Azeitona
Capitulo 19
19.
Ian respirava e soltava o ar em espasmos, como se não conseguisse manter o oxigênio dentro dos pulmões por muito tempo. A garoa leve que começara a cair o deixou com frio dentro da viatura que seguia com os vidros abertos para o hospital, mas ele apenas lidava com aquele desconforto como se não pudesse simplesmente pedir para que fossem fechados.
Leo e Ian tinham se sentado distantes um do outro no
banco de trás do carro e não mantiveram contato visual durante todo o trajeto. O noivo de Iris relanceava de vez em quando para Ian, mas o rapaz mantinha o olhar fixo na rua: primeiro, enquanto murmurava frases de incredulidade num gemido fraco, com lágrimas nos olhos; depois, apenas esfregando as mãos no rosto, já seco.
– Eu não tenho muitas informações sobre o estado dela,
mas, assim que chegarmos lá, vocês vão poder falar com o médico – o policial disse, pela segunda vez, quando Leo perguntou sobre a noiva. – nós já estamos chegando.
Leo esperava um “vai ficar tudo bem”. Como aquele fora o
primeiro policial a chegar à cena do acidente, ele deveria ter visto iris. Se soasse positivo, Leo teria mais esperanças. Decidiu não perguntar mais nada.
Quando chegaram, o policial os acompanhou até a
recepção.
– Sou o noivo da Iris – Leo disse à recepcionista, com a
respiração pesada. – Iris Brito, ela acabou de dar entrada no Ps. Como ela está?
– Ela tem plano de saúde? – a mulher quis saber, antes de
responder à pergunta.
Leo olhou para Ian, que balançou a cabeça negativamente.
Nenhum deles tinha.
– Não – respondeu.
– O.k. Você pode preencher esses formulários pra mim? –
a mulher empurrou alguns papéis por baixo do vidro. E consultou alguns dados no sistema do hospital no computador. – o prontuário diz que ela chegou há pouco tempo, então alguns exames que o médico solicitou estão sendo realizados agora. Vou avisar que vocês chegaram. O doutor deve aparecer aqui a qualquer momento.
Os dois se encaminharam para as poltronas, ainda meio
perdidos, e deram de cara com a mãe de sarah entrando, com os braços dos dois filhos ao redor dos seus ombros. O pai os acompanhava logo atrás. Ela segurava a echarpe do vestido azul fazendo força com as duas mãos. Parte do pano se arrastava no chão.
Parecia que iria fazer um escândalo, mas, quan do ficou de
frente para a recepcionista, não conseguiu falar nada, e o marido tomou a iniciativa de pedir informações.
– ...que o médico solicitou estão sendo realizados agora –
Ian ouviu parte do discurso da recepcionista, o mesmo que havia dito a ele e leo. A mulher parou de falar assim que percebeu a entrada do médico na sala. – Ali está ele, o médico que está cuidando da filha de vocês – apontou.
Ian e Leo se levantaram num salto, deduzindo que era o
mesmo e, junto com a família de sarah, formaram um semicírculo ao redor dele. A mãe da garota usou a echarpe para secar o rosto.
O médico chamou pelas duas famílias e eles se
apresentaram.
– Sou o dr. Wilmann e estou cuidando da Iris e da sarah –
ele disse. – o carro em que elas estavam colidiu contra a mureta de uma ponte, que estava com meia pis ta fechada. As informações que tenho são que Iris desviou o carro da barricada e, para não bater no automóvel que vinha na outra pista, chocou-se contra a mureta de proteção.
A mãe de sarah jogou a cabeça para a frente, iniciando um
choro desesperado. Os outros membros da família não pareciam mais tranquilos — os irmãos e o pai tremiam.
– Elas caíram... da ponte? – o pai perguntou.
Ian encarou o médico, sentindo suas pernas amolecerem.
O homem tinha olhos azuis-esverdeados e muito chamativos, que piscavam com uma calma que auxiliava todos ao redor a não entrar em desespero.
– Infelizmente sim – ele respondeu –, mas elas
permaneceram na água por pouco tempo, o que reduziu o risco de sequelas neurológicas. A sarah está consciente e segue respondendo aos reflexos. Ela tem alguns ferimentos superficiais na testa e nos braços, sem fratura aparente. Mas vamos realizar um raio X para confirmar.
Quando o dr. Wilmann se virou para dar a notícia aos
parentes de iris, respirou fundo. O coração de Ian começou a bater mais forte, imaginando que o diagnóstico da irmã tinha sido deixado para depois por ser mais complexo.
