Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 17 de 23

Páginas do PDF

Azeitona

Capitulo 17

17.

 

Quando Ian chegou à casa de Caio, a polícia ainda estava lá. Não era uma ótima notícia, porque significava que ele ainda não fora encontrado, mas, dado o tempo passado desde que ele desaparecera, o caso ainda não ter uma solução era uma esperança de não ter acontecido o pior.

Ian viu o mesmo policial com quem havia conversado no

dia anterior descendo da viatura. Não sabia se ele havia acabado de chegar ou se estava descansando dentro do veículo depois de horas de trabalho.

– Alguma novidade? – Ian perguntou. O policial estava

com os olhos fundos.

– A vizinha da frente viu as luzes acesas por volta das

4h30 da manhã – Rodriguez respondeu, sem dar indícios de que aquela informação valeria alguma coisa.

– Vocês chegaram a alguma conclusão com base nisso?

Descobriram alguma coisa?

– O que sabemos é que ele não costuma acordar nesse

horário. As luzes poderiam estar acesas porque alguém o acordou.

No dia anterior, Rodriguez havia pedido os dados de Ian e

horas depois ligou para pedir mais informações.

– Ian – o policial disse na ligação –, tudo o que você me

disser vai ser confidencial. Preciso saber como era o tratamento que Caio recebia em casa.

– Vocês acham que os pais dele possam ter feito alguma

coisa?

– Apenas estamos seguindo um protocolo. – Ele nunca reclamou de que a família o tratasse mal, mas

disse algumas vezes que a mãe e Rudi não eram muito presentes.

– Você acha que eles teriam algum motivo para fazer algo

contra o Caio?

– Não, eu acredito que não – Ian se lembrou da conversa

que teve com Estela, quando ela disse que preferia não ter tido o filho, e, sem pensar direito, contou para o policial.

Ian estava começando a ficar nervoso. Nunca tinha se

imaginado testemunhando à polícia para ajudar a solucionar um possível crime.

– O garoto teve alguma mudança de comportamento

recente? – Rodriguez perguntou.

Ian parou para pensar. Caio nunca fora um garoto

radiante, ao menos não desde o início do ano, quando o conhecera, mas nas últimas semanas sua falta de interesse parecia vir se agravando. O rapaz explicou ao policial.

Enquanto falava, sentia que realmente parecia que Caio

avisara a ele que algo iria acontecer, mas ele não percebera.

O policial fez mais meia dúzia de perguntas antes de

desligar, deixando Ian preocupado com o fato de ele mesmo ser um dos suspeitos.

Estela e Rudi saíram discutindo da porta de casa. Ian e

Rodriguez, que conversavam logo em frente, se viraram. O policial, como se estivesse apenas esperando uma resposta, perguntou aos pais de Caio:

– E então, como fica a divulgação do desaparecimento do

garoto?

– Não vamos fazer – Rudi disse. – nós não podemos fazer

isso. Estamos a poucas semanas de lançar uma marca nacional da nossa empresa no mercado, não podemos nos envolver em escândalos agora. Podemos divulgar em última instância, mas é impossível que vocês não consigam encontrar nada. Vamos esperar mais um pouco.

Estela olhava para o marido com a boca tremendo e sem

nenhuma maquiagem enquanto ele falava. Seus lábios pareciam estar menores e mais brancos do que o normal.

– Como eu disse – o policial falou, de forma didática –, as

primeiras setenta e duas horas são crucias para o sucesso da operação de busca de desaparecidos. Todos os aeroportos, rodoviárias e guarnições já foram informados, mas, com o recurso de mídia que vocês têm, pode ser muito mais rápido encontrá-lo.

– Me desculpe. Não posso comprometer o meu trabalho

para facilitar o seu – Rudi bradou. Sem esperar a resposta, voltou para dentro de casa, como se o maior interessado no sucesso da operação fosse o policial.

Ian e Rodriguez se olharam. Estela espremeu os olhos e

respirou fundo. Levantou a cabeça e se aproximou de Ian.

– Vocês passam um tempo juntos toda semana. Você não

sabe onde ele poderia estar?

– Eu já contei a eles onde pensei que ele estivesse – Ian

ficou com medo de contar a ela sobre as aulas de tênis que praticamente não aconteciam, mas precisava ser sincero naquele momento em que ela estava desesperada. – Às vezes, Caio e eu não jogávamos tênis. Muitas vezes ele preferia ficar numa sala que nunca era usada no mezanino da academia para jogar videogame. Eles já o procuraram por lá, mas não encontraram nada.

