah, caramba... ele é o pai? – Emília soltou a frase, puxando uma respiração asmática de tensão a cada palavra.
Lisa levantou os olhos em direção a Emília e observou o
olhar abismado da amiga.
– Não – ela balançou a cabeça, certeira.
Emília mais uma vez se ajeitou na cadeira, sentia como se
tivesse recebido uma dose de morfina depois de sofrer de uma dor por semanas.
– Mas sabe por que Gael ficou assustado quando soube
que eu estava grávida? Porque... – a voz de lisa falhou antes que ela pudesse continuar a frase. Ela olhou ao redor, tentando mostrar aos seus olhos que eles não poderiam fazê-la chorar na frente de um monte de gente.
Emília manteve o olhar fixo na amiga, que se recompôs e
voltou a falar:
– Nós fomos a uma mesma festa há cinco meses. Era uma
festa da faculdade dele, logo antes do Carnaval.
– Vocês foram juntos? – Emília a interrompeu. – nós já
estávamos namorando e eu não fui, acho que estava doente. Não lembro por que não fui, mas lembro dele falando dessa festa.
– Não, ele foi com os colegas. Eu fui com algumas amigas
também – lisa respondeu. – A Cinthia, que estuda comigo, estava ficando com um dos amigos dele e apresentou todos nós. Estávamos em quatro e eles em seis. Em pouco tempo as outras meninas sumiram com dois dos rapazes, e Cinthia fez o mesmo com o colega do Gael. Restavam apenas o seu namorado e dois garotos. Um deles começou a conversar comigo.
“Ele era engraçado. Eu já havia bebido alguma coisa
àquela altura, então pode ser que tenha tido aquela impressão por causa da bebida também. A gente se beijou e ele ficava chamado a atenção dos colegas. Provavelmente, assim como Gael, o outro também era comprometido, então eu era como um prêmio que eles não teriam naquela noite.
“Me senti desconfortável por um momento, mas de
alguma forma ainda estava me divertindo. Você sabe, garotos parecem ficar maduros apenas quando começam a ficar com os cabelos brancos.
“Depois disso ele me pagou algumas bebidas e a gente
ficou dançando. Eu nem lembro tudo que tomei, mas com certeza tinha algum destilado no meio porque vomitei as tripas no dia seguinte. Quando ele avistou o Gael e o outro garoto de longe, que ficaram ao redor do bar, me deixou de lado sem explicar, e eu estranhei. Disse algo no ouvido dos dois e voltou sorridente, com a boca meio torta. Parecia tão bêbado quanto eu. Colocou o braço nas minhas costas e foi me levando para algum lugar, sem me contar até chegarmos lá.
“Nós entramos no banheiro e eu estava rindo e
escorregando no piso molhado, que fedia a xixi. Provavelmente essas duas coisas tinham alguma relação. Vi alguns garotos que estavam no mictório e coloquei minha cabeça no peito dele, para tapar minha visão. Eu estava dormente demais para protestar, então comecei a rir e...”
Lisa tentava contar olhando nos olhos de Emília, mas não
conseguia fazê-lo por mais de três segundos, voltando a desviar para o porta-guardanapos sobre a mesa. Emília, por sua vez, estava concentrada. Só se lembrava de respirar quando sentia os pulmões queimando por falta de oxigênio.
– E então aconteceu – lisa disse, com a voz falhando. Emília engoliu a saliva, que desceu raspando na garganta
seca. O olhar perdido foi em direção à barriga da colega, que, diante das informações, parecia se anunciar como uma revelação soturna de uma história triste.
– Quando eu saí da cabine do banheiro – lisa disse –,
depois de alguém ameaçar chamar o segurança, apenas Gael estava lá, quase que orgulhoso por ter vigiado a porta o tempo todo. O outro rapaz tinha ido embora, provavelmente desistiu quando comecei a gritar. Mas o Gael não. Eu saí de lá, mais uma vez, rindo, confusa. Eu não queria ter feito aquilo, nem rir nem o que tinha acontecido antes, só que me pareceu mais fácil rir com os outros garotos, que me viram dentro daquele banheiro e que faziam piadas, do que vê-los rindo de mim.