– Quanto a Iris – ele começou a falar, consultando o
prontuário em suas mãos –, os ferimentos foram um pouco mais extensos, uma vez que o lado do motorista se chocou contra a mureta – Ian e Leo se olharam nos olhos pela primeira vez desde a notícia do acidente. – O choque provocou danos na pelve, nos membros superiores e fratura exposta nos inferiores. A compressão da lataria também causou uma fratura no maxilar e no nariz.
Em algum momento Ian não conseguia mais entender o
que o médico falava, como se, numa tentativa de defesa, seu cérebro não permitisse seu acesso àquelas informações.
O doutor continuou:
– No momento ela está realizando uma tomografia, mas
permanece inconsciente e entubada. Suspeito que ela tenha tido uma lesão na coluna. – o médico aspirou o ar com força. – o problema é que, nesses casos, como ela não foi retirada da água por paramédicos, há grande chance de uma lesão medular pela manipulação incorreta da vítima.
Ian não conseguiu dizer nada. As coisas pareciam estar um
pouco diferentes ao seu redor e ele se sentia atordoado. Leo quebrou o silêncio:
– Como está o bebê?
– Eu sinto muito – o médico balançou a cabeça. – A Iris
perdeu muito sangue. Isso, somado ao impacto do acidente, fez com que o feto não sobrevivesse.
Ian acompanhou a reação de leo, que colocou a mão sobre
a cabeça. Ele grunhiu como se tivesse recebido um golpe no estômago e deu voltas em círculos lentamente e a passos largos pelo hall de entrada.
– Ela vai ficar bem? – Ian perguntou. Sua garganta se
fechou no meio da frase, como se tentasse evitar uma tossida.
O médico coçou o queixo.
– Ela teve ferimentos extensos e foi reanimada durante o
caminho até o hospital – ele explicou, mais uma vez. – Ainda não posso descartar o risco de vida, mas estamos fazendo o possível.
Ian sentiu um arrepio. Já ouvira aquilo diversas vezes na
TV. Nem sempre fazer o possível era o suficiente.
Leo se aproximou do médico novamente para prestar
atenção no que ele falava para Ian. O noivo de Iris tinha as duas mãos ainda sobre a cabeça, como se estivesse sentindo uma forte enxaqueca.
– Isso é muito caro? – Leo perguntou. – Essas... coisas que
ela vai ter de fazer, elas são caras? Eu quero que ela tenha o melhor tratamento, mas... eu não sei se podemos pagar. Parece muita coisa.
– Ouça, ela não pode ser transferida agora – dr. Wilmann
disse. – Estou certo de que ela vai precisar de uma cirurgia na coluna. Para realizá-la, temos de diminuir o processo inflamatório por uns dias, com medicamentos. Ela pode ser transferida quando estiver fora de risco, mas essas cirurgias são complicadas, e aqui é o melhor lugar para ela ficar e evitar sequelas. Mantê-la aqui seria mais seguro – ele deu um passo para trás. – Assim que tiver o resultado dos exames, eu volto para informar sobre o tratamento.
O médico fez um aceno demorado com a cabeça e se
retirou.
– Nós temos o dinheiro – Ian disse, enquanto voltava para a poltrona. Não estava se sentindo bem.
Leo o seguiu. Ele sabia quanto dinheiro Iris tinha
guardado e, mesmo juntando com o seu, não seria o suficiente. Seu pai precisara ficar internado apenas alguns dias, com problemas no coração, num hospital muito menos sofisticado que aquele. Se os valores naquela ocasião já haviam sido altos, uma internação tão longa, e com tantos procedimentos, como a de iris, ultrapassaria qualquer valor que pudessem pagar.
– Como vocês têm esse dinheiro? – perguntou. Ele se
sentou ao lado de Ian e continuou: – A única coi sa que poderia nos ajudar a pagar isso seria vender os nossos carros, mas o da Iris agora é um monte de ferro retorcido no fundo do rio. – Leo engoliu em seco.
– Não, eu tenho o dinheiro – Ian estava confiante. – sabe o
reality show de que eu tô participando? Vou receber um cachê gigante no próximo mês que vai cobrir esse valor.
Os pais de Leo chegaram um tempo depois ao hospital.
Tinham ficado até quase o fim da festa, já cansados, quando receberam as notícias do acidente.