– O quê? – Estela pareceu indignada. Limpou as lágrimas

e encarou Ian, esperando por um esclarecimento.

– Eu... eu fazia o que ele tinha vontade – Ian disse, com

cautela. – Tentava fazer com que ele se divertisse como queria.

– Eu estava pagando você pra ensinar tênis ao meu filho e

você ocupava o tempo dele com videogame?

– Essa é provavelmente a terceira vez que vejo a senhora

na vida – Ian diminuiu o número de vezes para soar um pouco mais apelativo. – As pessoas prestam atenção nas coisas com que elas se importam.

Estela cruzou os braços.

– Você está me acusando agora? Agora, que o meu filho

está desaparecido?

Ian a encarou por alguns segundos sem responder. Rodriguez quebrou o silêncio.

– Então, a equipe continua fazendo uma vistoria pelos arredores e dentro do condomínio. Uma possibilidade é que esteja perdido na área florestal que cerca o muro lá atrás pelo lado de fora.

Estela soltou um suspiro. As mortes decorrentes de

sequestros aconteciam em geral quatro horas após o desaparecimento. Se fosse um sequestro com pedido de resgate, já teriam entrado em contato. A cada hora que passava, as chances de encontrar o garoto com vida diminuíam.

– Ian – Estela disse, mantendo a voz calma mas com os

dentes pressionados –, quero que você me leve até a sala em que vocês ficavam quando não jogavam tênis.

Ele concordou.

– Eu acompanho vocês – disse o policial.

 

Ian subiu a escada de ferro da academia na frente, seguido por Estela e pelo policial. Entrou na primeira porta, onde costumavam ficar.

– Está um pouco sujo, aqui – Estela disse, andando pelo

local, examinando o chão e os pacotes de doces e salgadinhos que estavam em cima da estante da TV.

– Eu não acho que eles limpam essas salas com muita

frequência – Ian respondeu. – nas últimas vezes em que estive com Caio, ele ficou ali no canto, sentado no pufe, enquanto... eu jogava videogame. Ele não quis.

Estela balançou a cabeça, incrédula, e soltou uma bufada. Eles começaram a olhar ao redor, mas a verdade era que

não tinha nada para olhar. A sala tinha apenas vinte metros quadrados e pouca mobília.

– Na outra sala nós fomos apenas uma vez para saber o

que tinha lá – Ian disse –, mas era só tralha: uns equipamentos da academia velhos e até uns restos de madeiras e material de construção.

– Vocês fizeram uma vistoria na outra sala? – Estela

perguntou ao policial.

– Sim.

Ela soltou a respiração junto com o pouco de esperança

que tinha. Eles saíram do local e foram até a segunda porta.

O policial foi o primeiro a entrar na sala e pediu a Ian e

Estela que o esperassem. A única fonte de iluminação do local eram alguns feixes de luz que vinham de uma entrada de ar na parede. Pela falta de janela, provavelmente o local fora projetado para ser um banheiro. Rodriguez estranhou a força que precisou fazer para abrir a porta – dois sacos de cimento não permitiram que ela fosse aberta com facilidade, assim como da primeira vez que haviam investigado o local. Alguém os havia colocado novamente pela parte de dentro.

Ian e Estela entraram. O local era apertado para os três.

Estela seguiu o olhar fixo de Rodriguez, que ia até a saída de ar, e Ian fez o mesmo.

– Você acha que ele pode ter saído por ali? – o rapaz

perguntou.

– É possível, ele caberia por essa passagem de ar. Mas as

fendas de alumínio ou aquela parte lateral não parecem violadas. Essa passagem de ar não possui ao menos um trinco.

Estela pensou consigo por algum tempo. Tapou a boca

com as mãos e encostou a testa na parede empoeirada. O choro veio junto com uma respiração completamente descompassada.

– Tá tudo bem, Estela? – Ian perguntou. – Nós estamos no segundo andar da academia. No outro

lado tem uma calçada de concreto que separa esse prédio do muro. Ele não alcançaria o muro... – ela disse, sem conseguir terminar a frase, com mais uma onda de choro invadindo sua voz.

– Estela – o policial falou alto, quase como uma ordem

para que ela se recompusesse –, nós já verificamos essa parte ontem. Provavelmente ela foi verificada hoje também. As chances de ele ter saído por aqui e caído são nulas.