Emília também encarou o porta-guardanapos e se sentiu
envergonhada. Um arrepio se formava em sua nuca a cada flash de pensamento que tinha, imaginando-se na situação da amiga.
– Mas... mas... – Emília gaguejou. – o que aconteceu com
você foi horrível, e não estou querendo defender ninguém. Mas... o Gael não fez nada, fez? Não foi exatamente culpa dele – Emília o defendeu, ainda com dúvida e com as sobrancelhas arqueadas de pavor. – Foi?
A colega respirou fundo, como se já esperasse aquela
reação de Emília.
– Tem um motivo para o cúmplice de um crime ser
acusado da mesma forma que o autor – lisa disse. – E ninguém apoia um criminoso se não for capaz de fazer o mesmo que ele.
Emília balançou a cabeça em afirmativa, como se o
movimento ajudasse as informações a irem se ajeitando em sua cabeça.
– E você não foi à polícia, não contou pra ninguém depois
disso, pra que algo fosse feito?
– Eu não contei isso pra ninguém, e é por isso que meus
pais acham que sou uma vadia – lisa disse.
– Você está bem com isso? – Emília perguntou, colocando
uma mão sobre a da colega em cima da mesa. – Eu aposto que deve ser difícil.
– Quando penso no que aconteceu, é engraçado porque... –
lisa abriu e fechou a boca algumas vezes, sem saber como continuar a frase – não me parece que foi grande coisa. Eu não saí de lá chorando ou querendo me matar. Eu cheguei em casa, comi um resto de panqueca de carne moída e tomei banho. No outro dia ainda senti como se estivesse suja, literalmente suja, e sinto isso até hoje.
“Na semana seguinte eu já tinha até esquecido, mas,
quando descobri que estava grávida, foi quando tive um clique do que realmente tinha acontecido. Eu fiquei chocada. Não percebi de cara, mas, desde aquela noite, minha cabeça já tinha virado uma bagunça e eu já não era a mesma que havia passado pela porta daquele banheiro pela primeira vez.”
Emília esticou o braço e acariciou o ombro da amiga. – Eu lamento pelo que aconteceu – consolou a colega. –
Mas você vai criar esse bebê quando ele nascer?
– Sim. Eu pensei muito e descobri que o que levou a
minha confiança e segurança e uma parte do que eu era foram os poucos minutos naquele banheiro fedido, e não esse bebê. Quando eu passo a mão pela minha barriga antes de dormir e quando sinto ele se mexendo, meio que esqueço que não é apenas meu. Porque na maior parte do tempo prefiro pensar que sim. Eu vou ficar bem. Aquilo eu não pude impedir, mas, daqui pra frente, a minha vida é o quanto a minha força de vontade acredita que eu posso fazer.
– Você está certa – Emília sorriu. – E eu lamento pelo que
aconteceu. – Ela repetiu. Não sabia direito que conselho dar, se é que deveria dar algum ou até mesmo dizer alguma coisa. – Eu vou buscar uma bomba de chocolate – disse séria, antes de se dirigir ao balcão.
Ela voltou segurando dois pratos com um doce em cada
um, enquanto a garçonete a ajudava trazendo dois copos de água gelada. Sentou-se à mesa, colocou os guardanapos para o lado e tascou uma mordida no doce, deixando um topete de chocolate no recheio cremoso. Lisa a acompanhou.
– Eu não vou mais participar disso com o Gael – Emília
disse, antes de terminar de mastigar, como se a frase não pudesse esperar. – Talvez devesse tentar resolver os meus problemas com as armas que tenho, e não colocar nesse dinheiro toda a minha esperança.
– Você está dizendo que vai desistir de tudo? – lisa
perguntou. Em seguida, tentou alcançar com a língua parte do recheio que ficou ao redor de sua boca.