A mãe de Leo fazia carinho em cima da mão do filho,
encostada nos braços da cadeira, e vez por outra passava a mão pelo ombro de Ian, sentado do outro lado. O pai parecia desconfortável com a situação, desviando o olhar sempre que Leo o encarava, sem saber como agir.
Quando o turbilhão em sua cabeça cessou, Ian se lembrou
da gravação que ele havia abandonado e de Emília, que havia ficado sozinha e sem explicação. Ele sacou o celular do bolso e ligou para a colega.
– Oi – Emília disse. Já não estava na festa. Sua voz estava
clara do outro lado da linha, mas não parecia muito amigável.
– Desculpa ter deixado você aí, mas...
– Preciso falar com você – Emília o interrompeu. –
Estava esperando pra fazer isso fazia um tempo, mas, com aquele rolo do menino que sumiu, acabei deixando pra depois.
– A minha irmã... – Ian tentou continuar, mas foi
interrompido novamente.
– Estou falando com você – Emília estava exaltada.
Percebeu que a voz de Ian estava trêmula. Gael, sentado ao seu lado no carro, que estava em frente à casa de Emília, balançou a cabeça para que ela continuasse. – E tenho certeza de que o que tenho pra falar é muito mais importante pra você do que...
Ian retirou o telefone do ouvido e encerrou a ligação,
atordoado.
Sua cabeça estava tão cheia que em segundos ele esqueceu
aquela conversa.
Leo preferiu que os pais passassem a noite em casa e os
acompanhou até um táxi. Ele e Ian viraram a noite nas poltronas do hospital e, por mais que tentassem, não conseguiram dormir.
Ian nunca verificara o relógio com tanta insistência como naquela noite, como se ele pudesse andar mais rápido caso fosse observado com frequência. Entretanto, parecia o contrário.
No meio da madrugada, o médico voltara para dar mais
notícias. As suspeitas sobre as fraturas na coluna e na medula haviam sido confirmadas com o raio X. Dali a alguns dias, quando as altas doses de corticoide controlassem o processo inflamatório, Iris passaria pela cirurgia.
– E nesse momento – dr. Wilmann explicou –, ela está
sendo preparada para uma cirurgia de emergência de fixação externa na pelve.
O médico pediu licença antes de voltar para o interior do
hospital com o andar apressado.
Leo precisou assinar alguns papéis, autorizando a
internação de Iris e os procedimentos indicados pelo médico. Colocou seu nome com receio e, por um momento, fitou Ian, tentando se convencer de que o rapaz realmente poderia pagar por aquilo. O valor, ele conferiu nas folhas, de fato era impraticável para ele.
– Você quer dar uma olhada? – ele ofereceu as folhas a Ian. O rapaz as pegou, sabendo que o cunhado as dera para que
conferisse se as contas fechavam.
– Bom, vai cobrir, sim... – Ian disse.
Leo respirou fundo. Desta vez o suspiro trazia alguma
esperança, não era apenas de desespero.
O rapaz decidiu deixar para conversar com Catarina num horário mais decente, pela manhã, quando ela já estivesse acordada. Por mais que estivesse tranquilo em relação ao dinheiro que salvaria sua irmã, a ideia de não tê-lo em mãos naquele momento o deixava desconfortável.
Pouco depois das 8 horas, ele se distanciou de leo, que
exibia olheiras fundas de uma noite sem dormir, para fazer a ligação.
– Alô? – Catarina falou num tom desconfiado, ciente de
que no outro lado da linha era Ian quem falava.
– Você está podendo falar agora? – ele perguntou. – É
importante.
– Aham – respondeu. Ian estava estranhando aquela
Catarina monossilábica, que ainda não havia conhecido.
– Sei que só vamos receber a primeira metade do cachê
quando o programa for ao ar e sei também que falta um mês para isso acontecer – Ian falou num tom mais baixo. Ele continuou, explicando o que havia acontecido com a irmã na noite anterior e a gravidade do acidente, sem ser interrompido por Catarina. A mulher soltava interjeições de espanto enquanto ouvia.
– O.k... – Catarina manteve um “hmmm”, como se
estivesse meditando, por vários segundos na linha, tentando reorganizar as ideias em sua cabeça. – Primeiro, eu lamento muito pela sua irmã. Não tivemos chance de conversar muito, mas desejo melhoras a ela e ao bebê – Ian não havia mencionado a perda da criança. – Segundo, hum, não sei se isso vai ser possível porque há algumas coisas acontecendo que talvez você ainda não saiba.