– Posso? – Ian apontou para a saída de ar, pedindo

permissão para subir a escada suja de tinta que estava próxima à saída.

– Tudo bem – o policial concordou.

Ian puxou a grade de alumínio com força. O objeto de

metal saiu inteiro em sua mão com facilidade. Ele acabou se desequilibrando da escada com a força que fizera para retirar do lugar algo tão leve.

Subiu até o fim da escada e colocou parte do corpo para

fora da abertura. Ela era larga e alta o suficiente para que ele pudesse se sentar nela. Galhos de uma figueira enorme, do lado de fora do terreno, tinham crescido em direção à parede, quase invadindo o basculante.

Ian colocou o pé sobre o galho, que afundou alguns

centímetros antes mesmo que ele depositasse todo o seu peso. Sentiu um frio na barriga com a pisada em falso.

O muro com arame elétrico era alto o suficiente para

impossibilitar que alguém enxergasse a raiz da árvore dali de onde ele estava. Entretanto, seu tronco era tão grande que o ultrapassava e seus galhos cresciam para todos os lados. Aquela passagem de concreto, entre o muro e a parede da academia, inclusive, precisava ser varrida com frequência para que não acumulasse folhas.

Ian virou pra trás e viu o policial e Estela olhando para ele. – Não tem... nada ali embaixo – falou para Estela, sem

conseguir encontrar uma forma mais delicada de avisar que o filho dela não tinha se jogado pela janela.

Uma movimentação na árvore chamou a atenção de Ian. – Tem alguém aí? – gritou. Ele pensou ter visto os

cabelos encaracolados de Caio entre as folhagens densas da árvore. – Caio! É você?

– Ele tá aí? – Estela perguntou, aos prantos. – Meu Deus!

É o Caio?

Ian estava concentrado tentando identificar o que vira.

Poderia ser apenas um animal ou até mesmo o vento mexendo os galhos afinal.

– Ian? – uma voz fina veio do meio das folhas. O rapaz reconheceu a voz e abriu a boca em choque. Estela

não pôde ouvir. Mas Ian sabia que era Caio.

– O que você tá fazendo aí, cara? – Ian perguntou, com o

coração a mil por hora. – A sua mãe está do meu lado, tá toda descabelada por causa de você. Eu nunca tinha visto ela descabelada.

Estela se ajoelhou no chão e se curvou, e seu cabelo se

arrastou no chão sujo. Chorou por um tempo naquela posição e com a boca aberta, formando uma poça de baba.

Caio abriu um sorriso tímido, se segurando nos galhos

com seus braços finos, parecendo Mogli – mas sem a destreza de um garoto criado na selva. A posição em que ficara para falar com Ian era desconfortável, e ele tremia, talvez porque os salgadinhos que trouxera já tivessem acabado e seu corpo já não tivesse mais força o suficiente.

O policial avisou no rádio que o garoto havia sido

encontrado. Chamou o reforço dos bombeiros para retirar Caio de cima da árvore com segurança.

– Você ficou em cima dessa árvore por vinte e quatro

horas? – Ian perguntou, incrédulo.

O garoto trocou de galho, desvencilhando-se da parte

mais densa de folhas, ficando suspenso acima do muro, e olhou para o rapaz, revirando os olhos.

– Você acha que sou um bicho-preguiça? – perguntou. –

Eu ia para a sala de TV para pegar as comidas que a gente deixava na gaveta e dormi nessa salinha em que você está. Quando ouvia alguém chegando, corria por esse tronco aí – Caio apontou – e me escondia aqui. Fiz xixi daqui de cima também.

– E por que você faria isso, cara? Isso é loucura! – Eu não sei... – ele respondeu, tímido. Na verdade, sabia.

Se sua vergonha permitisse, teria mandado aquele recado de forma mais direta.

Rodriguez ainda falava no rádio. Os bombeiros estavam a

vinte minutos dali. Ele avisou a um dos policias que ficasse na porta para guiá-los até a academia. Eles não possuíam uma escada tão alta para retirar o garoto de lá, e, com a cerca elétrica por todo o muro, era melhor garantir que ele fosse resgatado com segurança.

– Eles definitivamente podem ver você agora – Ian disse

em voz baixa, como se falasse para si mesmo. Entretanto, Estela e Caio puderam ouvir.

Estela levantou os olhos para Ian, que estava de costas

para ela. A mãe do garoto preferiu não dizer nada, assim como Caio. Mas havia entendido o que aquilo significava.