– Eu não sei – Emília fechou os olhos com força,
enrugando também o nariz. – Eu não sei o que fazer agora, com tantas informações novas.
– Você acha que Catarina aceitaria o Ian de volta no
programa?
Emília parou por um instante, pousando sua bomba de
chocolate no prato e encarando lisa, como se ela estivesse ficando louca.
– Eu não sei se eu faria isso. – Caramba, Emília. Eu estou prestes a dar o meu dinheiro
do programa pra ele, e olha que preciso do meu dinheiro, e você não está nem aí?! – disse indignada. – o lance com a irmã dele é sério!
– Do que você está falando?
– Quando Catarina me ligou explicando o que tinha
acontecido, perguntei como Ian tinha reagido. Ela me disse que ele não havia recebido a notícia muito bem, principalmente porque, com o acidente da irmã dele, ele precisaria de muito dinheiro para as cirurgias – Emília sentiu um arrepio na nuca e abriu a boca em espanto –, mas que não era para eu citar isso no depoimento que iríamos gravar. Óbvio que não aceitei gravar nada antes de falar com você.
Emília não fazia ideia do que havia acontecido. Lisa
explicou os detalhes do acidente. Antes de ir até a confeitaria, ela havia pesquisado na internet e havia notícias em todos os jornais locais – afinal, o carro tinha caído de uma ponte!
Colocando as costas para trás para se apoiar na cadeira,
Emília segurou os cabelos com as mãos, encarando o teto e soltando um grunhido. Cada fala de Ian sobre a irmã começou a ecoar na sua cabeça, fazendo-a ranger os dentes de raiva de si mesma. Iris era a úni ca pessoa que ele tinha, e ela havia ferrado com a vida dos dois. Seu subconsciente tentava colocar a culpa em Gael, mas ela não fora obrigada a fazer nada com uma arma apontada para sua cabeça. Ela havia feito aquilo com Ian.
– Eu sou um monstro – Emília espalmou as mãos no ar. –
Eu o tirei do programa quando ele mais precisava do dinheiro. Eu sou um monstro!
Buscou o número de Ian na agenda do celular e tentou ligar, mas ele não atendeu. Depois do segundo to que, a chamada caía na caixa postal. Ele provavelmente estava recusando as chamadas de Emília.
– Sabe – lisa disse –, o Ian não foi nenhum santo em
colocar você em toda essa roubada do reality, pelo que você me contou, mas...
– ...mas ele não me apunhalaria pelas costas dessa forma,
não é? – Emília completou. – o problema é: depois de revelar que ele não é o pai, eu não posso fazer com que o Ian volte para o programa. Talvez eu pudesse participar sozinha, assim como você.
Lisa concordou com a cabeça, sem demonstrar muita
confiança. Sem pensar muito, Emília fez outra busca na agenda do celular. Dessa vez, pelo número de Catarina.
– O que aconteceu? – Catarina atendeu, sem ao menos
cumprimentar Emília. A garota estava caminhando para se tornar a protagonista daquela temporada, então seus telefonemas tinham prioridade.
Emília olhou assustada para lisa, indicando que a
produtora havia atendido. Seu coração estava acelerado.
– É que eu não... não queria que o... posso participar
sozinha do programa? Quero dizer, sem o Gael também?
– Quê?! – ela disparou, num tom agudo. – Eu não quero aparecer no Novos Pais com o Gael –
Emília disse, com cautela, mantendo os olhos vidrados nos de lisa.
– O.k., o.k., o.k., o.k.... – Catarina começou o primeiro
“o.k.” rindo desacreditada e terminou como se estivesse bradando um xingamento. – o Gael ainda nem assinou a liberação de imagem e você quer que eu o tire, ainda por cima desperdiçando todas as cenas que envolvem ele? Nós já perdemos muito material diminuindo a participação do Ian, você está louca?
Catarina estava alterada, praticamente gritando do outro
lado da linha. Emília preferiu ficar calada e ouvir o que a mulher tinha a dizer.