Ian ficou sem respirar, as mãos começaram a tremer e a
suar. O coração batia como se estivesse a poucos segundos de uma descida vertiginosa no alto de uma montanha-russa. A garganta embolou, como se a saliva tivesse se solidificado enquanto a engolia.
– Você pode gravar isso, se quiser – ele ofereceu,
ofegante. – Eu não me importo. Desde que ela fique bem, não tem problema. A TV faz isso direto: ajuda as pessoas pra contar suas histórias, não faz? Seria ótimo para o programa. Ela perdeu o bebê, isso não vai ser ótimo para o programa? – Ian disse, aumentando o tom de voz. Ele ouviu um suspiro pesado de Catarina e não conseguiu controlar o choro que veio em seguida. – se não quiser filmar, não precisa. Só quero o dinheiro que a gente combinou.
Ela demorou para responder.
– Ouça, vou explicar tudo pra você. Mas na sua casa. Daqui
a duas horas – ela disse, pausadamen te, como se estivesse explicando a si mesma também. Novamente ela suspirou, mas desta vez parecia de dúvida. – Envia uma mensagem pra Emília, ela precisa estar lá conosco. Você não precisa explicar muita coisa a ela. Ela já sabe.
Ian foi pela calçada enquanto contemplava o jardim farto em frente a sua casa. Ele quase nunca o observava, mas de repente a casa toda parecia diferente e estranha, mesmo sendo a mesma desde que ele se entendia por gente.
Morar apenas com uma pessoa fazia com que ele ficasse
vários momentos do dia sozinho. Mas, naquele momento, entrar naquela casa vazia pareceu estranho. Era como se ele tivesse voltado a ser criança, quando ele e a irmã ficavam flutuando pelos cômodos sem a mãe, os dois se sentindo perdidos.
A luz do sol que incidiu pela janela da sala sobre o vestido
coral de Emília e o de lantejoulas de sarah fez com que Ian tivesse vontade de chorar novamente. Mas, em vez disso, ele seguiu para o seu quarto, pegou roupas limpas e tomou um banho quente para aguardar a chegada de Catarina e Emília.
O rapaz se sentou no chão do boxe – enquanto a água
escorria pelo seu corpo cheio de espuma – e começou a imaginar como seria se tudo tivesse ocorrido conforme deveria. Ele estaria naquele momento em sua cama, onde ficaria até o começo da tarde. Acordaria com ressaca e não aceitaria o remédio que Iris lhe teria mandado tomar. Até que, horas depois, ainda se sentindo mal, finalmente admitiria que precisava tomá-lo, e tudo ficaria bem. Ela iria olhar para o diploma o dia inteiro, ainda sem acreditar que finalmente o tinha e que dali em diante era a hora de aproveitar as oportunidades.
Em vez disso, ela estava numa cama de hospital, sedada e
entubada, recuperando-se de uma cirurgia para salvar sua vida. Quando Ian saiu, ela ainda não estava consciente, e as chances de que isso nunca mais acontecesse ainda existiam. Enquanto isso, o presente de aniversário de Ian, que nunca seria usado por iris, repousava no sofá.
O garoto saiu apressado do banheiro com as buzinas da
van de Catarina. Foi até a janela da cozinha, ainda com o corpo molhado e a toalha envolta na cintura, e avisou que ela poderia entrar enquanto ele se secava em seu quarto.
Cinco minutos depois, saiu de lá vestido e com a toalha na
mão para pendurá-la no banheiro, quando levou um susto com a quantidade de equipamento, mais uma vez, espalhada pela sua casa.
– Nós vamos gravar alguma coisa hoje? – perguntou para
a produtora, que estava escorada na porta segurando seu tablet. – Eu achei que iríamos apenas conversar.
– Desculpa não ter avisado – ela respondeu, num tom que
parecia sincero e até envergonhado, e então voltou sua atenção ao aparelho que segurava novamente.
Ian esperou que ela explicasse o que estava acontecendo,
mas a mulher parecia estar evitando se aprofundar em qualquer assunto desde a conversa pelo telefone. O rapaz deixou sua toalha no banheiro e voltou para interrogar Catarina:
– Eu falei para você o que aconteceu com a minha irmã.
Não sei se esse é o melhor momento... Quer dizer, eu disse que, se você quiser gravar isso, tudo bem. Se você nos ajudar, tudo bem.
Ela levantou os olhos do tablet e os levou em direção ao
rapaz. Manteve o olhar por alguns segundos antes de trocar sua atenção de forma repentina para a equipe técnica, como se desistisse de dizer um discurso que montara na própria cabeça.