Caio se aprontou para voltar, verificando os galhos em

que apoiaria seus pés da mesma forma que fizera das últimas vezes. Então os colocou firmes sobre o galho que ia até a janela e segurou acima da cabeça em outro galho, mais maleável, que lhe daria estabilidade.

– Não! – Ian o alertou. – Espera, os bombeiros estão

chegando para tirar você daí.

– Eu fui e voltei umas dez vezes – o garoto respondeu,

concentrado. Mesmo acostumado, a altura ainda lhe dava um frio na barriga.

Seu pé direito pisou em falso na madeira com limo

porque o esquerdo estava mal posicionado. O garoto se desequilibrou e Ian levou um susto. Com as mãos agarradas ao galho acima da cabeça, ele caiu com as pernas abertas sobre o galho em que caminhava.

Ian achou graça da careta do garoto.

– Toma cuidado, cara! – Ele ainda não tinha decidido se

ficava preocupado ou se ria. – Vai devagar.

– Diz pra ele ficar parado onde está! – o policial

protestou.

Caio se curvou para a frente de dor, sentindo um

desconforto que subia de sua virilha e se espalhava por toda a barriga. O galho envergou alguns centímetros, e seu pé direito encostou na cerca. Seus músculos se retesaram com a descarga de energia e ele não conseguiu controlar o próprio corpo, sendo obrigado a soltar o galho acima da cabeça e, num impulso de se afastar da cerca, jogou o corpo para trás, escorrendo pelo tronco da árvore.

Estela ouviu, sem saber o que estava acontecendo, o grito

do filho. Berrou junto o nome de Caio, causando um eco ensurdecedor dentro da sala apertada. Parecia que ela conseguia enxergar o filho caindo através da parede de concreto.

– Ele caiu – Ian disse numa voz rouca, sem conseguir se

mover.

– Onde ele caiu? – o policial perguntou. – Caiu para o lado de fora – ele respondeu, encarando a

árvore ainda balançando com a queda, mas já não conseguia ver Caio –, no mato.

O policial saiu correndo da sala, avisando no rádio para

que os bombeiros fossem pela mata externa do condomínio.

Ian gritou por Caio diversas vezes. Mas o garoto não

respondia. Ele desceu os degraus da escada que o levou até a entrada de ar. Quando colocou os pés no chão, virou-se para Estela. A mulher, escorada na parede e com os joelhos e braços todos sujos de poeira, parecia encarar apenas a escada através de Ian, como se o rapaz não estivesse ali. Ela mordia a parte de dentro das bochechas porque as sentia dormentes.

Estela ajeitou o cabelo atrás da orelha e saiu da sala com os

olhos vidrados. As lágrimas não paravam de escorrer, mas já não se ouvia nenhum som de choro. Ela andava trêmula, indecisa se estava com pressa ou com medo do que teria de enfrentar do outro lado daquele muro.

– Não foi culpa minha – Ian respondeu, indo atrás da

mulher.

Por um momento, ela pareceu não ouvir, mas então

respondeu:

– Isso não é mais a respeito de você – Estela disse, enquanto descia as escadas, balançando a cabeça a cada passo. – Você pode ir agora e nunca mais voltar. Sua irmã também. Nunca mais quero ver a sua irmã. Ela e você. – Finalizou, parecendo falar para si mesma.

Ela não parecia nada bem.

Estela deixou a cabeça pender, como se fosse muito pesada

para sustentá-la.

– Você tinha prometido nunca mais fazer nada de mal para

o Caio – ela disse, como se estivesse conversando com alguém dentro de sua própria cabeça –, você tinha prometido.

– Eu não fiz nada de mal – Ian a interrompeu, e ela

rapidamente fez o mesmo, lançando um chiado para o rapaz, como ele atrapalhasse uma conversa.

Ian ficou paralisado e deixou Estela se afastar. Fez de tudo para não pensar que a irmã havia perdido a

maior oportunidade da carreira por causa dele – Caio poderia estar muito mal agora, e ele não queria parecer mesquinho. Mas, se Estela quisesse, ela também poderia fazer com que ninguém mais na cidade se interessasse pelos trabalhos de iris.

Ao menos minha participação no reality vai nos dar uma

segurança financeira, Ian pensou. Sem nada a perder, correu para ver se estava tudo bem com Caio, con tra a vontade de Estela.