– Você entende que valeria mais a pena pra mim perder você e achar uma participante de última hora que aceitasse um cachê menor, arcando com os gastos das suas irresponsabilidades, do que continuar com você sozinha e excluir tudo o que a gente já gravou? Porque isso aqui não é brincadeira. Esse programa envolve patrocínios de milhões de reais! isso. Não. É. Brincadeira! – no final da frase Emília ouviu um estrondo, provavelmente porque Catarina havia batido com força em cima de uma mesa. Na melhor das hipóteses, deveria ser uma mesa. Emília não gostaria de estar perto da produtora naquele momento. – Você vai aparecer na primeira chamada do programa, que vai ao ar daqui a pouco. Você não é louca de fazer isso. E lembre-se sempre do valor da rescisão do seu contrato.
– Eu não posso fazer isso. Eu não posso fazer isso! –
Emília repetiu. Da segunda vez, a voz de choro a impediu de completar a frase com a confiança que planejava. Tentou controlar o choro em vão, com a mão sobre a boca, e virou o rosto contra a parede para que ninguém percebesse. O choro deixou sua respiração parecida com a de um maratonista em fim de prova. – Eu não estou grávida.
A voz da garota havia saído rouca e fina, como uma idosa
que tivesse aspirado gás hélio. Mas o conteúdo de suas palavras havia chocado Catarina o suficiente para que não prestasse atenção naquilo. Lisa engoliu em seco.
– Ah, meu Deus – Catarina soltou num suspiro. – Ah,
meu Deus… – repetiu, como se confirmasse pra si mesma que Emília não estava brincando.
O telefone ficou mudo. Quando Emília verificou, após
alguns segundos, a produtora havia encerrado a ligação sem dizer mais nada.
Helena saiu da cozinha por alguns instantes para conferir os estoques nas bancadas e observar o movimento da loja. De longe, viu a filha conversando com uma colega. A primeira coisa que chamou sua atenção foi a barriga protuberante da outra garota, que também estava grávida. Deus, pensou, elas andam em bando como ovelhas agora?
Ela se posicionou atrás da bancada, esfregando um pano
de qualquer jeito no vidro que já estava limpo, apenas para ver o que conseguia captar daquela conversa. Estreitou os olhos para observar melhor a garota. Helena não podia acreditar no que estava vendo – aquela garota sentada em frente à filha era sua amiguinha de infância.
Helena arremessou o pano na bancada atrás de si, onde
ficava a máquina de expresso, sem nem olhar a direção que tomou, e foi até a mesa em que as duas conversavam.
– Vocês aceitam mais alguma coisa? – Helena perguntou,
conferindo os pratos vazios em cima da mesa. Ela subiu o olhar até lisa, indo de seu rosto para sua barriga em nanossegundos, deixando-a desconfortável.
– Não, mãe, a gente só quer conversar sozinhas – Emília
respondeu.
– É sobre algum segredo que eu não possa saber? Mais
segredos que eu não possa saber?
– Você se vê na obrigação de ouvir a conversa de todos os
seus clientes? – Emília falou alto demais de propósito, fazendo com que algumas pessoas que ocupavam as mesas ao lado se virassem em sua direção. – Eu só estou conversando com uma amiga.
– É assim que você fala comigo agora? – Helena disse,
cochichando. Se não estivesse em ambiente de trabalho, o tom seria bem diferente. – Você acha que tem razão de querer conversar comigo assim?
Emília revirou os olhos.
– Você vai me fazer sair daqui para ter uma conversa em
paz? – Emília perguntou, incomodada.
Lisa permaneceu em silêncio. Ela tinha poucas memórias de Helena. Na maioria das vezes, ela não implicava muito com as duas enquanto brincavam em sua casa. Ela se intrometia apenas quando elas quebravam algo ou quando tinham alguma ideia mirabolante, como costurar roupas de bonecas usando sua máquina, que perfurava o tecido dez vezes por segundo com uma agulha afiada – algo que definitivamente não era uma boa ideia para crianças de oito anos.
– Eu só vim aqui porque… qual o seu nome? – ela se
voltou para lisa.