– Essa luz da manhã vai entrar direto por essa janela – ela
apontou. – será que não é melhor fecharmos para controlar melhor a iluminação?
O homem a quem ela se dirigia parou o que estava fazendo
e coçou o queixo.
– Hum. Na verdade quanto mais luz, melhor – ele
respondeu, segurando o refletor que ajustava acima de um tripé de ferro. – Acredito que a luz da janela não vá ser forte o suficiente para atrapalhar.
– Ah, claro – ela respondeu, desajeitada. – Eu sabia.
Apenas para ter certeza. – Catarina voltou a usar o tablet em suas mãos, mexendo os dedos tão rápido que era possível que estivesse apenas arrastando os ícones de um lado para o outro.
Ian se aproximou da mulher o suficiente para que ela não pudesse mais ignorá-lo.
– Você pode me ajudar? – ela pôde sentir até o calor do
hálito recém-escovado do rapaz.
– Nós precisamos esperar a Emília chegar – ela disse,
olhando para o chão.
O rapaz havia enviado uma mensagem à colega assim que
Catarina o pedira. A sobrecarga de informações em sua cabeça fez com que ele não percebesse nenhum problema à vista.
Um vulto no lado de fora da porta chamou a atenção de Ian
e Catarina ao mesmo tempo. Só puderam ver através da porta o vulto do braço de Emília, que dera meia-volta assim que percebeu a presença de toda a equipe ali. Sem pensar muito, o rapaz e Catarina foram atrás da garota. A produtora fez um sinal para que as câmeras a seguissem.
– Emília! — Ian gritou. Ela já estava quase em frente ao
portão. – Espera um pouco. A Catarina precisa falar com a gente, e preciso que seja agora... Eu estou tão cansado, preciso resolver isso agora.
Ele e a produtora chegaram próximos de Emília. As duas
trocaram um olhar de cumplicidade, ainda meio inseguro. A garota, assustada com a possibilidade de ter de contar a Ian, em frente às câmeras, que ele não estava mais no programa, e Catarina ainda em dúvida sobre colocar os dois naquela situação. Entre o telefonema de Ian e aquele momento, ela tentou se convencer de que estava fazendo aquilo pela emissora. Não era culpa dela.
Emília pousou o olhar em Ian por um momento e ficou
assustada. Ela mesma havia dormido pouco aquela noite, mas ele... parecia devastado. As sobrancelhas e os olhos estavam caídos como se dependessem de uma força excessiva para permanecerem abertos. Os cabelos, ainda meio molhados, pousavam desajeitados sobre a testa. A única coisa agradável a respeito dele naquele momento era o aroma suave de quem acabara de sair do banho.
Catarina se afastou com passos lentos para trás, girando a
cabeça de vez em quando para ver se não tropeçaria nos arbustos e nas folhagens do jardim. Respirou fundo, secou o suor das mãos na calça, segurando o tablet com uma mão de cada vez, e fez um sinal de positivo com a cabeça para Emília.
– O que está acontecendo? – Ian perguntou, franzindo o
cenho.
– Eu... eu não vou... – a garota encarava Catarina o tempo
todo. – Eu não posso.
A produtora olhou ao redor, conferindo se as câ meras
estavam bem posicionadas para capturar aquele momento, e fez um movimento mais vigoroso, até ameaçador, com a cabeça para Emília obrigando-a a continuar. A garota tentou olhar pelas grades do portão para o carro de Gael, que a esperava, mas o muro lateral o cobria. Provavelmente os carros da emissora estavam escondidos do outro lado da rua. Ela sabia que eu não entraria se os visse, Emília pensou.
Ela decidiu encarar Ian. Seu rosto estava inchado.
Provavelmente estava dormindo até agora, depois de me deixar sozinha na formatura sem ao menos avisar. no fundo sentia pena do que havia feito, mas, depois de tanto conversar com Gael, sua decisão tinha de estar certa. Ian poderia ter feito o mesmo com ela. Ele estava usando-a. Ela tinha certeza.
– Esse bebê – ela disse pausadamente, analisando a
expressão de Ian a cada sílaba, temendo que ele revelasse toda a verdade. – Você precisa saber de uma coisa. Tem esse garoto que eu amo, o Gael. Antes. Muito antes de você – Emília lançava uma olhadela a Catarina vez ou outra, para garantir a si mesma que estava sendo convincente para a produtora. – E... bem, você não é o pai do meu filho. O Gael vai substituir você no programa a partir de agora.
Ian sentiu todos os seus músculos se enrijecerem, como
se uma pena macia deslizasse pelo seu corpo do calcanhar até a nuca. Nem se quisesse conseguiria mexer qualquer parte do corpo, pois seu cérebro roubara toda a energia tentando assimilar aquelas palavras. E tudo ficou em silêncio, como se até os carros na rua soubessem a gravidade do que havia acontecido ali e compartilhassem da sua angústia. E os pássaros preferissem piar do outro lado da cidade, onde seus cantos fossem mais bem aproveitados.
A imagem da irmã acidentada se montou na sua cabeça,
fazendo seu sangue ferver de imediato. Não estava com raiva de ninguém, mas sentia raiva de tudo. Todo o resquício de tranquilidade que teve por algumas horas, quando se deu conta de que aquele dinheiro poderia salvá-la, se foi. Ele não sabia mais o que aconteceria com ela.
Ele não tinha mais o dinheiro. Leo não tinha o dinheiro.
Estela estava com tanta raiva que poderia processá-lo e tirar até as moedas de seu cofre. Como uma estátua ganhando vida, ele levantou o braço e passou a mão pelo cabelo úmido, com os olhos fechados com força e o rosto encolhido numa careta desconfortável.
– Saiam daqui – ele grunhiu, entredentes. Os cinegrafistas
encararam Catarina, esperando que ela desse algum sinal, mas ela permaneceu vidrada na expressão desesperada de Ian. Então eles continuaram filmando. – SAIM! TODO MUNDO! TODO MUNDO! – Ian gritou a plenos pulmões, com os punhos fechados.
Emília deu um passo para trás segurando no ferro com a
tinta descascada do portão. A respiração do cole ga estava ofegante, e ninguém sabia o que fazer direito. Ele foi até o cinegrafista mais próximo, puxando a câmera com uma das mãos em direção ao portão, obrigando-o a segui-lo. Emília abriu o trinco e foi para o lado de fora, acompanhada do cinegrafista, que quase tropeçou enquanto era guiado com força por Ian.
– Nós precisamos tirar os equipamentos que foram
montados dentro da sua casa – Catarina disse, observando o outro cinegrafista seguindo o rumo do primeiro, desta vez sem a “ajuda” de Ian.
O rapaz encarou a produtora, segurando o portão. – Fora – ele disse, quase sem mexer a boca. Ela tentava iniciar uma frase, mas Ian repetia
incessantemente a palavra “fora”, como se já fosse automático. Emília observava a reação do colega com a boca aberta. Gael estava certo, ela pensou, uma pessoa que não fizesse qualquer coisa por dinheiro não iria surtar daquela forma. Acabar com isso antes que algo pudesse dar errado foi a melhor opção.
Ela estava ciente de que ele iria contar para Catari na,
provavelmente já estava até planejando fazê-lo. Gael mesmo havia dito que ele faria isso. E, mais do que nunca, ela e o namorado iriam dar um jeito de continuar com sua gravidez fictícia e permanecer no programa. Emília saiu pisando fundo em direção ao carro do namorado, longe dali.
– Vocês entrem lá e peguem os equipamentos – Catarina
ordenou com voz firme para os cinegrafistas, o técnico de áudio e os outros dois assistentes.
Ian os observou entrando e sabia que não poderia impedi-
los, uma vez que estava em menor número. Sentiu-se impotente e perdido, querendo que tudo aquilo acabasse com ele acordando com dor de cabeça da formatura da irmã. Mas o aperto que sentia na garganta era real demais para aquilo ser um pesadelo.
– Não vou mais receber o dinheiro, não é? – Ian
perguntou, com os olhos tão úmidos quanto os cabelos. Ele se sentou na pequena calçada de um metro de largura que circundava a casa e segurou a cabeça para a frente com as duas mãos.
– Olha, os participantes recebem aquela quantia que você
viu no contrato – Catarina disse, numa voz calma, aproximando-se de Ian, sem se sentar. – Mas o contrato é bem claro quanto a quem recebe o dinheiro: os pais da criança. Se você não for o pai, eu não posso pagar a você. – Ela começou a falar num tom mais baixo: – Eu até consultei os advogados do programa, não tem o que fazer. E eu também não posso tirar o dinheiro do Gael e dá-lo a você, senão vou perder ele e a Emília.
Enquanto ela falava, Ian sentia como se seu corpo fosse
feito de areia e estivesse derretendo aos poucos sob uma chuva fina. Era a primeira vez que aquilo tudo parecia real. Tanto o acidente como o reality.