– Elisa – ela respondeu.
– Exatamente! Você e a Emília eram amiguinhas, vocês
brincavam juntas, eu lembro – ela disse, parecendo quase empolgada. Voltou seu olhar para a barriga da garota, girando a cabeça numa expressão de pena. – Você também? O que aconteceu, meu Deus?
Sua voz falhou no meio, e ela foi em direção ao banheiro,
o avental voando com a pressa com que andava, parecendo abalada. Lisa agradeceu por a pergunta ter sido retórica.
Desde que Gael contara a Helena sobre a “gravidez” de
Emília, elas mal se falavam. Quando a raiva passou e ela começou a tentar se acostumar com a ideia, perguntou algumas vezes sobre sintomas e se a filha queria ser levada a um médico para o pré-natal. Emília sempre se esquivava, dando respostas curtas e genéricas antes de se proteger no quarto, com as portas trancadas e um fone de ouvido.
Helena já não oferecia os testes de doces novos para a
filha. O último havia sido o brownie branco, que estava indo bem nas vendas, embora o preto continuasse sendo o mais pedido. Emília estava acostumada com esse “castigo” quando as duas brigavam mais feio, era meio que a forma da mãe de fazer uma birra. Só que agora também poderia ser porque ela não queria a filha grávida se empanturrando de doces.
Quando voltou para dentro da cozinha, nenhuma das
mulheres que trabalhavam lá notou qualquer coisa diferente em Helena. Ela não havia chorado muito, mas assoara o nariz algumas vezes, o que provavelmente o deixara vermelho.
Ela flexionou levemente o joelho para conferir o
andamento de um mil-folhas de doce de leite. A TV, como sempre ligada em um volume alto o suficiente para que todas pudessem ouvir, fez com que Helena se virasse para o aparelho num pulo. Ela havia reconhecido aquela voz.
Meu Deus, nós estamos aqui porque têm dois bebês
saindo de dentro da Rosa! – A voz de Emília vinda da TV fez com que todas ficassem paralisadas. Provavelmente teriam achado aquela frase, que Emília falara durante o nascimento dos bebês de Rosa, engraçada... se não fosse a filha de dezessete anos da patroa falando de sua própria gravidez na TV.
Aqueles foram os únicos segundos em que ela apareceu na
chamada, logo substituída por uma propaganda de colchões. Todas permaneceram perplexas mesmo depois de começar a propaganda sobre remédio para azia e depois sobre vacinação infantil e sobre o novo perfume da Britney spears e sobre a promoção de carne extra do McDonald’s.
– Aquela era a Emília? – nica quebrou o silêncio,
desacreditando sua visão e audição comprometidas pela idade.
Cássia puxou uma cadeira para que Helena se sentasse. Ela
parecia um pouco zonza. O calor dos fornos dentro da cozinha só contribuía para seu mal-estar. Para ajudar, Guta pegou uma fôrma comprida para abanar a mulher.
– Ela está grávida? – a mãe de Guta perguntou, tímida. Helena balançou a cabeça afirmativamente. – E eu vou acabar com essa atentada – completou. – Não diz isso, Helena – Cássia defendeu Emília. – Uma
criança é um presente de Deus. Ter um bebê nessa idade vai deixar a Emília mais responsável, e ela e a criança serão tão unidas quando ela crescer... Vai ser ótimo.
– Isso acontece, minha querida – a mais velha falou. –
Não é porque ela engravidou que não é boa moça. Ela é de boa família, vai ficar tudo bem.
Se sua anatomia permitisse, os olhos de Guta teriam
revirado dando duas voltas inteiras pela cavidade ocular. Havia exatos dois meses ela ouvira que todas as adolescentes daquele programa eram sem-vergonha e não tinham recebido educação em casa.