– Eu vou aparecer no programa e não vou receber nada? –
ele perguntou, também deixando seu tom de voz mais calmo.
Um dos assistentes desviou a atenção dos dois ao bater
com a ponta de um tripé no portão, sem querer, enquanto saía, fazendo o maior barulho. Ela se voltou novamente para Ian e explicou:
– Você vai receber um cachê simbólico pelos dias que
gravamos, talvez isso pagasse uma diária do hospital. Mas nada mais do que isso. Não posso simplesmente pagar a operação da sua irmã – Catarina umedeceu os lábios, secos de tensão. – não sou a vilã aqui, acredite. Eu sigo ordens dos empresários que comandam uma empresa que precisa dar lucro. Não posso passar por cima disso. E eu não posso pagar pela cirurgia da sua irmã do meu bolso. Faço de tudo para não me apegar aos participantes por causa disso. Todo mundo tem problemas, às vezes menores e às vezes maiores que os meus. Mas eu não posso tomar as dores de todos, então não tomo as de ninguém.
Ian concordou com a cabeça. Parecia que não havia mais
opções restantes. Ele estava com medo e talvez realmente ainda não estivesse preparado para tomar suas próprias decisões. Ele se levantou e o olhar desolado encontrou a roseira que a mãe havia plantado e que agora circundava o arco de entrada do jardim. Se nem a morte põe fim a tudo o que você deixa na terra, por que a esperança não pode se manter intensa como a certeza de que, a cada três segundos, vamos respirar novamente?
Quando viu Ian chegando, caminhando desde a parada de ônibus, como sempre fazia todas as semanas, o porteiro se ajeitou na cadeira desconfortavelmente e fez uma careta de quem previa problemas.
— Tenho ordens pra não deixar você entrar, Ian — ele
avisou o rapaz.
— Você pode avisar Estela que eu estou aqui? — os olhos
quase se obrigando a fechar de cansaço.
– Desculpe, mas fui instruído a não fazer isso. Ian imaginou que seria difícil convencer a única pessoa
que poderia salvar sua irmã a fazê-lo, depois dos problemas recentes que ele e Estela haviam enfrentado. Mas a ordem que ela havia dado ao porteiro já era indício de que as possibilidades beiravam o impossível.
Ian agarrou a grade com as duas mãos e encostou a testa
no ferro gelado. Não tinha mais vontade de chorar – talvez não tivesse nem lágrimas sobrando – nem sequer sentia um aperto na garganta. Isso não significava que ele tivesse se dado por vencido, mas a falha já não era mais novidade.
O rapaz levantou os olhos e viu a silhueta de Caio de
longe, ainda mancando, andando com uma bota ortopédica e o braço direito coberto de gesso.
– Caio! – Ian berrou. O porteiro o encarou, balançando a
cabeça em negativa. – Vem aqui!
Ele balançou a mão no alto, esperando que o menino o
visse. Era quase meio-dia, e Caio brincava na rua de rebater uma bolinha de tênis contra a parede de casa, segurando a raquete com o braço bom.
Mesmo de longe e com uma grade entre os dois, Caio
reconheceu o amigo e abriu um sorriso enquanto seguia em sua direção com certa dificuldade. O porteiro viu o que estava acontecendo, digitou algo no interfone e o colocou na orelha. Ian tentou, sem sucesso, entender o que ele falava pelo movimento dos seus lábios, já que não era possível ouvir nada da conversa com o vidro da guarita fechado.
– Você tá bem? – Ian perguntou. Fez uma careta quando
percebeu o arranhão, que sangrara no dia da queda, mas que agora era uma ferida que atravessava o braço esquerdo todo. No direito também tinha um machucado, mas estava escondido pelo gesso.
Caio também analisou as próprias feridas, abrindo um
sorriso arteiro, como se achasse aquilo o máximo. Ian preferiu não acabar com a empolgação do garoto, avisando que não restaria nem uma cicatriz no futuro.
– Eu tô bem... acho que melhor do que antes de ter caído
daquela árvore.
Ian abriu um sorriso afetuoso sem mostrar os dentes. – Caio, a sua mãe está em casa? – Ian perguntou. – É
muito importante, preciso falar com ela.
– Ela está, sim. A cada dez segundos ela me espia da janela
– Caio apontou para a janela do segundo andar, que era a do escritório. – Ela não queria que eu viesse pra rua, acho que por medo de eu fugir – Caio soltou uma risada tímida.
– Você pode chamar ela pra mim?
Antes que Caio pudesse responder, Ian avistou Estela de
longe, marchando em direção à portaria, com o roupão voando, exibindo partes da calça de moletom e a regata justa no corpo. Tinha uma estampa com uma marca que ele não conhecia, mas que devia custar mais que suas melhores roupas de sair.
– O que você está fazendo aqui? – Estela perguntou com
desprezo, ainda a metros de distância, como se estivesse conversando com o portão que separava os dois.
– Eu preciso falar com você, porque...
– Não se preocupe – ela o interrompeu e cruzou os braços
–, você vai receber o depósito dos últimos dias que trabalhou para mim.
– Mãe – Caio tentou intervir –, ele não fez nada. Você não
precisa...
– A última coisa que eu quero – Estela disse para o filho;
sua boca tremia – é manter por perto o que pode te machucar. Levei doze anos para me sentir a pessoa que te traria segurança, e não a que faria mal a você. E sei por que você quis se esconder. O policial me falou sobre uma conversa que Ian disse que vocês tiveram. Ele achava que aquela conversa poderia ter sido o motivo, e eu entendo você, agora eu entendo tudo.
Caio se encolheu, com vergonha..
– Tive muitos problemas depois que você nasceu – ela
acariciou o ombro saudável de Caio –, tive medo de mim. Só piorei as coisas não estando próxima de você todos esses anos, mas tudo está mais claro agora – ela parou de falar, como se percebesse que Ian ainda estava ali.
A cada palavra de Estela, Ian se perguntava se sua decisão
de ética duvidosa em participar do programa havia sido tão errada que agora estava sendo punido por isso.
– Preciso da sua ajuda – Ian jogou a frase rapidamente,
envergonhado e com a voz falhando.
– Pra quê? – Estela parecia curiosa e indignada ao mesmo
tempo, mas não o deixou responder. – Você não tem vergonha de vir pedir qualquer ajuda depois de ter quase causado uma tragédia? – ela apontou para o braço imobilizado de Caio. – Ele vai usar isso por um mês! Eu chamei você pra ensinar meu filho a jogar tênis e descobri que você ficava jogando videogame. Não quero você aqui. Nem acredito que estou aqui perdendo meu tempo.
– Não foi culpa dele... – Caio tentou protestar, mas foi
interrompido por Estela.
– Vai pra dentro, Caio – o garoto obedeceu sem relutar.
Andou a passos lentos na direção de casa. Parte pelo tornozelo, parte para tentar ouvir a conversa.
– Iris sofreu um acidente – Ian disse, com a voz mais
baixa. – A gente não tem seguro e o carro dela foi destruído. A princípio ela vai ficar internada por trinta dias, o que, junto com todos os procedimentos... é um custo muito alto, que eu não posso pagar. Você é a única pessoa que conheço que pode ajudar.
– Por que você está me contando isso? – ela soltou a frase
numa bufada. – Mal conheço você e, do pouco que conheço, já sei que foi uma ideia péssima tê-lo colocado dentro da minha casa. Estou tentando livrar a minha cabeça de problemas agora – Estela relaxou os braços e colocou as mãos no bolso do roupão.
– Eu não queria pedir isso pra você porque sei que está
brava comigo e entendo o porquê – ele disse, aproximando-se um pouco mais da grade. – Você a conhecia, você gostava dela, não gostava?
Ela balançou a cabeça com a boca aberta, como se não
acreditasse no que Ian acabara de dizer.
– Não preciso passar por isso – Estela disse,
pronunciando cada palavra lentamente, enquanto os olhos se enchiam de água.
Ian esperou que ela dissesse mais alguma coisa. Sentia que
a conversa havia acabado, mas não toma ria nenhuma atitude até que ela dissesse claramente um “não”. Naquele momento, sua esperança deveria se manter vigorosa como a certeza de respirar, afinal.
Estela juntou os braços como se abraçasse a si mesma,
virou as costas e foi em direção à sua casa.
O porteiro não pôde evitar ouvir toda a conversa e
perguntou a Ian por mais detalhes, solidarizando-se – querendo saber onde a irmã dele estava internada e de quanto ele precisava. Claramente ele não poderia ajudá-lo, mas seu apoio naquela hora foi positivo para o garoto.
Antes de sair, Ian colocou as mãos nos bolsos e sentiu a
flor que havia pegado da roseira que a mãe havia plantado. A ideia era deixá-la com Iris no hospital, mas agora ela estava amassada demais, e algumas pétalas haviam se soltado.