– Eu sabia que ela estava grávida – Helena fez uma pausa
para tomar um gole da água que Cássia lhe serviu.– Só não sabia disso, dessa droga de programa. A burrice dessa garota ainda me surpreende! – disse, raivosa. Recordando-se de repente de que a culpada de tudo aquilo estava logo atrás da porta, Helena se levantou bufando e marchou em direção à saída. Parou a dois metros da mesa em que Emília e lisa estavam e disse:
– Sobe – sem esperar a resposta, subiu as escadas em
direção a sua casa.
Emília se despediu da amiga com um abraço demorado,
como um amparo, depois de saber tudo o que ela havia passado. Lisa estava apreensiva por Emília, não sabia o que a sua revelação para Catarina poderia causar. Emília, por sua vez, estava morrendo de medo, sem saber exatamente o que as cláusulas do contrato diziam em relação àquilo.
Ela subiu as escadas logo após a mãe, preocupada. Se fosse
apenas para voltar ao assunto da gravidez, Helena não teria hesitado em fazer isso no meio da confeitaria.
Quando entrou em casa, viu a mãe em frente ao sofá, em
pé, voltada para a porta. Se a mulher tivesse os mesmos poderes do superman, a maçaneta de ferro já estaria pelando num laranja cintilante com seu olhar voltado para ela. E, claro, não sobraria Emília para contar história assim que entrasse porta adentro.
A garota se aproximou da mãe com cautela. – Você está participando daquela droga do Novos Pais? – a
mãe perguntou, sem fôlego.
Não seria mentira se dissesse que não, já que, depois da
revelação que fez a Catarina, o mínimo que aconteceria seria sua expulsão do programa. Resolveu ser sincera com a mãe e acabar com todas as mentiras de uma vez por todas.
– Eu não tô grávida. Nunca estive. Fingi essa gravidez para
participar do programa e com o dinheiro ir para longe dessa casa – os olhos de Emília voltaram a se encher de lágrimas. – Ter uma simples conversa é tão problemático por aqui, talvez dar um tempo desse lugar nos ajudasse.
Helena franziu o cenho e deixou o peso do corpo cair no
sofá atrás de si. Juntou as duas mãos fechadas, colocou-as em frente aos lábios e fechou também os olhos, deixando uma lágrima escorrer. Emília sentiu um aperto no coração.
– Eu me sinto... horrível... ouvindo isso – a cabeça de
Helena pendeu de um lado para o outro enquanto ela falava. – E não é sua culpa, eu sei que nem é para me machucar que você diz isso. Quando seu irmão saiu para fazer faculdade, foi pelo mesmo motivo, mas ele não teve coragem de me contar.
Emília se sentou do lado da mãe e a encarou. – Eu só queria que... – Emília hesitou para continuar – a
gente fosse amigas. Isso pode parecer engraçado pra você, mas esse era tipo o meu sonho, sabe? E talvez eu quisesse tanto que isso fosse real justamente por parecer tão distante.
– Eu sou sua mãe – ela respondeu com a voz macia, como
se fosse algo óbvio – e eu não sei fazer isso de outra forma. Foi assim que aprendi, e você é parte de mim.
– Não, eu não sou, mãe – Emília respondeu, achando
quase engraçado a mãe confirmar pela primeira vez aquele pensamento de que ela sempre desconfiara. – Você me fez, mas eu não pertenço a você pra sempre, entende?
– Por enquanto você pertence – Helena disse, quase num
tom acusatório. Percebeu o que havia acabado de fazer e continuou numa voz mais branda. – Talvez, quando você crescer mais, a gente possa ser amigas, eu não sei. Mas eu preciso criar você.
– Eu já cresci, mãe – Emília ameaçou um sorriso de canto
de lábio mais gentil. – Talvez você possa começar a tentar agora.
E então colocou sua cabeça no ombro da mãe e, pelos dois
minutos em que permaneceram assim, elas não discutiram. Ainda tinham muito que falar, então Helena jurou que tentaria começar esse cessar-fogo no dia seguinte, depois que Emília ouvisse o suficiente sobre quão terrível e mesquinho foi mentir sobre algo tão sério.
Mas a garota já se sentia muito melhor. Nunca havia
chegado tão perto de fazer as coisas darem certo.